segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - Os amigos do ABC / VI — Rés Augusta

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quarto — Os amigos do ABC

     VI — Rés Augusta

             O que o mancebo passara nessa noite abalou-o profundamente, ensombrando-lhe a alma de uma nuvem negra de tristeza. Mário experimentou o mesmo que a terra decerto experimenta, quando pelo arado é aberta para receber o grão de trigo que se há-de desenvolver no seu seio; então apenas sente a dor que lhe causa o ferro; o estremecimento do germe e o prazer do fruto só mais tarde é que chegam.
     Mário ficou sombrio. Pois havia de tão rapidamente abjurar as crenças que ainda há tão pouco se lhe tinham infiltrado no coração? A si próprio respondeu que não, fazendo esforços para repelir a dúvida, mas principiando, mau grado seu, a duvidar.
     Esta posição do homem que se vê entre duas religiões a que ainda não abandonou e a que ainda não abraçou é insuportável; só às almas-morcegos agradam os crepúsculos e as meias-luzes. Mário, portanto, cujos olhos se não cegavam com a claridade, queria a verdadeira luz, e por isso desprazia-lhe o mortiço clarão da dúvida. Por maiores que fossem os desejos que tinha de ficar onde estava e não se desviar desse ponto, sentia-se irresistivelmente constrangido a continuar, a avançar, a examinar, a pensar e a caminhar para diante. Aonde o levaria esse estranho impulso? Não o sabia. Receava que, depois de ter andado tanto no caminho que o aproximara a seu pai, agora retrogradasse, afastando-se dele. A cada reflexão em que se lhe embrenhava o espírito aumentava-lhe o embaraço da sua posição. Para onde quer que olhasse, só se via rodeado de precipícios. Nem estava de acordo com seu avô nem com os seus amigos; para aquele era temerário, para estes andava atrasado; sentia-se assim duas vezes abandonado, pelos velhos e pelos novos. Deixou de ir ao Café Musain.
     No meio da perturbação que lhe agitava a consciência, o mancebo já se não lembrava de certos aspectos sérios da existência. Mas as realidades da vida, que se fazem sempre lembradas, vieram repentinamente despertá-lo das suas abstrações.
     Uma manhã, o dono da estalagem entrou no quarto do rapaz e disse-lhe: 

— O senhor Courfeyrac abonou-o. 
— Abonou. 
— Mas o pior é que eu necessitava de dinheiro. 
— Mande dizer ao senhor Courfeyrac se faz favor de vir falar-me.

     Apenas este chegou, o dono da estalagem retirou-se, e Mário contou-lhe o que não se lembrara ainda de lhe ter dito, que era quase só no mundo e que não tinha parentes. 

— Visto isso, que há-de ser de si? — perguntou Courfeyrac. 
— Não sei — respondeu Mário. 
— Mas que tenciona fazer? 
— Não sei. 
— Tem algum dinheiro? 
— Quinze francos. 
— Quer que lhe empreste mais algum? 
— De modo nenhum. 
— Tem roupa? 
— Esta que vê. 
— E alguns objetos de valor? 
— Um relógio. 
— De prata? 
— Não, de ouro. 
— Eu conheço um adelo a quem pode vender um dos casacos e um par de calças. 
— Está bem. 
— Ficar-lhe-ão outras calças, um colete, um chapéu e um casaco. 
— E as botas. 
— Boa! Então faz tenção de andar descalço? Que opulência! 
— É quanto basta. 
— Conheço um relojoeiro que de certo lhe compra o relógio. 
— Bem. 
— Não está bem, não. Que tenciona fazer depois? 
— Sujeitar-me-ei a tudo, bem entendido, que não for proibido pela honra. 
— Sabe inglês? 
— Não. 
— E alemão? 
— Também não. 
— Isso é mau. 
— Por quê? 
— Porque um livreiro meu amigo vai publicar uma espécie de enciclopédia, para a qual o senhor podia traduzir alguns artigos do alemão ou do inglês. Pouco se ganha, mas vive-se. 
— Nesse caso vou-me pôr a aprender inglês e alemão. 
— E entretanto? 
— Entretanto irei passando com o produto do casaco e do relógio.

     O mancebo mandou chamar o adelo, que lhe deu vinte francos pelo casaco, e depois foram a casa do relojoeiro, que lhe comprou o relógio por quarenta e cinco francos. 

— O negócio corre bem — disse Mário a Courfeyrac ao recolherem para a estalagem —, com os quinze francos que tenho perfaz oitenta francos. 
— E a despesa da estalagem? 
— Ai, é verdade, não me lembrava! — disse Mário.

     O estalajadeiro apresentou-lhe a conta que montava a setenta francos e que o rapaz teve de pagar logo. 

— Fico com dez — disse Mário. 
— Diabo! — disse Courfeyrac. — São, portanto, cinco francos para gastar enquanto não aprende o inglês e outros cinco enquanto não aprender o alemão. Será engolir uma língua com muita precipitação ou uma moeda de cem soldos muito devagar.

     Depois de muitos esforços, porém, a filha mais velha de Gillenormand, que era dotada de bom coração, viera, por último, a dar com a casa da habitação de Mário, e um dia pela manhã, o mancebo, ao recolher-se da aula, encontrou uma carta de sua tia e sessenta pistolas, isto é, seiscentos francos em ouro, num embrulho lacrado.
     Mário tornou a mandar os trinta luíses a sua tia, fazendo-os acompanhar de uma respeitosa carta, em que lhe dizia achar-se com suficientes meios de subsistência e poder agora satisfazer todas as suas necessidades. Nessa ocasião restavam-lhe três francos.
     A tia não participou ao avô a recusa do neto em aceitar o dinheiro, temendo acabar de o exasperar. E depois não tinha ele dito: «Não me tornem mais a falar desse sanguinário»?
     Mário, por consequência, teve de sair da estalagem da porta de S. Jacques, porque não queria contrair dívidas.

continua na página 510...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - VI — Rés Augusta
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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