sábado, 4 de julho de 2026

Espumas Flutuantes - A meu irmão Guilherme de Castro Alves

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A MEU IRMÃO GUILHERME DE 
 CASTRO ALVES 

Na cordilheira altíssima dos Andes  
Os Chimboraços solitários, grandes 
 Ardem naquelas hibernais regiões. 
 Ruge embalde e fumega a solfatara... 
 É dos lábios sangrentos da cratera 
 Que a avalanche vacila aos furacões.

A escória rubra com os geleiros brancos 
 Misturados resvalam pelos flancos 
 Dos ombros friorentos do vulcão... 
 
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Assim, Poeta, é tua vida imensa, 
 Cerca-te o gelo, a morte, a indiferença... 
 E são lavas lá dentro o coração. 
 Curralinho, julho de 1870  


QUANDO EU MORRER... 
Eu morro, eu morro. A matutina brisa 
 Já não me arranca um riso. A fresca tarde 
 Já não me doura as descoradas faces 
 Que gélidas se encovam. 
Junqueira Freire  
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver 
 No fosso de um sombrio cemitério... 
 Odeio o mausoléu que espera o morto, 
 Como o viajante desse hotel funéreo. 

Corre nas veias negras desse mármore 
 Não sei que sangue vil de messalina, 
 A cova, num bocejo indiferente, 
 Abre ao primeiro a boca libertina. 

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério... 
 Que povo estranho no porão profundo! 
 Emigrantes sombrios que se embarcam 
 Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo. 
 Tem por velame — os panos do sudário... 
 Por mastro — o vulto esguio do cipreste, 
 Por gaivotas — o mocho funerário... 

Ali ninguém se firma a um braço amigo 
 Do inverno pelas lúgubres noitadas... 
No tombadilho indiferentes chocam-se 
 E nas trevas esbarram-se as ossadas... 

Como deve custar ao pobre morto 
 Ver as plagas da vida além perdidas, 
 Sem ver o branco fumo de seus lares 
 Levantar-se por entre as avenidas!... 

Oh! perguntai aos frios esqueletos 
 Por que não tem o coração no peito... 
 E um deles vos dirá: “Deixei-o há pouco 
 De minha amante no lascivo leito.” 

Outro: “Dei-o a meu pai.” Outro: “Esqueci-o 
 Nas inocentes mãos de meu filhinho.”... 
 ... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro 
 O coração do morto volta ao ninho!... 
 São Paulo, de março 1869

continua pag 83...
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Canção do Boêmio / A meu irmão Guilherme de Castro Alves /                                    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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