sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Teatro Pedagógico: a escola do povo

Parábolas de uma Professora


a escola do povo


baitasar e paulo e marko




continuo por aqui, sofrendo. minha vontade de sair para me fumar lateja. minhas têmporas pulsam mais do que gostaria de senti-las. olho minhas mãos. vejo-as segurando um cigarro acesso entre os dedos. um sonho. ou um pesadelo. acompanho a suavidade dos pequenos rolos de fumaça subindo, dispersando-me pelo ar, invadindo secretamente teus silêncios. compartilhamos as dores e o mesmo ar doente, mas os sonhos não conseguem deitar no mesmo tempo dos olhos fechados. sorrindo. encorpados. gozando. até que saciados fechamos os olhos

Como aprender o quê, Marko? Para começo dessa conversa idiota, não consigo nem ao menos me falar com os alunos serenamente por alguns minutos. É só isso que eu peço, alguns minutos, meu Deus, sem que não ocorra alguma coisa estranha. Um grito. Uma batida na porta. Um apito. Perturbam o tempo todo! Não têm nada a dizer, somente gritos!

não posso calar, preciso acreditar naquela certeza que me move, àquela pela qual venho lutando em tantos anos. ainda acredito que podemos construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais humana. e que saia do discurso vibratório das cordas vocais e se instale entre as cadeiras e mesas de fórmica. às vezes, parece que estou me repetindo num imenso vazio. outras, acho que não. precisamos urgente de uma escola mais alegre. temos possibilidades concretas de pensar uma práxis libertadora, brincar com alunos e alunas e ir construindo uma competência a partir do trabalho em comunhão, voltada à prática democrática. por que me calo? busco socorro no professor do corredor. hoje, me parece um professor invisível. não devo estar vendo coisas. ele me socorre com um olhar doce e também se cala, acho que pensa que sou invisível

Alguém consegue fazer a chamada dos alunos, em quaisquer das turmas deste inferno, sem crises de gritos e pedidos sistemáticos de silêncio silêncio silêncio? calem a boca! A aula já começa de maneira insuportável! Tem um gordinho que eu não suporto...

Eu estou brincando de dinheirinho. Quem fica comportado ganha um dinheirinho. Está funcionando. Tentem. Tem o dinheirinho da chamada. Tem o caderno bonitinho. Tem para quem vai ao quadro. Tem para quem ler em voz alta. Tem para quem fica quietinho...

Funciona?

Claro! Fazemos juntas o nosso dinheirinho. As crianças adoram. Faço as cópias em preto e branco. Eles recortam e pintam. Depois eu recolho tudo no nosso banco. Uma poupança. Nada é de graça nesta vida.

a educação bancária sempre esteve entre nós. amém. estamos naturalizando o toma lá da cá com o dinheirinho que nos parece tão inofensivo. continuamos criando monstros sem ética. tudo por um dinheirinho. depois apanhamos dos monstrinhos e não sabemos onde erramos. a farsa da nossa indignação também pode se resolver com um dinheirinho

Mas a lista da chamada não pode ser realizada em outro momento e de outra maneira?

a lia fez a pergunta em um tom tão baixo que mais parecia uma reflexão pessoal, interna, pensando alto. é tão fundamental começar pela chamada dos alunos, pergunto-me, sinceramente, não sei que disciplina é esta que me mantém aqui. é de pequeno que entortamos. o deus dinheiro e o espírito da corrupção. desde pequeno se formando

E essa merda do bolsa família? Querem saber se as crianças estão vindo ou não.

Os cadernos da chamada diária são documentos oficiais e, para terem credibilidade, precisam ser preenchidos com cuidado. Representam a fidelidade das presenças ou ausências dos alunos.

eis a intervenção técnica do time, esse é o seu conhecimento parcialmente inato e parcialmente adquirido, que lhe permite falar e compreender o seu ofício de inspecionar em um plano superior. seu modo de ser não consegue reconhecer o cotidiano da pobreza. é difícil, eu sei. existem regras atrás das regras da autoridade. muitas são obrigatórias para manter a ordem na comunidade. nem todas, mas muitas de todas. gostaria de entender juntas esse outro cotidiano. planejar juntas o entendimento desse outro cotidiano, convencer juntas esse outro cotidiano que pode ser diferente

Mas gurias, eles pedem o tempo todo para irem ao banheiro...

Tudo bem, eles precisam ir ao banheiro e o que eu tenho a ver com tudo isso? Preciso dar minha aula no pátio e eles ficam todo instante interferindo com brigas, pegando a bola, puxando os cabelos das meninas, dizendo palavrões. O pátio é minha sala de aula.

E o que esses estão aprendendo?

Não entendi, Lia!

exclama a desirée, tentando descobrir as intenções

Eu tenho uma sugestão.

a cabayba interrompe o diálogo, confesso que estremeci

Qual?

Sugiro um colar ou aquelas pulserinhas ou um carimbo no punho.

Para que isso?

Mostrar que o aluno está fora da sala de aula para ir ao banheiro.

Não entendi.

a desirée não parecia sintonizada com o que estava sendo discutido. nem hoje nem sempre

Simples, um crachá dizendo: BANHEIRO. Tem que ser bem colorido e suspenso por um cordão para ser usado no pescoço, ao sair da sala de aula, quando da sua ida ao banheiro.

Professora Desirée, é necessário não só dar instrução aos professores, mas também educá-los. Educar aqui, para mim, assume o sentido de pensar educação como um ato que precisa ser vivido como tal, em todas as nossas tentativas frustradas ou não, de pensar e fazer o nosso trabalho pedagógico.

Talvez, com um pouquinho de sorte.

Não podemos contar com a sorte ou com arroubos de magia ou explosões de inspiração no nosso quotidiano, que não podem ser impedidos de acontecer, mas necessitamos interferir com o pleno uso da nossa razão no conjunto das ações propostas pela escola. Com delícia e até com cansaço, mas planejando juntas a letra e a música que será a nossa vida. Construindo uma escola nova para diante. A nossa escola. A escola do povo. A escola da ética e da competência. Comprometimento e alegria. Silêncio e cantoria. Avanços e saudade, uma, duas, dezenas, centenas, milhares de escolas com a cara do seu povo, e não mais com a aparência das caretas de nojo da hegemonia sabe-tudo. A escola dialética. A escola sem mágoas. Ou que possa conversar sobre suas mágoas. A escola que brinca. Canta e dança. A escola que não derrota, mas transforma. A escola dos fatos e da poesia. A escola das etnias. A escola histórica que não pára. A escola que não trai. A escola dos amores da nossa vida, exagerada na resistência ao mau humor e intolerância. A escola das diferenças. A escola da pátria imensa. Chega da escola histérica e estéril.

o silêncio que se seguiu à fala do marko estava formado com material inflamável e à combustão espontânea estava em andamento, a reação contrária aos sonhos possíveis não espera o tempo de dormir

Eis então, sempre volta o velho e surrado discurso comunista de que o problema na educação é o professor e a sua incapacidade de perceber a realidade! E de brincar. E como se faz isso? Como brincamos nesse conto de fadas e nos aprontamos para a avaliação nacional?

a ofélia viajante expressa do submundo subterrâneo das almas com registros de muitas entradas e saídas não deixava dúvidas, apenas pelo tom de sua voz, ela estava pronta para a batalha

Pergunte aos alunos e alunas.

Talvez se queira dizer apenas que aquele professor, aquela professora que abandona a sua turma de alunos para fumar e tomar um cafezinho, também devesse ter um crachá pêndulo dizendo: CIGARRO E CAFEZINHO. O que vale para uns vale para outros. Talvez se queira dizer que aquele que se atrasa não deva impedir seu aluno de entrar atrasado. O que vale para uns vale para outras.

Lia não compara o que não pode ser confrontado.

a acemira correndo em socorro da subtérrea ofélia, ombro a ombro, em defesa da família, deus e dos bons costumes na pedagogia sem contradição. e não aceita que se contradiz na beleza insustentável das suas palavras decorativas. sempre faz as mesmas tentativas porque acredita na distorção de ensinar decompondo as inteligências, a habilidade de amestrar

Consideramos que as nossas crianças devem brincar, nossos filhos e filhas ou sobrinhos têm muitos brinquedos, mas estamos convencidos de que para o divertimento deve haver um lugar separado. Raros são os momentos dentro do nosso fazer pedagógico que nos permitem aproximar de nossos alunos e nossas alunas com tanta intensidade que aquelas circunstâncias que nos envolvem nos jogos e nas brincadeiras. E quando existem não saímos do nosso refúgio, a caverna dos cafés e iogurtes. Perdemos a entrega ao outro e à outra que dificilmente haverá em outros fazeres. O lúdico nos aproxima na beleza de aprendermos juntos.

Concordo com o Marko, nada impede o professor de matemática declamar Neruda, ler Saramago, aos seus alunos e suas alunas, num ambiente lúdico e cúmplice pelo encanto da vida.

Bobagem, minha formação, meus estudos universitários, estão na área do pensamento lógico, minha mensagem educativa são os números, desabafo nas fórmulas.

Eu desabafo nos verbos. O que será do jovem que não sabe ler e escrever?

Eu adoro contar as histórias da história.

alojaram o pensamento cartesiano em nossa transpiração. dizemos que não acreditamos, mas desconfiamos que nosso aluno precisa ser avaliado na sua totalidade, ao contrário da avaliação específica dos conhecimentos herméticos. os conheceres são sortidos e numerosos. e na multiplicidade das possibilidades todos e todas se encontram em suas preferências. mas escuto isso todos os anos, O que faço com os conceitos de número, operações matemáticas, equações, O que faço com as conjugações, a pontuação, a crase, E os mapas, E as datas

Conquista primeiro a alma de teu aluno e aluna, faça com que te levem no peito a qualquer lugar. E faça dos números os instrumentos da leitura crítica do mundo real das intenções, construa o significado das palavras de cara amarrada com essa massa de negros, pardos e índios.

o professor marko continuava sua fala com a calma de quem joga e brinca no campo do adversário, procurava pela faixa extremamente estreita que busca a luz nas contradições da prática e da teoria. não sentia falta de ar, não se pensa sem falhas nem se supõe sem escolhas

Professor Marko, se entendi bem, tudo o que acontece no pátio faz parte da necessidade de jogo das crianças?

questiona a bela desirée. o belo que vem sem nada e anda entre nós quer nossos olhos. flutua e machuca com seu gosto inalcançável, tenta nos amordaçar. é muito bonita

E nós, adultos que brincamos?

Claro que brincamos! Às vezes, sinto uma vontade louca de invadir as reuniões destes homens e mulheres importantes. Em silêncio. Desapercebido de todos para observar, conhecer como as decisões são tomadas. Sei que corro riscos de uma profunda desilusão.

O Marko não desiste, se dentro das paredes da escola não existe coletivo, duvido que tal coletivo exista nos espaços de poder. Espaços coletivos adultos e lúdicos, bobagem!

o corporativismo igual ao nosso de professores se estabelece de maneira invisível, mas seus odores são perceptíveis. e podem ser tornar assassinos esquisitos do futuro

Imagino algum prefeito ou governador ou presidente da república, do encurralado gigante adormecido, abrindo a reunião com seus colaboradores diretos, solicitando que uns mais que outros se sacrifiquem, no sentido de cortarem gastos, estabelecendo prioridades diferentes dos seus interesses políticos pessoais, tudo brincadeira. Imaginem que algum desses políticos decretem a diminuição dos seus salários. Jamais acontecerá! Intrigas, ciladas e traições acontecem antes de se pensar no bem-estar coletivo, sou louca e juro que não acredito em finais felizes. Tudo é apenas um jogo entre o gato e o rato. Sem falar no papo-furado para votarmos com o coração, sem raivas ou furor desmedido, tudo em nome da paz que acoberta a solidão dos que não se sabem e não são vistos.

somos ingênuos, analfabetas críticas, mortos de amorosidade. ainda descobrindo que a paz não se alcança sem luta. os assassinos que sempre governaram na américa latina, salvo pequenos desvios históricos, por descuido ou sono do assassinador, mantiveram o povo amordaçado, a cordeiragem. jamais exerceram o poder em nome dos interesses dos pobres sem escola, sem casa, sem saúde, sem saneamento, sem lazer, sem alimentos, sem nada. filhos da puta, vocês que cospem mais cadeias como solução, injetem nas veias brancas de pó a sua pena de morte. anoréxicos mantenham a fome enquanto amordaçam o sonho da vida plena, mas tudo há de mudar se a luta continuar


Professor Abá, como é que eu faço, O que aconteceu, Fui assaltada e levaram o livro da biblioteca, Quem se importa, não tenho filhos, por agora está bom, mas quero ter os meus. tempos difíceis pra gente como a gente enredada em sobreviver sonhar com filhos. quando ficar mais enrugadinha vou precisar deles, eu sei. mas não sei se os terei. nesse tempo, não os terei ainda, os filhos dos miseráveis morrem antes das dobras da pele. essa gente sabe-tudo tem em uma das mãos o dinheiro e na outra um chocalho e espelhos. imagens refletidas dizendo o que devo ser ou ter. palavras também são espelhos. os professores e o encantamento extraordinário daqueles que se acham sob inspiração divina. não tenho paixão pra falar e escrever da minha vida. me fiz imperfeita em imagens e semelhanças das sem inteligência para perseguir. acorda e canta, me torturo, pelo menos, uma primeira vez, é possível responder, surpreendendo o povo inteiro, A morte não é em vão, basta conseguir que a moça triste dance e aprenda a canção do Zé, Pois é, concordo comigo mesma, sem nenhuma persuasão íntima, perturbada com meus devaneios de querer compreender meus humores e expulsar meus temores, sempre de novo, recomeçando, numa atitude de todos os dias, todas as horas. recomeçando recomeçar. tem que adiantar vir aqui sentar olhar resmungar fungar, nossos olhos vermelhando o cansaço do caminho recomeçar re-começar andarilhar quase todos os dias, precisamos parar de andar em círculos para escutar as batidas do coração alegria, batendo sem ritmo. ele tem seu próprio ritmo. nem ao menos sei se a vida tem ritmo diferente da dor de cotovelo, do amor perdido, traído ou gozo com o amante errado, sem mãos ou linguas, apenas uma marreta que bate, afunda e bate

Professor Abá, como faço pra lê mais sobre isto, meus colegas continuam suas perguntas buscas. eu não encontro sonhos fantásticos a minha volta, sinto-me só sem calor vazia em teu fascínio, um crescente declínio, Como é que saio daqui, pergunta alguém perdido no labirinto dos sinais. abro a boca e paro, ia responder, Abre a porta e sai. juro, às vezes, quero a vontade de ser grosseira. jamais deveria ser professora, porque as repetiria, em permanentes urticárias. perdão, minhas queridas. nem todas foram sem coração. prefiro permanecer áspera apenas nos meus pensamentos nas minhas aflições sou lágrima num passado ameno sem glória. não resisto ao súbito espanto, Esta letra ta muito pequenininha, De que jeito aumenta? como pode haver tantas perguntas, às minhas me faço de surda cansada sem sede de beber-me. escutei o teu não. preciso sangrar me permitir à lágrima que sou dizer adeus e não retornar. as dúvidas nunca se terminam, É só isso, pergunta meu colega, que sempre está vestido com a camiseta de seu time, o professor está perturbado pelo interesse das pessoas analfabetas da escrita, a escola sempre quis ensinar e nunca soube como fazê-lo. eu não acredito em sono fantástico apenas deito e durmo. a vida é muito simples somos o alimento e quero ser o alimento. tua comida tua sede e ser bebida aos goles, tuas mãos em minha pele me salvando de toda essa confusão que é viver. salvando-me da vida das tuas mãos tua boca teu cheiro até que será tudo nosso

De nada vai servir... se eu não sei lê. Os guris não entendem porque ela não é parecidinha com as gostosonas da televisão, não tem nem os chinelos que não são havaianos, são falsos. nem os falsos
 


____________________________

Leia também:


Teatro Pedagógico: biometrias
Parábolas de uma Professora

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Essa Mulher

Essa mulher, essa menina, esse senhor






Essa Mulher

Elis Regina



De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz assim, feliz
De tardezinha essas menina se namora
Se enfeita se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.


Composição: Joyce/A.Terra





O Amor Carinhoso
Escolha seu/sua intérprete



Marisa Monte e Paulinho da Viola




Elis Regina




Pixinguinha


Carinhoso


Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim foges de mim

Ah, se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz



Composição: João de Barro / Pixinguinha


Teatro Pedagógico: biometrias

Parábolas de uma Professora



biometrias


baitasar e paulo e marko




minha intenção não se encontra nesta sala. timidamente pensei. não estou aqui. não quero parecer ser feliz. estacionada. quero ser feliz. não quero esse personagem de uma boa mulher adequada ao cômodo papel da indiferença. obediente. a caverna da neutralidade. a caverna do acolhimento. percebo as conversas nas suas metades, mas entendo os propósitos. não corro riscos desnecessários. sinto vontade de sair. fumar e tragar-me. um jeito natural para o meu afogamento em rolos de fumaça. as folhas de tabaco queimando. afogada em tosse. lágrimas transpiram em meus olhos. me povoam. são dias em que me sinto terrivelmente apaixonada. molhada. em outros, como um imenso castelo na beira do mar esperando a maré ou algo inusitado. no meio de um turbilhão me perco em pensamentos com desejos românticos. e lá está... ele. grande. solitário. guarde um beijo meu ou venha salvar-me

Colegas, a questão dos atrasos no início do turno estão trazendo transtornos e ficando muito difícil justificar para os pais porque os seus filhos estão sem professor. As crianças são atendidas. Não é isso. Ninguém volta para casa. Eu sei que os imprevistos acontecem...

prestar atenção. ordeno a mim mesma. esse é o diretor, sua besta. tento, mas não quero me concentrar. meus segredos continuam apaixonados. não me afastam. desejos secretos colam em meu corpo. obscenos. habitas meus pensamentos. estremeço ao pressentir um abalroamento. os acasos aproximam. acredito que sim. mas me colocam numa situação de dor e alegria. bobagem. eu me coloco assim. minh’alma está impregnada de você. exijo teu colo. uma noite inteira só para descobrir o que o destino já sabe

Não dá para vocês da direção, supervisão, sei lá, as volantes... alguém para levar os alunos em fila até a sala de aula? Só até a chegada do professor da turma.

acemira e a sua sabedoria. tudo que a capacidade da bondade cínica comporta. depois, muito provavelmente, será por ela mesma proclamada vítima. resmungos de atenção pelos corredores. conversas de uns com os outros, sobre o trabalho visto ou não. não importa. reclamações. denúncias. a falta de apoio que estará sentido. o seu abandono às feras. pequenas ferinhas. repetirá que não estão cumprindo o seu pedagógico próprio. e irá soletrar que não é papel da direção, supervisão, e mesmo as volantes, substituir as faltas dos colegas. esquecida das suas boas intenções e sugestões na reunião. uma memória histórica curta e canalha. um cobertor curto. um teatro cínico. um ponto de vista teatral sobre ética

Acemira, pegar a turma é fácil... e fazer o quê? Deixá-la quietinha e acomodada até a chegada da professora? Tudo bem, até seria possível, se, junto a isso, não tivéssemos quinze a vinte por cento dos professores em licença saúde. Ou outro tanto atestando. Os professores não têm saúde de ferro? Não. Os imprevistos acontecem? Acontecem. Não estou discutindo os afastamentos por saúde, mas afirmando que biometrias somadas aos atrasos estão invibializando o início do turno.

silêncio. aproveito estes segundos para violar o mundo com palavras de desejo, paixão e amor. é uma forma de reivindicar minha presença nele. minha saúde também não é de ferro, minha eternidade amadurece e minhas vontades do professor do corredor aumentam. quero tua boca, sinto desejo do teu beijo doce. molhado. quero te amar. a vida vale pelo o amor que a gente tem no coração. permaneço presa ao cativeiro invisível do cotidiano

Puxa, Aguinaldo! Não dá pra exigir professor substituto?

Ofélia, tudo é possível, mas não acredito ser esta a solução mais viável. Mesmo porque esta solução pode inviabilizar nossos salários no presente e no futuro.

Não estou entendendo, Aguinaldo.

resisto com todas as minhas forças para não ir procurar o professor do corredor. ele também se cala. nos calamos. abre seu armário e parece que procura algo que não está lá, O que buscas, perguntaria, Por que me calo, responderia, Vejo-o entrar na sala muito silenciosamente, já estaria em seu colo, Noto você apagada, quase triste, Cansada da repetição e da minha falta de imaginação. ele fica bem com essa tristeza. olhos melancólicos. parece mais jovem. senta-se calado. sinto nele o mesmo cansaço.

Lélia, o raciocínio é simples. Se eu e você precisamos dividir nossas tarefas com outros colegas, deveríamos saber que o salário destes novos colegas que suprem as minhas folgas, os meus atrasos e, inclusive, minhas possíveis biometrias, sairá do mesmo bolo que paga e projeta nossos reajustes salariais. E que no futuro, será mais um aposentado e recebendo da mesma previdência, etc etc etc. Estou sendo muito egoísta? O poço não está secando e continuamos com sede, mas escavando e esgravatando em solo árido. Não adianta apenas falar e reclamar que nada funciona, precisamos fazer a parte que nos cabe neste latifúndio de excluídos. Quem estende a mão aos miseráveis?

novo silêncio e já estou nos braços dele. corri como louca, mas cheguei sonhando. o que me resta é o sonho. invento um modo de reinventar a dor. a dor sem dor. pensar na possibilidade impossível, sei que amo

Pelego!

Aguinaldo, você está me parecendo com a intenção de incutir medo no ânimo dos professores.

Botto, é só uma questão matemática. Aumentamos o número de professores na base salarial. A economia não cresce. A arrecadação não cresce ou não cresce na mesma voracidade da nossa necessidade por professores substitutos. O resultado é negativo. Faça as contas e depois me venha falar de terrorismos e similaridades. Não nos adianta ficar apenas olhando para o chão, empurrando e derrubando.


Pelego!

E o pré-sal?

Ué, você deu seu voto para aqueles que querem tirar a Petrobrás do pré-sal. Lembra? O seu voto oferece o petróleo do pré-sal para empresas estrangeiras! E não sou eu quem diz. Basta ler. Acompanhar o noticiário. Existe proposta no senado.

Aguinaldo, tu não tinhas essa maneira de pensar no ano passado, antes das eleições. O que aconteceu? Quem mudou?

Não sei quem mudou mais, Acemira. O trágico é que tudo sempre muda? Todos estamos mudando todos os dias, a cada instante. Este é o nosso caráter humano, a certeza da renovação. A convicção do renascer da consciência em cada olhar que nos trás o aperto de mão. A solidariedade aproxima e dá início ao abraço fraterno. Sei que consegui sair do meu mundo particular da sala de aula. E me deparei com o nosso mundo da escola com todas as suas necessidades administrativas e pedagógicas e humanas. Imediatas. Percebi que não adianta fazer ameaças, gritar obscenidades, acenar com intolerância, se tudo isso é apenas para manter meus privilégios egoístas. Preciso realizar as tarefas as quais me propus de maneira ética, crítica e engajada. Hoje, e no futuro. Não vejo ninguém me impedindo de realizar meu trabalho. E eu estou com muita vontade de realizá-lo?

Escutaram? A culpa é nossa!

Aguinaldo, quem te ouve vai acreditar que não queremos trabalhar. O que importa mesmo é que está muito difícil ensinar. A gurizada não quer aprender.

Mas aprender o quê, Ofélia? Submissão?

a pergunta do marko invagina a rotina do dia após dia na escola. precisamos fundamentar na prática os nossos desejos. a nossa prática mostra o tamanho da nossa paixão. poderes ou afazeres administrativos. controle ou libertação. a opção por lacrar as portas, os portões, os muros, que deveriam estar permanentemente abertas, para simplesmente dar conta de aspectos administrativos e do medo, é difícil, mas mostra uma concepção de mundo que inicia pelo medo



não chego nem perto de um computador fora da escola, respondi ao professor abá. ele achou um absurdo. professor, somos as realidades do desemprego, subemprego, fome, invasões, ligações de luz clandestinas, bandidos fardados, doenças sanitárias, repetência, até que desistimos da escola. somos todos aqueles que impedidos de morar, invadimos. impedidos de amar, temos os corações afogados no desespero da solidão. impedidos de trabalhar, mendigamos a sobra do teu pão. impedidos da brilhantura na escola, reprovamos e saímos na carona da expulsão aborrecida. viramos suco. impedidos de adoecer, morremos. meu peito incha em silêncio. eu mesma já morri várias vezes. nosso olhar grita, e, apesar de tudo, somos gente de muita sorte, conseguimos retornar e começar tudo de novo. o eterno recomeçar. somos gente. e gente teimosa. paro um instante, reviro para um lado e outro, todos brincam nas máquinas sedutoras do mundo da computação. me pergunto se não somos gente de muito azar porque precisamos voltar. por isso re-morri, não desisto. sou uma aluna insistentemente prolongada. o que têm para nos oferecer são repetições de erros antigos? as mesmas tentativas sem convicção? afinal, quem mudou mais, a escola ou essa gentinha de sorte? azar? esperança? quero gritar. eu não sei! preciso viver e ser feliz. em minha ideia de vida, não me queixo e nem deixo de me re-viver. tento conquistar aquele homem com quem quero sonhar todas as noites e que não consigo tocar. tenho medo. nem lembrar, nem reconhecer. sei que existe esse homem amoroso, delicado, respeitador. ele me surge em sonhos que me queimam a pele, me fazem suar jogada de costas na cama. olhando meu teto sem cor, as marcas de podre e o cheiro de mofo. estou ali, gemendo e cavoucando. não importa, quero-o comigo sentindo seu cheiro de amor por mim, suas marcas da vontade dura pulsando, me fazendo viver aos pulos de chegar correndo e abraçar um amor, pelo menos uma vez. vida sem jeito que levo. eu quero me fazer acreditar que este homem virá, chegará de susto, de repente

Pra quê vai servir... Eu não sei lê. os guris não entendem porque ela não é parecidinha com as gostosonas da televisão. os chinelos não são havaianos, são falsos
 



__________________________________

Leia também:


Teatro Pedagógico: solidão a dois. sem entendimento
Parábolas de uma Professora

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Federico García Lorca (España)

Los Poetas del Amor (32)



Ciudad sin sueño


No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie. 
No duerme nadie. 
Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas. 
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan 
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas 
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros. 

No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie. 
No duerme nadie. 
Hay un muerto en el cementerio más lejano 
que se queja tres años 
porque tiene un paisaje seco en la rodilla; 
y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto 
que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase. 

No es sueño la vida. ¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta! 
Nos caemos por las escaleras para comer la tierra húmeda 
o subimos al filo de la nieve con el coro de las dalias muertas. 
Pero no hay olvido, ni sueño: 
carne viva. Los besos atan las bocas 
en una maraña de venas recientes 
y al que le duele su dolor le dolerá sin descanso 
y al que teme la muerte la llevará sobre sus hombros. 

Un día 
los caballos vivirán en las tabernas 
y las hormigas furiosas 
atacarán los cielos amarillos que se refugian en los ojos de las vacas. 

Otro día 
veremos la resurrección de las mariposas disecadas 
y aún andando por un paisaje de esponjas grises y barcos mudos 
veremos brillar nuestro anillo y manar rosas de nuestra lengua. 
¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta! 
A los que guardan todavía huellas de zarpa y aguacero, 
a aquel muchacho que llora porque no sabe la invención del puente 
o a aquel muerto que ya no tiene más que la cabeza y un zapato, 
hay que llevarlos al muro donde iguanas y sierpes esperan, 
donde espera la dentadura del oso, 
donde espera la mano momificada del niño 
y la piel del camello se eriza con un violento escalofrío azul. 

No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie. 
No duerme nadie. 
Pero si alguien cierra los ojos, 
¡azotadlo, hijos míos, azotadlo! 

Haya un panorama de ojos abiertos 
y amargas llagas encendidas. 

No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie. 
Ya lo he dicho. 
No duerme nadie. 
Pero si alguien tiene por la noche exceso de musgo en las sienes, 
abrid los escotillones para que vea bajo la luna 
las copas falsas, el veneno y la calavera de los teatros.







José Martí (Cuba)



Cultivo Una Rosa Blanca



Cultivo una rosa blanca
en junio como en enero
para el amigo sincero
que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca
el corazón con que vivo,
cardo ni ortiga cultivo;
cultivo la rosa blanca.






Mario Benedetti (Uruguay)



No Te Salves



No te quedes inmóvil 
al borde del camino 
no congeles el júbilo 
no quieras con desgana 
no te salves ahora 
ni nunca 
no te salves 
no te llenes de calma 
no reserves del mundo 
sólo un rincón tranquilo 
no dejes caer los párpados 
pesados como juicios 
no te quedes sin labios 
no te duermas sin sueño 
no te pienses sin sangre 
no te juzgues sin tiempo 

pero si 
pese a todo 
no puedes evitarlo 
y congelas el júbilo 
y quieres con desgana 
y te salvas ahora 
y te llenas de calma 
y reservas del mundo 
sólo un rincón tranquilo 
y dejas caer los párpados 
pesados como juicios 
y te secas sin labios 
y te duermes sin sueño 
y te piensas sin sangre 
y te juzgas sin tiempo 
y te quedas inmóvil 
al borde del camino 
y te salvas 
entonces 
no te quedes conmigo.





O que foi feito da vida, O que foi feito do amor

Elis Regina e Milton Nascimento - 1978






O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida,
O que foi feito do amor
Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade,
Falo assim por saber
Se muito vale o já feito,
Mas vale o que será
Mas vale o que será
E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza,
Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer
Nós iremos crescer,
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz
Alertem todos alarmas
Que o homem que eu era voltou
A tribo toda reunida,
Ração dividida ao sol
E nossa vera cruz,
Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par
Quando o cansaço era rio
E rio qualquer dava pé
E a cabeça rolava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz
Hoje essa vida só cabe
Na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe,
Abelha fazendo o seu mel
No canto que criei,
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós