domingo, 8 de fevereiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Coisas muito problemáticas - [d]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas

continuando...

     Todos tinham, vagamente, essa sensação. Embora dessa vez não se tratasse de uma volta séria e verdadeira à vida, mas apenas de um arranjo puramente sentimental e teatral, cuja única finalidade era ver o finado; embora, por conseguinte, o ato fosse inofensivo do ponto de vista da vida, apavoravam-se diante da ideia de encarar o ente em que pensavam, de maneira que cada um preferia abandonar ao vizinho o privilégio de expressar um desejo. Também Hans Castorp não se adiantou, ainda que ouvisse através das trevas aquele “Pois não” bondoso e complacente. No último instante, estava disposto a deixar a primazia a outrem. Mas, como aquilo se prolongasse por muito tempo, voltou a cabeça para o presidente da sessão e disse com voz velada: 

– Eu queria ver meu falecido primo Joachim Ziemssen.

     Foi um alívio para todos. Dos componentes do grupo, somente o Dr. Ting-Fu, o tcheco Wenzel e a própria médium não tinham conhecido pessoalmente o defunto citado. Os demais – Ferge, Wehsal, o Sr. Albin, o promotor, o casal Magnus, a Stöhr, a Levi e a Kleefeld – demonstraram ruidosa e alegremente a sua aprovação. Até mesmo o Dr. Krokowski fez um gesto de satisfação, se bem que as suas relações com Joachim sempre houvessem sido um tanto frias, pois este se mostrara recalcitrante em matéria de análise. 

– Ótimo – disse o doutor. – Ouviste, Holger? Em vida, não conhecias a pessoa que te foi designada. Será que a reconheces no além e estás disposto a guiá-la até nós?

     A tensão foi grande. A adormecida gingava, dava suspiros, estremecia. Parecia procurar e lutar, enquanto se deixava cair ora para um ora para outro lado, murmurando palavras incompreensíveis ao ouvido de Hans Castorp ou da Kleefeld. Finalmente recebeu Hans Castorp de ambas as mãos de Elly o aperto que significava “sim”. Comunicou o fato aos demais e... 

– Pois bem! – exclamou o Dr. Krokowski. – Mãos a obra, Holger!... Música! – ordenou. – Conversem! – E mais uma vez lhes recomendou que para servir à causa nada adiantava concentrar-se convulsivamente e fixar todas as idéias na visão esperada, senão prestar uma atenção vaga, desembaraçada.

     Seguiram-se então horas mais estranhas do que a vida curta do nosso herói continha até esse momento. Ainda que não possamos vislumbrar com absoluta clareza os seus destinos ulteriores e o percamos de vista em determinado ponto da nossa história, sentimo-nos inclinados a crer que foram as mais estranhas que chegou a viver.
     Havemos por bem avisar os nossos leitores previamente de que se trata de horas inteiras, mais de duas, inclusive uma pequena interrupção do “trabalho” que agora começava; esse trabalho de Holger ou, na realidade, da donzela Elly, que se prolongava terrivelmente, de maneira que todos já estavam prestes a desesperar de um resultado positivo. Acrescia a isso que, por pura misericórdia, muitas vezes se sentiam tentados a resignar-se e a abreviar o trabalho, que de fato parecia imensamente difícil e dava a impressão de ultrapassar as forças débeis da moça a quem fora solicitado. Nós, os homens, a não ser que nos esquivemos às coisas humanas, conhecemos, de uma determinada situação da vida, aquela compaixão intolerável, mas ridícula, porque ninguém a aceita, e provavelmente inoportuna; conhecemos aquele grito indignado: “Basta!” que tende a se desprender do nosso peito, posto que “aquilo” não possa, nem deva “bastar” e que seja preciso terminá-lo desta ou daquela forma. Já devem ter compreendido que nos referimos à nossa função de esposo e de pai, bem como ao processo do parto, ao qual a luta de Elly se assemelhava tão inequívoca e inconfundivelmente, que mesmo aqueles que ainda não o conheciam tinham de reconhecê-lo. Tal era o caso do jovem Hans Castorp, visto também ele não se ter esquivado à vida. Foi, pois, sob essas condições que travou conhecimento com aquele ato cheio de misticismo orgânico. Sob que condições? E com que finalidade? Era impossível qualificar com outro adjetivo que não escandalosos os pormenores e as particularidades dessa animada sala de partos, banhada em luz vermelha. Isso se aplicava tanto à pessoa virginal da parturiente, com o roupão flutuante e os bracinhos desnudos, como ao resto do ambiente, a saber, a incessante e leviana música que partia da vitrola, as conversas artificiais que o semicírculo mantinha para cumprir a ordem recebida, as aclamações joviais e estimulantes que os componentes da roda dirigiam sem cessar à garota que ali se contorcia: “Vamos, Holger! Coragem! Já vai melhor! Continua assim! Mais um pouco e vencerás!” E absolutamente não excetuamos a figura e a posição do “marido” – desde que podemos considerar Hans Castorp como tal, por ter ele manifestado o desejo –, o marido que comprimia os joelhos da “mãe” com os seus e lhe segurava as mãos; essas mãozinhas que estavam tão úmidas como haviam sido as da pequena Leila, de maneira que era preciso apertá-las sempre, para evitar que lhe escapassem.
     Pois a lareira a gás, às costas das pessoas sentadas nas suas proximidades, irradiava forte calor.
     Misticismo e solenidade? Nada disso! Era barulhento e banal aquilo que se passava nas trevas vermelhas, às quais os olhos, pouco a pouco, haviam-se habituado a ponto de dominarem a maior parte do aposento. A música e os gritos recordavam os. métodos que emprega o Exército de Salvação, com o fim de galvanizar o auditório; recordação essa que se impunha até a quem, como Hans Castorp, jamais assistira a um serviço divino desses fanáticos jubilosos. Não era num sentido fantasmagórico que essa cena parecia mística, misteriosa, capaz de inspirar pensamentos piedosos a pessoas sensíveis, senão unicamente num sentido natural, orgânico, e já mencionamos o parentesco próximo e íntimo que era a fonte dessa associação de ideias. Os esforços de Elly produziam-se à maneira de dores do parto, depois de intervalos de repouso, durante os quais ela pendia frouxamente para o lado da cadeira, num estado inacessível que o Dr. Krokowski definiu como “transe profundo”. Em seguida tornava a sobressaltar-se; revolvia-se; lutava com os vigilantes; sussurrava-lhes nos ouvidos palavras ardentes, sem nexo; fazia bruscos movimentos laterais como se quisesse expulsar alguma coisa do seu próprio corpo; rangia os dentes; em certa ocasião até mordeu a manga de Hans Castorp.
     Isso durou uma hora ou talvez mais. Por fim, o presidente da sessão julgou indicado intercalar uma pausa. O tcheco Wenzel, que, para variar um pouco, terminara poupando o aparelho e tocando o violão com grande habilidade, pôs o instrumento de lado. Com um suspiro de alívio, soltaram-se as mãos. O Dr. Krokowski encaminhou-se à parede, para acender a luz do teto. A claridade branca se fez tão deslumbrante que todos piscavam estonteados os olhos acostumados à noite. Elly dormia, muito inclinada para a frente, com o rosto quase tocando as coxas. Via-se como se entregava a uma atividade estranha que parecia familiar aos outros, mas que Hans Castorp contemplou com atenção e surpresa: durante alguns minutos passou ela a mão cava, de cá para lá, pela zona dos quadris, estendendo-a e recolhendo-a num gesto de quem, ao trabalhar com uma concha ou um ancinho, procurasse juntar e puxar para si alguma coisa. Por fim estremeceu várias vezes e acordou. Piscando estonteada, também ela, com os olhos sonolentos, esboçou um sorriso.
     Foi um sorriso gracioso, um tanto alheado. A compaixão que haviam sentido ao vê-la penar parecia realmente desperdiçada. A moça não dava a impressão de estar particularmente exausta. Talvez nem sequer se lembrasse dos seus trabalhos. Estava sentada na poltrona dos enfermos, perto da janela, entre a escrivaninha e o biombo que escondia a chaise longue. Dera meia volta à cadeira, de modo que pudesse apoiar o braço na superfície da escrivaninha e olhar para dentro da sala. Deixava-se estar assim, alvo de olhares comovidos, recebendo de vez em quando um aceno alentador, e guardando silêncio durante todo esse intervalo que se prolongou por quinze minutos.
     Tratava-se de um verdadeiro recreio que dava oportunidade para descansar e para contemplar, com suave satisfação, a obra já realizada. Abriram-se as cigarreiras dos homens. Fumavam com prazer. Aqui e ali se formavam grupos que discutiam o caráter da sessão. Estavam longe de desanimar ou de encarar o fracasso definitivo. Existiam sintomas próprios para deter tal ceticismo. Todos aqueles que ocupavam os lugares na extremidade oposta do semicírculo, vizinho ao do médico, afirmavam unanimemente que haviam sentido, diversas vezes e com absoluta nitidez, aquela aura fria que costumava partir da médium e avançar numa determinada direção, cada vez que se preparavam aparições. Outros pretendiam ter notado fenômenos luminosos, manchas brancas, aglomerações movediças de energias que acabavam de se manifestar nas proximidades do biombo. Numa palavra: nada de relaxamento! Nada de pusilanimidade! Holger empenhara a sua palavra, e não tinham direito de duvidar de que a cumpriria.
     O Dr. Krokowski deu o sinal para recomeçar a sessão. Enquanto todos voltavam aos lugares, reconduziu a médium pessoalmente até a cadeira dos seus tormentos, acariciando-lhe os cabelos. Tudo se passou como antes. Hans Castorp pediu que o substituíssem no cargo de primeiro vigilante, mas o presidente se opôs. Disse que fazia questão de oferecer à pessoa que expressara o desejo o contato físico com a médium, a fim de garantir-lhe que praticamente não havia possibilidade de manipulações fraudulentas por parte desta. Foi assim que Hans Castorp voltou a ocupar a sua estranha posição à frente de Elly. A luz transformou-se nas trevas vermelhas. Recomeçou a música. Novamente se produziram depois de poucos minutos os bruscos tremores de Elly e o movimento de dar impulso a uma bomba. Dessa vez foi Hans Castorp quem anunciou o transe. O parto escandaloso continuaria.
     Como era terrivelmente penoso! Parecia não querer realizar-se – como seria possível? Que loucura! De onde viria a maternidade nesse caso? Dar à luz? Como e o quê? “Acudam! Acudam!”, gemia a garota, enquanto as dores ameaçavam converter-se naquele estado desfavorável e perigoso de espasmo constante, ao qual os peritos da obstetrícia deram o nome de “eclampsia”. Em dado momento chamou o doutor, pedindo que lhe impusesse as mãos. O assistente assim o fez, encorajando-a energicamente. O efeito magnético, se é que se tratava de tal, fortaleceu-a para novas lutas.
     Desta forma transcorreu a segunda hora, durante a qual se alternavam os arpejos do violão e as peças fúteis da vitrola, ressoando pelo recinto, a cuja semi-escuridão os olhos acabavam de se reacostumar. Então ocorreu um incidente. Foi Hans Castorp quem o provocou, ao dar uma sugestão ou ao pronunciar um desejo, uma idéia, que fomentara havia muito, ou melhor, desde o início da sessão, e que talvez devesse ter manifestado antes. A essa altura, Elly se achava num transe profundo, apoiando o rosto nas mãos agarradas, e o Sr. Wenzel estava a ponto de mudar ou de virar o disco. Nesse instante, o nosso amigo pôs-se a falar resolutamente, dizendo que queria fazer uma proposta – nada de importância, aliás, mas cuja realização poderia ser útil. – Eu disponho... isto é, a discoteca da casa dispõe de uma peça do Fausto de Gounod, a “Oração” de Valentim, uma ária muito bonita, para voz de barítono com acompanhamento de orquestra. Seria conveniente experimentar esse disco. 

– E por quê? – perguntou o médico através das trevas vermelhas. 
– Por motivos sentimentais. Questão de atmosfera – respondeu o jovem, explicando que o espírito da referida peça era estranho e muito particular. Valeria a pena fazer uma tentativa. A seu ver não era impossível que esse espírito ou caráter da ária abreviasse o processo em que se achavam empenhados. 
– O disco está aqui? – indagou o doutor.

     Não, não estava. Mas Hans Castorp poderia ir buscá-lo. 

– Isso não! – Krokowski rejeitou peremptoriamente essa idéia. Mas como? Será que Hans Castorp tencionava ir e vir sem mais aquela, procurar um objeto e reencetar depois o trabalho interrompido? Nisso se demonstrava a sua inexperiência. Não, aquilo era impraticável. Tudo ficaria anulado, e seria preciso voltar ao ponto de partida. Também a exatidão científica vedava essas idas e vindas arbitrárias. Ele, o doutor, estava com a chave no bolso. Numa palavra, se o disco não se achasse disponível, melhor seria... Ainda prosseguia falando, quando o aparteou o tcheco, do seu lugar ao pé do fonógrafo: 
– O disco está aqui. 
– Aqui? – perguntou Hans Castorp...

     Sim, aqui mesmo. Fausto, “Oração” de Valentim. Às ordens! Excepcionalmente, o disco tinha sido colocado no álbum das peças fúteis e não no álbum verde número II, o das árias, onde devia encontrar-se segundo a sua categoria. Por casualidade, por relaxamento, por uma circunstância extraordinária e, em todo caso, feliz, fora misturado com as bagatelas, de maneira que tudo o que se precisava fazer era pô-lo no aparelho.
     Que havia Hans Castorp de dizer a isso? Não disse nada. O médico observou: “Tanto melhor!”, e algumas pessoas repetiram essas palavras. A agulha pôs-se a chiar. A tampa foi abaixada. E uma voz máscula começou a cantar, entre os acordes de um hino sacro: “Antes de deixar este lugar...”
     Ninguém falava. Todos escutavam. Com as primeiras notas cantadas, Elly reiniciara o seu trabalho. Sobressaltou-se; lançou gemidos; executou o movimento de dar impulso a uma bomba, e tornou a levar à testa as mãos úmidas, escorregadias. O disco continuava a girar. Veio a estrofe intermediária, com a modificação do ritmo, o trecho que tratava, de modo intrépido, pio, francês, de combates e perigos. Terminado este, seguiu-se o fim, a repetição orquestralmente reforçada do começo. Com sons poderosos ressoava a frase: “Ó Senhor Deus, ouve minhas preces...”
     Hans Castorp estava ocupado com Elly. A moça corcoveava, lutava por aspirar pela garganta angustiada. A seguir entrou em colapso, com um suspiro, e daí por diante permaneceu imóvel. Hans Castorp, desassossegado, estava se curvando por cima dela, quando ouviu a voz chorosa, pipilante, da Srª. Stöhr, que disse:

– Ziem...ssen!

     O jovem não se aprumou. Sentiu na boca um sabor amargo. Ouviu uma outra voz profunda e fria, que replicava: 

– Já faz tempo que o vejo.  

     O disco chegara a seu fim. Perdera-se no ar o derradeiro acorde dos sopros. Mas ninguém fez o aparelho parar. Chiando em vão através do silêncio, a agulha prosseguia a percorrer a parte central do disco. Então Hans Castorp levantou a cabeça, e seus olhos, sem necessidade de procurar, tomaram a direção certa.
     Havia no aposento uma pessoa mais. Ali, a alguma distância do grupo, nos fundos do gabinete, no ponto em que os restos da luz vermelha quase se confundiam com a escuridão, de modo que a vista mal avançava até ele, ali entre o lado comprido da escrivaninha e o biombo, na poltrona dos pacientes do médico, que Elly ocupara durante o intervalo, estava sentado Joachim. Era Joachim, com as sombras das faces encovadas e com a barba de guerreiro dos seus últimos dias, essa barba no meio da qual ressaltavam, cheios e altivos, os lábios. Recostava-se ao espaldar e tinha uma perna cruzada sobre a outra. Não obstante a coberta da cabeça que lhe obscurecia as feições, distinguia-se novamente no seu rosto o cunho do sofrimento, bem como aquela expressão grave, austera, que lhe conferira tanta beleza viril. Duas rugas sulcavam a testa entre os olhos afundados nas órbitas ossudas; mas isso não diminuía a brandura do olhar desses olhos belos, grandes, escuros, que se dirigia, numa interrogação calma, amistosa, para Hans Castorp, e só para ele. A sua pequena aflição de tempos passados – as orelhas de abano – continuava perceptível sob a coberta da cabeça, essa coberta estranha que ninguém sabia explicar. O primo Joachim não estava à paisana. Um sabre, cujo punho segurava com ambas as mãos, parecia encostado na coxa da perna cruzada. Na cintura podia-se distinguir um coldre. Mas aquilo que usava não era um verdadeiro uniforme. Nada havia nele de brilhante nem de colorido. Era uma espécie de túnica, de gola virada e com bolsos laterais. Na parte inferior do peito achava-se uma cruz. Os pés de Joachim pareciam bastante grandes e as pernas, muito finas; estavam enroladas em grevas, o que lhes dava um aspecto desportivo antes que militar. E que significava aquela coberta da cabeça? Tinha-se a impressão de que Joachim se cobrira com uma marmita de soldado, com uma panela de cozinha, que fixara sob o queixo por meio de uma correia. Mas, coisa estranha! aquilo lhe emprestava ares antigos, de lansquenete, e essa marcialidade assentava lhe bem.
     Hans Castorp sentiu nas mãos o hálito de Ellen Brand. A seu lado ouviu a respiração da Kleefeld, que era acelerada. Fora disso não se percebia nenhum som, a não ser o chiar incessante do disco, que ainda girava sob a agulha, e que ninguém se lembrava de parar. Não procurou com os olhos nenhum dos companheiros; não desejava vê-los nem saber deles. Obliquamente, por cima das mãos e da cabeça de Elly, que jaziam sobre os seus joelhos, seu olhar atravessava as trevas vermelhas e fixava-se no visitante que se achava na poltrona. Durante um momento, o seu estômago pareceu a ponto de revoltar-se. Contraía-se-lhe a garganta, fazendo-o soluçar quatro ou cinco vezes profunda e convulsivamente. – Perdoe-me! – murmurou de si para si. Em seguida, seus olhos transbordaram de lágrimas, de modo que não enxergava mais nada.
     Ouviu como murmuravam: – Dirija-lhe a palavra. – Ouviu a voz de barítono do Dr. Krokowski, em tom solene e ao mesmo tempo jovial, pronunciar-lhe o nome e repetir a solicitação. Ao invés de obedecer, Hans Castorp retirou as mãos de baixo do rosto de Elly e levantou-se.
     Novamente o Dr. Krokowski chamou-o pelo nome, dessa vez num tom severo de admoestação. Mas Hans Castorp já alcançara com poucos passos os degraus da porta de entrada e acendeu, numa manobra rápida, a luz branca do lustre.
     Ellen Brand sobressaltou-se num choque violento. Torcia-se nos braços da Kleefeld. A poltrona estava vazia.
     Hans Castorp aproximou-se de Krokowski que protestava, de pé. Quis falar, mas nenhuma palavra lhe saiu dos lábios. Com um gesto brusco, imperioso, da cabeça, estendeu a mão. Depois de receber a chave, acenou várias vezes ameaçadoramente na cara do médico. Deu meia-volta e abandonou o gabinete.

continua pág 445...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas - [c] / Coisas muito problemáticas - [d] /  
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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