domingo, 29 de março de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(b)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Havia no conteúdo desta carta qualquer coisa que me causava uma grande inquietação. O estilo diferia absolutamente do habitual de Legrand. Com que diabo sonharia? Que novo capricho se apoderara do seu cérebro excitado? Que assunto « tão importante» poderia ter a expor-me? As palavras de Júpiter não pressagiavam nada de bom. Eu temia que a contínua intranquilidade tivesse desarranjado a razão ao meu amigo. Sem hesitar, preparei-me, pois, para acompanhar o negro.
     Ao chegar ao cais, reparei numa foice e em três pás novas que estavam no fundo do barco no qual íamos embarcar. 

— O que é que significa tudo isto, Júpiter? 
— Isso é uma grande foice, massa, e pás. 
— Bem vejo, mas o que é que estão a fazer aqui? 
Massa Will disse-me para as comprar na cidade e paguei-as bem caro. Isto custou-me um dinheirão. — Mas, com todo este mistério, o que é que vai fazer o teu massa Will com a foice e as pás? 
— Pergunta-me mais do que sei; o próprio massa não sabe mais também; diabos me levem, se não estou convencido disso. Tudo isto é por causa do escaravelho.

     Vendo que não podia obter nenhum esclarecimento de Júpiter, cuja compreensão parecia absorvida pelo escaravelho, entrei no barco e desfraldei a vela. Uma bela e forte brisa empurrou-nos bem depressa para a enseada ao norte do forte Moultrie, e depois de um passeio de cerca de duas milhas, chegámos à cabana. Eram quase três da tarde. Legrand esperava-nos com viva impaciência. Apertou-me a mão com uma nervosa solicitude que me alarmou e reforçou as suspeitas que me assaltavam. O seu rosto tinha uma palidez espectral, e os seus olhos, vulgarmente muito fundos, brilhavam com um fulgor sobrenatural. Depois de algumas perguntas relativas à sua saúde, perguntei-lhe, por não encontrar nada melhor, se o tenente G... lhe tinha finalmente entregado o seu escaravelho. 

— Oh!, sim — respondeu, corando muito. — Ele deu-me no dia seguinte, de manhã. Por nada deste mundo me separaria desse escaravelho. Sabe que Júpiter tem absoluta razão a respeito dele? 
— Em quê? — perguntei-lhe com um triste pressentimento no coração. 
— Suponho que é um escaravelho de ouro autêntico.

     Ele disse isto com uma profunda seriedade que me fez um mal indizível. 

— Este escaravelho está destinado a fazer a minha fortuna e — continuou com um sorriso de triunfo — a devolver-me os bens da minha família. Será, portanto, de estranhar que o tenha em tão alto apreço? Pois que a Fortuna julgou por bem conceder-me, não tenho senão que aproveitar-me dele, convenientemente, e obterei o ouro do qual é o indício. Júpiter, traz-me! 
— O quê? O escaravelho, massa? Prefiro não ter nada a ver com o escaravelho. Pode ir buscá-lo o patrão.

     Ao ouvir isto, Legrand levantou-se com ar grave e imponente e foi buscar o inseto colocado numa campânula de vidro. Era um soberbo escaravelho, desconhecido dos naturalistas dessa época e que devia ser de um grande valor sob o ponto de vista científico. Tinha numa das extremidades do dorso duas manchas negras e redondas e na outra uma mancha de forma alongada. Os élitros eram excessivamente duros e luzidios e tinham positivamente o aspecto de ouro polido.
     O inseto era extraordinariamente pesado, a ponto de parecer justificar a opinião de Júpiter, mas que Legrand concordasse com ele a esse respeito, isso era-me impossível compreender, e, mesmo que se tratasse da minha vida, não teria encontrado a chave do enigma. 

— Pedi-lhe que viesse — disse-me com um tom especial quando acabei de examinar o inseto — e fi-lo para lhe pedir um conselho e assistência na realização dos objetivos do Destino e do escaravelho... 
— Meu caro Legrand — exclamei interrompendo-o — certamente não está bem de saúde e seria muito melhor que tomasse algumas precauções. Vai meter-se na cama, e ficarei ao pé de si alguns dias, até que esteja restabelecido. Tem febre e... 
— Apalpe o meu pulso — disse-me.

     Tomei-lhe o pulso e, para dizer a verdade, não lhe encontrei o mais ligeiro sintoma de febre. 

— Mas poderá estar muito doente, sem ter febre. Permita-me, desta vez, que faça apenas de seu médico. Antes de mais, vai meter-se na cama. Em seguida... 
— Engana-se — interrompeu-me — estou tão bem quanto se pode esperar neste estado de excitação. Se realmente quer ver-me perfeitamente bem, alivie esta excitação. 
— E o que é preciso para tal? 
— É muito fácil. Júpiter e eu partiremos para uma expedição às colinas, no continente, e temos necessidade da ajuda de uma pessoa em que nós possamos confiar em absoluto. Você é a única pessoa. Quer a nossa empresa seja um malogro ou um êxito, a excitação que vê em mim será igualmente acalmada. 
— Tenho um enorme desejo de lhe ser útil — respondi. — Mas pretenderá dizer que este infernal escaravelho tenha qualquer ligação com a nossa expedição às colinas? 
— Sim, certamente. 
— Então, Legrand, é-me impossível colaborar numa empresa perfeitamente absurda. 
— Desgosta-me muito o que diz, porque teremos de tentar a empresa sozinhos. 
— Sozinhos! Ah!, o desgraçado está doido de certeza! Mas vejamos, quanto tempo durará essa excursão? 
— Provavelmente toda a noite. Vamos partir imediatamente, e em qualquer dos casos, estaremos de regresso ao amanhecer. 
— E promete-me pela sua honra, que passado este capricho, e o caso do escaravelho — bom Deus! — satisfeito plenamente, voltará para casa e seguirá as minhas prescrições exatamente como as do seu médico? 
— Sim, prometo-lhe, e agora partamos porque não há tempo a perder.

     Acompanhei o meu amigo, com o coração confrangido.
     Às quatro horas metemo-nos a caminho, Legrand, Júpiter, o cão e eu. Júpiter pegou na foice e nas pás. Insistiu em se encarregar delas, pelo que me pareceu mais com o receio de deixar um desses instrumentos nas mãos do seu patrão, do que por excesso de zelo e de complacência. Ele estava aliás com um bom humor de cão, e estas palavras: « Escaravelho maldito!» , foram as únicas que lhe escaparam durante toda a viagem. Eu fora encarregado de levar as duas lanternas apagadas. Quanto a Legrand, contentara-se com o escaravelho que levava atado na extremidade de um pedaço de cordel e que fazia girar em volta dele ao caminhar com ares de mágico. Quando observei esse sintoma supremo de demência no meu pobre amigo, a custo pude conter as lágrimas. Pensei, no entanto, que valia mais satisfazer a sua fantasia, pelo menos de momento, até que pudesse tomar algumas medidas enérgicas com possibilidade de êxito. Entretanto, experimentei, mas inutilmente, sondá-lo em relação ao fim da expedição. Ele tinha conseguido persuadir-me a acompanhá-lo, pouco disposto a estabelecer conversa sobre um assunto de uma tão fraca importância. A todas as minhas perguntas, não se dignava responder senão com um: « Depois veremos!»
     Atravessamos num escaler a enseada até ao extremo da ilha, e trepando pelos terrenos montanhosos da margem oposta, dirigimo-nos para o noroeste, através de uma região horrivelmente selvagem e desolada onde era impossível descobrir o rasto de um pé humano. Legrand seguia o caminho com decisão, parando apenas de vez em quando para consultar certas indicações que parecia ter deixado ele mesmo numa ocasião precedente. Caminhámos assim cerca de duas horas, e o Sol estava no ocaso quando entrámos numa região muitíssimo mais sinistra de que tudo o que tínhamos visto até então. Era uma espécie de planalto próximo do cimo de uma montanha muitíssimo escarpada, coberta por um bosque da base ao cume e, à mistura, uma enorme profusão de blocos de pedra, espalhados no chão, e alguns seriam infalivelmente precipitados nos vales inferiores, sem o amparo das árvores em que se apoiavam. As ravinas profundas irradiavam em diversas direções e davam à cena um caráter de solenidade lúgubre.
     A plataforma natural para a qual tínhamos trepado era tão profundamente pejada de cardos que sem a foice teria sido impossível abrir passagem. Júpiter, segundo as ordens do seu patrão, começou a abrir-nos um caminho que ia até uma tulipeira gigantesca que se erguia rodeada por oito ou dez carvalhos, sobre a plataforma, e que os ultrapassava a todos, assim como a todas as árvores que vira até ali, pela beleza da sua forma e folhagem, pelo enorme desenvolvimento dos seus ramos e por toda a majestade do seu aspecto. Quando nos aproximámos desta árvore, Legrand voltou-se para Júpiter e perguntou-lhe se se sentia capaz de a trepar. O pobre velho parecia ligeiramente aturdido com esta pergunta e ficou alguns instantes sem responder. Contudo, aproximou-se do grande tronco, deu lentamente uma volta e examinou-o com uma atenção minuciosa. Quando acabou de o observar disse simplesmente: 

— Sim, massa; Júpiter nunca viu uma árvore a que não possa subir. 
— Então, sobe. Vamos, vamos! E depressa, porque em breve estará muito escuro para ver o que fazemos. 
— Até onde é preciso subir, massa? — perguntou Júpiter. 
— Trepa primeiro para o tronco e depois dir-te-ei que caminho deves seguir. Ah!, um instante! Leva este escaravelho contigo. 
— O escaravelho, massa Will!, o escaravelho de ouro! — gritou o negro aterrorizado. Por que é preciso levar comigo este escaravelho para a árvore? Eu fique amaldiçoado se o fizer! 
— Júpiter, se tens medo, tu, um negro alto, gordo e forte, de tocar num pequeno inseto morto e inofensivo, pois bem, podes levá-lo com um cordel; mas se o não levares contigo, de uma maneira ou de outra, vejo-me na cruel necessidade de te rachar a cabeça com esta pá. 
— Meu Deus! O que é que tem? — disse Júpiter, que com a vergonha se tornara evidentemente mais complacente. — É preciso estar sempre zangado com o seu velho negro? Era uma brincadeira. Eu, ter medo do escaravelho! Estou a rir-me do escaravelho.

     Pegou com precaução na extremidade da corda e, agora com o inseto longe dele, tanto quanto as circunstâncias permitiam, pôs-se a tentar trepar à árvore.

continua na página 420...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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