Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sétima Parte
II
No domingo, assim que anoiteceu, Etienne escapou do conjunto
habitacional. Um céu muito puro, cravejado de estrelas, iluminava a terra
com uma luz azul de crepúsculo. Desceu em direção ao canal, seguiu
lentamente a margem para os lados de Marchiennes. Era o seu passeio
favorito, uma vereda de duas léguas coberta de relva, estendendo-se muito
reta ao longo daquela água geométrica, que se desenrolava como uma
interminável lâmina de prata liquefeita.
Nunca encontrava ninguém por aquelas paragens. Naquele dia,
porém, ficou contrariado vendo um homem dirigir-se para ele. E, à luz
pálida das estrelas, os dois caminhantes solitários só se reconheceram
quando estavam frente a frente.
— Ah, és tu! — murmurou Etienne.
Suvarin acenou com a cabeça, sem responder. Por um momento
permaneceram imóveis, depois, um ao lado do outro, recomeçaram o
passeio em direção a Marchiennes. Ambos pareciam continuar imersos em
seus pensamentos, como que muito distanciados.
— Viste no jornal o sucesso de Pluchart em Paris? — perguntou
finalmente Etienne. — Ao sair da tal reunião de Belleville estava sendo
esperado na calçada e recebeu uma ovação. O homem está lançado, apesar
da sua rouquidão. De agora em diante ele vai dar as cartas.
O mecânico deu de ombros. Desprezava os discursadores, os
astutos que entram na política como quem entra na advocacia, para ganhar
dinheiro com a retórica.
Etienne, agora, estava entusiasmado por Darwin. Lera fragmentos
seus, resumidos e vulgarizados num volume de cinco soldos, e dessa leitura
mal compreendida, fazia uma ideia revolucionária da luta pela existência,
os magros comendo os gordos, o povo forte devorando a fanada burguesia.
Mas Suvarin irritou-se, alongou-se sobre a imbecilidade dos socialistas que
aceitam Darwin, esse apóstolo da desigualdade científica, cuja famosa
seleção só era boa para filósofos aristocratas. E o outro insistia, queria
raciocinar e exprimia suas dúvidas por uma hipótese: a velha sociedade não
existia mais, fora varrida até as migalhas; pois bem! não era de temer que o
mundo novo crescesse, lentamente estragado pelas mesmas injustiças, uns
fracos e outros fortes, uns mais hábeis, mais inteligentes, comendo tudo, e
outros idiotizados e preguiçosos, voltando novamente à escravidão? Diante
dessa visão de eterna miséria o mecânico exclamou em tom feroz que, se a
justiça não era compatível com o homem, este tinha que desaparecer.
Enquanto houvesse sociedades podres haveria massacres, até a
exterminação do último ser. E o silêncio voltou a reinar.
Por muito tempo, de cabeça baixa, Suvarin caminhou sobre a erva
fina, tão absorto que seguia bem à beira da água, com a tranquila certeza de
um homem sonâmbulo, sonhando ao longo de um beirai. Depois,
repentinamente, estremeceu, como se tivesse esbarrado com uma sombra.
Levantou os olhos e seu rosto era de uma palidez marmórea. Perguntou
suavemente ao companheiro:
— Já te contei como ela morreu?
— Quem?
— Minha mulher, lá na Rússia.
Etienne fez um gesto vago, admirado com o tremor da voz, com
aquela repentina necessidade de confidência num homem habitualmente
impassível, no seu estoico distanciamento dos outros e de si mesmo. Sabia
apenas que a mulher era uma amante e fora enforcada em Moscou.
— O golpe tinha gorado — começou a contar Suvarin, agora com
os olhos perdidos no branco deslizar do canal, entre a colunata azul das
grandes árvores. — Tínhamos ficado catorze dias debaixo da terra,
colocando minas na estrada de ferro. E, em vez do trem imperial, foi um
trem de passageiros que explodiu... Então prenderam Anuchka. Era ela que
todas as noites nos trazia pão, disfarçada em camponesa. Foi ela também
quem acendeu a mecha, porque um homem poderia ser notado... Segui o
julgamento, escondido na multidão, durante seis dias intermináveis...
— Por duas vezes tive vontade de gritar, de furar a multidão para
juntar-me a ela. Mas de que serviria? Um homem de menos é um soldado
de menos; e eu percebia claramente que ela me dizia que não, com seus
grandes olhos parados, quando encontrava os meus.
Tornou a tossir.
Tornou a tossir.
— No último dia, na praça, eu também estava... Chovia, os idiotas
não sabiam o que fazer debaixo da chuvarada. Tinham levado vinte minutos
para enforcar outros quatro: a corda rompia, não conseguiam acabar com o
quarto... Ánuchka estava muito ereta, esperando. Não me via, procurava-me
com o olhar na multidão. Subi numa pilastra e ela me enxergou, nossos
olhares não se largaram mais. Mesmo depois de morta continuou olhando
me. Agitei meu chapéu e parti.
Houve novo silêncio. A fita branca do canal desenrolava-se até o
infinito; ambos caminhavam no mesmo passo abafado, cada um imerso
outra vez no seu isolamento. No fundo do horizonte, a água pálida parecia
abrir no céu um risco de luz muito fino.
— Era o nosso castigo — continuou duramente Suvarin. — Éramos
culpados do nosso amor... Sim, foi melhor que ela morresse, nascerão
heróis do seu sangue, e eu, agora, tenho um coração de pedra... Ah! nem
pais, nem mulher, nem amigo, nada que faça tremer a mão no dia em que
for necessário tirar a vida de outros ou dar a sua!
Etienne parará, fremindo sob a noite fresca. Não discutiu, disse
simplesmente:
— Estamos longe, queres voltar?
Voltaram em direção à Voreux, lentamente; depois de alguns passos,
acrescentou: — Viste os novos cartazes?
Eram os grandes cartazes amarelos que a companhia mandara fixar
na manhã daquele dia. Neles, mostrava-se mais clara e conciliadora,
prometia aceitar os mineiros despedidos que se apresentassem no dia
seguinte ao trabalho. Tudo seria esquecido, perdoariam até os mais
comprometidos.
— Sim vi — respondeu o mecânico.
— E que achas?
— Acho que está tudo acabado... O rebanho voltará ao trabalho.
Vocês são todos uns covardes.
Etienne, febrilmente, desculpou os companheiros: um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem força para nada. Passo a passo tinham atingido a Voreux. Diante da massa escura da mina, continuou, jurou que nunca mais voltaria àquele trabalho, mas desculpava os que voltassem. Em seguida, como corria o boato de que os carpinteiros não tinham tido tempo de consertar o estaqueamento, procurou informar-se. Seria verdade? O volume de terra contra o madeiramento que revestia o poço era tão grande que ele estava arqueado e um dos elevadores de extração roçava-o ao passar, numa extensão de mais de cinco metros. Era verdade isso?
Etienne, febrilmente, desculpou os companheiros: um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem força para nada. Passo a passo tinham atingido a Voreux. Diante da massa escura da mina, continuou, jurou que nunca mais voltaria àquele trabalho, mas desculpava os que voltassem. Em seguida, como corria o boato de que os carpinteiros não tinham tido tempo de consertar o estaqueamento, procurou informar-se. Seria verdade? O volume de terra contra o madeiramento que revestia o poço era tão grande que ele estava arqueado e um dos elevadores de extração roçava-o ao passar, numa extensão de mais de cinco metros. Era verdade isso?
Suvarin, caído novamente no seu mutismo, respondeu secamente.
Trabalhara na véspera, e, realmente, o elevador roçava em certo trecho; os
mecânicos tinham de duplicar a velocidade para poder passar naquele lugar.
Mas todos os chefes acolhiam as observações com a mesma frase irritada:
queriam carvão; mais tarde aquilo seria consertado.
— Imagina se rebenta... — murmurou Etienne. — Estaríamos
perdidos.
Com os olhos na mina, sem forma definida no escuro, Suvarin
concluiu tranquilamente:
— Se aquilo rebentar, os companheiros o saberão, já que tu os
aconselhas a voltarem ao trabalho.
Davam nove horas no campanário de Montsou. Como o outro
dissesse que ia dormir, ele acrescentou, sem mesmo estender a mão:
— Bem, adeus. Eu vou embora.
— Como, vais embora?
— É isso mesmo, pedi minha carteira de trabalho de volta, vou para
outro lugar.
Etienne, estupefato, comovido, fitava-o. Era depois de duas horas
de passeio que lhe dizia aquilo, e com toda a calma, quando só o anúncio
daquela brusca separação confrangia seu coração. Haviam-se conhecido,
tinham sofrido juntos; só de pensar que nunca mais o veria, ficava triste.
— Tu te vais para onde?
— Por aí, não sei...
— Mas nós nos veremos de novo?
— Não, acho que não.
Calaram-se, ficaram por um momento frente a frente, sem saber o
que dizer.
— Então, adeus.
— Adeus.
Enquanto Etienne subia em direção ao conjunto habitacional,
Suvarin voltou as costas e dirigiu-se para a margem do canal. Lá, agora
sozinho, de cabeça baixa, engolfado nas trevas, como uma sombra
movendo-se na noite, caminhou ao léu. Por momentos parava para ver as
horas, ao longe. Quando soou meia-noite, abandonou o canal e dirigiu-se
para a Voreux.
Nesse momento a mina estava deserta, apenas encontrou um
contramestre com os olhos pesados de sono. As fornalhas só eram acesas às
duas horas, para o começo do trabalho. Primeiro subiu para procurar num
armário uma jaqueta que fingia ter esquecido. Nessa peça de roupa
encontravam-se enroladas diversas ferramentas: uma pua, um serrote
pequeno muito forte, um martelo e uma talhadeira. Em seguida, partiu; mas,
em vez de sair pelo vestiário, enfiou-se pelo estreito corredor que levava ao
fosso das escadas. E, com a jaqueta debaixo do braço, desceu de mansinho,
sem lanterna, medindo a profundidade pela contagem das escadas. Sabia
que o elevador roçava a trezentos e setenta e quatro metros, de encontro à
quinta passagem do revestimento inferior. Tendo contado cinquenta e quatro
lances de escada, tateou com a mão e sentiu a saliência das madeiras. Era
ali.
Então, com a destreza e o sangue-frio de um bom operário que
meditou longamente sobre a sua tarefa, pôs-se a trabalhar. Começou
serrando um painel no tabique do fosso que comunicava com o
compartimento de extração. E, com a ajuda de fósforos rapidamente acesos
e apagados, pôde estudar o estado dó revestimento e dos reparos que
recentemente tinham sido feitos.
Entre Calais e Valenciennes, a abertura dos poços de minas
encontrava dificuldades inauditas, para atravessar os imensos lençóis de
água subterrâneos, ao nível dos vales mais baixos. Só a construção do
revestimento com pranchas unidas umas às outras, como as aduelas de um
tonei, conseguia conter os mananciais e isolar os poços no meio de lagos
cujas vagas profundas e obscuras batiam contra as paredes. Ao abrir a
Voreux, fora necessário construir dois revestimentos: o do nível superior
nas areias soltas e argilas brancas, vizinhas do terreno cretáceo, fendidas de
todos os lados, empapadas de água como uma esponja; depois, o do nível
inferior, diretamente por cima das jazidas de carvão, numa areia amarela,
fina como farinha, correndo com a fluidez de um líquido; e era aí que se
encontrava a Torrente, esse mar subterrâneo, o terror das minas do norte,
mar com suas tempestades e seus naufrágios, mar ignorado, insondável,
com seus vagalhões negros, a mais de trezentos metros da luz do sol. De
ordinário os estaqueamentos aguentavam a pressão enorme. Só a depressão
dos terrenos vizinhos podia ser perigosa, já que essas terras eram
constantemente abaladas pelas antigas galerias de exploração, que, ao se
encherem, sorviam-nos. Nessa depressão das rochas, às vezes se produziam
fendas que se propagavam lentamente até o estaqueamento, deformando-o
com o tempo, empurrando-o para o interior do poço.
Esse era o grande perigo, uma ameaça de desabamento e inundação,
a mina enchendo-se com as terras esboroadas e o dilúvio dos mananciais.
Suvarin, a cavalo na abertura que fizera, constatou uma deformação
muito grave na quinta passagem do estaqueamento. A madeira estava
arqueada, fora do enquadramento, muitas tinham mesmo saído do seu lugar.
Infiltrações abundantes, "repuxos", como dizem os mineiros, jorravam das
juntas, através da estopa alcatroada com que estavam calafetadas. E os
carpinteiros, premidos pelo tempo, haviam-se limitado a colocar cunhas de
ferro, tão negligentemente que nem todos os parafusos tinham sido postos.
Produzia-se, evidentemente por trás, nas areias da Torrente, um movimento
considerável.
Então, com a broca, principiou a desapertar os parafusos, de modo
que um empuxão final arrancasse todos. Era um trabalho de temeridade
louca, durante o qual várias vezes quase caiu, numa queda de cento e
oitenta metros, que era o que o separava do fundo. Tivera de se agarrar às
guias de carvalho, os madeiros por onde corriam os elevadores; e, suspenso
por cima do vácuo, locomovia-se ao longo das travessas que os ligavam de
distância em distância deslizava, sentava-se, deitava-se de costas,
simplesmente apoiado num cotovelo ou num joelho, com um tranquilo
desprezo pela morte. Um sopro o faria cair; por três vezes quase se
despencou sem um arrepio. Primeiro tateava com a mão, depois trabalhava,
só acendendo um fósforo quando se perdia no meio daqueles caibros
viscosos. Desatarraxados os parafusos, começou a trabalhar nas próprias
pranchas, o que mais aumentou o perigo. Tinha procurado a prancha mestra,
a que servia de apoio às outras; contra ela se encarniçou, furando-a,
serrando-a, afinando-a, para que perdesse resistência, enquanto a água,
escapando em finos esguichos pelos buracos e fendas, cegava-o e ensopava
o numa chuva gelada. Dois fósforos se apagaram; todos estavam molhados.
Agora era a noite, um vácuo profundo de trevas.
A partir desse momento, parecia ébrio de ódio. Os sopros do
invisível arrebatavam-no, o negro horror daquele buraco batido pela água
lançou-o num furor de destruição. Começou a golpear ao acaso o
estaqueamento, batendo onde podia, com a broca, com o serrote, possuído
pelo desejo de pôr tudo abaixo sobre si mesmo. E punha nisso tal
ferocidade, que era como se estivesse esfaqueando um ser vivo, que
odiasse. Havia de exterminar essa besta malfazeja, essa Voreux que estava
com a goela sempre aberta e já devorara tanta carne humana! Ouvia-se o
ranger das suas ferramentas, espichava-se, rastejava, descia, subia,
mantendo-se por milagre, num vaivém contínuo, num esvoaçar de pássaro
noturno por entre o vigamento de um campanário.
Mas acalmou-se, não contente consigo. Será que não se podiam
fazer as coisas friamente? Sem se apressar tomou fôlego, voltou ao fosso
das escadas, tornando a colocar o painel que serrara. Já bastava, não queria
dar o alarme com um estrago muito grande, que tentariam consertar sem
demora. A besta estava ferida na barriga, ver-se-ia se ela poderia viver até a
noite. E lá estava a sua marca; o mundo, aterrado, viria a saber que ela não
morrera de morte natural. Demorou-se enrolando metodicamente as
ferramentas na jaqueta, subiu as escadas lentamente. Depois, tendo saído da
mina sem ser visto, nem chegou a pensar em mudar de roupa. Deram três
horas. Ficou na estrada, esperando. A mesma hora, Etienne, que não dormia
assustou-se com um leve ruído que ouviu na escuridão espessa do quarto.
Distinguia a respiração leve das crianças, os roncos de Boa-Morte e da
viúva, enquanto, ao seu lado, Jeanlin emitia uma nota prolongada de flauta.
Com certeza tinha sonhado, e já ia enovelar-se outra vez quando o ruído
recomeçou. Era um estalido de madeira, o esforço abafado de uma pessoa
que se levanta. Então pensou que talvez Catherine estivesse indisposta.
— És tu? Estás sentindo alguma coisa? — perguntou em voz baixa.
Ninguém respondeu, o ressonar dos outros continuava. Durante
cinco minutos nada se mexeu, depois houve um outro estalido. E agora,
seguro de não ter sonhado, atravessou o quarto, estendeu os braços para as
trevas, tocando na cama da frente. Foi grande a sua surpresa ao encontrar a
moça sentada, com a respiração suspensa, acordada e à espera.
— Por que não respondes? Que estás fazendo?
Ela acabou por dizer:
— Estou-me levantando.
— Levantando a esta hora?
— É isso mesmo, vou trabalhar.
Comovido, Etienne teve de se sentar na borda da enxerga, enquanto
Catherine explicava-lhe as razões do seu gesto. Sofria muito de viver assim,
sem fazer nada, sentindo sobre si os eternos olhares de censura; preferia
correr o risco de ser maltratada por Chaval lá na mina. E, se a mãe não
aceitasse seu dinheiro, não havia de ser nada, já estava bastante adulta para
viver sozinha e fazer sua comida.
— E agora vai, quero vestir-me. E não digas nada, hem? Sê bom.
Mas ele ficou onde estava e tomou-a pela cintura, numa carícia de tristeza e pena. Em camisola, apertados um ao outro, sentiram o calor de sua pele nua, à beira daquela cama tépida do sono da noite. O primeiro movimento dela fora afastar-se, depois pôs-se a chorar baixinho, agarrando o pelo pescoço para mantê-lo contra si, num abraço desesperado. E ficaram assim, sem outro desejo, com o passado dos seus amores infelizes, que não tinham podido satisfazer. Estava então tudo acabado, não ousariam amar-se um dia, agora que eram livres? Um pouquinho de felicidade seria o bastante para dissipar sua vergonha, esse mal-estar que os impedia de seguirem juntos, em razão de uma infinidade de idéias, que nem eles mesmos sabiam o que era.
Mas ele ficou onde estava e tomou-a pela cintura, numa carícia de tristeza e pena. Em camisola, apertados um ao outro, sentiram o calor de sua pele nua, à beira daquela cama tépida do sono da noite. O primeiro movimento dela fora afastar-se, depois pôs-se a chorar baixinho, agarrando o pelo pescoço para mantê-lo contra si, num abraço desesperado. E ficaram assim, sem outro desejo, com o passado dos seus amores infelizes, que não tinham podido satisfazer. Estava então tudo acabado, não ousariam amar-se um dia, agora que eram livres? Um pouquinho de felicidade seria o bastante para dissipar sua vergonha, esse mal-estar que os impedia de seguirem juntos, em razão de uma infinidade de idéias, que nem eles mesmos sabiam o que era.
— Vai deitar-te — murmurou ela. — Não quero acender a luz para
não acordar mamãe... Já está na hora, vai...
Mas ele não escutava, abraçava-a desesperadamente, o coração
imerso em profunda tristeza. Uma necessidade de paz, um invencível desejo
de ser feliz invadia-o. E via-se casado, numa casinha limpa sem outra
ambição do que a de viverem e morrerem assim, juntos . Só pão lhe
bastaria; e, mesmo que houvesse apenas para um, esse pedaço seria para
ela. Para que mais? A vida valeria mais que isso?
Ela já estava soltando seus braços nus.
— Por favor, vai...
Então, num transbordamento de coração, ele disse-lhe ao ouvido:
— Espera, vou contigo.
E admirou-se de ter dito aquilo. Jurara que não voltaria a descer, de
onde viria então essa decisão brusca, saída dos seus lábios sem a ter
pensado ou raciocinado? Agora fazia-se nele tamanha tranquilidade, uma
cura tão completa das suas dúvidas, que se obstinava na decisão, como um
homem salvo pelo acaso e que enfim encontrasse a única saída para o seu
tormento. Por isso não quis ouvi-la, quando ela se mostrou alarmada,
compreendendo que seu gesto era pura dedicação, temendo os impropérios
com que ele seria recebido na mina. O rapaz ria de tudo isso, os cartazes
prometiam perdão, e isso bastava.
— Já decidi, vou trabalhar... Vamos vestir-nos sem fazer barulho.
Vestiram-se no escuro, com mil precauções. Ela, às escondidas, tinha
preparado de véspera a sua roupa de mineiro; o rapaz tirou do armário uma
jaqueta e umas calças. E não se lavaram com receio de fazer barulho com o
tacho. Todos dormiam, tinham de atravessar o corredor estreito onde dormia
a mãe. Ao saírem, por desgraça tropeçaram numa cadeira. A mulher
acordou, perguntando, cheia de sono:
— Hem? quem é?
Catherine, toda trêmula, tinha parado, apertando violentamente a
mão de Etienne.
— Sou eu, não é nada — disse este. — Estou precisando de ar
fresco, vou até lá fora respirar um pouco.
— Ah! — grunhiu a mulher, voltando a dormir.
Catherine não ousava caminhar. Finalmente desceu à sala e repartiu
uma fatia que tinha guardado de um pão dado por uma senhora de Montsou.
Depois, fecharam cuidadosamente a porta e partiram.
Suvarin permanecera em pé, ao lado do Avantage, numa curva da
estrada. Havia meia hora que observava os mineiros voltando ao trabalho,
confundidos com o escuro, passando com o seu surdo bater de cascos, como
um rebanho. Contava-os, como os magarefes contam as reses à entrada do
matadouro; e estava surpreso com a quantidade, não previra, mesmo no seu
pessimismo, que o número de covardes pudesse ser tão grande. A fila não
tinha fim, ele se retesava, friorento, cerrando os dentes, os olhos claros.
De repente estremeceu. Entre os homens que desfilavam e cujas
fisionomias não distinguia, acabava de reconhecer um, pelo modo de andar.
Avançou e fê-lo parar.
— Aonde vais?
Etienne, perturbado, em vez de responder, balbuciava:
— Como, ainda não partiste?
Depois confessou, voltava para a mina. Sim, tinha jurado, mas não
era vida esperar de braços cruzados que as coisas, talvez dentro de cem
anos, acontecessem; além disso, razões suas tinham feito com que se
decidisse.
Suvarin escutara-o arrepiado. Agarrando-o por um braço,
empurrou-o de volta ao conjunto habitacional.
— Volta já para casa!
Catherine se aproximou, ele reconheceu-a também. Etienne
protestou, declarou que ninguém tinha o direito de julgar seus atos. E os
olhos do mecânico foram da moça ao companheiro, enquanto recuava um
passo, com um gesto brusco de desistência. Quando um homem tinha uma
mulher no coração, estava liquidado, podia morrer. Talvez tenha visto,
numa rápida visão, lá em Moscou, sua amante enforcada, o último laço
carnal que cortara, que o tornara livre da vida dos outros e da sua. Disse
simplesmente:
— Vai.
Perturbado, Etienne demorava-se, procurando uma palavra de
camaradagem, para não se separarem assim.
— Então, vais partir mesmo?
— Vou.
— Vamos, um aperto de mão, meu velho. Boa viagem, e sempre
amigos.
O outro lhe estendeu a mão gelada. Nem amigo, nem mulher.
— Desta vez é para sempre. Adeus.
— Sim, adeus.
E Suvarin, imóvel nas trevas, seguiu com o olhar Etienne e
Catherine, que entravam na Voreux.
continua na página 395...
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Sétima Parte - (I.a) / Sétima Parte - (I.b) / Sétima Parte- (II) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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