Castro Alves
À memória de Meu Pai,
de Minha Mãe
e de Meu Irmão
O. D. C.
A MEU IRMÃO GUILHERME DE
CASTRO ALVES
Na cordilheira altíssima dos Andes
Os Chimboraços solitários, grandes
Ardem naquelas hibernais regiões.
Ruge embalde e fumega a solfatara...
É dos lábios sangrentos da cratera
Que a avalanche vacila aos furacões.
A escória rubra com os geleiros brancos
Misturados resvalam pelos flancos
Dos ombros friorentos do vulcão...
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Assim, Poeta, é tua vida imensa,
Cerca-te o gelo, a morte, a indiferença...
E são lavas lá dentro o coração.
Curralinho, julho de 1870
QUANDO EU MORRER...
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A fresca tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
Junqueira Freire
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto,
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não tem o coração no peito...
E um deles vos dirá: “Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito.”
Outro: “Dei-o a meu pai.” Outro: “Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho.”...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, de março 1869
continua pag 83...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita / Mocidade e Morte / Os três amores / O Gondoleiro do Amor / As Três Irmãs do Poeta /
O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão / Adormecida / Poesia e Mendicidade /
No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras / A Duas Flores /
A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede / Aves de arribação / Immensis Orbibus Anguis /
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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