sexta-feira, 15 de junho de 2012

o Seu Corpo na Sexta-feira

Seu corpo - Roberto Carlos


Não sou o diabo

XXXIV (3ª) - No se puede hacer la revolución sin las mujeres

caminhamos para a morte que nos espera vazia
baitasar
Os soldados sentinelas se preparavam para o rancho da manhã, como as devassas se retiravam das luzes do dia, cansadas pela madrugada de prontidão. A claridade não nos faz bem, preferimos a luz dos abajures que nos transformam em fantasias fantásticas. Ser puta é um veneno inoculado que me destrói e ergue meu jeito de terminar a vida, sem sonhos de mudar o mundo, ele é como é: violador. Se ficares chocada e sentes formigar uma desinteressada raiva, não fiques sentada me ouvindo, sai para o sol e deixa tua outra fúria virgem acomodada, em algum banco da praça pública, observa a naturalidade das crianças, como elas enfiam o dedo no nariz e levam meleca à boca, nem olham para os lados, com medo da tua vigília, não temos nenhuma importância, melhor assim, não achas? Não sou o diabo, nem ele se mexe em mim. Apenas caminho para a morte que me espera vazia, sem nada, por que antecipá-la? medo do tédio? ou do vazio da alma?
Os horários e as rotinas se acomodavam no leito do rio. A vida seguia seu curso, água para uns e vinhos para outros. Guarnição na superfície, guarnição no pântano. Gente destemida de morrer em silêncio, pelas razões do comando, calados ou atirando.
Naquele dia, receberam ordens de armamento com o cabo da guarda. Todos se olharam surpreendidos
—        Armados na embaixada?
—        São as novas ordens. — a desconfiança quando é confiada se parece com fofoca, macumbeiro vira feiticeiro, covarde vira valente, soldado vira polícia.
O visto é lembrado pelas aparências de quem faz, não pelas suas intenções. Vinagre não se mistura com azeite. O pântano é o pântano.
A meninada das bananas se reúne do outro lado do portão para admirar a coreografia que mistura a invasão branca, espanhola e portuguesa, sobre índios e mestiços, cholos de cabeças baixas. Haverá o dia em que o fogo das putas acenderá as espinhas ósseas e os manterá erguidos perto da claridade. Então, será a vez da morte de qualquer raça recuar. Irem foder com a paciência das gentes humildes em outros sítios.
O tenente dá início a ronda entediada, leva no rastro, pelo prédio da embaixada, o sargento e o cabo Caburé. Encontram o cadeado do portal sul de acesso enferrujado e travado
—        Sargento!
—        Sim, senhor tenente!
—        Esse cadeado precisa ser trocado.
—        Senhor, será providenciado, senhor. — o sargento desvia seu olhar militar para o cabo
—        Cabo!
—        Já entendi, senhor!
Continuam a inspeção matinal. Naquelas terras ensolaradas essa inspeção diária é o que mais se aproxima de um movimento militar de superfície
—        Sargento!
—        Sim, senhor tenente!
—        Os banheiros do alojamento são uma sujeira!
—        Cabo!
—        Soldado Moisés! — o soldado surge entre as camas do alojamento
—        Sim, cabo!
—        Esses banheiros precisam de limpeza!
—        Concordo, cabo! — o final da linha de comando faz continência de respeito, o cabo gira meia-volta e grita com o soldado às suas costas
—        Soldado Moisés! Os banheiros...
—        Senhor, o que eu tenho com isso?
—        Precisam de limpeza... ordens do sargento!
—        Merda...
—        Algum verme disse alguma coisa?
—        Cabo, verme indo limpar os banheiros! — o cabo fez continência de respeito ao sargento que fez continência de respeito ao tenente.
—        Ai meu dente ai meu dente! — acordo do torpor divino das lembranças que invento porque estavam esquecidas, meu dente dói. Resmungo a dor que doía do mesmo jeito quando minha irmã Blanca cantava para a dor passar. A dor ficava aos bagaços no seu colo. Quantas dores descarregaram no seu regaço desafiando espíritos e hipócritas? Não existem príncipes perfeitos ou fuzil covarde ou leitores ingênuos
—        Ai meu dente ai meu dente — esse sofrimento deve espremer as imundícies do corpo, me dou a ele para salvar mais espíritos e hipócritas, sem moedas, sem elogios, escondida, em silêncio, caminhando de um lado a outro, sozinha, abandonada, depois recostada, como se fosse uma trégua, uma súplica muda no sofá vermelho.
O soldado Moisés não mede palavras, ele morde suas ordens de serviços, contrata índias para as suas tarefas, a preço de bananas. Houve quem afirmou, sem medo de ter qualquer dúvida, que o soldado inventou a acomodação e o sossego, diz que ajuda a naturalidade
—        As miseráveis só entendem de servir, fazem suas contas com o suficiente para comer. — sua tentativa de acalmar a consciência
Mas era na vez de negociar a empreitada que o soldado se mostrava na sua fúria de colonizador, com seu dialeto próprio, mistura sua língua com o idioma das índias
—        Não... é muito!
—        ¿Que te passa, soldado?
—        El pago en dinero está alto para lavar os banheiros.
—        ¡No es justo!
—        Bueno, en tal caso, voy a recordar al sargento  que es tiempo de cambiar a las mestizas que haces los servicios domésticos.
—        ¡Hijo-de-puta!
—        Vamos com isso! Que los cuartos de baño precisam ser limpos.
—        Hijo...
Mais uma manhã de rotina e os resmungos de sempre. É o costume mandar quem pode e obedecer quem precisa. Alguns precisavam obedecer mais do que outros, não bastava saber que eram necessários para os banheiros e a ordem unida em marcha, era preciso zelar pelo silêncio das suas consciências, todos eram protegidos pela sua poderosa fé na camaradagem
—        E o cabo Caburé?
—        Está de folga, coronel!
—        Preciso de um corte no cabelo.
O coronel já conhecia a resposta, mas precisava dar na vista de querer saber o que já sabia. Coisas do submundo das aparências, mas elas não enganam apenas quem se deixa iludir, formam as ideias de como devemos morrer. Assim, o coronel elegeu para si morrer salvando as aparências do seu posto das entranhas humanas, não agia como um semeador de medos, sensações vagas de ameaça, gritos, pelotões de fuzilamentos, sempre contando com o silêncio divino. Até ser chamado para empunhar sua espada. Desembainhada e manchada de sangue. Jamais pensou ter que desembalar sua espada. No início, até se preocupava com sua limpeza e brilho, mas com o tempo percebeu que nunca limparia o suficiente. Assim, como o asfalto ao sol, essas preocupações foram derretidas, impermeabilizadas de qualquer consciência, ninguém ensina o outro a ter consciência
—        Quando o cabo retornar da desocupação me avise, quero fazer a manutenção do cabelo.
—        Sim, senhor.
Desvia a atenção do sargento para atender a embaixadora
—        Sim, senhora.
O sargento caminha alguns passos sem afastar a imaginação dos ouvidos, se mantém em distância segura e faz jeito de estar preocupado com alguma outra coisa, mas tem na cara a assombração da desconfiança humana. Pensa que é fácil inventar o que os dois conversam
—        Querido, estou muito só.
—        Sim, senhora.
—        Preciso de você.
—        Já vou, senhora.
—        Não aguento mais.
—        Tenha calma, senhora.
O sargento reconhecia que era uma mulher bem comportada. Discreta. Uma embaixatriz perfeita para essa gente de milho e bananas. Nativa das elites. O coronel deveria acreditar em bananas se achava que as suas respostas lacônicas impediam o sargento de saber aquilo que a mulher lhe dizia ao ouvido. Cochichos obscenos. O subalterno tinha as suas desconfianças que as coisas verdadeiras aconteciam dentro das nossas cabeças, a cruz era carregar tudo em silêncio. O sargento ficava calado, mas eu preferi lançar tudo pela boca do lápis. Além do mais, o papel receita tudo, para o bem ou para o mal.
As pessoas gostam de falar, eu gosto de escrever, mesmo mastigando demais as palavras. O silêncio deste diálogo me faz bem. A única coisa que me faz perder a resignação é ficar na frente da folha em branco, ter nas mãos um toco de lápis sem ponta, bagana gasta ou quebrada, e uma ideia pronta, imaginada de repente ou depois de muita briga com as ideias ou com a falta delas. Olho para os cantos e tetos procurando um apontador de tocos de lápis. Não encontro ou não tenho, nestas horas, não importa mais, profundamente enervada, agarro o toco e vou desfiando pouco a pouco com os dentes a sua ponta. Fico com as nervuras entre as minhas pinças brancas, como se acabasse de desfiar uma carcaça velha. Urubu carniceiro. Passo a unha pelos vãos em vão. Olho novamente para o papel, agora com um toco desfiado a dentadas, tudo inútil. A magia já se foi. Rezo de ódio contra a pobreza do lápis e essas ideias imaginativas com o gosto da morte.
E gosto de morte é o que não falta na montanha de milho. Os mestiços sabem que nunca voltam os mesmos depois que subiram a montanha. É como se ela cobrasse uma vida de sacrifício para continuar grávida de milho. O caso das bananas é recente, ainda não dá para saber da montanha a cota de sacrifícios em vidas por safra.
Todas as manhãs antes da subida, cada um e uma, se dirigiam a montanha com uma mesma prece, aprendida de velho pra criança, desde sempre
—        Senhora de terra viva, grávida de milho e banana, permita que eu volte para minha família, mas se for seu desejo que eu fique em suas entranhas, assim seja cumprido. Amém.
Para mim sempre foi um mistério que hombres y mujeres de milho pudessem acreditar numa mãe que exige tantos sacrifícios. É desconcertante esse enigma de vida e morte. E, mais misteriosa, ainda, a candura mística da vida no entorno da montanha. É maravilhosa e assustadora a submissão aos seus desígnios e umidades
—        Agora, coronel!
        Sim, senhora. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Comunistas desgraçados!

Becos sem saída - Comunistas desgraçados


V
baitasar
As reuniões na família continuavam. Já lá se ia dezembro pelo meio. Haviam de encontrar uma saída de dignidade. A barriga da guria já se avolumava, não tinha mais jeito de disfarçar. Já ia pelo tamanho da Memória. As mamas é que não se avolumavam como as pomas da mãe. Memória que tinha predicados de formosura não permitia que ninguém se referisse ao tamanho dos seus peitos. Eles haviam nutrido de vida aos bem pequeninos e alimentado muitos filhos. Ogum concordava, mas impunha como condição que ela não fizesse nenhuma referência a exuberância do seu umbigo. Ele se avolumava sempre que a mulher criava broto de gente na barriga. Acontecia que esses assuntos de homem e mulher tinham perdido em importância. Seu neto não ia nascer sem pai nas vistas de Deus. Ogum lembrou que conheceu um capitão de navio, numa dessas suas andanças
—        Vou procurar o Capitão-boca-mole.
E sem mais delonga se foi na procura do Capitão-boca-mole. O procurado foi achado ancorado na taberna, junto ao cais do porto, desembarcado. Marinheiro em terra se encontra em boteco de beira de rio, bebendo, agarrado à mulher e brigando, tudo junto. O tal marujo da boca mole se dizia diferente, jurava que é sangue direto do Capitão Hook. O gancho que tem no lugar da mão é sina de família. Acidente com baleia. O animal abocanhou o pedaço num descuido do Capitão, que recuperado do susto laçou o bicho e levou a nado para as terras da praia até que os dois encalharam. Ali ficou, sentado na areia, esperando que aquela senhora das águas lhe devolvesse sua parte. Não houve jeito de convencimento. Esperou pelo desfecho esperado e fez abertura da morta, num corte de ponta a ponta. Parece que a distinta já havia vomitado as carnes do Capitão no mar aberto. Nada foi encontrado que não devesse estar por dentro da infortunada. O capitão chegou a pensar em erro de identificação, talvez, fosse outro o animal culpado pela sua devoração. Mas o que estava feito, estava feito. Depois da desistência de encontrar o seu pedaço de mão o capitão mandou fazer um gancho que lhe ocupasse o espaço da carne desaparecida e tivesse serventia de ataque. Assim, o Capitão-boca-mole dos amigos é conhecido como Capitão Gancho dos inimigos
—        Não posso fazer casamento em terra firme, Ogum.
—        Precisa do quê?
—        Um barco e água.
—        Onde vou arranjar barco?
—        Na água sou comandante, mas em terra sou galego...
—        Deixa pra mim.
Ogum voltou para casa com o galego da boca-mole e gancho no lugar da mão. Reuniu a família e colocou todos na carroça, estava decidido que o pedido desta lei de plantação perdeu o sentido. A sexta-feira de lua cheia iria abastar em histórias. Tocou o Ícaro e gritou
—        Vamos fazer o casório da princesa e do príncipe comilão!
Abracadabra. O cavalo estragado pela preguiça foi transformado num puro sangue da realeza, puxou a carga aos trancos e barrancos. Conforme ia desfilando a carroça tomava contornos de um coche suntuoso. Não haveria uma festa a que todos compareceriam com suas melhores roupas, mas Ogum e Memória se preparavam para entregar sua princesinha com todo o requinte do cerimonial. Melhor, a menina teria um homem sem esposas, um marido de primeira mão.
Imaginando sua vida junto do futuro esposo, Cariciosa pensou pedir à mãe que lhe ensinasse a ser justa, para o convívio em seu lar fosse bom para todos. Achou melhor, não. Era mais certo dirigir seu pedido a Xangô. Lembrou os dias de menina com o pai. O calor do corpo de Virgílio e a delicadeza das suas mãos ainda lhe acompanhavam. O vento no rosto e a mão segura do Manualdo a trouxeram para a carroça. A carruagem capenga levava a sua carga para o lago da praça, com chafariz e os barcos pedalinhos
—        O que é isto?
Perguntou o capitão-boca-mole, erguendo seu boné de lona num só golpe pelo gancho
—        A água e o barco que precisamos para as formalidades festivas.
Todos desceram do coche - quem não pode que não se meta - é o lema do Ogum, determinado a finalizar aquele casa-não-casa
—        Os guris se ficam, aqui, desembarcados em terra.
—        Mãe, a gente quer entrar junto...
—        Ficam cuidando dos gêmeos miúdos.
A decisão estava tomada. Família não é democracia. Supimpa veio no rigor da farda militar. Acabou de sair de prontidão no quartel. Todo de azul. Sentou praça naquele ano. Concordou em ficar de sentinela. Afinal, estava aprendendo o cacoete do posto. Assim, uns ficaram na margem e outros foram lago adentro pedalando. Os miúdos ameaçavam chorar
—        Calem a boca, não façam barulho.
Era o Supimpa, já arrependido da ideia. Olhava para os lados, esperando o desembarque dos milicos, cassetete nas mãos e muita vontade de seguir as ordens do alto
—        Prendam esses comunistas baderneiros!
Supimpa procurava com o olhar nas praias do chafariz, não viu os jipes e tanques inimigos de desembarque
—        Calem a boca. — gritou para os irmãos
—        Por quê?
—        A polícia...
—        Estão todos bêbados de alívio.
Lamparina falava aos cochichos. Sempre foi mais calado, mas havia resolvido aliviar o mais velho. Já vai longe o tempo em que cuidava das galinhas enquanto o irmão saia para jogar bola nos campos de lama da vila
—        Por quê?
—        Tu já tem novo General-Presidente.
—        Trocou?
—        Ainda não, só em março do ano que vem, um tal general Figueiredo...
—        Quem sabe seja o último...
—        É... quem sabe?
O mais novo desvendou a razão da prontidão no quartel do mais velho. Lamparina descobria que estava cansado daquilo tudo. O irmão fazia obediência de prontidão e não sabia da razão. O mais novo parecia querer fazer confissão, era a boca falando com o coração cheio de... não sabe muito bem o que
—        Irmão, to indo embora.
—        Ainda nem terminou o casório.
—        Não é daqui, quero sair dessa vida de vileiro.
—        Fazê o quê?
—        Vou catar ouro.
—        Vai terminar catando lixo.
Pobre sina de pobre, sempre que quer mudança na vida aparece alguém desconfiado e decreta que não vai dar certo e vai ficar pior, não tem jeito... pobre tem utilidade de existência para enricar os bem de vida
—        Vou catar ouro. — onde? num lugar longe? tantas perguntas querendo sair garganta afora
—        Serra Pelada... — o mais velho puxa pela memória e não encontra nome de lugar conhecido. Pensa que o outro vai se enfiar em algum cafundó e não se acha mais nem no caminho de volta, nunca ouviu falar
—        Ta tudo nas escondidas, mas tem ouro por lá. — onde fica isso? quer insistir no ponto de fazer o outro desistir
—        Na Serra dos Carajás... — é aqui perto? é perto da onde? chega de que jeito?
—        No estado do Pará, na Amazônia! — grita por espanto da lonjura, o guri vai... e se chegar, não volta mais. Todos no lago se voltam. Os dois calam, mas recomeçam os sussurros quando a precaução de zelo mais se parece com brincadeira de moleque do que uma ameaça que existe pelos fatos
—        Tá de brincadeira, como você vai?
—        Carona... ou caminhando, sei lá. — e a mãe que não sabe
—        Mando carta...
Ficam em silêncio, um ao lado do outro. Supimpa enfia as mãos no bolso da calça de milico. Enxerga o sofrimento da mãe, mas não tem na vontade jeito de alterar o decisório do irmão, que cada um cumpra a sua sina. Às vezes partimos sem nunca sair ou ficamos sem nunca ficar de verdade. Ele também tem palavreado de importância sobre o seu futuro
—        Também tenho decisão tomada. — vai fazer o quê? se não é coisa ruim que o irmão faça com vontade
—        Aceitei convite do Calçacurta... — agora que ficou na dívida de conhecimento foi o caçador de ouro, quem? não sabia se seria de confiança
—        Aquele delegado da polícia, lá do redor da vila. — por que polícia? tanta coisa pra sair fazendo, achou perigoso, mas a decisão tomada estava tomada, e o quartel? é carreira bonita
—        Termino esse ano...
O mais novo se ajeita e finca o olhar para o chão
—        Cuidado...
No meio do tanque irregular de jardim, o Capitão-boca-mole, legítimo representante da dinastia bóia-fria das águas, se ergue e pede a todos que fiquem em pé. Todos se levantam com dificuldades de equilíbrio bêbado. Maria Cariciosa, com as mãos a serenar a barriga, reclama das náuseas, acha que vai vomitar
—        Respira fundo, amorzinho.
O único que parece não se incomodar com aquele balanço das águas é o boca-mole, acostumado com o embalo de ondas maiores
—        Estamos aqui reunidos para casar esses dois jovens amantes...
—        Corta o discurso, boca-mole... as alianças.
—        Quem carrega? — todos se olham, não sabem, nem um nem outro
—        Nem eu!
Iniciam a caça pelas alianças. Tentam os bolsos, as bolsas e as sacolas, dentro dos sapatos. E, como em uma brincadeira de dominó, o Capitão-boca-mole se desequilibra, leva o gancho ao ar, procura alguma coisa pra se enganchar e derruba a moça, a mais próxima. Cai agarrado ao vestido da noiva que empurra o noivo que puxa a sogra que se agarra ao pescoço de Ogum que se atraca no vazio do buraco. Afundam até os joelhos
—        Comunistas desgraçados!

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Leia também:
08 - Estou carregada...

10 - Pega essa vela, negão

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Les fleurs du mal

Charles Baudelaire

III - Élévation




III
Élévation

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delá les confins des sphéres étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins!

Celui dont pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!


III
Elevação


Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.

Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!