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terça-feira, 6 de março de 2018

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XII

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








LUAR
          
  
Pelas esferas, nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tímidas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.

Sombras da tarde, sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
Vão penumbrando as coisas cristalinas.


Rasga o silêncio a nota chã, plangente,
Da Ave-Maria – e então, nervosamente,
Nuns inefáveis, espontâneos jorros

Esbate o luar, de forma admirável,
Claro, bondoso, elétrico, saudável,
Na curvilínea compridão dos mortos.




MOCIDADE


Ah! esta mocidade! – Quem é moço
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilusões, da crença mais florida
Na muscular artéria de Colosso...


Das incertezas nunca mede o poço...
Asas abertas – na amplidão da vida,
Páramo a dentro – de cabeça erguida,
Vê do futuro o mais alegre esboço...


Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço volve, com saudades,
Do azul passado, o fúlgido compêndio...


Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!



[VÃO-SE DE TODO]


Vão-se de todo os pardacentos nimbos...
Chovem da luz as nítidas faíscas
E no esplendor de irradiações mouriscas,
Abrem-se as flores em gentis corimbos.


Muito mais lestas do que antigos fimbos,
Do Azul cortando as bordaduras priscas,
Pombas do mato esvoaçando, ariscas,
Do céu se perdem nos profundos limbos.


A natureza pulsa como a forja...
Pássaros vibram no clarim da gorja,
As retumbantes, fortes clarinadas.


A grande artéria dos assombros pula...
E do oxigênio, a força que regula
Enche os pulmões a largas baforadas.




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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XI

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XIII


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XI

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








CELESTE
                Aos corações ideais 
  

Lembra-me ainda – ao lado de um repuxo,
Pela brancura de um luar de agosto,
O teu maninho, um loiro pequerrucho
Brincava, rindo, te afagando o rosto...

Lembra-me ainda – às sombras do sol posto,
Numa saleta sem brasões de luxo,
De alguns bordados de fineza e gosto
Delineavas o gentil debuxo...

E o gás que forte e cintilante ardia,
Te iluminava, te alagava... ria...
Da luz ficavas no imponente abrigo.

E agora... deixa que ao cair da noite,
Esta lembrança dentro de mim se acoite,
Como a andorinha no telhado amigo!






[ESTAS RISADAS]


Estas risadas límpidas e frescas
Que Pan trauteia em cálamos maviosos
Nesta amplidão dos campos verdurosos,
Nestas paisagens flóreas, pitorescas;

Toda esta pompa e gala principescas
Destas searas, destes altanosos
Montes e várzeas, prados vigorosos,
Louros – talvez como as visões tudescas;

Este luxuoso e rico paramento,
Feito de luz e de deslumbramento
– Do grande altar da natureza imensa,

Aguarda o poeta sacerdote augusto,
Para cantar no seu missal robusto,
A nova Missa da razão que pensa...




AOS MORTOS


Oh! não é bom rir-se de um morto – brusca
Pois deve ser a sensação que aumenta
Desoladora, vagarosa, lenta
Da negra morte tétrica velhusca...

Tudo que em vida, como um sol, corusca,
Que nos aquece, que nos acalenta,
Tudo que a dor e a lágrima afugenta,
O olhar da morte nos apaga e ofusca...

Nunca se deve desprezar os mortos...
Nos regelados e sombrios portos,
Onde a matéria se transforma e urge


Exuberar na planturosa leiva,
Vivem os mortos no vigor da seiva,
Porque dão vida ao que da vida surge!...






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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.


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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XII


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos X

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








PLENILÚNIO

Vês este céu tão limpo e constelado 
E este luar que em fúlgida cascata, 
Cai, rola, cai, nuns borbotões de prata... 
Vês este céu de mármore azulado...

Vês este campo intérmino, encharcado 
Da luz que a lua aos páramos desata... 
Vês este véu que branco se dilata 
Pelo verdor do campo iluminado...

Vês estes rios, tão fosforescentes, 
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes, 
Vês estes rios cheios de ardentias...

Vês esta mole e transparente gaze... 
Pois é, como isso me parecem quase 
Iguais, assim, as nossas alegrias!



OS DOIS 
                  Aos pobres 

– Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza 
Nesses palácios, quanta majestade; 
Como essa gente há de viver, como há de 
Ser grande sempre na feliz riqueza.

Nem uma lágrima sequer – e à mesa 
Dentre as baixelas, dentre a imensidade 
Da prata e do ouro – a azul felicidade 
Dos bons manjares de ótima surpresa.

Nem um instante os olhos rasos d’água, 
Nem a ligeira oscilação da mágoa 
Na vida farta de prazer, sonora.

– Como o teu louco pensamento expandes 
Filho – a ventura não é só dos grandes 
Porque, olha, o mar também é grande e... chora!



TRISTE

Vai-se extinguindo a viva labareda 
Que te abrasava o coração ridente... 
Passas magoada pela rua e a gente 
Umas conversas funerais segreda.

Não tens no olhar o sangue qu’embebeda, 
Foram-se as rosas do viver contente... 
Segues, agora, pobre flor – somente 
Da sepultura a essencial vereda.

E vem chegando o tenebroso inverno... 
Mas nesse mal devorador e eterno, 
Teu organismo já não mais resiste

Às punhaladas da estação de gelo... 
E acabará como eu nem sei dizê-lo, 
Triste, bem triste, pesarosa, triste!





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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.


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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos I

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos II

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos III

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos IV

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos V

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VI

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VII

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VIII

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos IX

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XI


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos IX

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








SURDINAS
                Às raparigas tristes


Vais partir, vais partir que eu bem te vejo 
Na branca face os gélidos suores, 
Vais procurar as músicas melhores 
Do sol, da glória e do celeste beijo.

Dentro de ti as harpas do desejo 
Não vibram mais – embora que tu chores – 
Nem pelas tuas aflições maiores 
Se escuta um vago e enfraquecido arpejo...

Bem! vais partir, vais demandar esferas 
Amplas de luz, feitas de primaveras, 
Paisagens novas e amplidão florida...

Mas ao chegar-te a lágrima infinita, 
Lembra-te ainda, ó pálida bonita, 
De que houve alguém que te adorou na vida.




IRRADIAÇÕES 
               Às crianças


Qual da amplidão fantástica e serena 
À luz vermelha e rútila da aurora 
Cai, gota a gota, o orvalho que avigora 
A imaculada e cândida açucena.

Como na cruz, da triste Madalena 
Aos pés de Cristo, a lágrima sonora 
Caiu, rolou, qual bálsamo que irrora 
A negra mágoa, a indefinida pena...

Caia por vós, esplêndidas crianças, 
Bando feliz de castas esperanças, 
Sonhos da estrela no infinito imersas;

Caia por vós, às músicas formosas, 
Como um dilúvio matinal de rosas, 
Todo o luar benéfico dos versos!




AMBOS

Vão pela estrada, à margem dos caminhos 
Arenosos, compridos, salutares, 
Por onde, à noite, os límpidos luares 
Dão às verduras leves tons de arminhos.

Nuvens alegres como os alvos linhos 
Cortam a doce compridão dos ares, 
Dentre as canções e os tropos singulares 
Dos inefáveis, meigos passarinhos.

Do céu feliz na branda curvidade, 
A luz expande a inteira alacridade, 
O mais supremo e encantador afago.

E com o olhar vibrante de desejos 
Vão decifrando os trêmulos arpejos, 
E as reticências que produz o vago.




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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.


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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos V

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VI

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VII

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VIII

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos X



terça-feira, 31 de outubro de 2017

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VIII

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








NOIVA E TRISTE


Rola da luz do céu, solta e desfralda 
Sobre ti mesma o pavilhão das crenças, 
Constele o teu olhar essas imensas 
Vagas do amor que no teu peito escalda.

A primorosa e límpida grinalda 

Há de enflorar-te as amplidões extensas 
Do teu pesar – há de rasgar-te as densas 
Sombras – o véu sobre a luzente espalda...

Inda não ri esse teu lábio rubro 
Hoje – inda n’alma, nesse azul delubro 
Não fulge o brilho que as paixões enastra;

Mas, amanhã, no sorridor noivado, 
A vida triste por que tens passado, 
De madressilvas e jasmins se alastra.




MÃE E FILHO 
               Às mães desamparadas


Jesus, meu filho, o encanto das crianças, 
Quando na cruz, de angústia espedaçado, 
Em sangue casto e límpido banhado, 
Manso, tão manso como as pombas mansas;

Embora as duras e afiadas lanças 
Com que os judeus tinham, de lado a lado, 
Seu coração puríssimo varado, 
Inda no olhar raiavam-lhe esperanças.

Por isso, ó filho, ó meu amor – se a esmola 
De algum conforto essencial não rola 
Por nós – é força conduzir a cruz!...

Mas, volta o filho, pesaroso e triste. 
Se a nossa vida só na dor consiste, 
Ah! minha mãe, por que morreu Jesus?...




 NATUREZA 
                  Aos Poetas


Tudo por ti resplende e se constela, 
Tudo por ti, suavíssimo, flameja; 
És o pulmão da racional peleja, 
Sempre viril, consoladora e bela.

Teu coração de pérolas se estrela, 
E o bom falerno dás a quem deseja 
Vigor, saúde à crença que floreja, 
Que as expansões do cérebro revela.

Toda essa luz que bebe-se de um hausto 
Nos livros sãos, todo esse enorme fausto 
Vem das verduras brandas que reluzem!

Esse da ideia esplêndido eletrismo, 
O forte, o grande, audaz psicologismo, 
Os organismos naturais produzem...






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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.


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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VI

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VII

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos IX


domingo, 15 de outubro de 2017

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VII

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








[ANDA-ME A ALMA]


Anda-me a alma inteira de tal sorte, 
Meus gozos, meu pesar, nos dela unidos 
Que os dela são também os meus sentidos, 
Que o meu é também dela o mesmo norte.

Unidos corpo a corpo – um elo forte 
Nos prende eternamente – e nos ouvidos 
Sentimos sons iguais. Vemos floridos 
Os sons do porvir, em azul coorte...

O mesmo diapasão musicaliza 
Os seres de nós dois – um sol irisa 
Os nossos corações – dá luz, constela...

Anda esta vida, espiritualizada 
Por este amor – anda-me assim – ligada 
A minha sombra com a sombra dela.




QUANDO EU PARTIR

Quando eu partir, que eterna e que infinita 
Há de crescer-me a dor de tu ficares; 
Quanto pesar e mesmo que pesares, 
Que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita, 
Que sentimento, grande como os mares, 
Que sombra e luto pelos teus olhares 
Onde o carinho mais feliz palpita...

Nesse teu rosto da maior bondade 
Quanta saudade mais, que atroz saudade... 
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

Quando eu tiver já de uma vez partido, 
Ó meu amor, ó meu muito querido 
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!





SEMPRE E... SEMPRE A M. B. 
                 Augusto Varela 
                 Sempre se amando, sempre se querendo. 
                 (Oliveira Paiva)

De longe ou perto, juntas, separadas, 
Olhando sempre os mesmos horizontes, 
Presas, unidas nossas duas frontes 
Gêmeas, ardentes, novas, inspiradas;

Vendo cair as lágrimas prateadas, 
Sentindo o coro harmônico das fontes, 
Sempre fitando a cúspide dos montes 
E o rosicler das frescas alvoradas;

Sempre embebendo os límpidos olhares 
Na claridão dos humildes luares, 
No loiro sol das crenças se embebendo,

Vão nossas almas brancas e floridas 
Pelo futuro azul das nossas vidas, 
Sempre se amando, sempre se querendo.




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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.


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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VI


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos VI

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 








SATANISMO


Não me olhes assim, branca Aretusa, 
Peregrina inspiração dos meus cantares; 
Não me deixes a razão vagar confusa 
Ao relâmpago ideal de teus olhares.

Não me olhes, oh! não, porquanto eu penso 
Envolvido no luar das minhas cismas, 
Que o olhar que me dardejas – doido, imenso 
Tem a rápida explosão dos aneurismas.

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno 
Problemático, fatal, cálido, eterno, 
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!...

Não me olhes, oh! não, que m’entolece 
Tanta luz, tanto sol – e até parece 
Que tens músicas cruéis dentro do olhar!...





METAMORFOSE 
A Carlos Ferreira


O sol em fogo pelo ocaso explode 
Nesse estertor, que os crânios assoberba. 
Vivo, o clarão, nuns frocos exacerba 
Dos ideais a original nevrose.

Da natureza os anafis mouriscos 
Ante o cariz da atmosfera muda, 
Soam queixosos, numa nota aguda, 
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.

O pensamento que flameja e luta 
Nos ares rasga aprofundado sulco... 
A sombra desce nos lisins da gruta;

E a lua nova – a peregrina Onfale, 
Como em um plaustro luminoso, hiulco, 
Surge através dos pinheirais do vale.





AURÉOLA EQUATORIAL 
A Teodoreto Souto


Fundi em bronze a estrofe augusta dos prodígios, 
Poetas do Equador, artísticos Barnaves; 
Que o facho – Abolição – rasgando as nuvens graves 
De raios e bulcões – triunfa nos litígios!

– O rei Mamoud, o Sol, vibrou p’raquelas bandas 
do Norte – a grande luz – elétrico, explodindo, 
Assim como quem vai, intrépido, subindo 
A luz da idade nova – em claras propagandas.

– Os pássaros titãs nos seus conciliábulos, 
– Chilreiam, vão cantando em místicos vocábulos, 
Alargam-se os pulmões nevrálgicos das zonas;

Abri alas, abri! – Que em túnica de assombros, 
Irá passar por vós, com a Liberdade aos ombros, 
Como um colosso enorme o impávido Amazonas!





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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.


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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos IV


Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos V