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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: L - Os Bons Cães e o Epílogo

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa




L

OS BONS CÃES 


Nunca me envergonhei, mesmo diante dos jovens escritores do meu século, da minha admiração por Buffon (49). Hoje, porém, não é a alma desse pintor da natureza maravilhosa que eu chamarei em meu auxílio. Não. 

Preferiria dirigir-me a Sterne (50) e dizer-lhe: — Desce do céu, ou sobe dos Campos Elíseos (51) até a mim, para inspirar-me, em favor dos bons cães, dos pobres cães, um canto digno de ti, oh humorista sentimental, oh incomparável humorista! Volta montado no famoso burrico que te acompanha para sempre na memória da posteridade! E não se esqueça esse burrico de trazer, delicadamente pendurado nos lábios, o biscoito imortal! Abaixo a musa acadêmica! Nada posso fazer com essa velha labrega. Invoco a musa familiar, civilizada, viva, para que me ajude a louvar os bons cães, os pobres cães, os cães enlameados, que todos evitam, como pestíferos e piolhentos, exceto o pobre, do qual são sócios, e o poeta, que os olha fraternalmente.

Fora o cachorro faceiro, o enfatuado quadrúpede, dinamarquês, king-charles, carlino ou gredino, tão cheio de si que se lança indiscretamente nas pernas ou nos joelhos do visitante, como se estivesse certo de agradar, turbulento como um garoto, fútil como uma sirigaita e, às vezes, grosseiro e insolente como um criado! Fora com essas serpentes de quatro patas, travessas e vadias, que se chamam lebreiras e que nem ao menos têm no pontudo focinho o faro bastante para seguir a pista de um amigo, nem na cabeça achatada bastante inteligência para jogar o dominó! Corrente para esses importunos parasitas! Voltem todos para a casinhola macia e forrada de crina! Eu canto o cão enlameado, o cão pobre, o cão sem domicílio, o cão vagabundo, o cão saltimbanco, o cão cujo instinto, como o do pobre, de histrião e de boêmio, é maravilhosamente aguçado pela necessidade, essa mãe bondosa, verdadeira patrona das inteligências! Eu canto os cães calamitosos, quer os que erram, solitários, nas ravinas sinuosas das imensas cidades, quer os que disseram ao homem abandonado, piscando os olhos espirituais: — Leva-me contigo, e das nossas misérias talvez façamos uma espécie de felicidade! Aonde vão os cães? – Indagava outrora Nestor Roqueplan (52) num imortal folhetim que ele sem dúvida esqueceu e do qual somente eu e talvez Sainte-Beuve (53) ainda nos lembremos.

Perguntais aonde vão os cães, oh homens pouco observadores? Vão cuidar dos seus afazeres. 

Questões de negócio, questões de amor. Através a bruma, a neve e o barro, sob a canícula causticante ou a chuva a escorrer, vão, voltam, disparam, passam debaixo dos veículos, excitados pelas pulgas, a paixão, a necessidade ou o dever. Como nós, levantam-se muito cedo e vão cuidar da vida ou entregar-se aos seus prazeres. 

Há os que se deitam diariamente numa ruína do subúrbio e, sempre à mesma hora, vão reclamar sua esmola à porta de uma cozinha do Palais-Royal (54); e há os que acorrem, aos bandos, de mais de cinco léguas, para partilhar a refeição que lhes prepara a caridade de certas donzelas sexagenárias, cujo coração desocupado se dedica aos animais, porque os homens imbecis o desprezam. 

Há outros que, como negros fugidos, loucos de amor, deixam de vez em quando o seu bairro para virem à cidade saracotear durante uma hora ao redor de uma bonita cadela, um pouco descuidada na toilette, mas orgulhosa e reconhecida.

São todos muito pontuais, sem precisarem de notas ou apontamentos.

Vós, que conheceis a preguiçosa Bélgica, já admirastes como eu esses cães vigorosos atrelados à carrocinha do carniceiro, da leiteira ou do padeiro, e que, com latidos de triunfo, testemunham o orgulhoso prazer que experimentam ao rivalizar com os cavalos? Aqui estão dois que pertencem a uma ordem ainda mais civilizada! Permita-me que vos introduza no quarto do saltimbanco ausente. Uma cama de madeira pintada, sem cortinados, cobertas em desordem e manchadas de percevejo, duas cadeiras de palha, uma panela de ferro, um ou dois instrumentos de música desafinados. Triste mobiliário! Mas, peço-lhe olhar para esses dois personagens inteligentes, de roupa ao mesmo tempo puída e suntuosa, cobertos como trovadores ou militares, a vigiar, com atenção de feiticeiros, a obra sem nome que requenta na panela ao fogo, com uma comprida colher plantada no meio, como um mastro a indicar que a construção está acabada. 

Não é justo que tão zelosos comediantes não se ponham a caminho sem ter forrado o estômago com uma sopa forte e substanciosa? E não perdoareis um pouco de sensualidade a esses pobres-diabos que, todos os dias, se veem obrigados a afrontar a indiferença do público e as injustiças de um diretor que fica com a melhor parte, comendo sozinho mais sopa do que quatro comediantes? Quantas vezes contemplei, a sorrir enternecido, todos esses filósofos de quatro patas, escravos complacentes, submissos e devotados, que o dicionário republicano tão bem poderia qualificar de serviçais, se a república, muito preocupada com a felicidade dos homens, tivesse tempo para cuidar da honra dos cães! E quantas vezes pensei que talvez houvesse um retiro (quem sabe, afinal?) para recompensar tanta coragem, tanta paciência e labor, um paraíso especial para os bons cães, os pobres cães, os cães enlameados e desolados. Afirma Swedenborg (55) que há um para os turcos e um para os holandeses! Os pastores de Virgílio (56) e de Teócrito (57) esperavam, como paga dos seus cantos modulados, um bom queijo, uma flauta do melhor fabricante, ou uma cabra de tetas bem cheias. O poeta que cantou os pobres cães recebeu como recompensa um bonito colete de uma só cor, ao mesmo tempo rica e desbotada, que faz pensar nos sóis de outono, na beleza das mulheres maduras e no verão de Saint-Martin (58). 

Nenhum dos que estiveram na taberna da rua Villa Hermosa esquecerá a petulância com que o pintor tirou o colete para dá-lo ao poeta, compreendendo quanto era bom e honesto cantar os pobres cães.

Tal um magnífico tirano italiano, dos bons tempos, que oferecia ao divino Aretino (59) uma adaga cravejada de pedras preciosas, ou uma capa de couro, em troca de um precioso soneto ou de um curioso poema satírico. 

E toda vez que o poeta veste o colete do pintor, é constrangido a pensar nos bons cães, nos cães filósofos, no verão de Saint-Martin e na beleza das mulheres maduras.



LI

EPÍLOGO


Eu subi à montanha e pus-me a contemplar 
A cidade maldita, em sua vastidão: 
Hospital, purgatório, inferno, lupanar, 
Tudo, tudo a florir, como a flor em botão. 
Bem sabes, Satanás, patrono da desgraça, 
Que eu não iria lá para chorar em vão: 
Como o amante senil de uma velha devassa, 
Desejei me fartar da enorme barregã, 
Cujo canto infernal me remoça e me enlaça. 
Quer te veja a dormir nos lençóis da manhã, 
Fria, pesada, obscura, e quer te possa ver, 
Com teu véu de ouro e treva, enfeitada e louçã, 
Eu te amo, oh capital, como tu deves ser: 
Bandidos, cortesãs, a prodigar prazeres 
Que o profano vulgar não pode compreender.




fim...

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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris.


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Leia também:


(49) Georges-Louis Leclerc de BUFFON (1707-1778), naturalista e escritor francês, autor da História Natural que apareceu de 1749 a 1789. Sábio dos mais eminentes, previu em sua obra, em vários importantes, as descobertas contemporâneas. 
(50) Laurence Sterne (1713-1768), escritor inglês, autor de Tristram Shandey e da Viagem Sentimental. Estilo cheio de humor e de emoção. 
(51) Na mitologia greco-romana, nome que se dá à mansão das almas dos que foram virtuosos durante a vida. 
(52) Nestor ROQUEPLAN (1804-1870), literato francês e diretor de teatros. 
(53) Charles-Augustin de SAINTE-BEUVE (1804-1869), célebre crítico francês, autor de numerosas obras: Odes, Vida, Poesia e Pensamentos de Joseph Delorme, Volúpia, Retratos Literários, Port-Royal, Palestras de Segunda-Feira, etc. 
(54) Célebre monumento de Paris, que Lemercier construiu em 1629 pra Richelieu (de onde o nome primitivo de Palais-Cardinal). Esse edifício, que se tornou propriedade nacional, passou por importantes reformas e foi durante muito tempo a residência dos príncipes de Orléans. 
(55) Emmanuel SWEDENBORG (1688-1772), filósofo místico sueco. 
(56) VIRGÍLIO (70-19 a.c.), o mais célebre dos poetas latinos, autor da Eneida, das Geórgicas e das Bucólicas. 
(57) Poeta grego, autor dos Idílios e dos Epigramas. Foi o criador do gênero bucólico e pastoril, mais tarde imitado por Virgílio. 
(58) Uma das pequenas Antilhas, dois terços da qual pertencem à França (capital Le Marigot). 
(59) Pedro ARETINO (1492-1557), famoso satírico italiano, nascido em Arezzo. Considerado licencioso e mau, mas admirado por seu estilo cheio de espírito. Autor dos Diálogos.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: XLIX - Matemos os Pobres!

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa



XLIX

MATEMOS OS POBRES!


Fazia quinze dias que eu estava exilado no meu quarto, cercado de livros em voga na época, isto é, há dezesseis ou dezessete anos atrás. Refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos, em vinte e quatro horas. Eu digerira, ou melhor, engolira todas as elucubrações de todos esses empresários da felicidade pública, que aconselham os pobres a se tornarem escravos, e de todos os que procuram convencê-los de que são reis destronados. Não será de admirar que eu estivesse, então, num estado de espírito que se aproximava da vertigem ou da estupidez. 

Confinado no fundo do meu intelecto, apenas sentia o gérmen obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de boa mulher, cujo dicionário eu acabara de percorrer. Mas, era simplesmente a ideia de uma ideia, alguma coisa de infinitamente vago. 

Afinal, saí com uma grande sede. O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional do ar livre e dos refrescos. 

Ao entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu, lançando-me um desses olhares inesquecíveis que seriam capazes de derrubar os tronos, se o espírito pudesse abalar a matéria e se os olhos de um magnetizador lograssem amadurecer as uvas. 

Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar ao meu ouvido, uma voz que reconheci bem: era a voz de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda parte. Se Sócrates (44) tinha o seu bom Demônio, porque não teria eu o meu Anjo bom, e porque não teria a honra, como Sócrates, de obter o meu título de loucura, assinado pelo sutil Lelut (45) e pelo circunspecto Baillarger (46)? Entre o Demônio de Sócrates e o meu, existe uma diferença: é que o de Sócrates só se manifestava para evitar, impedir, avisar, ao passo que o meu se digna aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates tinha apenas um demônio proibidor, e o meu é um grande afirmador, um Demônio de ação, ou de combate. 

Mas, aquela voz murmurava-me o seguinte: — Só é igual de outrem quem o prova, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la. 

Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco, tapei-lhe um olho, que ficou, num segundo, grande como uma bola. Parti uma unha quebrando-lhe os dentes e, como não me sentisse bastante forte, por ter nascido franzino e ser pouco exercitado no box, para liquidar rapidamente o velhote, peguei-o com uma das mãos pela gola do casaco e, com a outra, apertei-lhe a garganta e pus-me a sacudir vigorosamente a cabeça contra um muro. Devo confessar que tomara a preocupação de inspecionar os arredores com um rápido olhar e que verificara que, naquele arrabalde deserto, estaria muito tempo fora do alcance de algum agente de polícia. 

Depois, com um pontapé nas costas, bastante violento para quebrar-lhe as omoplatas, joguei por terra o enfraquecido sexagenário e, empunhando um grosso galho de árvore que estava no chão, bati-lhe com a energia dos cozinheiros, quando querem amolecer um bife. 

De repente, — oh milagre! Oh satisfação do filósofo que verifica a excelência de sua teoria! — vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com uma energia que eu jamais teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada. E, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o decrépito vagabundo atirou-se sobre mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, me bateu até mais não poder. Com minha enérgica medicação, eu lhe dera o orgulho e a vida. 

Esforcei-me, então, por lhe fazer compreender que considerava a discussão acabada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico (47), disse-lhe o seguinte: — Cavalheiro, o sr. é meu igual! Queira dar-me a honra de partilhar comigo a minha bolsa. E, se é realmente filantropo, lembre-se de que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem uma esmola, a teoria que eu tive o pesar de pôr à prova em suas costas. 

Ele jurou que tinha compreendido minha teoria e que obedeceria ao meu conselho.


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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris..


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Leia também:

(44) Ilustre filósofo grego, cuja doutrina foi exposta por Platão. 
(45) LELUT (1804-1877), famoso psiquiatra, autor da obra Do Demônio de Sócrates. 
(46) BAILLARGER (1806-1891), célebre alienista, autor de um Ensaio de Classificação dos Doentes Mentais. 
(47) Seita filosófica dos estoicos, cujo chefe, Zenão, ensinava debaixo de um pórtico de Atenas.

terça-feira, 26 de março de 2019

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: XLVIII - Anywhere Out Of The World

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa



XLVIII

ANYWHERE OUT OF THE WORLD


Esta vida é um hospital em que cada doente é dominado pelo desejo de mudar de leito. Um desejaria sofrer em frente à estufa, outro julga que se restabeleceria junto à janela. 

Por mim, tenho a impressão de que estaria sempre bem onde não estou, e essa questão de mudança é uma das que discuto constantemente com minha alma.

— Alma, minha pobre alma enregelada, que diria se fôssemos morar em Lisboa? Lá, deve fazer calor, e ficarias esperta como uma lagartixa. É uma cidade à beira-mar. Dizem que é construída de mármore e que o povo odeia os vegetais, arrancando todas as árvores. É uma paisagem ao teu gosto, uma paisagem feita de luz e minerais, além do líquido para refrescá-los!

A alma não responde. 

— Se amas tanto o repouso, ante o espetáculo do movimento, queres ir morar na Holanda, essa terra abençoada? Talvez te divertisses nessa região cuja imagem tantas vezes admiraste nos museus. Que achas de Rotterdam, tu que aprecias as florestas de mastros e os navios atracados junto às casas? 

Minha alma continua silenciosa. 

— Talvez a Batávia te sorrisse mais. Além disso, encontraríamos lá o espírito da Europa casado com a beleza tropical. 

Nem uma palavra. Minha alma estaria morta? 

— Terás chegado a um tal estado de letargia que só estejas satisfeita com teu mal? Nesse caso, fujamos para os países que evocam a Morte. Assumo o compromisso, pobre alma! Arrumaremos as malas pra Tornéu. Ou vamos mais longe ainda, para os extremos confins do Báltico; mais longe ainda da vida, se for possível; instalemo-nos no polo. Lá, o sol apenas toca a terra obliquamente, e as lentas alternativas da luz e da noite suprimem a variedade e aumentam a monotonia, essa metade do nada. Lá, poderemos tomar longos banhos de trevas, ao mesmo tempo que, para divertir-nos, as auroras boreais nos enviarão de vez em quando os seus feixes róseos, como reflexos de um fogo de artifício do Inferno! 

Finalmente, minha alma intervém e exclama com sabedoria: — Não importa onde! Não importa o lugar! O essencial é que seja fora deste mundo!



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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris..


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Leia também:

sexta-feira, 8 de março de 2019

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: XLVI - Perda da Auréola

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa



XLVI

PERDA DE AURÉOLA


— Olá! Você por aqui, meu caro! Num lugar mal frequentado! Você, o bebedor de quintessências! Você, o comedor de ambrosia! Palavra que me surpreende! 

— Meu caro, você conhece o meu pavor dos cavalos e dos veículos. Ainda há pouco, ao atravessar a avenida, muito apressado, escorreguei na lama, esse caos movediço onde a morte aparece de todos os lados. Minha auréola, num movimento brusco, saiu-me da cabeça e foi parar no barro do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Achei menos desagradável perder minhas insígnias do que quebrar os ossos. Afinal de contas, pensei, há males que são para bem. Posso, agora, andar incógnito, praticar atos baixos e cair na devassidão, como os simples mortais. E eis-me aqui, igual a você, como está vendo! 

— Mas deveria ao menos anunciar a perda da auréola, ou fazê-la reclamar pelo comissário. 

— Isso, não! Estou bem aqui. Só você me reconhece. Além disso, ando farto de dignidade. E depois acho que não faltará um poeta para apanhá-la e cobrir-se com ela. Fazer alguém feliz, que prazer! Sobretudo um feliz que me fará rir! Pense no X ou no Z! Hein? Vai ser um gozo!



XLVII

A SENHORITA BISTURI 


Ao chegar ao fim do arrabalde, sob os clarões do gás, senti um braço passar devagarinho debaixo do meu, e ouvi uma voz dizer-me ao ouvido: — O sr. é médico? Voltei-me e vi uma moça alta e robusta, olhos arregalados, semi uniformizada, cabelos flutuando ao vento com as fitas do boné. 

— Não, não sou. Deixe-me passar. 

— Oh! Sim! O sr. é médico! Vejo bem que o é. Venha comigo. Garanto que ficará contente. Venha! Que diabo! Mais tarde, depois do médico, irei vê-lo. 

E, sempre dependurada no meu braço e rebentando-se de rir: — Hahaha! O sr. é um médico muito tapeador. Conheço vários assim. Vamos! Eu sempre tive uma grande paixão pelo mistério, nunca perdendo a esperança de desvendá-lo. Deixei-me, por isso, arrastar por essa companheira, ou antes, por esse enigma inesperado. 
Vou omitir a descrição da choupana, que se poderia encontrar em uma porção de velhos poetas franceses bastante conhecidos. Somente dois ou três retratos de doutores célebres — detalhe que passou despercebido a Régnier (42) — havia pendurados nas paredes. 
Como fui bem tratado! Um grande fogo, vinho quente, charutos. Oferecendo-me essas coisas e acendendo também um charuto, dizia-me a engraçada criatura: — Aqui é como se estivesse em sua casa, meu amigo, esteja à vontade. Assim se lembrará do hospital e do bom tempo em que era moço. Onde arranjou esses cabelos brancos? O sr. não era assim, ainda não faz muito tempo, quando trabalhava como interno de L... Lembro-me de que era quem o assistia nas operações graves. Que homem para gostar de cortar, talhar, esgravatar! Era o sr. quem lhe entregava os instrumentos, os fios e as esponjas. E, feita a operação, com que orgulho ele dizia, puxando o relógio: “Cinco minutos, senhores!” Oh! Eu ando em toda parte. Conheço bem esses senhores! Instantes mais tarde, tratando-me por você, continuou com a mesma cantilena, dizendo-me: — Você é médico, não é, meu gatinho? 

Esse ininteligível refrão fez-me saltar: — Não! — gritei, indignado. 

— Cirurgião, então? 

— Não, e não! Só se fosse para cortar a sua cabeça! Com mil diabos! 

— Espere e verá, — disse ela. 

Tirou de um armário um maço de papéis, que não era outra coisa senão a coleção dos retratos dos médicos ilustres da época, litografados por Maurin, que durante muitos anos puderam ser vistos no cais Voltaire. 

— Pronto! Reconhece este? 

— Sim, é X. O nome está embaixo, aliás. Mas, eu o conheço pessoalmente. 

— Eu sabia! Veja! Aqui está o Z, aquele que dizia na aula, referindo-se a X: “Esse monstro traz no rosto o negrume que tem na alma!” Tudo isso porque o outro não era da opinião dele sobre um mesmo assunto! Como nos ríamos disso na Escola, naquele tempo! Lembra-se? Mais outro, veja: é o K, aquele que denunciava ao governo os revoltosos que tratava no hospital. Era uma época de levantes. Como se explica que um homem tão bonito fosse tão ruim? Veja agora o W , o famoso médico inglês; apanhei-o numa viagem a Paris. Tem um arzinho de mulher, não tem? 

E como eu tocasse num pacote amarrado, que estava em cima de uma mesa, ela me disse: — Espere um pouco, esses são os internos. Estes aqui são os externos. 

E arrumou em leque um maço de fotografias, representando caras muito moças. 

— Quando nos tornarmos a ver, você me dará o seu retrato, não é, querido? 

— Mas, — disse-lhe eu, seguindo por minha vez o curso de minha ideia fixa, — por que pensa que sou médico? 

— É porque você é tão gentil e tão bom para as mulheres! 

— Que lógica esquisita! — murmurei. 

— Oh! Não me engano, conheci uma porção. Gosto tanto desses homens que, embora eu não seja doente, costumo procurá-los, só pelo prazer de vê-los. Há os que me dizem friamente: “A senhora não tem nada!” Mas, há outros que me compreendem, porque os trato com carinho. 

— E quando não compreendem? 

— Ora! Quando os amolo inutilmente, deixo dez francos em cima do aquecedor. São tão bons e tão amáveis! Na Santa Casa, descobri um moço interno que é bonito como um anjo! Tão delicado! E como trabalha, o pobrezinho! Os companheiros dele me disseram que não tem um vintém, porque os pais são pobres e não podem mandar nada para ele. Isso me encorajou. Além disso, sou bonita, embora ainda muito moça. Eu lhe disse: “Vá me visitar, vá me visitar de vez em quando. Não se preocupe comigo, pois não preciso de dinheiro.” Mas, você compreende que lhe dei a entender isso com uma porção de rodeios, sem lhe dizer a coisa cruamente. Eu tinha tanto medo de humilhar o queridinho! Pois bem, acredita que tenho um desejo estranho que não me atrevo a dizer-lhe? Eu desejava que ele fosse visitar-me com a maleta e de avental, mesmo que estivesse um pouco sujo de sangue! Disse isso com um ar de ingenuidade, como um homem sensível diria a uma comediante que amasse: “Quero vê-la vestida com a roupa que trazia no famoso papel de sua criação!” 

Obstinado, repliquei-lhe: — Não se recorda da época e da ocasião em que lhe nasceu essa paixão estranha? 
Foi difícil fazer-me compreender. Afinal, quando o consegui, ela respondeu-me com um ar muito triste e, se não me engano, desviando o olhar: — Não sei... Não me lembro mais... 
Que maravilhas não se encontram numa grande cidade, quando se sabe passear e observar? A vida regurgita de monstros inocentes. 
Meu Deus! Vós, que sois o Criador, que sois o Soberano; vós, que fizestes a Lei e a Liberdade; vós, rei indulgente e juiz que perdoa; vós, que sois cheio de motivos e de causas e que talvez tenhais posto no meu espírito o prazer do horror para converter-me o coração, como a cura na extremidade de uma lâmina; tende piedade, Senhor, tende piedade dos loucos e das loucas! Poderão existir monstros aos olhos do Criador, que sabe por que eles existem, como foram feitos e como não poderiam deixar de ser feitos?


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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris..

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Leia também:

(42) Henri de RÉGNIER, poeta e romancista francês, nascido em 1864, um dos chefes da escola simbolista. Tem como obra Medalhas de Argila e outras.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: XLIII Atirador Galante

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa



XLIII

ATIRADOR GALANTE 


Quando o carro atravessou o bosque, ele fê-lo parar perto de um tiro, dizendo que lhe seria agradável atirar algumas balas para matar o tempo. Matar esse monstro, não será a ocupação mais comum e mais legítima de cada um? Ofereceu galantemente a mão à companheira, deliciosa e execrável mulher, essa mulher misteriosa a quem ele deve tantos prazeres, tantos sofrimentos e talvez mesmo uma grande parte do seu gênio. 

Várias balas passaram longe do ponto visado, indo uma alojar-se no teto. A encantadora criatura ria-se perdidamente, zombando da inabilidade do esposo. Então, este voltou-se bruscamente para ela e lhe disse: — Olhe para aquela boneca, lá longe, à direita, com o nariz para cima e um ar tão insolente. Pois bem, querida, imagine que é você! E, fechando os olhos, deu no gatilho. A boneca foi lindamente decapitada.

Depois, inclinando-se para a companheira, sua deliciosa e execrável mulher, sua Musa impiedosa e inevitável, beijou-lhe respeitosamente a mão e acrescentou: — Ah! Anjo querido! Como lhe agradeço minha habilidade!



XLIV

A SOPA E AS NUVENS 


Minha travessa companheira servia-me o jantar e, enquanto isso, pela janela aberta da sala, eu contemplava as arquiteturas movediças que Deus formou com os vapores; maravilhosas construções do impalpável. E dizia em minha contemplação: — Todas essas fantasmagorias são quase tão belas quanto minha linda companheira, a pequena louca monstruosa de olhos verdes. 

De repente, recebi um violento soco nas costas e ouvi uma voz rouca e encantadora, uma voz histérica e enrouquecida pela aguardente, a voz de minha querida companheirinha, que me disse: — Vá logo tomar sua sopa, seu mercador de nuvens!



XLV

O TIRO E O CEMITÉRIO 


Em frente ao cemitério, Estaminet (39) Letreiro esquisito, — diz consigo o nosso passeador, — mas próprio para despertar a sede! Certamente, o dono desse cabaré sabe apreciar Horácio (40) e os poetas discípulos de Epicuro (41). Talvez mesmo conheça o refinamento profundo dos antigos egípcios, que não admitiam banquete sem esqueleto, ou outro símbolo qualquer da brevidade da vida. 

Entrou, bebeu uma garrafa de cerveja diante dos túmulos e fumou vagarosamente um charuto. Depois, teve a extravagância de ir até ao cemitério, onde o mato era alto e convidativo, e onde reinava um riquíssimo sol. 

A luz e o calor eram causticantes. Dir-se-ia que o sol embriagado espojava-se todo sobre um tapete de flores magníficas fertilizadas pela destruição. Um imenso burburinho de vida, — a vida dos infinitamente pequenos, — enchia o espaço cortado a intervalos regulares pela crepitação dos disparos de um tiro vizinho, que ressoavam como o espocar das garrafas de champagne no gorjeio de uma sinfonia em surdina. 

Então, sob o sol que lhe esquentava o cérebro e na atmosfera dos ardentes perfumes da Morte, ouviu uma voz cochichar debaixo do túmulo em que se sentara. Essa voz dizia: — Malditos sejam vossos alvos e vossas carabinas, oh vivos turbulentos, que tão pouco vos importais com os defuntos e o seu divino repouso! Malditas sejam as vossas ambições, malditos os vossos planos, oh mortais impacientes, que vindes aprender a arte de matar junto ao santuário da Morte! Se soubésseis como é fácil ganhar o prêmio, como é fácil alcançar o fim, e como tudo é nada, exceto a Morte, não vos fatigaríeis tanto, oh laboriosos viventes, e perturbaríeis menos o sono dos que há tanto tempo puseram no Fim o único fim verdadeiro da detestável vida!


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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris.

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Leia também:
(39) Cabaré situado na estrada de Bruxelas a Necle.

(40) Célebre poeta latino, que fazia consistir a felicidade no uso moderado dos bens da vida.

(41) Filósofo grego, que ensinava que o prazer é o supremo bem do homem e que todos os nossos esforços devem tender a obtê-lo.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: XL O Espelho

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa



XL

O ESPELHO 


Um homem medonho entra e mira-se no espelho.

— Por que olha para o espelho, se só pode ver-se com desgosto? — perguntei-lhe — Senhor, — respondeu-me, — segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos: tenho, pois, o direito de mirar-me. Com prazer ou com desgosto, isto é com minha consciência.

Em nome do bom senso, é certo que eu tinha razão; mas, do ponto de vista da lei, a razão estava com ele.



XLI

O PORTO 


Um porto é um retiro encantador para uma alma cansada das lutas da vida. A largueza do céu, a móvel arquitetura das nuvens, o colorido cambiante do mar, o brilho dos faróis, são um prisma maravilhosamente adequado para distrair o olhar sem cansá-lo nunca. 

As formas esguias dos navios, de construção complicada, aos quais a maré imprime oscilações harmoniosas, servem para entreter na alma o gosto do ritmo e da beleza. E há, além disso, uma espécie de prazer misterioso e aristocrático, para quem não tem mais curiosidade nem ambição, em contemplar, deitado no mirante ou debruçado no cais, todos os movimentos dos que partem e dos que chegam, dos que ainda têm a força de querer e o desejo de viajar ou fazer fortuna.



XLII

RETRATOS DE AMANTES 


Num boudoir de homens, numa sala de fumar contígua a um elegante cassino, quatro homens fumavam e bebiam. Não eram precisamente nem moços nem velhos, nem bonitos nem feios; mas, velhos ou moços, traziam essa distinção não desprezada pelos veteranos da alegria, esse indescritível não sei quê, essa tristeza fria e irônica que diz claramente: “Já vivemos muito e ainda procuramos o que poderíamos amar e estimar”. 

Um deles desviou a conversa para as mulheres. Teria sido mais filosófico não tocar absolutamente no assunto, mas há pessoas de espírito que, quando bebem, deixam de desprezar as palestras banais. Escuta-se então aquele que fala, como se escutaria uma música de dança. 

— Todos os homens, — dizia ele, — já tiveram a idade dos querubins; é a época em que, à falta de dríades (37), a gente abraça, sem desprazer, o tronco dos carvalhos. É o primeiro grau do amor. No segundo grau, principia-se a escolher. Poder deliberar é já uma decadência. É então que se procura decididamente a beleza. Quanto a mim, senhores, vanglorio-me de ter chegado, há muito tempo, à época climatérica do terceiro grau, no qual nem a beleza é suficiente, se não é temperada de perfume, de enfeites, et cætera. Confesso mesmo que, às vezes, aspiro como a uma felicidade desconhecida, a um certo grau que deve marcar a calma absoluta. Mas, durante toda a minha vida, exceto na idade de querubim, tenho sido mais sensível do que qualquer outro à enervante toleima, à irritante mediocridade das mulheres. O que amo nos animais é, sobretudo, a sua candura. E agora julguem quanto devo ter sofrido com minha última amante. Ela era bastarda de um príncipe. Bonita, naturalmente; sem isso, porque haveria eu de querê-la? Mas, essa qualidade era prejudicada por uma ambição inconveniente e disforme. Era uma mulher que queria sempre fazer-se de homem. “Você não é homem! Ah, se eu fosse homem! De nós dois, o homem sou eu!” Tais eram os insuportáveis refrões que saíam daquela boca da qual eu desejaria que só partissem canções. A propósito de um livro, de um poema, de uma ópera pela qual eu deixasse escapar a minha admiração, ela logo me dizia: “Acha que isso seja assim tão forte?” E argumentava: “E conhecerá você sua força?” Um belo dia, resolveu dedicar-se à química, de modo que, entre minha boca e a sua, passei a encontrar uma máscara de vidro. Além disso, muito esquiva. Se às vezes eu a excitava com um gesto um pouco amoroso demais, convulsionava-se como uma sensitiva violada... 

— E como acabou? — perguntou um dos outros. — Nunca pensei que você fosse tão paciente. 

— Deus — continuou ele — deu o remédio. Um dia, encontrei essa Minerva (38), ávida de força ideal, num colóquio com o meu criado, e numa situação que me obrigou a retirar-me para não envergonhá-los. À noite, mandei os dois embora, pagando-lhes o saldo de suas contas. 

— Quanto a mim, — disse o que interrompera, — só posso queixar-me de mim mesmo. 

A felicidade foi morar em minha casa e eu não a reconheci. O destino doara-me, estes últimos tempos, o usufruto de uma mulher que era certamente a mais amável, obediente e dedicada das criaturas. Sempre disposta, mas sem entusiasmo! “Quero, pois você gosta”, — era sua resposta habitual. Se vocês dessem uma bengalada naquela parede ou naquele banco, obteriam mais suspiros do que os impulsos do amor mais furioso do seio de minha amante. Depois de um ano de vida comum, ela confessou-me que jamais conhecera o prazer. Enjoei desse duelo desigual, e a incomparável rapariga casou-se. Tive, mais tarde, a ideia de tornar a vê-la e então ela me disse, mostrando-me seis lindas crianças: “Pois é, meu caro amigo, a esposa continua tão virgem como quando era sua amante”. Nada mudara naquela criatura. Às vezes, tenho saudades: eu deveria ter-me casado com ela. 

Os outros puseram-se a rir, e um terceiro disse por sua vez: — Senhores, conheci prazeres que talvez tenham esquecido. Quero falar do lado cômico do amor, cômico que não exclui a admiração. Creio que admirei mais minha última amante do que vocês odiaram ou amaram as suas. E toda a gente admirava-a tanto quanto eu. Quando entrávamos num restaurante, ao cabo de alguns minutos, todos se esqueciam de comer para contemplá-la. Os próprios garçons e a caixa experimentavam esse êxtase contagioso ao ponto de se esquecerem dos seus deveres. Em suma, vivi por algum tempo com um fenômeno vivo. Ela comia, mastigava, triturava, devorava, engolia, mas com o ar mais natural e despreocupado deste mundo. Mantinha-me assim, durante muito tempo, em êxtase. Tinha um modo delicado, sonhador, inglês e romântico de dizer: “Estou com fome!” E repetia essas palavras dia e noite, mostrando os dentes mais bonitos deste mundo, que os teriam enternecido e alegrado ao mesmo tempo. Eu poderia ter feito fortuna mostrando-a nas feiras como um monstro polífago. Alimentava-a bem; no entanto, ela me abandonou... 

Por um fornecedor de víveres, talvez? Mais ou menos isso, uma espécie de empregado da intendência que, com alguns expedientes que conhecia, talvez tenha fornecido àquela pobre criança a ração de vários soldados. É pelo menos o que suponho. 

— Eu — disse o quarto — é que amarguei sofrimentos atrozes, justamente pelo contrário do que em geral se atribui à fêmea egoísta. Acho que vocês, mortais de tanta sorte, não têm o direito de se queixarem das imperfeições de suas amantes! Disse isso num tom sério demais para um homem de aspecto doce e grave, com uma fisionomia quase clerical, infelizmente iluminada por uns olhos cinzentos claros, cuja expressão parecia dizer: “Eu quero!” ou: “É preciso!” ou ainda: “Não perdoo!” — Se, nervoso como o conheço, G..., medrosos e volúveis como vocês dois, K... e J..., vocês se tivessem unido a certa mulher de minhas relações, ou teriam fugido, ou estariam mortos. Pois eu sobrevivi, como estão vendo. Imaginem uma pessoa incapaz de cometer uma falta, de sentimento ou de cálculo; imaginem uma desoladora serenidade de temperamento; uma dedicação sem falsidade e sem exageros; uma meiguice sem fraqueza; uma energia sem violência. A história do meu amor parece uma interminável viagem numa planície pura e polida como um espelho, vertiginosamente monótona, que refletisse todos os meus sentimentos e gestos com a irônica exatidão da minha própria consciência, de maneira que eu não pudesse permitir-me uma atitude ou um sentimento condenável sem sentir imediatamente a muda censura do meu inseparável espectro. O amor parecia-me uma tutela. Quantas tolices ela me impediu de fazer e que eu lamento não ter cometido! Quantas dívidas pagas contra a minha vontade! Privava-me de todos os benefícios que eu pudesse tirar da minha loucura pessoal. Com um regime frio e seguido à risca, refreava todos os meus caprichos. Por cúmulo do horror, passado o perigo, não exigia reconhecimento. 

Quantas vezes não tive o ímpeto de saltar-lhe à garganta e gritar-lhe: “Seja imperfeita, miserável! Para que eu possa gostar de você sem aborrecimento e sem cólera!” Admirei-a durante vários anos, o coração cheio de ódio. Afinal, não fui eu que morri! — Ah! — interromperam os outros, — então ela morreu? 

— Sim! Aquilo não podia continuar. O amor tornara-se para mim um pesadelo horrível. Vencer ou morrer, como ensina a Política; eis a alternativa que o destino me impunha. Uma noite, num bosque... à beira de um charco... após um melancólico passeio em que os olhos dela refletiam a doçura do céu, e em que o meu coração estava crispado como o inferno...

— O quê! 

— Como! 

— Que quer você dizer? 

— Era inevitável. Tenho um sentimento de equidade muito grande para espancar, ultrajar ou despedir um servidor irrepreensível. Mas, era preciso conciliar esse sentimento com o horror que aquele ser me inspirava, e livrar-me dele sem lhe faltar ao respeito. Que queriam que eu fizesse, se ela era perfeita? 

Os três outros companheiros lançaram-lhe um olhar vago e meio estúpido, como fingindo não compreender e confessando implicitamente que também não se sentiam capazes de ação tão rigorosa, embora suficientemente explicada. 

Em seguida, mandaram vir novas garrafas, para matar o tempo, que torna a vida tão dura, e acelerar a vida, que corre tão devagar.


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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris.

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Leia também:

(37) Dríades ou dríadas, antigas divindades silvestres, ninfas dos bosques.

(38) MINERVA, também chamada PALAS ou ATENA entre os gregos, era a deusa da sabedoria e das artes. A lenda representa-a saindo armada da cabeça de Júpiter, que Vulcano abrira com um machado.