sábado, 24 de outubro de 2026

Émile Zola - Germinal: Sétima Parte - (II)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sétima Parte

II

     No domingo, assim que anoiteceu, Etienne escapou do conjunto habitacional. Um céu muito puro, cravejado de estrelas, iluminava a terra com uma luz azul de crepúsculo. Desceu em direção ao canal, seguiu lentamente a margem para os lados de Marchiennes. Era o seu passeio favorito, uma vereda de duas léguas coberta de relva, estendendo-se muito reta ao longo daquela água geométrica, que se desenrolava como uma interminável lâmina de prata liquefeita.
     Nunca encontrava ninguém por aquelas paragens. Naquele dia, porém, ficou contrariado vendo um homem dirigir-se para ele. E, à luz pálida das estrelas, os dois caminhantes solitários só se reconheceram quando estavam frente a frente. 

— Ah, és tu! — murmurou Etienne.

     Suvarin acenou com a cabeça, sem responder. Por um momento permaneceram imóveis, depois, um ao lado do outro, recomeçaram o passeio em direção a Marchiennes. Ambos pareciam continuar imersos em seus pensamentos, como que muito distanciados. 

— Viste no jornal o sucesso de Pluchart em Paris? — perguntou finalmente Etienne. — Ao sair da tal reunião de Belleville estava sendo esperado na calçada e recebeu uma ovação. O homem está lançado, apesar da sua rouquidão. De agora em diante ele vai dar as cartas.

     O mecânico deu de ombros. Desprezava os discursadores, os astutos que entram na política como quem entra na advocacia, para ganhar dinheiro com a retórica.
     Etienne, agora, estava entusiasmado por Darwin. Lera fragmentos seus, resumidos e vulgarizados num volume de cinco soldos, e dessa leitura mal compreendida, fazia uma ideia revolucionária da luta pela existência, os magros comendo os gordos, o povo forte devorando a fanada burguesia. Mas Suvarin irritou-se, alongou-se sobre a imbecilidade dos socialistas que aceitam Darwin, esse apóstolo da desigualdade científica, cuja famosa seleção só era boa para filósofos aristocratas. E o outro insistia, queria raciocinar e exprimia suas dúvidas por uma hipótese: a velha sociedade não existia mais, fora varrida até as migalhas; pois bem! não era de temer que o mundo novo crescesse, lentamente estragado pelas mesmas injustiças, uns fracos e outros fortes, uns mais hábeis, mais inteligentes, comendo tudo, e outros idiotizados e preguiçosos, voltando novamente à escravidão? Diante dessa visão de eterna miséria o mecânico exclamou em tom feroz que, se a justiça não era compatível com o homem, este tinha que desaparecer. Enquanto houvesse sociedades podres haveria massacres, até a exterminação do último ser. E o silêncio voltou a reinar.
     Por muito tempo, de cabeça baixa, Suvarin caminhou sobre a erva fina, tão absorto que seguia bem à beira da água, com a tranquila certeza de um homem sonâmbulo, sonhando ao longo de um beirai. Depois, repentinamente, estremeceu, como se tivesse esbarrado com uma sombra. Levantou os olhos e seu rosto era de uma palidez marmórea. Perguntou suavemente ao companheiro: 

— Já te contei como ela morreu? 
— Quem? 
— Minha mulher, lá na Rússia.

     Etienne fez um gesto vago, admirado com o tremor da voz, com aquela repentina necessidade de confidência num homem habitualmente impassível, no seu estoico distanciamento dos outros e de si mesmo. Sabia apenas que a mulher era uma amante e fora enforcada em Moscou. 

— O golpe tinha gorado — começou a contar Suvarin, agora com os olhos perdidos no branco deslizar do canal, entre a colunata azul das grandes árvores. — Tínhamos ficado catorze dias debaixo da terra, colocando minas na estrada de ferro. E, em vez do trem imperial, foi um trem de passageiros que explodiu... Então prenderam Anuchka. Era ela que todas as noites nos trazia pão, disfarçada em camponesa. Foi ela também quem acendeu a mecha, porque um homem poderia ser notado... Segui o julgamento, escondido na multidão, durante seis dias intermináveis...

     Não pôde mais falar, foi sufocado por um ataque de tosse. Em seguida continuou: 

— Por duas vezes tive vontade de gritar, de furar a multidão para juntar-me a ela. Mas de que serviria? Um homem de menos é um soldado de menos; e eu percebia claramente que ela me dizia que não, com seus grandes olhos parados, quando encontrava os meus.

     Tornou a tossir. 

— No último dia, na praça, eu também estava... Chovia, os idiotas não sabiam o que fazer debaixo da chuvarada. Tinham levado vinte minutos para enforcar outros quatro: a corda rompia, não conseguiam acabar com o quarto... Ánuchka estava muito ereta, esperando. Não me via, procurava-me com o olhar na multidão. Subi numa pilastra e ela me enxergou, nossos olhares não se largaram mais. Mesmo depois de morta continuou olhando me. Agitei meu chapéu e parti.

     Houve novo silêncio. A fita branca do canal desenrolava-se até o infinito; ambos caminhavam no mesmo passo abafado, cada um imerso outra vez no seu isolamento. No fundo do horizonte, a água pálida parecia abrir no céu um risco de luz muito fino. 

— Era o nosso castigo — continuou duramente Suvarin. — Éramos culpados do nosso amor... Sim, foi melhor que ela morresse, nascerão heróis do seu sangue, e eu, agora, tenho um coração de pedra... Ah! nem pais, nem mulher, nem amigo, nada que faça tremer a mão no dia em que for necessário tirar a vida de outros ou dar a sua!

     Etienne parará, fremindo sob a noite fresca. Não discutiu, disse simplesmente: 

— Estamos longe, queres voltar?

     Voltaram em direção à Voreux, lentamente; depois de alguns passos, acrescentou: — Viste os novos cartazes?

     Eram os grandes cartazes amarelos que a companhia mandara fixar na manhã daquele dia. Neles, mostrava-se mais clara e conciliadora, prometia aceitar os mineiros despedidos que se apresentassem no dia seguinte ao trabalho. Tudo seria esquecido, perdoariam até os mais comprometidos. 

— Sim vi — respondeu o mecânico. 
— E que achas? 
— Acho que está tudo acabado... O rebanho voltará ao trabalho. Vocês são todos uns covardes.

     Etienne, febrilmente, desculpou os companheiros: um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem força para nada. Passo a passo tinham atingido a Voreux. Diante da massa escura da mina, continuou, jurou que nunca mais voltaria àquele trabalho, mas desculpava os que voltassem. Em seguida, como corria o boato de que os carpinteiros não tinham tido tempo de consertar o estaqueamento, procurou informar-se. Seria verdade? O volume de terra contra o madeiramento que revestia o poço era tão grande que ele estava arqueado e um dos elevadores de extração roçava-o ao passar, numa extensão de mais de cinco metros. Era verdade isso?
     Suvarin, caído novamente no seu mutismo, respondeu secamente. Trabalhara na véspera, e, realmente, o elevador roçava em certo trecho; os mecânicos tinham de duplicar a velocidade para poder passar naquele lugar. Mas todos os chefes acolhiam as observações com a mesma frase irritada: queriam carvão; mais tarde aquilo seria consertado. 

— Imagina se rebenta... — murmurou Etienne. — Estaríamos perdidos.

     Com os olhos na mina, sem forma definida no escuro, Suvarin concluiu tranquilamente: 

— Se aquilo rebentar, os companheiros o saberão, já que tu os aconselhas a voltarem ao trabalho.

     Davam nove horas no campanário de Montsou. Como o outro dissesse que ia dormir, ele acrescentou, sem mesmo estender a mão: 

— Bem, adeus. Eu vou embora. 
— Como, vais embora? 
— É isso mesmo, pedi minha carteira de trabalho de volta, vou para outro lugar.

     Etienne, estupefato, comovido, fitava-o. Era depois de duas horas de passeio que lhe dizia aquilo, e com toda a calma, quando só o anúncio daquela brusca separação confrangia seu coração. Haviam-se conhecido, tinham sofrido juntos; só de pensar que nunca mais o veria, ficava triste. 

— Tu te vais para onde? 
— Por aí, não sei... 
— Mas nós nos veremos de novo? 
— Não, acho que não.

     Calaram-se, ficaram por um momento frente a frente, sem saber o que dizer. 

— Então, adeus. 
— Adeus.

     Enquanto Etienne subia em direção ao conjunto habitacional, Suvarin voltou as costas e dirigiu-se para a margem do canal. Lá, agora sozinho, de cabeça baixa, engolfado nas trevas, como uma sombra movendo-se na noite, caminhou ao léu. Por momentos parava para ver as horas, ao longe. Quando soou meia-noite, abandonou o canal e dirigiu-se para a Voreux.
     Nesse momento a mina estava deserta, apenas encontrou um contramestre com os olhos pesados de sono. As fornalhas só eram acesas às duas horas, para o começo do trabalho. Primeiro subiu para procurar num armário uma jaqueta que fingia ter esquecido. Nessa peça de roupa encontravam-se enroladas diversas ferramentas: uma pua, um serrote pequeno muito forte, um martelo e uma talhadeira. Em seguida, partiu; mas, em vez de sair pelo vestiário, enfiou-se pelo estreito corredor que levava ao fosso das escadas. E, com a jaqueta debaixo do braço, desceu de mansinho, sem lanterna, medindo a profundidade pela contagem das escadas. Sabia que o elevador roçava a trezentos e setenta e quatro metros, de encontro à quinta passagem do revestimento inferior. Tendo contado cinquenta e quatro lances de escada, tateou com a mão e sentiu a saliência das madeiras. Era ali.
     Então, com a destreza e o sangue-frio de um bom operário que meditou longamente sobre a sua tarefa, pôs-se a trabalhar. Começou serrando um painel no tabique do fosso que comunicava com o compartimento de extração. E, com a ajuda de fósforos rapidamente acesos e apagados, pôde estudar o estado dó revestimento e dos reparos que recentemente tinham sido feitos.
     Entre Calais e Valenciennes, a abertura dos poços de minas encontrava dificuldades inauditas, para atravessar os imensos lençóis de água subterrâneos, ao nível dos vales mais baixos. Só a construção do revestimento com pranchas unidas umas às outras, como as aduelas de um tonei, conseguia conter os mananciais e isolar os poços no meio de lagos cujas vagas profundas e obscuras batiam contra as paredes. Ao abrir a Voreux, fora necessário construir dois revestimentos: o do nível superior nas areias soltas e argilas brancas, vizinhas do terreno cretáceo, fendidas de todos os lados, empapadas de água como uma esponja; depois, o do nível inferior, diretamente por cima das jazidas de carvão, numa areia amarela, fina como farinha, correndo com a fluidez de um líquido; e era aí que se encontrava a Torrente, esse mar subterrâneo, o terror das minas do norte, mar com suas tempestades e seus naufrágios, mar ignorado, insondável, com seus vagalhões negros, a mais de trezentos metros da luz do sol. De ordinário os estaqueamentos aguentavam a pressão enorme. Só a depressão dos terrenos vizinhos podia ser perigosa, já que essas terras eram constantemente abaladas pelas antigas galerias de exploração, que, ao se encherem, sorviam-nos. Nessa depressão das rochas, às vezes se produziam fendas que se propagavam lentamente até o estaqueamento, deformando-o com o tempo, empurrando-o para o interior do poço.
     Esse era o grande perigo, uma ameaça de desabamento e inundação, a mina enchendo-se com as terras esboroadas e o dilúvio dos mananciais.
     Suvarin, a cavalo na abertura que fizera, constatou uma deformação muito grave na quinta passagem do estaqueamento. A madeira estava arqueada, fora do enquadramento, muitas tinham mesmo saído do seu lugar. Infiltrações abundantes, "repuxos", como dizem os mineiros, jorravam das juntas, através da estopa alcatroada com que estavam calafetadas. E os carpinteiros, premidos pelo tempo, haviam-se limitado a colocar cunhas de ferro, tão negligentemente que nem todos os parafusos tinham sido postos. Produzia-se, evidentemente por trás, nas areias da Torrente, um movimento considerável.
     Então, com a broca, principiou a desapertar os parafusos, de modo que um empuxão final arrancasse todos. Era um trabalho de temeridade louca, durante o qual várias vezes quase caiu, numa queda de cento e oitenta metros, que era o que o separava do fundo. Tivera de se agarrar às guias de carvalho, os madeiros por onde corriam os elevadores; e, suspenso por cima do vácuo, locomovia-se ao longo das travessas que os ligavam de distância em distância deslizava, sentava-se, deitava-se de costas, simplesmente apoiado num cotovelo ou num joelho, com um tranquilo desprezo pela morte. Um sopro o faria cair; por três vezes quase se despencou sem um arrepio. Primeiro tateava com a mão, depois trabalhava, só acendendo um fósforo quando se perdia no meio daqueles caibros viscosos. Desatarraxados os parafusos, começou a trabalhar nas próprias pranchas, o que mais aumentou o perigo. Tinha procurado a prancha mestra, a que servia de apoio às outras; contra ela se encarniçou, furando-a, serrando-a, afinando-a, para que perdesse resistência, enquanto a água, escapando em finos esguichos pelos buracos e fendas, cegava-o e ensopava o numa chuva gelada. Dois fósforos se apagaram; todos estavam molhados. Agora era a noite, um vácuo profundo de trevas.
     A partir desse momento, parecia ébrio de ódio. Os sopros do invisível arrebatavam-no, o negro horror daquele buraco batido pela água lançou-o num furor de destruição. Começou a golpear ao acaso o estaqueamento, batendo onde podia, com a broca, com o serrote, possuído pelo desejo de pôr tudo abaixo sobre si mesmo. E punha nisso tal ferocidade, que era como se estivesse esfaqueando um ser vivo, que odiasse. Havia de exterminar essa besta malfazeja, essa Voreux que estava com a goela sempre aberta e já devorara tanta carne humana! Ouvia-se o ranger das suas ferramentas, espichava-se, rastejava, descia, subia, mantendo-se por milagre, num vaivém contínuo, num esvoaçar de pássaro noturno por entre o vigamento de um campanário.
     Mas acalmou-se, não contente consigo. Será que não se podiam fazer as coisas friamente? Sem se apressar tomou fôlego, voltou ao fosso das escadas, tornando a colocar o painel que serrara. Já bastava, não queria dar o alarme com um estrago muito grande, que tentariam consertar sem demora. A besta estava ferida na barriga, ver-se-ia se ela poderia viver até a noite. E lá estava a sua marca; o mundo, aterrado, viria a saber que ela não morrera de morte natural. Demorou-se enrolando metodicamente as ferramentas na jaqueta, subiu as escadas lentamente. Depois, tendo saído da mina sem ser visto, nem chegou a pensar em mudar de roupa. Deram três horas. Ficou na estrada, esperando. A mesma hora, Etienne, que não dormia assustou-se com um leve ruído que ouviu na escuridão espessa do quarto. Distinguia a respiração leve das crianças, os roncos de Boa-Morte e da viúva, enquanto, ao seu lado, Jeanlin emitia uma nota prolongada de flauta. Com certeza tinha sonhado, e já ia enovelar-se outra vez quando o ruído recomeçou. Era um estalido de madeira, o esforço abafado de uma pessoa que se levanta. Então pensou que talvez Catherine estivesse indisposta. 

— És tu? Estás sentindo alguma coisa? — perguntou em voz baixa.

     Ninguém respondeu, o ressonar dos outros continuava. Durante cinco minutos nada se mexeu, depois houve um outro estalido. E agora, seguro de não ter sonhado, atravessou o quarto, estendeu os braços para as trevas, tocando na cama da frente. Foi grande a sua surpresa ao encontrar a moça sentada, com a respiração suspensa, acordada e à espera. 

— Por que não respondes? Que estás fazendo?

     Ela acabou por dizer: 

— Estou-me levantando. 
— Levantando a esta hora? 
— É isso mesmo, vou trabalhar.

     Comovido, Etienne teve de se sentar na borda da enxerga, enquanto Catherine explicava-lhe as razões do seu gesto. Sofria muito de viver assim, sem fazer nada, sentindo sobre si os eternos olhares de censura; preferia correr o risco de ser maltratada por Chaval lá na mina. E, se a mãe não aceitasse seu dinheiro, não havia de ser nada, já estava bastante adulta para viver sozinha e fazer sua comida. 

— E agora vai, quero vestir-me. E não digas nada, hem? Sê bom.

     Mas ele ficou onde estava e tomou-a pela cintura, numa carícia de tristeza e pena. Em camisola, apertados um ao outro, sentiram o calor de sua pele nua, à beira daquela cama tépida do sono da noite. O primeiro movimento dela fora afastar-se, depois pôs-se a chorar baixinho, agarrando o pelo pescoço para mantê-lo contra si, num abraço desesperado. E ficaram assim, sem outro desejo, com o passado dos seus amores infelizes, que não tinham podido satisfazer. Estava então tudo acabado, não ousariam amar-se um dia, agora que eram livres? Um pouquinho de felicidade seria o bastante para dissipar sua vergonha, esse mal-estar que os impedia de seguirem juntos, em razão de uma infinidade de idéias, que nem eles mesmos sabiam o que era. 

— Vai deitar-te — murmurou ela. — Não quero acender a luz para não acordar mamãe... Já está na hora, vai...

     Mas ele não escutava, abraçava-a desesperadamente, o coração imerso em profunda tristeza. Uma necessidade de paz, um invencível desejo de ser feliz invadia-o. E via-se casado, numa casinha limpa sem outra ambição do que a de viverem e morrerem assim, juntos . Só pão lhe bastaria; e, mesmo que houvesse apenas para um, esse pedaço seria para ela. Para que mais? A vida valeria mais que isso?
     Ela já estava soltando seus braços nus. 

— Por favor, vai...

     Então, num transbordamento de coração, ele disse-lhe ao ouvido: 

— Espera, vou contigo.

     E admirou-se de ter dito aquilo. Jurara que não voltaria a descer, de onde viria então essa decisão brusca, saída dos seus lábios sem a ter pensado ou raciocinado? Agora fazia-se nele tamanha tranquilidade, uma cura tão completa das suas dúvidas, que se obstinava na decisão, como um homem salvo pelo acaso e que enfim encontrasse a única saída para o seu tormento. Por isso não quis ouvi-la, quando ela se mostrou alarmada, compreendendo que seu gesto era pura dedicação, temendo os impropérios com que ele seria recebido na mina. O rapaz ria de tudo isso, os cartazes prometiam perdão, e isso bastava. 

— Já decidi, vou trabalhar... Vamos vestir-nos sem fazer barulho. 

     Vestiram-se no escuro, com mil precauções. Ela, às escondidas, tinha preparado de véspera a sua roupa de mineiro; o rapaz tirou do armário uma jaqueta e umas calças. E não se lavaram com receio de fazer barulho com o tacho. Todos dormiam, tinham de atravessar o corredor estreito onde dormia a mãe. Ao saírem, por desgraça tropeçaram numa cadeira. A mulher acordou, perguntando, cheia de sono: 

— Hem? quem é?

     Catherine, toda trêmula, tinha parado, apertando violentamente a mão de Etienne. 

— Sou eu, não é nada — disse este. — Estou precisando de ar fresco, vou até lá fora respirar um pouco. 
— Ah! — grunhiu a mulher, voltando a dormir.

     Catherine não ousava caminhar. Finalmente desceu à sala e repartiu uma fatia que tinha guardado de um pão dado por uma senhora de Montsou. Depois, fecharam cuidadosamente a porta e partiram.
     Suvarin permanecera em pé, ao lado do Avantage, numa curva da estrada. Havia meia hora que observava os mineiros voltando ao trabalho, confundidos com o escuro, passando com o seu surdo bater de cascos, como um rebanho. Contava-os, como os magarefes contam as reses à entrada do matadouro; e estava surpreso com a quantidade, não previra, mesmo no seu pessimismo, que o número de covardes pudesse ser tão grande. A fila não tinha fim, ele se retesava, friorento, cerrando os dentes, os olhos claros.
     De repente estremeceu. Entre os homens que desfilavam e cujas fisionomias não distinguia, acabava de reconhecer um, pelo modo de andar. Avançou e fê-lo parar. 

— Aonde vais?

     Etienne, perturbado, em vez de responder, balbuciava: 

— Como, ainda não partiste?

     Depois confessou, voltava para a mina. Sim, tinha jurado, mas não era vida esperar de braços cruzados que as coisas, talvez dentro de cem anos, acontecessem; além disso, razões suas tinham feito com que se decidisse.
     Suvarin escutara-o arrepiado. Agarrando-o por um braço, empurrou-o de volta ao conjunto habitacional. 

— Volta já para casa!

     Catherine se aproximou, ele reconheceu-a também. Etienne protestou, declarou que ninguém tinha o direito de julgar seus atos. E os olhos do mecânico foram da moça ao companheiro, enquanto recuava um passo, com um gesto brusco de desistência. Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava liquidado, podia morrer. Talvez tenha visto, numa rápida visão, lá em Moscou, sua amante enforcada, o último laço carnal que cortara, que o tornara livre da vida dos outros e da sua. Disse simplesmente: 

— Vai.

     Perturbado, Etienne demorava-se, procurando uma palavra de camaradagem, para não se separarem assim. 

— Então, vais partir mesmo? 
— Vou. 
— Vamos, um aperto de mão, meu velho. Boa viagem, e sempre amigos.

     O outro lhe estendeu a mão gelada. Nem amigo, nem mulher. 

— Desta vez é para sempre. Adeus. 
— Sim, adeus.

     E Suvarin, imóvel nas trevas, seguiu com o olhar Etienne e Catherine, que entravam na Voreux.

continua na página 395...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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