sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: XXV A Bela Doroteia

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa



XXV


A BELA DOROTEIA   

O sol castiga a cidade com sua luz direta e terrível. A areia rebrilha e o mar esplende. O mundo entorpecido sucumbe molemente e faz a sesta, como numa espécie de morte saborosa em que o adormecido, semidesperto, prova as volúpias do próprio aniquilamento. 

Forte e altiva como o sol, Doroteia caminha na rua deserta. Somente ela vive nessa hora, sob o azul imenso, formando na luz uma fulgura mancha negra. 

Caminha, gingando preguiçosamente o torso miúdo nas ancas largas. O vestido de seda, de tom claro e róseo, colado ao corpo, destaca-se vivo nas trevas de sua pele, moldando-lhe o talhe esguio, o busto esbelto e o delgado pescoço. 

A sombrinha vermelha, coando a luz, projeta-lhe no rosto sombrio o tom sangrento dos seus reflexos. 

O peso da vasta cabeleira quase azul fá-la inclinar para trás a cabeça delicada e lhe dá um ar de triunfo e indolência. Nas minúsculas orelhas, os pesados brincos murmuram secretamente. 

A brisa do mar levanta-lhe, por vezes, a barra do vaporoso vestido, mostrando uma perna luzidia e soberba. A forma do pé, semelhante aos pés das deusas de mármore que a Europa encerra nos museus, imprime-se fielmente na areia fina. Doroteia é tão prodigiosamente faceira que o prazer de ser admirada supera-lhe o orgulho de liberta: embora livre, marcha sem sapatos. 

Caminha assim, harmoniosamente, contente de viver e sorrindo com seu branco sorriso, como se, ao longe, no espaço, distinguisse um espelho refletindo-lhe o andar e a beleza. 

À hora em que até os cães gemem de dor sob o sol que os morde, que poderoso motivo faz que assim vá a preguiçosa Doroteia, bela e fria como o bronze? Porque deixou a pequena casa tão garridamente arranjada, onde as flores e as trepadeiras formam por tão pequeno custo um perfeito gineceu, e onde se esmera tanto em pentear-se, em fumar, em abanar-se ou em mirar-se no espelho com grandes leques de plumas, enquanto o mar, roçando a praia cem passos adiante, faz-lhe aos sonhos indecisos um poderoso e monótono acompanhamento, e enquanto a marmita de ferro, cozendo um guisado de caranguejos com arroz e açafrão, lhe envia, do fundo do quintal, os excitantes perfumes? Talvez tenha marcado encontro com um jovem oficial que, nas praias longínquas, ouviu os camaradas falarem da célebre Doroteia. Infalivelmente lhe pedirá, a ingênua criatura, que lhe descreva o baile da Ópera (26) e lhe perguntará se se pode ir lá de pés descalços, como nas danças de domingo, em que até as velhas de Cafraria (27) se tornam ébrias e furiosas de prazer. E perguntará ainda se as mulheres de Paris são todas mais bonitas do que ela. 

Admirada e estimada por todos, Doroteia seria perfeitamente feliz, se não fosse obrigada e juntar piastra (28) por piastra para resgatar a irmãzinha que, tendo apenas onze anos, já é madura e tão bela! Consegui-lo-á, sem dúvida, a boa Doroteia: o senhor da menina é muito avarento, avarento demais para compreender outra beleza que não a dos escudos!



XXVI


OS OLHOS DOS POBRES

Ah! Quer saber porque hoje a detesto? Você terá, sem dúvida, menos facilidade em compreendê-lo do que eu em explicá-lo. Considero-a o mais belo exemplo de impermeabilidade feminina que se possa encontrar. 

Passamos juntos um longo dia, que me parecera curto. Tínhamos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns e que as nossas almas seriam uma só. Ora, esse sonho nada tem de original, a não ser o fato de que, sonhado por todos os homens, não foi realizado por nenhum. 

À tarde, sentindo-se um pouco fatigada, você quis sentar-se defronte a um café novo, na esquina de uma nova avenida, ainda cheia de asfalto e já mostrando gloriosamente esplendores inacabados. O café estava cintilante. O gás tinha todo o ardor de um começo, iluminando com toda a intensidade as paredes resplandentes de brancura, as cascatas deslumbrantes dos espelhos, o ouro das molduras e das cornijas, os criados de bochechas redondas puxados por cães presos à corrente, as damas sorrindo ao falcão trepado no punho, as ninfas e as deusas carregando frutas, pastéis e caça na cabeça, as Hebes (29) e os Ganimedes (30) ostentando com o braço estendido a pequena ânfora de néctar, ou o obelisco bicolor dos sorvetes aromáticos: toda a história e toda a mitologia postas a serviço da gulodice. 

De pé diante de nós, na calçada, um homem de uns quarenta anos, rosto abatido, barba grisalha, dava a mão a um menino e no outro braço segurava um ser pequenino fraco demais para andar. Fazia as vezes de ama, para os filhos respirarem o ar da tarde. Todos em andrajos. As três fisionomias estavam extraordinariamente sérias e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com igual admiração, apenas diversificada pela idade. 

Diziam os olhos do pai: — Como é bonito! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo foi trazido para essas paredes. 

Os olhos do menino diziam: — Como é bonito! Mas, é uma casa onde só pode entrar gente que não é como nós. 

Quanto aos olhos do pequenino, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa além de uma alegria estúpida e profunda. 

Dizem os cancioneiros que o prazer torna a alma bondosa e enternece o coração. 

Tinham razão, essa tarde. Eu não só estava enternecido com essa família de olhos, mas me sentia um tanto envergonhado dos nossos copos e garrafas, maiores do que a nossa sede. 

Fitei então os meus nos seus, meu amor, para ler o meu pensamento. E estava mergulhado nos seus olhos, tão belos e tão singularmente doces, nos seus olhos verdes, quando você me disse: — Não suporto essa gente de olhos escancarados como porteiras! Porque você não pede ao dono do café que os afaste daqui? Como é difícil um entendimento, anjo querido! E como o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!



XXVII


MORTE HEROICA 

Fancioulle era um cômico admirável e quase um dos amigos do Príncipe. Mas, para as pessoas que se dedicam por necessidade à comédia, as coisas sérias têm atrações fatais. 

Embora possa parecer estranho que as ideias de pátria e de liberdade se apoderem despoticamente do cérebro de um histrião, Fancioulle participou, um dia, de uma conspiração tramada por certos fidalgos descontentes. 

Em toda parte existem homens de bem para denunciar ao poder os indivíduos de temperamento atrabiliário que queiram depor os príncipes e operar, sem consultá-la, a transformação da sociedade. Os referidos senhores foram presos juntamente com Fancioulle e condenados à morte. 

Tenho a impressão de que o Príncipe experimentou algum desgosto ao descobrir seu comediante favorito entre os rebeldes. O Príncipe não era melhor nem pior do que os outros príncipes, mas uma excessiva sensibilidade tornava-o, muitas vezes, mais cruel e mais despótico do que todos os seus semelhantes. Amante apaixonado e excelente conhecedor das belas-artes, era verdadeiramente insaciável de volúpias. Bastante indiferente relativamente aos homens e à moral, verdadeiro artista, não conhecia inimigo mais perigoso do que o Tédio, e os esforços extraordinários que fazia para evitar ou vencer esse tirano do mundo lhe teriam certamente atraído, da parte de um historiador severo, o epíteto de “monstro”, caso permitisse que, nos seus domínios, se escrevesse qualquer coisa que não visasse unicamente ao prazer ou à admiração, que é uma das formas mais delicadas do prazer. A grande infelicidade do Príncipe foi que jamais encontrou teatro bastante vasto para o seu gênio. Há jovens Neros (31) que sufocam em limites demasiado estreitos, e os séculos vindouros ignorarão sempre o seu nome e boa-vontade. A imprevidente Providência dera àquele faculdades maiores do que os seus Estados. 

Inesperadamente, correu a notícia de que o soberano desejava conceder graça a todos os conjurados. A origem do boato foi o anúncio de um grande espetáculo em que Fancioulle devia desempenhar um dos seus principais e melhores papéis. Dizia-se que ao espetáculo assistiriam os fidalgos condenados, o que era sinal evidente, acrescentavam os espíritos superficiais, das tendências generosas do Príncipe ofendido. 

Da parte de um homem tão natural e voluntariamente excêntrico, tudo era possível, inclusive a virtude e a clemência, sobretudo se pudesse esperar e descobrir nisso prazeres desconhecidos. Mas, para os que, como eu, tinham podido penetrar mais além nas profundezas daquela alma curiosa e doente, era infinitamente mais provável que o Príncipe quisesse julgar do valor dos talentos cênicos de um homem condenado à morte. Pretenderia ele aproveitar a ocasião para fazer uma experiência fisiológica de capital interesse e verificar até que ponto as faculdades habituais de um artista podiam ser alteradas ou modificadas pela situação extraordinária em que se encontrasse? Existiria em sua alma alguma intenção mais ou menos determinada de clemência? É um ponto que nunca pôde ser esclarecido. 

Por fim, chegado o grande dia, a pequena corte se apresentou com toda a pompa, sendo difícil conceber, sem ter visto, tudo o que a classe privilegiada de um pequeno Estado, de recursos restritos, pode mostrar de esplendores para uma verdadeira solenidade. 

E aquela era duplamente verdadeira, primeiro pela magia do luxo ostentado, e depois pelo interesse moral e misterioso que lhe estava ligado. 

O senhor Fancioulle primava sobretudo nos papéis mudos ou pouco carregados de palavras, que são quase sempre os principais nesses dramas feéricos cujo objeto é representar simbolicamente o mistério da vida. Entrou em cena rapidamente e com perfeito desembaraço, o que contribuiu para fortificar, no nobre público, a ideia de doçura e de perdão. 

Quando se diz que um comediante “é um bom comediante”, a gente se serve de uma fórmula que significa que, sob a personagem, se deixa ainda adivinhar o comediante, isto é, a arte, o esforço, a vontade. Ora, se um comediante chegasse a ser, relativamente à personagem que está encarregado de exprimir, o que as melhores estátuas da antiguidade, miraculosamente animadas, vivas, insinuantes, vistosas, seriam relativamente à ideia geral e confusa de beleza, tratar-se ia, sem dúvida, de um caso singular e de todo imprevisto. 

Fancioulle foi, naquela noite, uma idealização perfeita, que não se podia deixar de supor viva, possível, real. O cômico ia, vinha, ria, chorava, convulsionava-se, com uma indestrutível auréola em torno da cabeça, auréola invisível para todos, mas visível para mim, e na qual se misturavam, num amálgama estranho, os raios da Arte e a glória do Martírio. Fancioulle, não sei com que graça peculiar, introduzia o divino e o sobrenatural até nas mais extravagantes palhaçadas. Treme-me a pena e lágrimas de uma emoção sempre presente sobem-me aos olhos ao procurar descrever aquela noite inolvidável. Fancioulle provava-me, de maneira peremptória, irrefutável, que a embriaguez da Arte é mais adequada do que qualquer outra para velar os terrores do abismo; que o gênio pode representar a comédia à beira do túmulo com uma alegria que o impede de ver o túmulo, perdido como está num paraíso que exclui toda ideia de túmulo e destruição. 

Todo aquele público, embotado e frívolo como podia ser, sofreu logo o domínio todo-poderoso do artista. Ninguém mais pensava em morte, em luto, em suplícios. Todos se abandonavam, sem inquietação, às volúpias multiplicadas pela visão de uma obra-prima de arte viva. As explosões de alegria e de admiração abalaram por várias vezes a abóbada do edifício, com a energia de uma tempestade contínua. Até o Príncipe, inebriado, juntou seus aplausos aos da corte. 

No entanto, para um observador perspicaz, sua embriaguez não existia sem mistura. 

Sentir-se ia vencido no seu poder despótico? humilhado em sua arte de terrificar os corações e entorpecer os espíritos? frustrado em suas esperanças e escarnecido em suas previsões? Tais hipóteses, que não se justificam exatamente, mas que não são em absoluto injustificáveis, atravessaram-me o espírito ao contemplar o rosto do Príncipe, no qual uma palidez nova ia aumentando sem cessar a palidez habitual, como neve juntando-se à neve. 

Seus lábios apertavam-se cada vez mais e os olhos acendiam-se com um fogo interior semelhante ao da inveja e do ressentimento, mesmo quando aplaudia de modo ostensivo os talentos do velho amigo, o estranho bufão que zombava da morte. A um certo momento, eu vi Sua Alteza voltar-se para um pequeno pajem, que se achava atrás dele, e falar-lhe ao ouvido. A fisionomia maliciosa do belo menino iluminou-se com um sorriso, e assim abandonou ele, apressado, o camarote do Príncipe, como para desincumbir-se de urgente missão. 

Alguns minutos mais tarde, um assobio agudo, prolongado, interrompeu Fancioulle num dos seus melhores momentos, ferindo a um tempo os ouvidos e os corações. E do lugar da sala de onde partira a inesperada vaia, um menino precipitou-se num corredor sufocando o riso. 

Fancioulle, sacudido, despertado em seu sonho, fechou primeiro os olhos, depois tornou a abri-los quase em seguida, desmesuradamente arregalados, abriu a boca como para respirar convulsivamente, cambaleou, um pouco para a frente, um pouco para trás, e caiu morto no palco. 

O assobio, rápido como um gládio, teria realmente frustrado o carrasco? Teria o Príncipe adivinhado toda a homicida eficiência da cilada? É lícito duvidar. Teria ele lastimado o seu querido e inimitável Fancioulle? É agradável e legítimo acreditá-lo. 

Os fidalgos culpados gozaram pela última vez do espetáculo da comédia. Na mesma noite, foram riscados da vida. 

Desde então, vários cômicos, justamente apreciados em diversos países, têm ido representar diante da corte de... Nenhum deles, porém, pôde evocar os maravilhosos talentos de Fancioulle, nem elevar-se ao mesmo favor.




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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).
Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.
Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.
Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.
Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.
Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris.


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NOTAS

(25) Jovem malabaresa, filha de uma indiana de Benares, ama das filhas de Madame Autard de Bragard. Era de rara beleza e casou-se aos vinte anos de idade com o ilustre diplomata Ferdinand de Lesseps. 

(26) Teatro monumental construído em Paris de 1862 a 1874. É considerado como o mais belo do mundo. 

(27) Região do sudeste africano, habitada pelos cafres. 

(28) Moeda de prata de diversos países e de valor muito variável. 

(29) HEBE, deusa da juventude, filha de Júpiter e de Juno. Júpiter encarregou-a de oferecer aos deuses o néctar e a ambrosia, no que foi mais tarde substituída por Ganimedes. Casou-se com Hércules e foi então incluída no número dos deuses. 

(30) Príncipe troiano, que Zeus transformou em águia para fazer dele o escanção dos deuses. 

(31) NERO, imperador romano de 54 a 68. Famoso por suas crueldades.


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