Anton Tchekhov
Aniúta
No mais barato dos quartinhos mobiliados do “Lissabon”¹, o estudante do terceiro ano de medicina Stepan Klotchkov decorava com afinco a matéria do curso, andando de um lado para o outro. De tanto decorar, sem uma pausa para descanso, sua garganta ficou seca e gotas de suor brotaram na sua testa.
[1] Uma entre várias casas de cômodos que havia na época, onde se alugavam
quartos mobiliados. (N.T.)
Junto à janela, que tinha os cantos dos vidros cobertos de arabescos de gelo,
estava sentada sua inquilina Aniúta, uma moça morena, pequenina,
magrinha, de uns 25 anos, muito pálida, com tímidos olhos acinzentados.
Inclinada para frente, ela bordava com linha vermelha a gola de uma
camisa masculina. O trabalho era urgente... O relógio do corredor bateu
duas horas da tarde, e o quartinho ainda não tinha sido arrumado. Um
cobertor embolado, travesseiros atirados aqui e ali, livros, roupas, uma
grande bacia suja cheia de água com sabão onde boiavam pontas de cigarro,
lixo no chão – dava a impressão de que havia um monte de coisas
amarfanhadas atiradas de propósito...
– O pulmão direito é formado por três partes... – recitou Klotchkov. – Os
limites! A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro
ou cinco costelas; na superfície lateral, até a quarta costela... atrás, até a
spina scapulae²...
[2] Termo de anatomia em latim: espinha da escápula ou da omoplata. (N.T.)
Em um esforço para imaginar o que acabara de ler, Klotchkov levantou os
olhos para o teto. Não conseguindo uma imagem clara, começou a apalpar
em si mesmo, através do colete, as costelas superiores.
– Estas costelas parecem teclas de piano – disse ele. – Para não errar na
contagem, é indispensável acostumar-se com elas. Será necessário estudar
no esqueleto e em pessoas vivas... Venha cá, Aniúta, deixe eu me orientar.
Aniúta largou o bordado, tirou a blusa e endireitou o corpo. Klotchkov
sentou-se na frente dela, franziu o cenho e começou a contar as costelas.
– Hum... Não sinto a primeira costela... Ela fica atrás da clavícula... Esta
aqui deve ser a segunda costela... É isso... E esta é a terceira... Esta é a
quarta... Hum... É isso. Por que está se encolhendo?
– Os dedos do senhor estão frios!
– Ora, ora, não vai morrer disso, não fique se remexendo. Então, esta é a
terceira costela, e esta é a quarta. Você é magricela, mas quase não se
consegue apalpar as costelas... Esta é a segunda, esta é a terceira... Não,
assim fica confuso e não se tem uma visão clara... É necessário desenhar...
Onde está meu carvão?
Klotchkov pegou o pedaço de carvão e riscou no peito de Aniúta algumas
linhas paralelas, correspondentes às costelas.
– Formidável! Claro como a palma da minha mão... Bem, agora podemos
dar batidinhas. Fique em pé!
Aniúta levantou-se e ergueu o queixo. Klotchkov ficou tão absorvido dando
pancadinhas que não notou que os lábios, o nariz e os dedos da moça
estavam azuis de frio. Aniúta tremia e receava que, se notasse seu tremor, o
estudante desistisse de desenhar com o carvão e depois não fizesse uma boa
prova.– Agora está tudo claro – disse Klotchkov, parando de bater.
– Fique aí
sentada e não apague o carvão enquanto eu decoro mais umas coisinhas.
E o estudante pôs-se novamente a caminhar e a memorizar a matéria.
Aniúta, com listas pretas no peito, como se estivesse tatuada, ficou sentada,
encolhida de frio e pensando. Em geral, ela falava muito pouco, estava
sempre calada e pensava, pensava...
Nos seis ou sete anos em que perambulou por quartos mobiliados, como o de
Klotchkov, ela conhecera uns cinco rapazes. Agora todos eles haviam
terminado seus cursos, ficaram importantes e, naturalmente, como pessoas
da sociedade, há muito a esqueceram. Um deles mora em Paris, dois são
médicos, o quarto é um pintor, e o quinto, dizem, já é até catedrático.
Klotchkov é o sexto... Em breve ele também terminará seu curso, ficará
importante. Sem dúvida, o futuro será maravilhoso, e provavelmente
Klotchkov será um grande homem, mas o presente é muito ruim: Klotchkov
não tem tabaco nem chá, e restaram quatro pedacinhos de açúcar. Ela
precisava terminar o quanto antes o bordado, levar para a mulher que o
havia encomendado e depois comprar tabaco e chá com os vinte e cinco
copeques que ia receber.
– Posso entrar? – ouviu-se atrás da porta.
Aniúta atirou rapidamente um xale de lã sobre os ombros. Entrou o pintor
Fetíssov.
– Vim lhe fazer um pedido – começou ele, dirigindo-se a Klotchkov com um
olhar feroz por baixo dos cabelos que lhe caíam na testa. – Faça-me um
favor: me empreste sua maravilhosa donzela por umas duas horinhas!
Estou pintando um quadro e sem um modelo vivo, entende, é
completamente impossível!
– Ah, com prazer! – concordou Klotchkov. – Vá, Aniúta.
– O que eu já não vi lá! – murmurou Aniúta.
– Ah, deixa disso! A pessoa está pedindo pelo bem da arte, e não para
alguma bobagem. Por que não ajudar, se você pode?
Aniúta pôs-se a vestir a roupa.
– O que está pintando? – perguntou Klotchkov ao pintor.
– Psiquê. O tema é bom, mas não estou conseguindo, tenho de mudar o
tempo todo de modelo. Ontem pintei com uma que tinha os pés azuis.
Perguntei: “Por que seus pés estão azuis?” É porque as meias soltam tinta”,
disse ela. E você continua a decorar! É feliz, tem paciência para isso.
– A medicina é uma coisa que sem decoreba não dá.
– Hum... Desculpe, Klotchkov, mas você vive numa terrível imundície... Só
Deus sabe como você vive!
– Quer saber como? Não posso viver de outro modo... Meu pai só me manda
doze rublos por mês, e com esse dinheiro é impossível viver decentemente.
– Bem, isso é verdade... – disse o pintor, fazendo uma careta de nojo. – Mas
mesmo assim é possível viver um pouco melhor... Um homem culto tem
obrigação de ter estética. Não é verdade? Mas isto aqui, só o diabo entende.
A cama não está arrumada, água suja, lixo... mingau de ontem no prato...
eca!
– É verdade – disse o estudante, confuso –, mas Aniúta hoje não teve tempo
de arrumar. Ficou ocupada o dia inteiro.
Depois que Aniúta e o pintor saíram, Klotchkov deitou-se no divã e voltou à
memorização. Sem querer, adormeceu. Meia hora depois, ao acordar,
apoiou a cabeça nas mãos e afundou-se em pensamentos sombrios.
Lembrou-se das palavras do pintor sobre a necessidade do homem culto de
viver com estética, e, de fato, o ambiente do seu quarto agora lhe pareceu
nojento, repulsivo. Parecia imaginar com o olho da razão o seu futuro – ele
atendendo os pacientes no seu consultório, tomando chá numa grande sala
de jantar, em companhia de uma esposa da boa sociedade – e ali, aquela
bacia de água suja com pontas de cigarro dava uma impressão
incrivelmente asquerosa. Aniúta já lhe parecia uma pessoa feia, sem
elegância, digna de pena... Então ele tomou a resolução de separar-se dela
imediatamente, custasse o que custasse.
Quando Aniúta voltou do quarto do pintor e começou a tirar o casaco, ele se
levantou e lhe disse seriamente:
– É o seguinte, minha querida... Sente-se e ouça. Precisamos nos separar!
Em suma, não quero mais viver com você.
Aniúta chegara do quarto do pintor completamente exausta, esgotada. Seu
rosto, em consequência da longa imobilidade na pose, tinha ficado mais
magro e cavado, o queixo estava mais pontudo. Ela não respondeu às
palavras do estudante e seus lábios apenas tremeram.
– Concorde que cedo ou tarde teríamos de nos separar, de um jeito ou de
outro – disse o estudante de medicina. – Você é boa, generosa e não é boba;
você entenderá...
Aniúta vestiu novamente o casaco, em silêncio embrulhou o bordado num
papel, ajuntou as linhas e agulhas; procurou o embrulhinho com os quatro
pedaços de açúcar na janela e colocou sobre a mesa ao lado dos livros.
– Isto é o seu... açúcar... – disse ela baixinho, virando-se de costas para
esconder as lágrimas.
– Ora, por que está chorando? – perguntou Klotchkov.
Embaraçado, ele deu uns passos pelo quarto e disse:
– Mas como você é estranha... Você mesma sabe que temos de nos separar.
Não vamos viver a vida toda juntos.
Ela já tinha reunido todas as suas trouxinhas e se pusera de frente para ele,
para se despedir, quando ele teve pena dela.
“Será que ela não poderia ficar aqui mais uma semana?”, pensou. “É isso
mesmo, que fique mais um pouco, e daqui a uma semana eu a mando
embora.”
E, aborrecido por não ter personalidade, gritou com ela em tom severo:
– Então, o que está fazendo aí em pé! Se é para sair, saia, mas se não quer,
tire o casaco e fique! Fique!
Calada, Aniúta tirou o casaco devagar, depois assoou o nariz, também sem
fazer barulho, suspirou e silenciosamente se dirigiu para a sua posição
habitual: no tamborete junto à janela.
O estudante pegou o livro e novamente se pôs a andar de um lado para o
outro.
– O pulmão esquerdo é composto de três partes... – memorizava. – A parte
superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco
costelas...
E, no corredor, alguém gritou a plenos pulmões:
– Grigóri! O samovar³!
[3] Utensílio russo de uso doméstico, constituído de pequena caldeira provida de um tubo central no qual se colocam brasas para ferver e manter quente a água para o chá.
Fevereiro de 1886.
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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta /
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".
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