Inhacundá
As memórias do Vô Mitô são histórias de amorosidade com a humanidade, as lembranças de um homem encantado pela vida
baitasar
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Adeus, meu amigo
A barranca do Inhacundá
e assim eu fiz
As memórias do Vô Mitô são histórias de amorosidade com a humanidade, as lembranças de um homem encantado pela vida
baitasar
As lembranças daquele arroio
não me deixam. Os meninos pelados correndo, jogados nas suas águas. As marés
das chuvas crescendo e aquelas águas no contorno da minha cidade, São Francisco
de Assis, é outro lembramento que aviva minhas carnes.
Os cabelos brancos não me
afastam destas memórias, pelo contrário, a cada novo fio pálido de leite, meu
memorial se reconstrói. As minhas carnes ficam com doze anos, o fôlego me volta
de uma só vez, os olhos se arregalam, esbugalhos de contentamento.
O arroio se chegando, ele tem curvas de
sinuosas intenções.
Tenho mais que a nostalgia poderia me trazer, tenho a memória
do vivido com aqueles guris.
Voltei.
Precisava voltar.
Achei quase tudo no lugar.
Minha casinha humilde com seu telhado de telhas em canoa. A porta.
Janelas. As mexeriqueiras sumiram e as terras se dividiram para abrigarem
muitas casas. Mas a praça e os bugios ainda andam por lá, viraram atrações. Os
matos se acabam e resta a praça com os seus macaqueadores. Os turistas vêm para
alimentá-los e se fotografarem juntos. Fico de longe.
Não tenho precisão das fotos, tenho a vida e conservo as
lembranças. Escuto os gritos de convocação
— Milton, vamos jogar bola na beirada!
— Vó Nena, posso?
— Vai, mas cuida a hora do sol
mais fraco...
— Tem pão quando eu voltar?
— Bem quentinho. —
e lá se iam os guris de São Chico na direção do arroio Inhacundá. A pelada se
jogava com bola de costuras por fora nem parecia que doía chutar. O guri que eu
era crescia entre os amigos, enquanto meus irmãos se foram pra capital mudar de
vida. Deixaram a absoluta calmaria pela agitação das charretes e fords bigodes.
Burburinho civilizatório.
Talvez essas lembranças não tenham sido
bem assim, mas e daí, é como lembro e gosto de pensar que foi. E se lembro assim, é assim mesmo que foi. Depois do
futebol batia aquela vontade danada de pular no Inhacundá, mas o que fazer dos calções depois de molhados? Todos se olhavam e lá iam eles pernas abaixo. Corríamos pelados até a barranca
e pulávamos um após o outro, feitos pedras de dominó. Minhas lembranças ficaram
naqueles vôos até as suas águas límpidas de cor marrom. Cheiravam a mato. Cheirávamos vida. Sinto
ainda estar flutuando da barranca, as pernas encolhidas, os gritos de alegria,
os olhos arregalados, a satisfação dos braços estendidos junto com
minhas mãos e dedos. Voltei a ser aquele guri que já havia esquecido, deixado
de lado, meio a contragosto.
Nadávamos até a ilha no meio
do arroio e tornávamos a saltar nas águas
— Silêncio...
— Psiu!
— O que foi?
— Ouçam...
— Não to escutando.
— As gurias estão rio acima.
— Vamos espiar. — e íamos espiar o banho das
gurias, com seus maiôs de manga e pernas compridas. Quando nos viam saiam nas
correrias. Todos fugiam. Voltávamos a buscar calções e pernas.
Lembro dos dias de chuva
dentro do rancho. Não sei se o rumo dos sonhos viaja no tempo, chega na terra
dos lugares distantes para mudar as lembranças, apenas atravesso a rua. Eis a
agonia de percorrer o tempo e lugares antes que o estalar dos dedos se faça
ouvir. Caminho com as mãos nos bolsos e passos deliberadamente lentos. Tenho a
pele avermelhada pelo sol radiante e mergulhada em sua luz devastadora. A vasta
cabeleira negra cedeu lugar ao cabelo encanecido pelo tempo, cortado baixinho.
Digo que estou ainda inteiramente ingênuo e sou por inteiro
aquele menino.
Paro e tomo
fôlego, ouço minhas preces ocultas. As vozes dos guris.
Ninguém percebe minha
alegria do espanto, o eco me retorna. Sou aquelas memórias que só
existem em mim. Fui feito em muitos anos. Lutei em muitos moinhos e
sonhos, devaneios de guri feito homem sozinho. Esses pedaços da memória que me
pertencem me fazem de carne e osso.
Tenho oitenta, e sei...
sempre terei doze. Aquele guri do Inhacundá chegou até aqui e pretende ir mais
longe
— Nada é tão simples do que viver, meus filhos. — sou um narrador
intrometido nos próprios sonhos de lembrar. Sinto saudades da escola que não
fui, fugia para jogar bola e tomar banho de rio. Sinto a ausência das letras
que deixei pelos caminhos sem decifrá-las. Fiz um mundo diferente para mim.
Tenho meus grandes heróis, brilhantes e universais. Quero reunir todos e todas
que enquanto dormem... sonham e são felizes.
Sinto o sonho do sono
invadir os lugares mais retirados do meu corpo. Minha consciência vai me
abandonando, quase adormeço do mesmo modo que sempre digo que devem descansar,
confiantes, sem medo do escuro, pois, no final, sempre vencemos a escuridão.
Continuo a conduzir as histórias do real, gostosas lembranças de guri. Eu sou o
que existe de fato: o andamento dos compassos recolhidos dentro da memória.
Intacto. Descobri o tempo de dizer o que decifrei do tempo que também sou.
Isso, eu sou o guri que nunca deixei de ser. No mundo dos sonhos estou apenas
usando minha memória, lembrando do que desejo sonhar de novo, coisas que podem
ser acontecidas. Sigo fazendo o meu discurso, o meu abraço em vocês, meus
filhos, desses que acontecem de vez em quando, pelo mundo desta ilha de muitos
sabores.
—
Hiiiippppp — estou flutuando da barranca, as pernas encolhidas, os gritos de
contentamento, os olhos arregalados de satisfação e os braços estendidos junto
com suas mãos, meus filhos. Meus cabelos nevados se arrepiam, envelheceram.
Minhas memórias pulam ansiosas, gritam alegres.
A magia é um mundo aberto
sem porteiras.
Volto a servir o mate
em cuia pequena... esse meu pai e suas histórias que vão continuar.
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Galeria de 2008
65 anos depois o menino pelado voltou ao Inhacundá!
A praça dos bugios |
Os meninos pelados do Inhacundá na praça dos bugios |
A casinha da infância |
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Adeus, meu amigo
A barranca do Inhacundá
e assim eu fiz
contei histórias para o meu pai adormecer
ofereci sonhos para brincar neles
e ele adormeceu em meus braços
Mauro Marques
Meu pai foi um dos meninos pelados do Inhacundá
Meu pai foi um colorado
(Elci, a gente vai casar, mas tenho que avisar duas coisas: sou getulista e colorado, isso nunca vai mudar)
Meu pai foi getulista, transformado em brizolista apaixonado durante a Legalidade
(A tua mãe tinha uma mala de roupas sempre pronta no apartamento, lá no IAPI, se começasse a confusão fugia contigo e o teu irmão... lá pra tua vó)
Ele se ia à Prefeitura
Porto Alegre era uma cidade armada dos dentes aos telhados
Não posso mais sentar ao lado deste homem, sinto falta do guri com 8, 9 , 10 anos
Foi assim que me senti nestes dias, perdendo um amigo único, jamais tive um amigo igual. E a criança que sempre fui quando estava ao seu lado, muitas vezes irritado por me sentir tão menino, está com lágrimas nos olhos
As lembranças do arroio e daqueles meninos pelados que não vi correndo se jogando nas águas não me deixam
Os seus cabelos brancos não se afastam e meus dedos tornam a se enfiar entre seus fios lisos e pálidos de leite
Mesmo quando de mim restarem menos que a poeira dos vestígios da minha vida, aquele menino do arroio Inhacundá ainda será o meu pai
Não tenho as fotos, mas conservo a lembrança do revirado com as sobras na geladeira, todas as manhãs de sábado, tempos desarrumados desde 1964
Nestes dias de reencontros doloridos com minhas memórias, tomei o rumo dos sonhos e viajei no tempo, voltei para lugares distantes. Nem foi preciso atravessar a rua, bastou fechar os olhos. Os churrascos de domingo temperados na salmoura aplicada com os pequenos galhos de guanxuma
O guri que tomava banho pelado no arroio Inhacundá adoeceu e desacreditado de qualquer esperança pelos médicos... partiu
(Vó Nena, posso ir?)
E lá se foi o menino jogar bola na barranca do Inhacundá, eu fiquei ali segurando sua mão.
Ao fim de tudo
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Alberto Caeiro
e assim eu fiz. contei histórias para o meu pai adormecer. ofereci sonhos para brincar neles. e ele adormeceu em meus braços
Mauro Marques
Meu pai foi um dos meninos pelados do Inhacundá
Meu pai foi um colorado
(Elci, a gente vai casar, mas tenho que avisar duas coisas: sou getulista e colorado, isso nunca vai mudar)
Meu pai foi getulista, transformado em brizolista apaixonado durante a Legalidade
(A tua mãe tinha uma mala de roupas sempre pronta no apartamento, lá no IAPI, se começasse a confusão fugia contigo e o teu irmão... lá pra tua vó)
Ele se ia à Prefeitura
Porto Alegre era uma cidade armada dos dentes aos telhados
Não posso mais sentar ao lado deste homem, sinto falta do guri com 8, 9 , 10 anos
Foi assim que me senti nestes dias, perdendo um amigo único, jamais tive um amigo igual. E a criança que sempre fui quando estava ao seu lado, muitas vezes irritado por me sentir tão menino, está com lágrimas nos olhos
As lembranças do arroio e daqueles meninos pelados que não vi correndo se jogando nas águas não me deixam
Os seus cabelos brancos não se afastam e meus dedos tornam a se enfiar entre seus fios lisos e pálidos de leite
Mesmo quando de mim restarem menos que a poeira dos vestígios da minha vida, aquele menino do arroio Inhacundá ainda será o meu pai
Não tenho as fotos, mas conservo a lembrança do revirado com as sobras na geladeira, todas as manhãs de sábado, tempos desarrumados desde 1964
Nestes dias de reencontros doloridos com minhas memórias, tomei o rumo dos sonhos e viajei no tempo, voltei para lugares distantes. Nem foi preciso atravessar a rua, bastou fechar os olhos. Os churrascos de domingo temperados na salmoura aplicada com os pequenos galhos de guanxuma
Sou aquelas memórias do meu pai que existem em mim... o único pai que eu quis ter
O guri que tomava banho pelado no arroio Inhacundá adoeceu e desacreditado de qualquer esperança pelos médicos... partiu
(Vó Nena, posso ir?)
E lá se foi o menino jogar bola na barranca do Inhacundá, eu fiquei ali segurando sua mão.
Ao fim de tudo
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Alberto Caeiro
e assim eu fiz. contei histórias para o meu pai adormecer. ofereci sonhos para brincar neles. e ele adormeceu em meus braços
O que esses netos e netas não fazem com esses Velhos... |
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