Reproducção fiel da edição original de 1870
PRIMEIRO VOLUME
ESPUMAS FLUCTUANTES
EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica.
com uma inlroducção bibliographica e annotações de
AFRANIO PEIXOTO
ESPUMAS FLUCTUANTES
reproducção fiel da edição original de 1870
HYMNOS DO EQUADOR
publicações posthumas e poesias inéditas
OS ESCRAVOS
texto integral, parte inédita, com
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS
drama em 4 actos, segundo a edição original
VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA
conforme autographos e manuscriptos authenticos
ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870
A' MEMÓRIA
DE
MEU PAE,
DE
MINHA MÃE
E DE
MEU IRMÃO
O. D. C
Poesias Lyricas
HEBRÉA
Fios caimpi et liliuni convalium.Cant. doa Cânticos.
Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos!
Lirio do valle oriental, brilhante!
Estrella vesper do pastor errante!
Ramo de muita a rescender cheirosa!...
Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, seductora Hebréa...
Pallida rosa da infeliz Judéa
Sem ter o orvalho, que do ceu deriva!
Porque descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?
Sonhas acaso, quando o sol declina,
Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do oriente immenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira á sombra?!...
Sim, fora bello na relvosa alfombra,
Juncto da fonte, onde Rachel gemera,
Viver comtigo qual Jacob vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho...
Depois nas águas de cheiroso banho
Depois nas águas de cheiroso banho
— Como Suzanna a estremecer de frio —
Fitár-te, ó flor do Babylonio rio,
Fítàr-te a medo no salgueiro occulto...
Vem pois!... Comtigo no deserto inculto
Fugindo ás iras de Saul embora,
Se Michol fosses, teu David eu fora,
Vibrando na harpa do propheta o canto...
Não vês?... Do seio me gotteja o pranto
Qual da torrente do Cedron deserto!...
Como luctara o patriarcha incerto
Luctei, meu anjo, mas cahi vencido.
Eu sou o Lothus para o chão pendido,
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrella vesper do pastor errante!...
Bahia, 1866.
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Espumas Fluctuantes, Edição original: III.
Pbl. na "Imprensa Acadêmica" de S. Paulo, n°. 2,
de 28 de Maio de 1868, onde vem com o sub-titulo: "a
uma Judia"; sem a epigraphe; apenas com uma variante na 7." estância, 3.0 verso que adoptei em vez do
verso que o substituiu nas Espumas Fluctuantes, edição
original e seguintes:
David eu fora, se Michol tu foras.
O verso é perfeito, e de Castro Alves; já não ficará
nesta poesia a jaca de uma rima imprópria.
A mesma data: "Bahia 1866", repetida na Edição
original.
1) Hebréa (titulo). Foi de facto "a uma bella
judia", Simy Àmzalack, depois sra. Alberto Henschel,
depois ainda sra. Almirante José Carlos de Carvalho,
dedicada esta poesia. O Poeta enviara-a com o dístico
"á mais bella", travandò-se entre a "definitiva" destinataria e a talvez "intencional", sua formosa irmã
Esther, lucta pela posse de um tropheu de tanto valor.
Apesar de m'a haver confirmado D. Simy Carvalho
esta lendária dedicatória, sua irmã mais moça, D. Mary
Mesquita, suppõe que a "Hebréa" foi, como o "Pensamento de Amor", dedicada também á linda irmã de
ambas, D. Esther, que era a predilecta de Castro Alves.
Tobias Barreto ouviu a "Hebréa" cantada em uma
das egrejas do Norte do Brasil, mudada a intenção pelos
crentes, que se dirigiam á Virgem Maria, também hebréa (Estudos allemães, Recife, 1882, pag. 101, nota).
2) A data da "Hebréa": "Bahia 1866", foi levia
namente contestada, dizendo-se que tal não podia ser,
pois nesse anno não estivera Castro Alves na sua terra;
seria antes a data exacta "1871" ( !). Em primeiro
logar um autographo do Poeta, que me communicou D.
Adelaide de Castro Alves Guimarães, traz esta data
"Bahia, 1866". Nesse anno de 1866, na Bahia, falleceu
o Dr. Antônio José Alves, e seu Filho, que o viera visitar, por gravemente enfermo, assistiu-lhe ao trespasse. Como se não bastasse ha um testemunho; conta
Alfredo de Carvalho, referindo palavras de Regueira
Costa, o amigo fiel de Castro Alves no Recife: "o mais
precioso, porem dos autographos do Poeta, que possuo,
diz-me, mostrando-o, é este da lindissima poesia "Hebréa" que elle a principio intitulou "A uma judia" e
onde se observa apenas uma variante, comparando-a
com a que está nas Espumas Fluctuantes: "Guiando
escravo teu gentil rebanho". Esta poesia deu-m'a elle
ao voltar da Bahia em 1866, declarando-me havê-la de
dicado a uma judia de nome Simy Amzalack (?)"
(Castro Alves em Pernambuco, Recife, 1905, p. 27.)
Castro Alves não tornou ao Recife depois de 1867 e
só podia, ahi, ter dado um dos seus originaes a seu
collega Regueira Costa, antes desta data. Outro depoimento: na "Imprensa Acadêmica", citada acima, que
publicou a poesia em 1868, vem a data "1866". Finalmente, na Edição original das Espumas
Fluctuantes,
preparada e publicada por Castro Alves em 1870, essa
mesma data de "1866" se repete. Como pois, senão levianamente, e sem uma só prova, attribui-la a 1871?!
Assim se faz critica histórica e literária no Brasil...
continua página 79...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração / Hebréa /
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________LIVRARIA FRANCISCO ALVES
RIO DE JANEIRO
S. PAULO - BELLO HORIZONTE
1921
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