quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Nunca vas a comprender

Rita Payés 

- Nunca vas a comprender

Nunca vas a comprender
Que yo te quise
Nunca vas a comprender
Cómo lo hice
Tú me hablabas del amor
De eso tan bello
Te faltó por demostrar
Que eras capaz de vivir aquello
Pero no
Te olvides por favor que
Sigo aquí ya no quiero sufrir más por ti
Mi amor
Con el tiempo decidí
Que es un recuerdo
Todo aquello que viví
Y me mató por dentro





Elisabeth Roma Torres: Guitarra
Rita Payés Roma: Trombó, guitarra i veu.
Horacio Fumero: Contrabaix
Juan R. Berbín: Percusió, mescla i màster.




F#7M    B9 
Nunca vas a comprender 

        C#9     A#7 
Que yo te quise 

              D#m7   G#7 
Nunca vas a comprender 

        C#9   A#7 
Cómo lo hice 

              F#7M  B9 
Tú me hablabas del amor 

         C#9    A#7 
De eso tan bello 
         
               D#m7    G#7 
Te faltó por demostrar 

        C#9              F#7    A#7 
Que eras capaz de vivir aquello



F#7M Pero no

F#m7 B9 Fm7 Te olvides por favor
A#9 D#m7 A7 G#7 Que sigo aquí ya no quiero sufrir más por ti
C#9 F#7 A#7 Mi amor

F#7M F#m7 Con el tiempo decidí
B9 Fm7 Que es un recuerdo
A#9 D#m7 Todo aquello que viví
A7 G#7 C#9 F#7 A#7 Y me mató por dentro

F#7M B9 Nunca vas a comprender C#9 F#7 A#7 Que yo te quise D#m7 G#7 Nunca vas a comprender C#9 F#7 A#7 Cómo lo hice F#7M B9 Tú me hablabas del amor C#9 F#7 A#7 De eso tan bello D#m7 G#7 Te faltó por demostrar C#9 F#7 A#7 Que eras capaz de vivir aquello F#7M Pero no F#m7 B9 Fm7 Te olvides por favor A#9 D#m7 A7 G#7 Que sigo aquí ya no quiero sufrir más por ti C#9 F#7 A#7 Mi amor F#7M F#m7 Con el tiempo decidí B9 Fm7 Que es un recuerdo A#9 D#m7 Todo aquello que viví A7 G#7 C#9 F#7 A#7 Y me mató por dentro

Composição de: Rita Payés


TE FAÇO UM CAFUNÉ

HAMILTON DE HOLANDA & MESTRINHO

CANTO DA PRAYA







Se eu soubesse que tu me querias
Tudo faria para te amar
Amor eu tenho para te dar
Quando passo e vejo ela debruçada na janela
Dá vontade de passar a mão nos cabelos dela

Já não consigo nem dormir
Se me deito com ela vou sonhar
Lai, laiá
Pois faria tudo isso só pra te amar

Te faço um cafuné quando tu for dormir
Te dou café quando se levantar
Dou comida na boca, mato a tua sede
Armo a minha rede e vou te balança

Te faço um cafuné quando tu for dormir
Te dou café quando se levantar
Dou comida na boca, mato a tua sede
Armo a minha rede e vou te balança

Composição: José Abdon


Ulisses - Introdução

Ulisses

James Joyce

Introdução

Dublinenses, a primeira obra em prosa de James Joyce, é um livro de contos que, revelando as frustrações, a inação e, até mesmo, as perversões ocasionais de seus personagens, denuncia a inércia da cidade em que vivem. No entanto, Dublin não é apenas o centro da paralisia, mas também a segunda cidade do império britânico, quase três vezes maior do que Veneza, merecendo, portanto, que algum artista a ofereça ao mundo. E Joyce a descreve com minucioso carinho, de Dublinenses a Finnegans Wake e, em particular, em Ulisses, a fim de que, se algum dia for destruída por uma guerra ou um terremoto, ela possa ser reconstruída através de seus escritos.

Em seguida Joyce escreve um romance, inicialmente Stephen Hero, do qual só restam fragmentos, que transforma em Um Retrato do Artista Quando Jovem. Nesta obra primorosa, ele evolui para o monólogo interior, a narrativa do fluxo da consciência, de que se serve para acompanhar, através de recursos de linguagem e musicalidade incomparável, a evolução psíquica do seu personagem Stephen Dedalus, desde sua mais tenra idade até o final da adolescência.

Em Ulisses, teremos, então, uma paródia de A Odisseia de Homero. Elaborada com sucesso extraordinário e de forma abrangente, ela corresponde perfeitamente ao conceito atual deste gênero literário. A paródia moderna é, na realidade, uma forma de arte em que predomina a auto-reflexividade, proporcionando um novo modelo para o processo artístico. É uma inversão irônica do modelo inicial.

A paródia moderna, afirma Linda Hutcheon, se distingue da imitação ridicularizante mencionada nas definições padrões dos dicionários. Além de reativar o passado, dando-lhe contexto novo e frequentemente irônico, ela exige do leitor maior atualização e melhor conhecimento deste passado, levando-o, se preciso for, a voltar a ele para uma maior integração com a obra. Em sua inversão irônica, é um jogo com convenções múltiplas, uma prolongada repetição com diferença crítica, uma confrontação estilística que, longe de desmerecer o original, ressalta nele apenas a diferença. Por seu aspecto sofisticado, a paródia faz exigências não apenas daqueles que a utilizam como também de seus intérpretes. De fato, tanto o escritor quanto o leitor devem efetuar uma superposição estrutural dos textos, que incorpore o antigo ao novo, visto que ela é uma síntese bitextual.

Em Ulisses, Joyce combina o virtuosismo técnico da paródia com o tratamento psicológico dado aos seus três personagens principais: Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom. Assim, ao compor seu romance em dezoito episódios, portanto menos seis do que aqueles em que se divide A Odisseia, Joyce vai abandonar alguns da obra grega, alterar a ordem daqueles que usa, antecipando certos episódios e pospondo outros, criando um episódio onde não havia um no original, a fim de enfatizar os processos psíquicos e os conflitos psicológicos de seus personagens, que são os que mais lhe interessam.

Inúmeros são os recursos paródicos empregados por Joyce, quanto ao tema propriamente dito, aos personagens e ao papel que desempenham, aos episódios de que se apropria, sem obedecer à ordem em que ocorrem no modelo homérico, à diversidade dos estilos usados com finalidade precisa, às inúmeras citações de obras, sobretudo shakespearianas, ou aos vocábulos latinos, hebraicos, franceses, irlandeses, italianos, espanhóis, alemães, inseridos naturalmente no texto.

Consideremos inicialmente o tema de ambas as obras. A Odisseia narra a história de um herói, Odisseu, rei de Ítaca, casado com Penélope, que, depois de ter se distinguido durante dez anos na guerra contra Tróia, por sua prudência e sagacidade, levou mais dez anos para retornar ao seu reino e à sua casa. Viu cidades e povos diferentes e passou a conhecer-lhes os costumes. No caminho de volta, enfrentou uma série de aventuras e provações, ficando muitas vezes à mercê de feiticeiros, monstros e deuses vingativos. Lutou para preservar sua vida e as de seus companheiros, mas não conseguiu salvá-los.

Mostra-nos também, paralelamente, a história de como sua mulher, Penélope, o aguardou fielmente, embora assediada por pretendentes à sua mão que, instalados em sua propriedade, esperavam ansiosos serem os substitutos escolhidos do marido desaparecido. Seu filho, Telêmaco, vendo-se despojado de seus bens e aconselhado pela deusa Palas Atena, protetora de Odisseu, sai em busca do pai.

Temos, assim, em resumo, as aventuras do herói Odisseu em sua epopeia de volta à pátria, a fidelidade da mulher ao marido ausente e um filho à procura do pai.

Em Ulisses, naquele longo dia 16 de junho de 1904, Leopold Bloom – o Ulisses de Joyce –, depois de um dia particularmente atribulado, perambulando por Dublin, retorna à sua casa e ao se deitar ao lado da mulher, Molly, pede-lhe que lhe traga, no dia seguinte, o café-da-manhã na cama, fato inusitado que não ocorria havia onze anos, desde a morte do filho Rudy. Durante todo aquele tempo fora ele que a servira.

Naquele mesmo dia, Molly, que além de ser a Sra. Marion Bloom também era uma cantora, cometia adultério com seu empresário Blaze Boylan. Desta traição, Bloom tivera plena consciência o dia todo.

Diferentemente de A Odisseia, Stephen Dedalus – o Telêmaco da obra de Joyce –, embora insatisfeito com o pai que tem, não está interessado em procurar-lhe um substituto, como o desejara no final de Um Retrato do Artista Quando Jovem. Aquele que, na verdade, continua sonhando em ter um filho homem é Bloom, e será ele que tentará, através de uma proposta que lhe parece interessante, convencer Stephen a morar com ele e Molly. Tal proposta, no entanto, será delicadamente recusada pelo jovem.

Temos, assim, diversamente do modelo grego, um marido traído que, ao invés de lavar a honra com sangue, inverterá com palavras uma situação existente há onze anos; uma mulher que não se mostra fiel, cometendo naquele dia adultério, e um pai procurando um filho, ao invés de um filho em busca de um pai.

Para Joyce, como ele o confessa ao amigo Frank Budgen, o mais completo herói clássico, e por isso por ele escolhido, é Ulisses, por ser filho de Laerte, pai de Telêmaco, marido de Penélope, amante de Calipso, companheiro de armas dos guerreiros gregos em Tróia e rei de Ítaca. Submetido a inúmeras provações, superou-as com sabedoria e coragem.

Seu Ulisses moderno, Leopold Bloom, também é por ele descrito como “filho, pai, amante, amigo, trabalhador e cidadão”. É, além do mais, ainda sempre a mesma pessoa bondosa, humana, prudente, equilibrada, submissa, tragicamente isolada, astuta, cética, simples, não reprovadora, com um exterior aparentemente suave e maleável, mas com uma essência íntima, inflexível, de auto-suficiência. No entanto, diversamente de Odisseu, ele não tem uma deusa Palas Atena para protegê-lo. Terá de depender de sua própria sabedoria e de seus frágeis recursos humanos.

Molly Bloom, a Penélope de Joyce, totalmente diversa de seu modelo grego, é assim descrita por seu criador: uma “Weib (mulher) sã de espírito, totalmente amoral, fertilizável, inconfiável, cativante, perspicaz, limitada, prudente, indiferente – Ich bin das Fleisch das stets bejaht”. Ou seja: “Eu sou a carne que sempre diz sim.” Na verdade é isso que ela faz, ela diz sim à vida, no sentido mais amplo da palavra.

Outras inversões irônicas ainda ocorrem, como no caso do Sr. Deasy, diretor da escola em que Stephen leciona, que parodia Nestor, o mais sábio dos guerreiros gregos, embora esteja longe de possuir a sabedoria do modelo grego. Imbuído de preconceitos, considera as mulheres, a partir de Eva e de seu pecado original, responsáveis por todo o mal existente na terra, e os judeus, com suas riquezas, merecedores de continuar errantes pelo mundo afora. Para ele o dinheiro é tudo na vida, pois “dinheiro é poder”, o que leva Stephen a se indagar se é isso a “sabedoria”.

Contrastando com as sereias que, em A Odisseia, são perigosas por enfeitiçarem os homens com sua música e seus encantos e os arrastarem para a morte, as sereias em Ulisses são duas garçonetes do bar do Hotel Ormond. Uma delas, senhorita Douce, tem o cabelo bronzeado e a outra, senhorita Kennedy, o tem dourado. Elas tentam em vão ser sedutoras, desdenhando quem por elas mostra interesse, como Lenehan, embora sejam menosprezadas por aquele que desejariam seduzir, Blaze Boylan.

A Nausicaa do Ulisses de Joyce, Gertie MacDowell, é uma jovem bonita de rosto que, diversamente da moça ingênua e pura do original grego, é provocante. Conhecedora de seus dons e de sua beleza, seduz aquele homem mais velho e interessante – Bloom – que fantasia ser o homem ideal de sua vida.

Parodiando Circe que, em A Odisseia, é uma feiticeira fascinante que atrai os homens que dela se aproximam e os transforma em porcos, mantendo-os aprisionados em seu covil, em Ulisses a luxúria, o egoísmo, a sordidez, simbolizando os porcos do modelo grego, estão presentes na zona dos bordéis em que Bloom penetra em busca de Stephen e nas fantasias de toda sorte, inclusive as de poder e de perversão do herói joyciano.

Em Ulisses, além da inovação de uma narrativa revolucionária, baseada no fluxo da consciência através do monólogo interior, Joyce criou um herói muito especial, totalmente diferente do herói-padrão do início do século XX. De fato, ciente da traição da mulher naquele atormentado dia 16 de junho de 1904, ele reage de uma forma inesperada para a época. Embora enciumado, atormentado e sofrido, ele reflete com clareza que “cada um que entra (na cama) se imagina ser o primeiro a entrar enquanto ele é sempre o último termo de uma série precedente mesmo se ele for o primeiro de uma série subsequente, cada um se imaginando ser o primeiro, último, único e sozinho, enquanto não é nem o primeiro nem o último nem o único nem sozinho numa série originada então e repetida ao infinito”.

Tal pensamento jamais poderia ser admitido por um homem preso aos códigos vigentes na sociedade do início de século XX. Seria inadmissível para ele chegar à conclusão à qual Bloom chegou, ao considerar a atitude a tomar diante da situação que enfrentava: “Assassinato, nunca, visto que dois erros não tornam um certo. Duelo por combate, não. Divórcio, agora não.”

Bloom é, na verdade, um homem muito bom e avesso à violência que sabe conviver com suas frustrações, limitações e fraquezas; que, em sua visão realista de si mesmo, aceita a traição por saber que, ao menos naquele momento de sua vida, não consegue existir sem a mulher amada. Ele é o herói moderno, ou melhor, o anti-herói que, em sua luta diária pela sobrevivência, nem mesmo sabe o quão heroico é e tanto nos seduz.

Lembra-nos o homem absurdo de Camus que aceita a luta, não despreza de forma alguma a razão e admite o irracional, pois reconhece que o absurdo é a razão lúcida que constata seus limites.

Ao se referir a Ulisses em conversa com o jovem amigo Arthur Power, em Conversations with James Joyce, Joyce, plenamente consciente da revolução que efetuava na literatura, diz: “Quanto ao classicismo romântico que você tanto admira, Ulisses mudou tudo isso, pois nele eu abri um novo caminho e você vai ver que ele será seguido cada vez mais. De fato a partir dele você pode datar uma nova orientação na literatura – o novo realismo, pois embora você critique Ulisses, contudo a única coisa que você tem que admitir que eu fiz foi liberar a literatura de seus grilhões antiquados. Você é evidentemente um tradicionalista intransigente, mas deve perceber que uma maneira nova de pensar e de escrever foi iniciada, e aqueles que não concordarem com ela serão deixados para trás.” E em seguida acrescenta: “Em Ulisses procurei expressar as múltiplas variações que constituem a vida social de uma cidade – suas degradações e suas exaltações.”

Realmente tudo acontece naquele bendito dia 16 de junho de 1904: nascimento, morte, frustração, alegria, rejeição, traição, prazer, masturbação, menstruação, tudo, enfim, que um ser humano vivencia. Ulisses é, na realidade, uma extraordinária comédia humana.

Entre o Ulisses de Joyce e A Odisseia de Homero vários séculos se interpõem. O tempo pode, sem dúvida alguma, distanciá-los, mas o virtuosismo, o requinte técnico da paródia joyciana amarra, implacavelmente, os dois gênios da expressão artística.

Por que, então, me decidi a enfrentar a tradução de uma obra tão complexa? Certamente para mostrar que a leitura de Ulisses não era uma aventura intransponível, que a linguagem de Joyce não era tão difícil e pesada quanto se dizia, mas uma linguagem coloquial convidativa e ao alcance do leitor, embora lexicamente muito rica. Maior do que o desafio assustador da empreitada era o meu desejo de, através de uma linguagem coloquial semelhante à de Joyce, permitir que o maior número possível de leitores usufruísse, como eu usufruíra, de suas criações narrativas inovadoras, através de sua diversidade de estilos, sua musicalidade, sua riqueza vocabular e seu uso do monólogo interior em sua acepção mais completa. Eu desejava, sobretudo, dar-lhes a oportunidade de se divertirem com a leitura deste livro invulgar como eu me divertira ao lê-lo e traduzi-lo.

Em 1992, quando traduzi Um Retrato do Artista Quando Jovem, eu já me deparara com o desafio um tanto assustador de traduzir Joyce. Somente o encantamento que me proporcionara sempre a sua leitura, devido ao seu estilo harmoniosamente adequado ao conteúdo, à sonoridade das palavras por ele empregadas, à melodia, cadência e ritmo de sua linguagem, me armara de coragem. De fato, transpor para o português, com sua música própria, a riqueza musical estilística e poética de um livro que é a própria poesia em prosa, não foi uma tarefa fácil. Na verdade o som é tão importante para Joyce em Um Retrato que é possível acompanhar a evolução psíquica de seu personagem Stephen Dedalus através dos efeitos que o autor lhe empresta, partindo de um som monocórdio no capítulo inicial e prosseguindo, num crescendo, até atingir uma sonoridade polifônica e orquestral na descoberta que o jovem faz de sua verdadeira vocação artística.

Em Ulisses, o elemento sonoro vai ser igualmente marcante. Se como Joyce dissera em Um Retrato que “havia diferentes tipos de dor para todos os diferentes tipos de som”, também em Ulisses ele imprimirá ritmos próprios e distintos aos monólogos dos três personagens principais do romance, apropriados às suas respectivas personalidades.

O monólogo de Stephen Dedalus, meditativo, mutável como Proteu, se manterá mais lento, intercalando palavras longas e curtas, de origem latina ou saxônica, refletindo a complexidade de seus pensamentos filosóficos e metafísicos. Tudo nele é pensamento ou sensação. O de Leopold Bloom, todo ele em stacatto, com o ritmo brusco de alguém capaz de superar as próprias dificuldades, se constituirá de frases primordialmente curtas, de omissão de sujeitos, de palavras frequentemente monossilábicas, às vezes mesmo reduzidas por aférese, refletindo o seu ser interior que sempre tenta imaginar um sentido lógico nas coisas. O de Molly Bloom, sem pontuação, sem maiúsculas, sem fazer diferença entre os homens – todos eles são he –, fluirá, incontido e incontrolável, de uma mente liberta de qualquer grilhão.

É de grande importância, na tradução de um escritor genial como Joyce, estar bastante familiarizado com o autor e sua obra como um todo e tentar ser, ao máximo, fiel à sua linguagem e à sua maneira de escrever, para que o leitor possa, através delas, percebê-lo e entender os seus objetivos. Conseqüentemente, se sua linguagem é coloquial, como no caso de Ulisses, é indispensável usar a mesma linguagem coloquial na tradução. Cabe, no entanto, ter bem claro em mente que uma tradução nunca pode ser perfeita, pois são distintas as índoles das línguas em questão e há, às vezes, coisas intraduzíveis, armadilhas a serem vencidas, como é o caso dos puns – jogos de palavras – tão usuais entre os escritores de língua inglesa, como Shakespeare e Joyce. Puns ou jogos de palavras cada língua tem os seus, e eles são intransferíveis, precisando ser, portanto, de uma certa forma contornados, sempre que possível, sem alterar o sentido dado pelo autor ao contexto. O que fazer, por exemplo, com a expressão seguinte, usada por Stephen Dedalus ao falar sobre a mulher de Shakespeare, Ann Hathaway: “If others have their will, Ann hath a way”, isto é, “Se as outras têm sua vontade, Ann tem sua maneira de ser”. Neste caso, porém, o jogo de palavras e a brincadeira do trocadilho se perdem se literalmente traduzidos e, então, apelei, como em outras ocasiões para o emprego da aliteração, tão característica na poesia e na prosa de língua inglesa, ou seja, a repetição de uma mesma consoante inicial: “Se as outras têm sua vontade, Ann tem sua veneta.”

Há ocasiões em que Joyce trocará uma palavra por outra, como world por word, para mostrar uma certa ignorância de determinado personagem, em que eu troquei “palavra” por “planeta”, ou ainda outras em que cometerá propositalmente erros de concordância verbal e eu, para lhe ser fiel, farei o mesmo.

São essas dificuldades, entre outras, que tornam maior o desafio de traduzir uma obra como esta, e somente o leitor poderá testemunhar se o meu objetivo de divulgar o Ulisses de Joyce foi alcançado, ao se aventurar comigo nesta jornada de Bloom, do dia 16 de junho de 1904, data celebrada todo ano, em diferentes recantos do mundo, pelos admiradores deste genial escritor irlandês.

Agradeço a Flavia Maria Samuda que me auxiliou na revisão do meu trabalho, e a todos aqueles alunos e amigos queridos que comigo leram Ulisses, particularmente Eduardo Vidal, Maria Helena Carneiro da Cunha, Renata Salgado, Emilia Lobato, Maria Julia Goldwasser, Virginia Murad e Pedro Otavio Prado, que contribuíram, com suas observações e seu incentivo, para que eu prosseguisse nesta árdua, mas tão prazerosa tarefa.


continua na página 16...
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James Joyce nasceu em Dublin, Irlanda, em 1882. Depois de infância e juventude modestas e influenciadas por uma rígida educação jesuíta, deixou sua cidade natal em 1902 rumo a Paris. Na capital francesa, trabalhou como jornalista e professor, enfrentando grandes dificuldades financeiras. Em 1904, desta vez acompanhado de Nora Barnacle – que se tornaria sua mulher em 1931 –, Joyce instalou-se na cidade italiana de Trieste, onde escreveu a coletânea de contos Dublinenses (1914) e o romance Um Retrato do Artista Quando Jovem (1916). Com a Primeira Guerra Mundial, a família refugiou-se em Zurique, onde Joyce escreveu Ulisses (1922), romance que lhe valeu reconhecimento internacional. De volta a Paris em 1920, onde viveria por quase duas décadas, o agora renomado escritor dedicou 17 anos à elaboração de seu último romance, Finnegans Wake (1939). Com o início da Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França, a família conseguiu permissão para retornar a Zurique, onde Joyce faleceu em 1941. 
O escritor tornou-se célebre por sua experimentação com a linguagem e por suas inovações estilísticas, que incluem o uso extenso do monólogo interior, do fluxo de consciência e de uma complexa rede de referências simbólicas emprestadas à mitologia, à história e à literatura, além de um vocabulário peculiar feito de palavras inventadas, trocadilhos e alusões. Em Ulisses, Joyce descreve um dia inteiro de seu personagem principal, Leopold Bloom, em sua jornada pela cidade de Dublin. Considerado o precursor do romance moderno, Ulisses é um épico moderno livremente inspirado na Odisseia de Homero, repleto de alusões a lugares, personagens e acontecimentos reais. Proibido nos Estados Unidos e no Reino Unido na época de sua primeira publicação, é considerado o mais representativo romance do século XX

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Joyce, James 
Ulisses [recurso eletrônico] / James Joyce ; tradução Bernardina da Silveira Pinheiro ; [seleção, elaboração e tradução das notas de capítulos Flavia Maria Samuda]. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2010. Romance irlandês.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O Apanhador no Campo de Centeio - 1: Se querem mesmo ouvir

O Apanhador no Campo de Centeio

J.D. Salinger

1


Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins - não é isso que estou dizendo - mas são sensíveis pra burro. E, afinal de contas, não vou contar toda a droga da minha autobiografia nem nada. Só vou contar esse negócio de doido que me aconteceu no último Natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e de me mandarem para aqui, onde estou me recuperando. Foi só isso o que contei ao D.B., e ele é meu irmão e tudo. Ele está em Hollywood. Não é muito longe deste pardieiro, e ele vem me visitar quase todo fim de semana. Quando eu voltar para casa, talvez no mês que vem, é ele quem vai me levar de carro. Comprou há pouco tempo um Jaguar, um desses carrinhos ingleses que fazem uns trezentos quilômetros por hora e que custou uns quatro mil dólares. D.B. agora vive nadando em dinheiro, mas antigamente a coisa era outra. Quando morava conosco era apenas um escritor. Se é que nunca ouviram falar nele, foi D.B. quem escreveu aquele livro de contos fabuloso, O Misterioso Peixinho Dourado. O melhor conto do livro era a estória do garotinho que não deixava ninguém ver seu peixe dourado, só porque o tinha comprado com seu próprio dinheiro. Achei o máximo. Agora D.B. está em Hollywood, se prostituindo. Se há coisa que eu odeie, é cinema. Não posso nem ouvir falar de cinema perto de mim.

Vou começar a contar do dia em que saí do Internato Pencey. O Pencey é aquele colégio em Angerstown, na Pennsylvania. Já devem ter ouvido falar nele, ou pelo menos visto os anúncios. Eles fazem propaganda em mais de mil revistas, mostrando sempre um sujeito bacana, a cavalo, saltando uma cerca. Parece até que lá no Pencey a gente passava o tempo todo jogando polo. Pois nunca vi um cavalo por lá, nem mesmo para amostra. E, embaixo do desenho do sujeito a cavalo, vem sempre escrito: "Desde 1888 transformamos meninos em rapazes esplêndidos e atilados". Pura conversa fiada. Não transformam ninguém mais do que qualquer outro colégio. E não vi ninguém por lá que fosse esplêndido e atilado. Talvez dois sujeitos, se tanto. E esses, com certeza, já chegaram lá assim.

De qualquer modo, era o sábado do jogo de futebol com o Saxon Hall, considerado um grande acontecimento no Pencey. Último jogo do ano, era caso para suicídio ou coisa parecida se o Pencey não vencesse. Lembro-me que eram umas três horas da tarde, e eu, em pé, lá em cima do morro, bem ao lado de um canhão maluco da Guerra da Independência. Dali podia ver o campo todo, os dois times se massacrando por toda a parte. Não dava para ver direito as arquibancadas, mas dava para se ouvir os gritos da torcida, fortes e terríveis do lado do Pencey, porque o colégio em peso estava lá - menos eu - e débeis e desanimados do pessoal do Saxon Hall, porque o time visitante quase nunca trazia muita gente. 

Pouquíssimas garotas iam aos jogos de futebol. Só os veteranos tinham permissão de levar suas pequenas. Era um colégio horrível, sob todos os pontos-de-vista. Gosto de estar num lugar onde, pelo menos, a gente possa ver umas garotas de vez em quando, mesmo que elas estejam apenas coçando o braço, assoando o nariz, rindo à toa ou coisa que o valha. A tal Selma Thurmer - que era filha do diretor - costumava ir muito aos jogos, mas não era exatamente um tipo que deixasse a gente com água na boca. Mas era muito boazinha. Uma vez sentei ao lado dela no ônibus de Angerstown e começamos a bater papo. Simpatizei com ela. Tinha um nariz enorme, as unhas eram todas roídas e avermelhadas, usava um desses seios postiços que apontam para todo lado, mas no fim a gente sentia um pouco de pena dela. O que eu gostava nela é que não vinha com aquela conversa de que o pai era um grande sujeito. Com certeza sabia o cretinaço que ele era. 

Eu estava ali no alto do morro, e não no campo, porque tinha acabado de chegar de Nova York com a equipe de esgrima. Eu era a droga do capitão da equipe. Grande merda. Tínhamos ido a Nova York, de manhã, para uma competição com o colégio Mc-Burney. Só que não houve competição nenhuma. Esqueci os floretes, o equipamento e a porcaria toda no metrô. Também, a culpa não foi só minha. Tinha que ficar me levantando o tempo todo para olhar o mapa e saber onde a gente tinha que saltar. Por isso voltamos para o Pencey lá pelas duas e meia, em vez de chegar na hora do jantar. Na viagem de volta o time me deu o maior gelo. Até que foi engraçado. 

Também não fui assistir ao jogo porque ia me despedir do velho Spencer, meu professor de História. Ele estava gripado e por isso imaginei que não o veria de novo até o começo das férias de Natal. Havia escrito um bilhete, dizendo que queria me ver antes de eu voltar para casa. É que sabia que eu não ia voltar para o Pencey.  

Esqueci de falar sobre isso - eu tinha sido chutado do colégio. Não ia mesmo voltar depois das férias de Natal porque tinha sido reprovado em quatro matérias e não estava estudando nada. Eles tinham me avisado mais de uma vez que eu devia me dedicar aos estudos - principalmente na época das parciais, quando meus pais foram chamados para uma conversa com o velho Thurmer - mas nem liguei. E aí fui reprovado. Eles reprovam um bocado de gente no Pencey, porque o colégio tem um alto nível de ensino. Tem mesmo, no duro. 

Enfim era dezembro, estava fazendo um frio de rachar, principalmente no alto daquele morro idiota. Eu estava só com um paletó, sem luvas nem nada. Uma semana antes alguém tinha entrado no meu quarto e roubado meu casaco de pêlo de camelo, com as luvas forradas de pele no bolso e tudo. O Pencey estava cheio de vigaristas. A maioria dos alunos vinha de famílias riquíssimas, mas assim mesmo o colégio estava cheio de ladrões. Quanto mais caro um colégio, mais gente safada tem, no duro. De qualquer maneira, eu continuava ao lado daquele canhão maluco, olhando o jogo lá embaixo, e gelado até o rabo. Só que não estava prestando muita atenção à partida. Só estava zanzando por ali para ver se conseguia sentir uma espécie qualquer de despedida, porque já deixei uma porção de colégios e lugares sem ao menos saber que estava indo embora. Odeio isso. Não importa que seja uma despedida ruim ou triste, mas, quando saio de um lugar, gosto de saber que estou dando o fora. Se a gente não sabe, se sente pior ainda. 

Mas dessa vez dei sorte. De repente pensei num troço que me ajudou a sentir que estava dando o fora. Lembrei de um dia, por volta de outubro, em que eu, Robert Tichener e Paul Campbell estávamos batendo bola em frente das salas de aula. Bons sujeitos, especialmente o Tichener. Era pouco antes da hora do jantar e já estava escurecendo, mas continuamos a jogar assim mesmo. Foi ficando cada vez mais escuro, a gente quase não via mais a bola, mas não queríamos parar nossa brincadeira. Afinal tivemos que parar. Um tal de Zambesi, professor de biologia, pôs a cabeça para fora da janela e mandou que fôssemos para o dormitório, nos preparar para o jantar. Se dou a sorte de lembrar um troço desses, consigo preparar uma despedida - pelo menos é o que basta na maioria das vezes. Feito isto, dei meia volta e saí correndo morro abaixo, na direção da casa do velho Spencer. Ele não morava no colégio; a casa dele era na Avenida Anthony Wayne. 

Corri até o portão principal do colégio e aí parei um instante, até retomar fôlego. Para dizer a verdade, não tenho fôlego nenhum. Primeiro, porque fumo demais - quer dizer, fumava, pois eles me fizeram parar. Segundo, porque cresci dezesseis centímetros e meio no ano passado. Foi por isso que quase fiquei tuberculoso e tive que vir para cá, fazer essa droga desses exames e tudo. Mas tenho um bocado de saúde.

De qualquer maneira, logo que recuperei o fôlego atravessei correndo a estrada. O chão estava coberto de gelo e quase me esborrachei todo. Nem sei porque estava correndo - acho que era só porque me tinha dado vontade. Depois de atravessar a estrada senti um negócio esquisito, como se eu estivesse desaparecendo. Era uma dessas tardes meio malucas, fria pra burro, sem sol nem nada, e a gente se sentia como se estivesse desaparecendo toda vez que atravessava uma estrada. 

Quando cheguei na casa do velho Spencer toquei a campainha pra valer. Estava gelado dos pés à cabeça. Minhas orelhas doíam e quase não podia mexer os dedos. - Vamos, vamos - disse quase gritando - vê se alguém abre logo essa porta! Finalmente a velha Spencer abriu a porta. Não têm empregada nem nada, por isso são eles mesmos que vêm sempre abrir a porta. É que o dinheiro lá não anda sobrando.  

- Holden! - disse ela. - Que prazer ver você aqui! Entra meu querido, você deve estar morto de frio! 

Acho que ela ficou mesmo satisfeita em me ver. A velhinha gostava de mim, pelo menos é o que eu acho. 

Tratei de entrar o mais depressa que pude e fui perguntando: - Como vai a senhora? Como vai o Professor Spencer? 

- Deixa-me guardar seu paletó, meu filho - disse ela. Era meio surda e nem me ouviu perguntar como estava o professor. 

Enquanto ela pendurava meu paletó no armário do vestíbulo, puxei o cabelo para trás, com a mão mesmo. Eu uso o cabelo à escovinha e por isso nunca tenho de me pentear muito.

- Como tem passado a senhora? - perguntei outra vez, só que agora um bocado mais alto para ver se ela me ouvia. 

- Vou passando bem, Holden - respondeu, enquanto fechava a porta do armário. - E você, como vai? - Pelo jeito que ela perguntou vi logo que o velho Spencer já lhe tinha falado da minha expulsão. 

- Tudo bem comigo. Como vai o Professor? Continua gripado? 

- Se continua, Holden! Também, da maneira que ele está se tratando... Pode entrar, meu filho, ele está lá no quarto.  


continua na página 04...
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Leia também: 

 O Apanhador no Campo de Centeio - 1: Se querem mesmo ouvir
 O Apanhador no Campo de Centeio - 2: Cada um deles

Que tal uns sambas?

Sambas e mais Sambas...


Quero de novo cantar
Tristeza, por favor vá embora
Minha alma que chora
Está vendo o meu fim

Fez do meu coração a sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar à aquela vida de alegria
Quero de novo cantar

Lá laiá lá





01 (00:00) - Bola Divida (Luiz Ayrão)
02 (02:36) - Deixa eu te Amar (Agepê)
03 (06:31) - Mulher Brasileira (Benito di Paula)
04 (09:40) - Saudosa Maloca (Originais do Samba)
05 (12:52) - Carta de Alforria (Luiz Américo)
06 (17:24) - Não deixe o Samba Morrer (Alcione)
07 (21:51) - É Preciso muito Amor (Chico da Silva)
08 (24:47) - Madalena do Jacú (Martinho da Vila)
09 (28:29) - O Amanhã (Simone)
10 (33:00) - Samba do Arnesto (Demônios da Garoa)
11 (35:34) - Conto de Areia (Clara Nunes)
12 (39:12) - Vazio (Roberto Ribeiro)
13 (42:06) - Vou Festejar (Beth Carvalho)
14 (45:16) - Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola)
15 (47:47) - O que é? O que é? (Gonzaguinha)
16 (52:01) - Tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa e Elis Regina)
17 (54:41) - Tristeza (Jair Rodrigues)
18 (57:46) - Volta por cima (Noite Ilustrada)