contos e poesia no butekudu baitasar. a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre! li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
sábado, 16 de junho de 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Não sou o diabo
XXXIV (3ª) - No se puede hacer la revolución sin las mujeres
caminhamos para a morte que nos espera vazia
baitasar
Os soldados sentinelas se preparavam para o rancho da manhã, como as
devassas se retiravam das luzes do dia, cansadas pela madrugada de prontidão. A
claridade não nos faz bem, preferimos a luz dos abajures que nos transformam em
fantasias fantásticas. Ser puta é um veneno inoculado que me destrói e ergue
meu jeito de terminar a vida, sem sonhos de mudar o mundo, ele é como é:
violador. Se ficares chocada e sentes formigar uma desinteressada raiva, não
fiques sentada me ouvindo, sai para o sol e deixa tua outra fúria virgem
acomodada, em algum banco da praça pública, observa a naturalidade das
crianças, como elas enfiam o dedo no nariz e levam meleca à boca, nem olham
para os lados, com medo da tua vigília, não temos nenhuma importância, melhor
assim, não achas? Não sou o diabo, nem ele se mexe em mim. Apenas caminho para
a morte que me espera vazia, sem nada, por que antecipá-la? medo do tédio? ou
do vazio da alma?
Os horários e as rotinas se acomodavam no leito do rio. A vida seguia seu
curso, água para uns e vinhos para outros. Guarnição na superfície, guarnição no
pântano. Gente destemida de morrer em silêncio, pelas razões do comando, calados
ou atirando.
Naquele dia, receberam ordens de armamento
com o cabo da guarda. Todos se olharam surpreendidos
— Armados
na embaixada?
— São
as novas ordens. — a desconfiança quando é confiada se parece com fofoca,
macumbeiro vira feiticeiro, covarde vira valente, soldado vira polícia.
O visto é lembrado pelas aparências de quem faz, não pelas suas
intenções. Vinagre não se mistura com azeite. O pântano é o pântano.
A meninada das bananas se reúne do outro lado do portão para admirar a
coreografia que mistura a invasão branca, espanhola e portuguesa, sobre índios
e mestiços, cholos de cabeças baixas.
Haverá o dia em que o fogo das putas acenderá as espinhas ósseas e os manterá
erguidos perto da claridade. Então, será a vez da morte de qualquer raça
recuar. Irem foder com a paciência das gentes humildes em outros sítios.
O tenente dá início a ronda entediada, leva no rastro, pelo prédio da
embaixada, o sargento e o cabo Caburé. Encontram o cadeado do portal sul de
acesso enferrujado e travado
— Sargento!
— Sim, senhor tenente!
— Esse cadeado precisa ser
trocado.
— Senhor, será providenciado,
senhor. — o sargento desvia seu olhar militar para o cabo
— Cabo!
— Já entendi, senhor!
Continuam a inspeção matinal. Naquelas terras ensolaradas essa inspeção
diária é o que mais se aproxima de um movimento militar de superfície
— Sargento!
— Sim, senhor tenente!
— Os banheiros do alojamento são
uma sujeira!
— Cabo!
— Soldado Moisés! — o soldado
surge entre as camas do alojamento
— Sim, cabo!
— Esses banheiros precisam de
limpeza!
— Concordo, cabo! — o final
da linha de comando faz continência de respeito, o cabo gira meia-volta e grita
com o soldado às suas costas
— Soldado Moisés! Os
banheiros...
— Senhor, o que eu tenho com
isso?
— Precisam de limpeza...
ordens do sargento!
— Merda...
— Algum verme disse alguma
coisa?
— Cabo, verme indo limpar os
banheiros! — o cabo fez continência de respeito ao sargento que fez continência
de respeito ao tenente.
— Ai meu dente ai meu dente!
— acordo do torpor divino das lembranças que invento porque estavam esquecidas,
meu dente dói. Resmungo a dor que doía do mesmo jeito quando minha irmã Blanca
cantava para a dor passar. A dor ficava aos bagaços no seu colo. Quantas dores
descarregaram no seu regaço desafiando espíritos e hipócritas? Não existem
príncipes perfeitos ou fuzil covarde ou leitores ingênuos
— Ai meu dente ai meu dente —
esse sofrimento deve espremer as imundícies do corpo, me dou a ele para salvar
mais espíritos e hipócritas, sem moedas, sem elogios, escondida, em silêncio,
caminhando de um lado a outro, sozinha, abandonada, depois recostada, como se
fosse uma trégua, uma súplica muda no sofá vermelho.
O soldado Moisés não mede palavras, ele morde suas ordens de serviços,
contrata índias para as suas tarefas, a preço de bananas. Houve quem afirmou,
sem medo de ter qualquer dúvida, que o soldado inventou a acomodação e o
sossego, diz que ajuda a naturalidade
— As miseráveis só entendem
de servir, fazem suas contas com o suficiente para comer. — sua tentativa de
acalmar a consciência
Mas era na vez de negociar a empreitada que o soldado se mostrava na sua
fúria de colonizador, com seu dialeto próprio, mistura sua língua com o idioma
das índias
— Não... é muito!
— ¿Que te passa, soldado?
— El pago en dinero está alto
para lavar os banheiros.
— ¡No es justo!
— Bueno, en tal caso, voy a
recordar al sargento que es tiempo de
cambiar a las mestizas que haces los servicios domésticos.
— ¡Hijo-de-puta!
— Vamos com isso! Que los
cuartos de baño precisam ser limpos.
— Hijo...
Mais uma manhã de rotina e os resmungos de sempre. É o costume mandar
quem pode e obedecer quem precisa. Alguns precisavam obedecer mais do que
outros, não bastava saber que eram necessários para os banheiros e a ordem
unida em marcha, era preciso zelar pelo silêncio das suas consciências, todos eram
protegidos pela sua poderosa fé na camaradagem
— E o cabo Caburé?
— Está de folga, coronel!
— Preciso de um corte no
cabelo.
O coronel já conhecia a resposta, mas precisava dar na vista de querer
saber o que já sabia. Coisas do submundo das aparências, mas elas não enganam
apenas quem se deixa iludir, formam as ideias de como devemos morrer. Assim, o
coronel elegeu para si morrer salvando as aparências do seu posto das entranhas
humanas, não agia como um semeador de medos, sensações vagas de ameaça, gritos,
pelotões de fuzilamentos, sempre contando com o silêncio divino. Até ser
chamado para empunhar sua espada. Desembainhada e manchada de sangue. Jamais
pensou ter que desembalar sua espada. No início, até se preocupava com sua
limpeza e brilho, mas com o tempo percebeu que nunca limparia o suficiente.
Assim, como o asfalto ao sol, essas preocupações foram derretidas, impermeabilizadas
de qualquer consciência, ninguém ensina o outro a ter consciência
— Quando o cabo retornar da
desocupação me avise, quero fazer a manutenção do cabelo.
— Sim, senhor.
Desvia a atenção do sargento para atender a embaixadora
— Sim, senhora.
O sargento caminha alguns passos sem afastar a imaginação dos ouvidos, se
mantém em distância segura e faz jeito de estar preocupado com alguma outra
coisa, mas tem na cara a assombração da desconfiança humana. Pensa que é fácil
inventar o que os dois conversam
— Querido, estou muito só.
— Sim, senhora.
— Preciso de você.
— Já vou, senhora.
— Não aguento mais.
— Tenha calma, senhora.
O sargento reconhecia que era uma mulher bem comportada. Discreta. Uma
embaixatriz perfeita para essa gente de milho e bananas. Nativa das elites. O
coronel deveria acreditar em bananas se achava que as suas respostas lacônicas
impediam o sargento de saber aquilo que a mulher lhe dizia ao ouvido. Cochichos
obscenos. O subalterno tinha as suas desconfianças que as coisas verdadeiras
aconteciam dentro das nossas cabeças, a cruz era carregar tudo em silêncio. O
sargento ficava calado, mas eu preferi lançar tudo pela boca do lápis. Além do
mais, o papel receita tudo, para o bem ou para o mal.
As pessoas gostam de falar, eu gosto de escrever, mesmo mastigando demais
as palavras. O silêncio deste diálogo me faz bem. A única coisa que me faz
perder a resignação é ficar na frente da folha em branco, ter nas mãos um toco
de lápis sem ponta, bagana gasta ou quebrada, e uma ideia pronta, imaginada de
repente ou depois de muita briga com as ideias ou com a falta delas. Olho para
os cantos e tetos procurando um apontador de tocos de lápis. Não encontro ou
não tenho, nestas horas, não importa mais, profundamente enervada, agarro o
toco e vou desfiando pouco a pouco com os dentes a sua ponta. Fico com as
nervuras entre as minhas pinças brancas, como se acabasse de desfiar uma
carcaça velha. Urubu carniceiro. Passo a unha pelos vãos em vão. Olho novamente
para o papel, agora com um toco desfiado a dentadas, tudo inútil. A magia já se
foi. Rezo de ódio contra a pobreza do lápis e essas ideias imaginativas com o
gosto da morte.
E gosto de morte é o que não falta na montanha de milho. Os mestiços
sabem que nunca voltam os mesmos depois que subiram a montanha. É como se ela
cobrasse uma vida de sacrifício para continuar grávida de milho. O caso das
bananas é recente, ainda não dá para saber da montanha a cota de sacrifícios em
vidas por safra.
Todas as manhãs antes da subida, cada um e uma, se dirigiam a montanha
com uma mesma prece, aprendida de velho pra criança, desde sempre
— Senhora de terra viva,
grávida de milho e banana, permita que eu volte para minha família, mas se for
seu desejo que eu fique em suas entranhas, assim seja cumprido. Amém.
Para mim sempre foi um mistério que hombres
y mujeres de milho pudessem acreditar
numa mãe que exige tantos sacrifícios. É desconcertante esse enigma de vida e
morte. E, mais misteriosa, ainda, a candura mística da vida no entorno da
montanha. É maravilhosa e assustadora a submissão aos seus desígnios e umidades
— Agora, coronel!
— Sim, senhora. quinta-feira, 14 de junho de 2012
Comunistas desgraçados!
Becos sem saída - Comunistas desgraçados
V
baitasar
As reuniões na família continuavam. Já lá se ia dezembro pelo meio. Haviam de encontrar uma saída de
dignidade. A barriga da guria já se avolumava, não tinha mais jeito de
disfarçar. Já ia pelo tamanho da Memória. As mamas é que não se avolumavam como
as pomas da mãe. Memória que tinha predicados de formosura não permitia que
ninguém se referisse ao tamanho dos seus peitos. Eles haviam nutrido de vida
aos bem pequeninos e alimentado muitos filhos. Ogum concordava, mas impunha
como condição que ela não fizesse nenhuma referência a exuberância do seu
umbigo. Ele se avolumava sempre que a mulher criava broto de gente na barriga.
Acontecia que esses assuntos de homem e mulher tinham perdido em importância. Seu
neto não ia nascer sem pai nas vistas de Deus. Ogum lembrou que conheceu um
capitão de navio, numa dessas suas andanças
— Vou procurar o
Capitão-boca-mole.
E sem mais delonga se foi na procura do Capitão-boca-mole. O procurado
foi achado ancorado na taberna, junto ao cais do porto, desembarcado.
Marinheiro em terra se encontra em boteco de beira de rio, bebendo, agarrado à
mulher e brigando, tudo junto. O tal marujo da boca mole se dizia diferente,
jurava que é sangue direto do Capitão Hook. O gancho que tem no lugar da mão é
sina de família. Acidente com baleia. O animal abocanhou o pedaço num descuido
do Capitão, que recuperado do susto laçou o bicho e levou a nado para as terras
da praia até que os dois encalharam. Ali ficou, sentado na areia, esperando que
aquela senhora das águas lhe devolvesse sua parte. Não houve jeito de
convencimento. Esperou pelo desfecho esperado e fez abertura da morta, num
corte de ponta a ponta. Parece que a distinta já havia vomitado as carnes do
Capitão no mar aberto. Nada foi encontrado que não devesse estar por dentro da
infortunada. O capitão chegou a pensar em erro de identificação, talvez, fosse
outro o animal culpado pela sua devoração. Mas o que estava feito, estava
feito. Depois da desistência de encontrar o seu pedaço de mão o capitão mandou
fazer um gancho que lhe ocupasse o espaço da carne desaparecida e tivesse
serventia de ataque. Assim, o Capitão-boca-mole dos amigos é conhecido como
Capitão Gancho dos inimigos
— Não posso fazer casamento
em terra firme, Ogum.
— Precisa do quê?
— Um barco e água.
— Onde vou arranjar barco?
— Na água sou comandante, mas
em terra sou galego...
— Deixa pra mim.
Ogum voltou para casa com o galego da boca-mole e gancho no lugar da mão.
Reuniu a família e colocou todos na carroça, estava decidido que o pedido desta
lei de plantação perdeu o sentido. A sexta-feira de lua cheia iria abastar em
histórias. Tocou o Ícaro e gritou
— Vamos fazer o casório da
princesa e do príncipe comilão!
Abracadabra. O cavalo estragado pela preguiça foi transformado num puro
sangue da realeza, puxou a carga aos trancos e barrancos. Conforme ia desfilando
a carroça tomava contornos de um coche suntuoso. Não haveria uma festa a que
todos compareceriam com suas melhores roupas, mas Ogum e Memória se preparavam
para entregar sua princesinha com todo o requinte do cerimonial. Melhor, a
menina teria um homem sem esposas, um marido de primeira mão.
Imaginando sua vida junto do futuro esposo, Cariciosa pensou pedir à mãe
que lhe ensinasse a ser justa, para o convívio em seu lar fosse bom para todos.
Achou melhor, não. Era mais certo dirigir seu pedido a Xangô. Lembrou os dias
de menina com o pai. O calor do corpo de Virgílio e a delicadeza das suas mãos
ainda lhe acompanhavam. O vento no rosto e a mão segura do Manualdo a trouxeram
para a carroça. A carruagem capenga levava a sua carga para o lago da praça,
com chafariz e os barcos pedalinhos
— O que é isto?
Perguntou o capitão-boca-mole, erguendo seu boné de lona num só golpe
pelo gancho
— A água e o barco que
precisamos para as formalidades festivas.
Todos desceram do coche - quem não pode que não se meta - é o lema do
Ogum, determinado a finalizar aquele casa-não-casa
— Os guris se ficam, aqui, desembarcados
em terra.
— Mãe, a gente quer entrar
junto...
— Ficam cuidando dos gêmeos
miúdos.
A decisão estava tomada. Família não é democracia. Supimpa veio no rigor
da farda militar. Acabou de sair de prontidão no quartel. Todo de azul. Sentou
praça naquele ano. Concordou em ficar de sentinela. Afinal, estava aprendendo o
cacoete do posto. Assim, uns ficaram na margem e outros foram lago adentro
pedalando. Os miúdos ameaçavam chorar
— Calem a boca, não façam barulho.
Era o Supimpa, já arrependido da ideia. Olhava para os lados, esperando o
desembarque dos milicos, cassetete nas mãos e muita vontade de seguir as ordens
do alto
— Prendam esses comunistas
baderneiros!
Supimpa procurava com o olhar nas praias do chafariz, não viu os jipes e
tanques inimigos de desembarque
— Calem a boca. — gritou para
os irmãos
— Por quê?
— A polícia...
— Estão todos bêbados de
alívio.
Lamparina falava aos cochichos. Sempre foi mais calado, mas havia
resolvido aliviar o mais velho. Já vai longe o tempo em que cuidava das
galinhas enquanto o irmão saia para jogar bola nos campos de lama da vila
— Por quê?
— Tu já tem novo General-Presidente.
— Trocou?
— Ainda não, só em março do
ano que vem, um tal general Figueiredo...
— Quem sabe seja o último...
— É... quem sabe?
O mais novo desvendou a razão da prontidão no quartel do mais velho. Lamparina
descobria que estava cansado daquilo tudo. O irmão fazia obediência de
prontidão e não sabia da razão. O mais novo parecia querer fazer confissão, era
a boca falando com o coração cheio de... não sabe muito bem o que
— Irmão, to indo embora.
— Ainda nem terminou o
casório.
— Não é daqui, quero sair
dessa vida de vileiro.
— Fazê o quê?
— Vou catar ouro.
— Vai terminar catando lixo.
Pobre sina de pobre, sempre que quer mudança na vida aparece alguém
desconfiado e decreta que não vai dar certo e vai ficar pior, não tem jeito...
pobre tem utilidade de existência para enricar os bem de vida
— Vou catar ouro. — onde? num
lugar longe? tantas perguntas querendo sair garganta afora
— Serra Pelada... — o mais velho
puxa pela memória e não encontra nome de lugar conhecido. Pensa que o outro vai
se enfiar em algum cafundó e não se acha mais nem no caminho de volta, nunca
ouviu falar
— Ta tudo nas escondidas, mas
tem ouro por lá. — onde fica isso? quer insistir no ponto de fazer o outro
desistir
— Na Serra dos Carajás... — é
aqui perto? é perto da onde? chega de que jeito?
— No estado do Pará, na
Amazônia! — grita por espanto da lonjura, o guri vai... e se chegar, não volta
mais. Todos no lago se voltam. Os dois calam, mas recomeçam os sussurros quando
a precaução de zelo mais se parece com brincadeira de moleque do que uma ameaça
que existe pelos fatos
— Tá de brincadeira, como
você vai?
— Carona... ou caminhando,
sei lá. — e a mãe que não sabe
— Mando carta...
Ficam em silêncio, um ao lado do outro. Supimpa enfia as mãos no bolso da
calça de milico. Enxerga o sofrimento da mãe, mas não tem na vontade jeito de
alterar o decisório do irmão, que cada um cumpra a sua sina. Às vezes partimos
sem nunca sair ou ficamos sem nunca ficar de verdade. Ele também tem palavreado
de importância sobre o seu futuro
— Também tenho decisão tomada.
— vai fazer o quê? se não é coisa ruim que o irmão faça com vontade
— Aceitei convite do Calçacurta...
— agora que ficou na dívida de conhecimento foi o caçador de ouro, quem? não sabia
se seria de confiança
— Aquele delegado da polícia,
lá do redor da vila. — por que polícia? tanta coisa pra sair fazendo, achou
perigoso, mas a decisão tomada estava tomada, e o quartel? é carreira bonita
— Termino esse ano...
O mais novo se ajeita e finca o olhar para o chão
— Cuidado...
No meio do tanque irregular de jardim, o Capitão-boca-mole, legítimo representante
da dinastia bóia-fria das águas, se ergue e pede a todos que fiquem em pé. Todos se levantam
com dificuldades de equilíbrio bêbado. Maria Cariciosa, com as mãos a serenar a
barriga, reclama das náuseas, acha que vai vomitar
— Respira fundo, amorzinho.
O único que parece não se incomodar com aquele balanço das águas é o
boca-mole, acostumado com o embalo de ondas maiores
— Estamos aqui reunidos para
casar esses dois jovens amantes...
— Corta o discurso, boca-mole...
as alianças.
— Quem carrega? — todos se
olham, não sabem, nem um nem outro
— Nem eu!
Iniciam a caça pelas alianças. Tentam os bolsos, as bolsas e as sacolas,
dentro dos sapatos. E, como em uma brincadeira de dominó, o Capitão-boca-mole se
desequilibra, leva o gancho ao ar, procura alguma coisa pra se enganchar e
derruba a moça, a mais próxima. Cai agarrado ao vestido da noiva que empurra o
noivo que puxa a sogra que se agarra ao pescoço de Ogum que se atraca no vazio
do buraco. Afundam até os joelhos
— Comunistas desgraçados!
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10 - Pega essa vela, negão
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
Les fleurs du mal
Charles Baudelaire
III - Élévation
III
Élévation
Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delá les confins des sphéres étoilées,
Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.
Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.
Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins!
Celui dont pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!
III
Elevação
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.
Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.
Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;
Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!
III - Élévation
III
Élévation
Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delá les confins des sphéres étoilées,
Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.
Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.
Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins!
Celui dont pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!
III
Elevação
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.
Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.
Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;
Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!
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