O SOBREVIVENTE
A Salvação de Flávio Josefo
Acerca da história da guerra entre romanos e judeus, ocorrida na juventude de Domiciano, conta-se um episódio que ilumina com perfeição a natureza do sobrevivente. O comando supremo do lado romano cabia a Vespasiano, o pai de Domiciano, e foi durante essa guerra que os Flávios obtiveram a dignidade imperial.
Os judeus estavam revoltados com a dominação romana havia já
algum tempo. Quando, então, seu levante irrompeu seriamente, eles
nomearam comandantes para as diversas partes do país. Estes deveriam
reunir o povo para a guerra e colocar as cidades em boa situação, de
modo que fossem capazes de defender-se com êxito das legiões romanas,
que, com certeza, logo chegariam. Josefo, ainda jovem — não contava
trinta anos de idade —, foi contemplado com a província da Galileia.
Lançou-se, então, com grande ardor à execução de sua tarefa. Em sua
História das guerras judaicas, ele descreveu os obstáculos contra os quais
teve de lutar: a desunião entre os cidadãos, os rivais que buscavam
intrigá-lo e reuniam tropas por conta própria, as cidades que se
recusavam a reconhecer-lhe o comando ou que, passado algum tempo,
acabavam por desertar. Não obstante, com espantosa energia ele
montou um exército, ainda que mal armado, e preparou fortalezas para
recepcionar os romanos.
Estes, então, de fato chegaram, comandados por Vespasiano, que
trazia consigo seu filho Tito, da mesma idade de Josefo. Em Roma,
àquela época, Nero era ainda o imperador. Vespasiano tinha fama de
um velho e experiente general; distinguira-se já em várias guerras.
Invadindo, pois, a Galileia, isolou Josefo e seu exército de judeus no
interior da fortaleza de Jotapata. Os judeus defenderam-se com grande
coragem; criativo, Josefo soube rechaçar todos os ataques, e os romanos
sofreram pesadas perdas. A defesa estendeu-se por 47 dias. Quando, com
astúcia e durante a noite, os romanos finalmente lograram invadir a
fortaleza — todos dormiam, e só foram notar-lhes a presença ao
amanhecer —, os judeus mergulharam num terrível desespero,
suicidando-se aos montes.
Josefo escapou. Sua sorte após a tomada da cidade, desejo apresentá-la em suas próprias palavras, pois, que eu saiba, inexiste na literatura
mundial relato semelhante de um sobrevivente. Josefo descreve com
notável consciência, com uma espécie de percepção aguda da essência
do sobreviver, tudo quanto fez para escapar. Não lhe foi difícil fazê-lo
com honestidade, uma vez que escreveu seu relato mais tarde, quando já
se encontrava nas altas graças dos romanos.
Após a queda de Jotapata, os romanos vasculharam entre os mortos e por todos os mais recônditos recantos da cidade à procura do odiado Josefo — em parte pelo rancor que nutriam contra ele e em parte porque o general desejava ansiosamente capturá-lo, como se tal captura fosse decisiva para o desfecho da guerra. Durante a tomada da fortaleza, porém, Josefo, como que auxiliado por Deus, imiscuíra-se entre os inimigos e saltara para dentro de uma funda cisterna, a qual se abria lateralmente numa espaçosa caverna, invisível de cima. Nesse esconderijo, encontrou quarenta nobres homens, providos de alimentos para vários dias. Durante o dia, ele se mantinha escondido, porque os inimigos haviam ocupado tudo à sua volta; à noite, no entanto, subia pela cisterna, afim de encontrar um meio para a fuga e de observar as sentinelas. Como, porém, por sua causa, toda a redondeza se encontrasse tão fortemente vigiada que qualquer fuga às escondidas era inconcebível, ele retornava à caverna. Por dois dias, logrou escapar das buscas; no terceiro dia, porém, foi denunciado por uma mulher que, após uma estadia na caverna, fora capturada. Sem demora, Vespasiano enviou dois tribunos até Josefo, com a missão de prometer-lhe segurança e convencê-lo a deixar a caverna.Os tribunos foram até lá, tentaram persuadi-lo e deram-lhe garantia de vida. Mas nada puderam conseguir com ele, pois Josefo acreditava saber o que o esperava pelos muitos danos infligidos aos romanos. A brandura dos que tentaram persuadi-lo não alterou em nada sua própria opinião acerca do destino que o aguardava. Não podia evitar o temor de que pretendiam atraí-lo apenas para executá-lo. Por fim, Vespasiano mandou um terceiro mensageiro, o tribuno Nicanor, a quem Josefo conhecia bem e com quem mantinha até uma amizade antiga. Este, então, veio e descreveu o tratamento brando que os romanos dispensavam a inimigos derrotados, explicando ainda que os generais do exército antes admiravam Josefo por sua valentia do que o odiavam, e que o comandante de forma alguma tencionava mandar executá-lo — afinal, poderia mandar executar tal pena mesmo sem que ele deixasse a caverna. Pelo contrário: por ser Josefo um homem valente, o general decidira presenteá-lo com a vida. Seria, de resto, inconcebível — prosseguiu Nicanor — que Vespasiano houvesse traiçoeiramente mandado a Josefo um seu amigo, afim de mascarar com amizade sua falta de palavra; tampouco se teria prestado ele próprio, Nicanor, a enganar um amigo.Como, porém, mesmo diante de Nicanor, Josefo não lograva decidir-se, os soldados, em sua raiva, tomaram providências para atear fogo à caverna. Seu superior os deteve, pois estava muito interessado em ter Josefo vivo em seu poder. Enquanto, pois, Nicanor o pressionava e a tropa inimiga dirigia-lhe ameaças incessantes, portentosos sonhos assomaram à lembrança de Josefo, sonhos estes nos quais Deus lhe revelara o iminente infortúnio dos judeus e o futuro destino dos imperadores romanos. Josefo sabia interpretar os sonhos. Na condição de sacerdote e de filho de sacerdote, estava bem familiarizado com as profecias dos livros sagrados e era capaz de explicar inclusive as predições ambíguas da divindade. Naquele preciso momento, então, Josefo foi tomado de entusiasmo divino; os pavores dos sonhos que tivera recentemente exibiram-se à sua visão interior, e, em silêncio, ele dirigiu a Deus a seguinte oração: “Visto que decidiste curvar o povo judeu que criaste; considerando-se que toda a sorte passou-se para o lado dos romanos e que escolheste minha alma, oferecerei a mão aos romanos e permanecerei vivo. Convoco-Te, porém, como testemunha de que passo para o lado deles não como traidor, mas como Teu servo”.Feita essa oração, Josefo deu a Nicanor a sua concordância. Quando os judeus que estavam com ele no esconderijo notaram que Josefo estava decidido a ceder às instâncias dos inimigos, eles se amontoaram densamente ao seu redor, assediando-o com acusações. Lembraram-no de quantos judeus haviam morrido pela liberdade por lhe terem dado ouvidos. Ele, cuja reputação de homem valente fora tão grande, desejava agora seguir vivendo como escravo? Ele, que era considerado tão inteligente, esperaria misericórdia daqueles contra os quais havia lutado com tanta obstinação? Esquecera-se, então, completamente de si mesmo? A lei dos patriarcas suspiraria pesadamente por sua causa, e, prezando tanto a própria vida, ele estaria ofendendo a Deus. Ele teria sido cegado pela fortuna dos romanos; eles não esqueceriam a honra de seu povo. Ofereceram-lhe seu braço e sua espada, afim de que, voluntariamente, Josefo tombasse como comandante dos judeus; do contrário, tombaria involuntariamente como traidor. Brandiram, então, suas espadas contra ele e ameaçaram matá-lo, caso ele se entregasse aos romanos. Josefo teve medo deles, mas parecia-lhe uma traição aos encargos que Deus lhe confiara morrer antes de anunciá-los. Premido pela aflição, pôs-se a buscar argumentos racionais em contrário. Seria bonito morrer na guerra, mas, conforme rezava o costume, somente nas mãos do vencedor. Matar-se, porém, seria a pior covardia. O suicídio contrariava a mais íntima essência de todo ser vivo, e seria igualmente um crime contra Deus, o Criador. De Deus recebia-se a vida, e a Ele cabia também determinar-lhe o fim. Os que haviam atentado contra a própria vida, a estes Deus odiava e castigaria ainda por intermédio de seus descendentes. Não era apropriado acrescer ao infortúnio que os havia atingido como homens um crime contra o Criador. Nada deviam interpor no caminho de sua salvação, se esta era ainda possível. Não lhes constituía vergonha alguma permanecer vivos; com seus feitos, haviam já dado provas suficientes de sua valentia. Se, contudo, a morte os esperava, que a recebessem pela mão dos vencedores. Ele nem pensava em passar-se para o lado dos inimigos e tornar-se, assim, um traidor. Mas, por certo, desejava uma traição da parte dos romanos. Morreria contente se, a despeito da palavra empenhada, o matassem; a quebra de sua palavra, pela qual receberiam castigo divino, ser-lhe-ia um consolo maior do que a vitória.Assim, Josefo pensou em todo o possível para demover seus companheiros da ideia do suicídio. Mas o desespero fê-los surdos a todas as ponderações. Havia tempos tinham já se consagrado à morte, e as palavras de Josefo só fizeram intensificar-lhes o rancor. Culparam-no de covardia e pressionavam-no por todos os lados com as espadas em punho. Pareciam todos prontos a matá-lo no ato. Em sua aflição, que lhe infundia os sentimentos mais contraditórios, chamou um pelo nome, fitou os outros nos olhos, com o olhar de comandantes, agarrou um terceiro pela mão, persuadiu um quarto com súplicas e, assim, lograva ainda, a cada vez, afastar de si a espada assassina. Agia como o animal cercado que se volta sempre contra aquele que, no momento, faz menção de atacá-lo. Como eles próprios, nessa sua extrema aflição, respeitassem-no ainda como comandante, seus braços pareciam paralisados; os punhais escorregavam-lhes das mãos, e muitos dos que haviam erguido sua espada contra Josefo embainharam-na novamente, de livre e espontânea vontade.A despeito, porém, da situação desesperadora, a prudência de Josefo não o abandonou. Pelo contrário. Confiante na assistência divina, ele colocou a própria vida em jogo, dizendo o seguinte a seus companheiros: “Já que tomamos a decisão, agora já firmada, de morrer, deixemos a sorte decidir quem de nós matará a quem. Aquele que for sorteado tombará pela mão do seguinte a quem a sorte designar. Desse modo, a morte atingirá a todos, e ninguém será obrigado a se matar. Constituiria, porém, grande injustiça se, após a morte de seus companheiros, o último subitamente se arrependesse e salvasse a própria vida”.Tal sugestão restaurou a confiança nele, e, havendo todos eles se declarado de acordo, o próprio Josefo incluiu-se no sorteio. À medida, então, que cada um foi sendo sorteado, deixava-se matar voluntariamente pelo seguinte. Sabiam, afinal, que também o comandante haveria de morrer em seguida, e a morte em sua companhia parecia-lhes melhor do que a vida. Por fim, restaram o próprio Josefo — seja por uma feliz coincidência ou pela providência divina — e um último companheiro; como, porém, Josefo não queria ser o escolhido pela sorte, tampouco pretendia, caso acabasse ficando por último, manchar as mãos do sangue de um compatriota, terminou por persuadir o companheiro a entregar-se aos romanos, salvando assim a própria vida.Tendo, pois, escapado são e salvo tanto da luta contra os romanos quanto daquela contra sua própria gente, Josefo foi conduzido por Nicanor até Vespasiano. Os romanos todos acorreram para ver o comandante dos judeus, e a multidão, comprimindo-se ao seu redor, deu início a uma grande gritaria. Uns exultavam com sua prisão, outros gritavam ameaças e outros ainda abriam caminho com violência para, mais de perto, poder vê-lo melhor. Os mais afastados gritavam que se devia executá-lo; os que se encontravam postados mais próximos de Josefo lembravam seus feitos e espantavam-se com a virada em seu destino. Dentre os oficiais, contudo, não havia um único que, a despeito de toda a animosidade anterior, não se sentisse agora emocionado ao vê-lo. A perseverança de Josefo em meio ao infortúnio e a simpatia por sua juventude apoderou-se particularmente do nobre Tito, que tinha a sua idade. Este queria salvar-lhe a vida e intercedeu com a máxima ênfase junto ao pai. Vespasiano, porém, ordenou vigilância rigorosa sobre Josefo: tinha a intenção de enviá-lo sem demora a Nero.Quando Josefo ficou sabendo disso, exigiu uma conversa em particular com Vespasiano. O comandante romano ordenou a todos os presentes que se afastassem, com exceção do filho Tito e de dois amigos de confiança. Josefo, então, falou-lhe da seguinte maneira: “Tu crês, Vespasiano, que não sou mais que um prisioneiro de guerra a quem tens sob teu poder. Estás enganado: apresento-me diante de ti como alguém que tem coisas importantes a anunciar. Eu — Josefo — devo desincumbir-me junto a ti de uma missão que me foi dada por Deus. Não fosse por isso, saberia muito bem o que determina a lei dos judeus e como um comandante deve morrer. Queres enviar me a Nero? Para quê? Seus sucessores, que deverão chegar ao trono ainda antes de ti, não o sustentarão por muito mais tempo. Tu, Vespasiano, tornar-te-ás César e imperador, e, depois de ti, este teu filho! Manda, pois, que me acorrentem com toda a segurança e preserva-me para mais tarde, para ti. Afinal, serás César e senhor; não apenas o meu senhor, mas o senhor da terra, do mar e de toda a espécie humana. Determina que me vigiem com o máximo rigor e, se falei levianamente em nome de Deus, manda então que me executem como mereço!”.De início, Vespasiano não acreditou totalmente naquelas palavras, tendendo a tomá-las por um ardil de Josefo para salvar a própria vida. Pouco a pouco, porém, começou a acreditar de verdade nelas; o próprio Deus despertara nele pensamentos sobre o trono, e sua futura soberania fora-lhe também sugerida por outros sinais. Descobriu, ademais, que seu prisioneiro fizera já predições corretas em outros casos. Um dos amigos de Vespasiano, presente à conversa sigilosa, manifestou seu espanto por Josefo não haver previsto nem a destruição de Jotapata nem sua própria prisão: o que afirmava agora talvez não fosse mais do que conversa fiada para obter as graças do inimigo. Josefo retrucou, então, com aquilo que predissera à gente de Jotapata: que, após 47 dias, cairiam nas mãos do inimigo, e que ele próprio seria capturado vivo. Em segredo, Vespasiano mandou que colhessem informações junto aos prisioneiros e, confirmadas as alegações de Josefo, voltou a dar crédito também à profecia relativa a sua própria pessoa. Por certo, manteve Josefo ainda aprisionado e acorrentado; presenteou-lhe, porém, com vestes esplendorosas e outras preciosidades. E Josefo seguiu sendo tratado amistosamente, um tratamento que devia inteiramente a Tito.
A autoafirmação de Josefo subdivide-se em três atos distintos.
Primeiramente, ele escapa ao massacre na fortaleza conquistada,
Jotapata. Os defensores da cidade que não se suicidam são mortos pelos
romanos; alguns são feitos prisioneiros. Josefo salva-se na caverna junto
à cisterna. Ali, encontra já quarenta homens, aos quais caracteriza
expressamente como “nobres”. São todos sobreviventes como ele.
Abasteceram-se de víveres e esperam manter-se escondidos ali dos
romanos, até que um meio de escapar se lhes ofereça.
continua página 360...
____________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
____________________
Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: A Salvação de Flávio Josefo (a)
____________________
ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
Nenhum comentário:
Postar um comentário