Terceira Parte - Mário
Livro Quarto — Os amigos do ABC
VI — Rés Augusta
O que o mancebo passara nessa noite abalou-o profundamente, ensombrando-lhe a
alma de uma nuvem negra de tristeza. Mário experimentou o mesmo que a terra decerto
experimenta, quando pelo arado é aberta para receber o grão de trigo que se há-de
desenvolver no seu seio; então apenas sente a dor que lhe causa o ferro; o
estremecimento do germe e o prazer do fruto só mais tarde é que chegam.
Mário ficou sombrio. Pois havia de tão rapidamente abjurar as crenças que ainda há
tão pouco se lhe tinham infiltrado no coração? A si próprio respondeu que não, fazendo
esforços para repelir a dúvida, mas principiando, mau grado seu, a duvidar.
Esta posição do homem que se vê entre duas religiões a que ainda não abandonou e a
que ainda não abraçou é insuportável; só às almas-morcegos agradam os crepúsculos e
as meias-luzes. Mário, portanto, cujos olhos se não cegavam com a claridade, queria a
verdadeira luz, e por isso desprazia-lhe o mortiço clarão da dúvida. Por maiores que
fossem os desejos que tinha de ficar onde estava e não se desviar desse ponto, sentia-se
irresistivelmente constrangido a continuar, a avançar, a examinar, a pensar e a caminhar
para diante. Aonde o levaria esse estranho impulso? Não o sabia. Receava que, depois
de ter andado tanto no caminho que o aproximara a seu pai, agora retrogradasse,
afastando-se dele. A cada reflexão em que se lhe embrenhava o espírito aumentava-lhe
o embaraço da sua posição. Para onde quer que olhasse, só se via rodeado de
precipícios. Nem estava de acordo com seu avô nem com os seus amigos; para aquele era
temerário, para estes andava atrasado; sentia-se assim duas vezes abandonado, pelos
velhos e pelos novos. Deixou de ir ao Café Musain.
No meio da perturbação que lhe agitava a consciência, o mancebo já se não lembrava
de certos aspectos sérios da existência. Mas as realidades da vida, que se fazem sempre
lembradas, vieram repentinamente despertá-lo das suas abstrações.
Uma manhã, o dono da estalagem entrou no quarto do rapaz e disse-lhe:
— O senhor Courfeyrac abonou-o.
— Abonou.
— Mas o pior é que eu necessitava de dinheiro.
— Mande dizer ao senhor Courfeyrac se faz favor de vir falar-me.
Apenas este chegou, o dono da estalagem retirou-se, e Mário contou-lhe o que não se
lembrara ainda de lhe ter dito, que era quase só no mundo e que não tinha parentes.
— Visto isso, que há-de ser de si? — perguntou Courfeyrac.
— Não sei — respondeu Mário.
— Mas que tenciona fazer?
— Não sei.
— Tem algum dinheiro?
— Quinze francos.
— Quer que lhe empreste mais algum?
— De modo nenhum.
— Tem roupa?
— Esta que vê.
— E alguns objetos de valor?
— Um relógio.
— De prata?
— Não, de ouro.
— Eu conheço um adelo a quem pode vender um dos casacos e um par de calças.
— Está bem.
— Ficar-lhe-ão outras calças, um colete, um chapéu e um casaco.
— E as botas.
— Boa! Então faz tenção de andar descalço? Que opulência!
— É quanto basta.
— Conheço um relojoeiro que de certo lhe compra o relógio.
— Bem.
— Não está bem, não. Que tenciona fazer depois?
— Sujeitar-me-ei a tudo, bem entendido, que não for proibido pela honra.
— Sabe inglês?
— Não.
— E alemão?
— Também não.
— Isso é mau.
— Por quê?
— Porque um livreiro meu amigo vai publicar uma espécie de enciclopédia, para a
qual o senhor podia traduzir alguns artigos do alemão ou do inglês. Pouco se ganha, mas
vive-se.
— Nesse caso vou-me pôr a aprender inglês e alemão.
— E entretanto?
— Entretanto irei passando com o produto do casaco e do relógio.
O mancebo mandou chamar o adelo, que lhe deu vinte francos pelo casaco, e depois
foram a casa do relojoeiro, que lhe comprou o relógio por quarenta e cinco francos.
— O negócio corre bem — disse Mário a Courfeyrac ao recolherem para a estalagem
—, com os quinze francos que tenho perfaz oitenta francos.
— E a despesa da estalagem?
— Ai, é verdade, não me lembrava! — disse Mário.
O estalajadeiro apresentou-lhe a conta que montava a setenta francos e que o rapaz
teve de pagar logo.
— Fico com dez — disse Mário.
— Diabo! — disse Courfeyrac. — São, portanto, cinco francos para gastar enquanto
não aprende o inglês e outros cinco enquanto não aprender o alemão. Será engolir uma
língua com muita precipitação ou uma moeda de cem soldos muito devagar.
Depois de muitos esforços, porém, a filha mais velha de Gillenormand, que era dotada
de bom coração, viera, por último, a dar com a casa da habitação de Mário, e um dia
pela manhã, o mancebo, ao recolher-se da aula, encontrou uma carta de sua tia e
sessenta pistolas, isto é, seiscentos francos em ouro, num embrulho lacrado.
Mário tornou a mandar os trinta luíses a sua tia, fazendo-os acompanhar de uma
respeitosa carta, em que lhe dizia achar-se com suficientes meios de subsistência e poder
agora satisfazer todas as suas necessidades. Nessa ocasião restavam-lhe três francos.
A tia não participou ao avô a recusa do neto em aceitar o dinheiro, temendo acabar
de o exasperar. E depois não tinha ele dito: «Não me tornem mais a falar desse
sanguinário»?
Mário, por consequência, teve de sair da estalagem da porta de S. Jacques, porque
não queria contrair dívidas.
continua na página 510...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - VI — Rés Augusta
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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