segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

V
 .

     Transcorreu outra quinzena. Estava-se nos primeiros dias de janeiro, feitos de brumas frias que entorpeciam a imensa planície. E a miséria era cada vez maior, os conjuntos habitacionais agonizavam com a penúria crescente. Quatro mil francos enviados de Londres, pela Internacional, não chegaram para dois dias de pão. Depois, nada mais veio. Esta grande esperança morta abatia os espíritos. Com quem contar agora, já que até os próprios irmãos os abandonavam? Sentiam-se perdidos no meio do brutal inverno, isolados do mundo.
     Na terça-feira faltou tudo no conjunto habitacional dos Deux-Cent Quarante. Etienne e os demais delegados tinham feito o podiam: abriram novas subscrições nas cidades vizinhas, e até em Paris; lançaram pedidos; organizaram conferências. Seus esforços quase não tiveram resultados; a opinião pública, que a princípio se comovera, tornou-se indiferente com a infinita duração da greve, calma demais, sem dramas apaixonantes. As magras esmolas mal negavam para alimentar as famílias mais pobres. As outras viviam empenhando o que tinham, vendendo peça por peça as coisas da casa. Tudo ia parar no brechó, a lã dos colchões, os utensílios de cozinha, até os móveis.
     Por um momento julgaram-se salvos; foi quando os pequenos varejistas de Montsou, asfixiados por Maigrat, ofereceram crédito, numa tentativa para recuperar a freguesia. Durante uma semana, o merceeiro Verdonck e os dois padeiros Carouble e Smelten efetivamente cumpriram a promessa, mas em seguida pararam. Quem se alegrou com isso foram os cobradores judiciais, porque o resultado foi um aumento de dívidas, que por muito tempo ainda deveria pesar sobre os mineiros. Agora que o crédito acabara e nem sequer uma panela velha tinham para vender, podiam jogar se a um canto e esperar pela morte, como cães sarnentos.
     Etienne, por eles, daria a própria vida. Renunciara ao seu ordenado, fora a Marchiennes empenhar suas calças e sobrecasaca de lã, sentindo-se feliz de poder fazer continuar no fogo a panela dos Maheu. Ficara apenas com as botas; poupara-as para continuar sentindo o chão firme sob os pés, dizia ele.
     Sentia profundo desespero por ter sido a greve deflagrada muito cedo, quando a caixa de previdência ainda não tivera tempo de ter recursos suficientes. Via nisso a causa única do desastre, porque os operários triunfariam certamente sobre os patrões no dia em que tivessem dinheiro economizado suficiente para resistir. Lembrou-se então das palavras de Suvarin acusando a companhia de provocar a greve para destruir os primeiros fundos da caixa.
     A visão do conjunto habitacional, daquela pobre gente sem pão e sem fogo, angustiava-o. Preferia sair, fatigar-se com longos passeios. Uma noite, quando voltava, nas imediações de Réquillart, percebeu uma velha desmaiada na beira da estrada. Sem dúvida estava morrendo de inanição. Tendo-a erguido, pôs-se a chamar uma mulher que via do outro lado do tapume. 

— Ah, és tu! — disse ele, reconhecendo a filha de Mouque. — Vamos, ajuda-me... Ela tem que tomar algum alimento.

     A moça, chorando de compaixão, correu a casa, ao pardieiro oscilante que seu pai instalara no meio dos escombros; voltou em seguida com genebra e um pão. A genebra ressuscitou a velha, que, em silêncio, mordeu gulosamente o pão. Era a mãe de um mineiro que vivia num conjunto habitacional para os lados de Cougny, e caíra ali quando voltava de Joiselle, onde fizera esforços baldados para conseguir dez soldos emprestados com uma irmã. Assim que comeu, partiu, ainda tonta.
     Etienne ficou parado no meio do terreno baldio de Réquillart, cujos galpões desabados desapareciam sob o matagal. 

— Não queres entrar para beber alguma coisa? — perguntou a filha de Mouque alegremente.

     E como ele hesitasse: 

— Então, continuas com medo de mim?

     Seguiu-a, conquistado por seu sorriso. Aquele pão que dera com tão boa vontade comovia-o.
     Ela não quis que ficassem no quarto do pai e levou-o para o seu, onde foi logo servindo dois copinhos de genebra. O quarto era muito limpo e ele a cumprimentou por isso. A verdade é que não parecia faltar nada à família: o pai continuava com o seu trabalho de cavalariço na Voreux e ela, com a desculpa de que não queria ficar de braços cruzados, fizera-se lavadeira, o que lhe rendia trinta soldos por dia. Gostava de farrear com os homens, mas nem por isso lhe apetecia permanecer o dia inteiro deitada. 

— Escuta... — murmurou ela de repente, agarrando-o meigamente pela cintura. — Por que não queres andar comigo?

     Disse aquilo de uma maneira tão graciosa, que ele não pôde conter se e sorriu também. 

— Mas eu te quero muito bem — respondeu o rapaz. 
— Não da maneira como eu gosto... Tu sabes que morro de desejo... Vamos? Tu me darias um grande prazer!

     Era verdade; corria atrás dele havia seis meses. Bastava olhá-la para que se atirasse, apertando-o em seus braços frementes, o rosto levantado e com tal súplica amorosa que ele acabou comovendo-se. Sua cara de lua cheia não era bonita, com a tez encardida, escalavrada pelo carvão. Mas seus olhos eram tão ardentes, sabia ser tão encantadora, palpitava com tal desejo, que parecia mais jovem e rosada.
     Agora, diante daquela entrega cheia de humildade e ardor, ele não resistiu mais. 

— Tu queres! Tu queres! — balbuciou ela, maravilhada.

     E entregou-se com uma imperícia e um êxtase de virgem, como se fosse aquela a primeira vez, como se nunca tivesse conhecido homem. Ao deixá-la, ela beijou-lhe as mãos e agradeceu.
     Etienne ficou algo envergonhado com aquela boa sorte inesperada.
     Ninguém se gabava de ter possuído a filha de Mouque. Ao partir, jurou não mais voltar. Mas assim mesmo guardou uma lembrança amável, era uma boa moça.
     Quando chegou ao conjunto habitacional, as graves notícias que lhe comunicaram fizeram que esquecesse a aventura. Corria o boato de que a companhia talvez estivesse disposta a fazer uma concessão se os delegados tentassem uma nova diligência com o diretor. Pelo menos era isso o que tinha sido espalhado pelo contramestre. A verdade era que, na luta travada, a mina sofria ainda mais que os mineiros. De ambos os lados a obstinação só fazia ruínas: enquanto o trabalho morria de fome, o capital se destruía. Cada dia de greve consumia milhões de francos. Máquina parada é máquina morta. As ferramentas e o material iam sendo corroídos, o dinheiro imobilizado sumia, como água que a areia absorve. Com o esgotamento do estoque de hulha armazenado no pátio das minas, a freguesia começou a dizer que ia dirigir-se à Bélgica. Havia nisso uma ameaça futura. Mas o que mais assustava a companhia, o que ela ocultava com cuidado, eram os estragos crescentes nas galerias e nos veios. Os contramestres não bastavam para os consertos, o madeiramento estava rachando por toda parte, havia desabamentos a todo o instante. Dentro em pouco os desmoronamentos seriam de tal monta que necessitariam longos meses de reparação, antes que pudesse continuar a extração. A região já andava cheia de histórias: em Crèvecoeur, trezentos metros de via tinham caído, obstruindo o acesso ao veio Cinq-Paumes: na Madeleine, o veio Maugrétout esfarelara-se e estava ficando inundado. A direção recusava confirmar tais histórias, mas, de repente, dois acidentes, um atrás do outro, obrigaram-na a confessar. Uma manhã, perto da Piolaine, encontraram o solo fendido por cima da galeria norte da Mirou, que desmoronara na véspera; no dia seguinte foi um aluimento interior na Voreux que abalou toda uma faixa do subúrbio, fazendo que duas casas quase fossem tragadas.
     Etienne e os delegados hesitavam em arriscar-se numa nova diligência, sem conhecerem as intenções da administração. Procuraram Dansaert, que evitou responder claramente: por certo deploravam o mal entendido, fariam tudo ao seu alcance para chegar a uma solução. Mas ficava nisso, não se definia. Os mineiros decidiram-se por fazer uma visita ao Sr. Hennebeau, mostrando assim que eram razoáveis. Não queriam ser acusados mais tarde de terem recusado à companhia a oportunidade de reconhecer seus erros.
     Mas juraram não ceder em nada, manter de qualquer maneira as suas condições, que eram as únicas justas.
     A entrevista teve lugar na terça-feira de manhã, o dia em que o conjunto habitacional caiu na mais negra miséria. O encontro foi menos cordial que o primeiro. Maheu falou outra vez, explicou que seus companheiros o enviavam para saber se a companhia tinha alguma coisa de novo a dizer-lhes.
     Primeiro, o Sr. Hennebeau fingiu-se surpreendido: não recebera novas ordens, as coisas continuariam no mesmo pé enquanto os mineiros insistissem nessa revolta execrável. A atitude rígida e autoritária do diretor produziu efeitos tão funestos que, se os delegados tivessem vindo com intenções conciliadoras, a maneira com que foram recebidos teria bastado para torná-los ainda mais intransigentes. Em seguida, o patrão achou melhor resvalar para um terreno de concessões mútuas: se os operários aceitassem o pagamento do revestimento à parte, a companhia aumentaria esse pagamento com os dois cêntimos de que era acusada de lucrar. Aliás, disse ele, fazia tal oferta por sua conta e risco, nada estava resolvido, prometia apenas obter essa concessão de Paris.
     Os delegados não aceitaram a oferta e repetiram suas exigências: a manutenção do sistema antigo, com uma alta de cinco cêntimos por vagonete.
     Então ele confessou que podia dar andamento ao que prometera imediatamente, insistiu para que aceitassem, por amor de suas mulheres e filhos morrendo de fome. Mas os mineiros, de cabeça baixa, irredutíveis, continuaram dizendo não e não, com um menear feroz.
     Separaram-se brutalmente, o Sr. Hennebeau batendo as portas, Etienne, Maheu e os outros indo embora, batendo seus grossos tacões estrada afora, com a raiva muda dos vencidos levados às últimas consequências.
     Nesse mesmo dia, às duas horas, as mulheres dos mineiros, por seu lado, fizeram uma tentativa com Maigrat. Era a última esperança, comover aquele homem, arrancar-lhe mais uma semana de crédito. Fora ideia da mulher de Maheu, que muitas vezes contava demais com o bom coração das pessoas. Convenceu a Queimada e a mulher de Levaque a acompanharem na. A de Pierron desculpou-se, dizendo que não podia deixar o marido, que ainda não estava bem curado. Outras mulheres se juntaram ao grupo; eram bem umas vinte. Quando a burguesia de Montsou as viu chegando, tomando toda a largura da estrada, sombrias e miseráveis, balançou a cabeça inquieta. Portas se fecharam, uma senhora escondeu a prataria. Era a primeira vez que apareciam todas juntas, um péssimo sinal; quando as mulheres percorriam em bandos as estradas, tudo estava por ir água abaixo.
     No Maigrat houve uma cena violenta. Primeiro, ele mandou-as entrar, às gargalhadas, fingindo crer que vinham para pagar as contas: quanta amabilidade virem em comissão para pagar tudo de uma só vez! Mas depois, assim que a mulher de Maheu começou a falar, ele deu-se ares de zangado. Então, estavam zombando dele? Estavam planejando levá-lo à bancarrota com esse pedido de novo crédito, ou o quê? Não! Nem mais uma batata, nem mais uma migalha de pão! Que fossem ao merceeiro Verdonck, aos padeiros Carouble e Smelten, já que era com eles que se abasteciam! As mulheres o escutaram cheias de uma humildade medrosa, desculparam-se, espiaram nos seus olhos para ver se descobriam algum sinal de amolecimento. Ele recomeçou com as brincadeiras, ofereceu seu armazém à Queimada se ela o aceitasse como amante. Para agradá-lo, na covardia da miséria, riram; a mulher de Levaque foi mais longe, disse que aceitava a proposta. Mas logo ele voltou ao tom grosseiro e empurrou-as para a porta. Como insistissem, deu um safanão numa delas. As outras, já do lado de fora, chamaram-no vendido, enquanto a mulher de Maheu levantava os braços num impulso de indignação vingadora, pedindo a sua morte, gritando que um homem daquele não merecia comer.
     A volta para o conjunto habitacional foi lúgubre. Quando as mulheres entraram em casa com as mãos vazias, os homens as olharam em silêncio e baixaram a cabeça. Era o fim... o dia terminaria sem uma colherada de sopa, e os outros dias por vir estavam envoltos numa sombra gelada, onde não luzia uma única esperança. Mas tinham querido assim, ninguém falou em render-se. Tal excesso de miséria só servia para torná-los ainda mais obstinados, mudos, verdadeiros animais acuados, preferindo morrer no fundo da toca a sair. Quem ousaria falar em submeter-se? Tinham feito um juramento em comum de resistirem juntos, e resistiriam, como quando na mina eram um só homem, quando lutavam para salvar um companheiro soterrado. Aguentariam, tinham aprendido a resignação numa boa escola; podiam perfeitamente apertar o cinto por oito dias — não engoliam fogo e água desde a idade de doze anos? E à sua resignação misturava-se um orgulho de soldado, de homens orgulhosos de sua profissão, temperados na luta diária contra a morte, ufanos do sacrifício.
     Em casa dos Maheu a noite foi terrível. Todos permaneceram calados, em frente ao fogo que morria, onde fumegavam os últimos restos de carvão.
     Após terem esvaziado os colchões, pouco a pouco, na antevéspera decidiram vender o relógio de cuco por três francos, e, agora, a sala parecia nua e morta, sem o tique-taque familiar que a enchia com seu ruído. O único luxo que restava era a caixa de cartão cor-de-rosa no centro do guarda-comida, antigo presente de Maheu, que a mulher guardava como uma joia. As duas cadeiras em bom estado tinham partido: o velho Boa Morte e as crianças apertavam-se num banco carcomido, trazido do jardim. E o crepúsculo lívido que descia dava a impressão de aumentar o frio. 

— O que fazer? — repetiu a mulher, acocorada junto ao fogão. Etienne, em pé, olhava para os retratos do imperador e da imperatriz, colados na parede. Já os teria arrancado há muito tempo, não fosse a família, que os tinha ali como decoração. De repente murmurou de dentes cerrados: 
— E dizer que ninguém daria dois soldos por esses cretinos que observam a gente morrer de fome! 
— E se eu levasse a caixa? — perguntou a mulher muito pálida, após uma hesitação.

     Maheu, sentado na borda da mesa, com as pernas balouçantes e a cabeça no peito, empertigou-se. 

— Não, não quero!

continua na página 217...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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