David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo
Seção IV
Resposta às objeções
continuando...
.
Quanto àqueles que imaginam que a extensão é
divisível in infinitum, não podem fazer uso desta resposta,
nem estabelecer a igualdade de uma linha ou superfície
pela enumeração das suas partes componentes. Pois dado
que, segundo a sua hipótese, tanto as figuras menores como
as maiores contêm um número infinito de partes e, rigorosamente falando, os números infinitos não podem ser nem
iguais nem desiguais entre si, também a igualdade ou desigualdade de uma porção qualquer de espaço jamais pode
depender de qualquer proporção no número das suas partes. É certo poder dizer-se que a desigualdade entre uma vara
e uma jarda consiste na diferença no número de pés e entre
um pé e uma jarda no número de polegadas de que se
compõem. Mas como se supõe que a quantidade a que
chamamos polegada é igual na primeira ao que chamamos
polegada na segunda, e visto que a mente não pode descobrir esta igualdade prosseguindo até ao infinito com estas
referências a quantidades inferiores, é evidente que temos
de estabelecer finalmente um critério de igualdade diferente de uma enumeração das partes.
Há quem¹ sustente que a igualdade se define melhor
pela congruência e que duas figuras quaisquer são iguais
quando, colocadas uma sobre a outra, todas as suas partes
se tocam e correspondem umas às outras. Para ajuizar desta
definição consideremos que, sendo a igualdade uma relação, não é, rigorosamente falando, propriedade intrínseca
das figuras; origina-se apenas da comparação que a mente
estabelece entre elas. Se portanto ela consiste nesta aplicação imaginária e no contacto mútuo das partes, temos de
possuir pelo menos uma noção distinta destas partes e
temos de conceber o seu contato. Ora está claro que nesta
concepção quereríamos ir até às partes mais diminutas que
pudéssemos conceber, visto que o contato de partes grandes jamais tornaria iguais as figuras. Mas as partes mais
diminutas que podemos conceber são os pontos matemáticos e por conseguinte este critério da igualdade identifica-se com o critério originado na igualdade do número de
pontos, o qual, conforme ficou já estabelecido, é um critério exato mas inútil. Temos portanto de procurar noutro lado a solução para a presente dificuldade.
[1] Ver as conferências matemáticas de Barrow.
É evidente que os olhos, ou melhor, a mente, muitas vezes é capaz de determinar de uma mirada as proporções dos corpos e declará-los iguais, maiores ou menores uns do que os outros, sem examinar ou comparar o número das suas partes diminutas. Tais juízos são não apenas correntes, mas em muitos casos certos e infalíveis. Quando se apresentam à mente a medida de uma jarda e a de um pé, ela não pode pôr em dúvida que aquela é mais comprida do que esta, da mesma maneira que não pode duvidar dos princípios mais claros e mais intrinsecamente evidentes.
Há portanto três proporções que a mente distingue na aparência geral dos seus objetos e a que dá as designações de maior, menor e igual. Mas embora as suas decisões sobre estas proporções sejam às vezes infalíveis, não o são sempre; e os nossos juízos sobre este assunto não estão mais isentos de dúvida e erro do que os juízos sobre qualquer outra matéria. Com frequência corrigimos a nossa primeira opinião mediante uma revisão e reflexão, declarando iguais objetos que a princípio considerávamos desiguais e considerando menor um objeto que anteriormente nos pare cia maior do que outro. E não é esta a única correção que sofrem estes juízos dos nossos sentidos: muitas vezes descobrimos o erro pela justaposição dos objetos, ou, sendo esta impraticável, pelo uso de uma qualquer medida comum e invariável que se aplica sucessivamente a cada objeto e assim nos informa das suas diferentes proporções. E mesmo esta correção é susceptível de nova correção e de diferentes graus de exatidão, conforme a natureza do instrumento usado para medir os corpos e o cuidado que pomos na comparação.
Quando pois o espírito se acostumou a estes juízos e
suas correções e descobre que esta mesma proporção que
leva duas figuras a terem aos nossos olhos aquela aparência
a que chamamos igualdade, também faz que elas se correspondam entre si e correspondam a qualquer medida comum
com a qual sejam comparadas, formamos uma noção mista
de igualdade derivada tanto dos menos como dos mais
estritos métodos de comparação. Mas não nos contentamos com isto. Com efeito, visto que a sã razão nos convence de
que há corpos imensamente mais pequenos do que aqueles
que aparecem aos nossos sentidos; e visto que uma falsa
razão nos persuadiria de que há corpos infinitamente mais
pequenos, claramente percebemos que não possuímos um
instrumento ou processo de medição que possa garantir--nos contra todo o erro e incerteza. Temos consciência de
que a adição ou subtração de uma destas partes minúsculas
não é discernível nem na aparência, nem mediante medição; e como imaginamos que duas figuras anteriormente
iguais, não podem ser iguais depois desta subtração ou
adição, admitimos pois um critério imaginário de igualdade que corrige rigorosamente aparências e medidas e
reduz as figuras inteiramente a esta proporção. É um critério manifestamente imaginário. Com efeito, sendo a própria ideia de igualdade a de uma certa aparência particular,
corrigida por justaposição ou por uma medida comum, a
noção de qualquer correção que ultrapasse a que nos per
mite formar os nossos instrumentos e a nossa arte é pura
ficção do espírito, tão inútil como incompreensível. Mas,
embora este critério seja apenas imaginário, contudo a
ficção é muito natural; e nada é mais habitual do que o
espírito perseverar deste modo numa ação, mesmo depois
de ter desaparecido a razão que inicialmente o levou a
começá-la. É o que aparece manifestamente com relação
ao tempo: embora evidentemente não tenhamos método
rigoroso para determinar as proporções das partes, nem
sequer tão rigoroso como para a extensão, contudo as
várias correções das nossas medidas e os seus diferentes graus
de exatidão deram-no uma noção obscura e implícita de
uma inteira e perfeita igualdade. Dá-se o mesmo caso
quanto a muitos outros assuntos. Um músico, ao descobrir
que o seu ouvido se torna cada vez mais apurado e que se
corrige por reflexão e atenção, prolonga o mesmo ato
mental mesmo quando lhe falta matéria e tem noção duma tercina ou duma oitava perfeita, sem ser capaz de dizer donde
tira o seu critério. O pintor forma a mesma ficção relativa
mente às cores, e o mecânico relativamente ao movimento.
Um imagina que a luz e a sombra, o outro que a lentidão e
a rapidez são susceptíveis de comparação e igualdade rigorosas, que ultrapassam os juízos dos sentidos.
Podemos aplicar o mesmo raciocínio às linhas curvas e retas. Nada se impõe mais aos sentidos do que a distinção entre linha curva e reta; e não há ideias que formemos mais facilmente do que as ideias destes objetos. Mas, por mais facilmente que formemos estas ideias, é impossível apresentar uma definição delas que lhes fixe com precisão as fronteiras. Quando desenhamos linhas no papel ou em qualquer superfície contínua, há uma certa ordem segundo a qual as linhas vão de um ponto ao outro, para que elas produzam a impressão total da linha curva ou reta; mas esta ordem é perfeitamente desconhecida e não se nota outra coisa a não ser o aspecto de conjunto. Assim, mesmo no sistema dos pontos indivisíveis, apenas podemos formar uma noção aproximada de um certo critério desconhecido destes objetos. No da divisibilidade nem sequer podemos chegar a isto; ficamos reduzidos apenas ao aspecto geral, como regra que nos serve para determinar se as linhas são retas ou curvas. Mas embora não possamos dar uma definição perfeita destas linhas, nem propor um método muito rigoroso para as distinguir umas das outras, contudo esta impossibilidade não nos impede de corrigir a primeira aparência mediante exame mais cuidadoso e mediante comparação com alguma regra cujo valor nos seja mais garantido por repetidas tentativas. E é a partir destas correções e continuando a mesma ação intelectual, ainda mesmo quando desaparece toda a razão para continuar, que formamos a ideia imprecisa de um perfeito critério destas figuras, sem mesmo sermos capazes de o explicar ou compreender.
Podemos aplicar o mesmo raciocínio às linhas curvas e retas. Nada se impõe mais aos sentidos do que a distinção entre linha curva e reta; e não há ideias que formemos mais facilmente do que as ideias destes objetos. Mas, por mais facilmente que formemos estas ideias, é impossível apresentar uma definição delas que lhes fixe com precisão as fronteiras. Quando desenhamos linhas no papel ou em qualquer superfície contínua, há uma certa ordem segundo a qual as linhas vão de um ponto ao outro, para que elas produzam a impressão total da linha curva ou reta; mas esta ordem é perfeitamente desconhecida e não se nota outra coisa a não ser o aspecto de conjunto. Assim, mesmo no sistema dos pontos indivisíveis, apenas podemos formar uma noção aproximada de um certo critério desconhecido destes objetos. No da divisibilidade nem sequer podemos chegar a isto; ficamos reduzidos apenas ao aspecto geral, como regra que nos serve para determinar se as linhas são retas ou curvas. Mas embora não possamos dar uma definição perfeita destas linhas, nem propor um método muito rigoroso para as distinguir umas das outras, contudo esta impossibilidade não nos impede de corrigir a primeira aparência mediante exame mais cuidadoso e mediante comparação com alguma regra cujo valor nos seja mais garantido por repetidas tentativas. E é a partir destas correções e continuando a mesma ação intelectual, ainda mesmo quando desaparece toda a razão para continuar, que formamos a ideia imprecisa de um perfeito critério destas figuras, sem mesmo sermos capazes de o explicar ou compreender.
E verdade que os matemáticos pretendem dar uma
definição exata da linha reca quando dizem que é a mais
curta distância entre dois pontos. Mas noto em primeiro lugar
que isto é mais propriamente descobrir uma das propriedades da linha reta do que defini-la corretamente. Por
que, pergunto eu, quando alguém fala duma rcta pensa
imediatamente em tal aparência particular ou não será apenas casualmente que considera essa propriedade? Uma reta
pode compreender-se isoladamente; mas esta definição é
ininteligível sem a comparação com outras linhas que concebemos como sendo mais extensas. Na vida corrente estabeleceu-se como princípio que o caminho mais direito é
sempre o mais curto, o que seria tão absurdo como dizer
que o caminho mais curto é sempre o mais curto, se a
nossa ideia de linha reta não fosse diferente da do mais
curto caminho entre dois pontos.
Em segundo lugar, repito o que já estabeleci: que não temos uma ideia precisa de igualdade e desigualdade, de mais curto e mais longo, como não a temos da linha reta e da curva e que por conseguinte uma jamais pode fornecer--nos um critério perfeito para a outra. Uma ideia precisa nunca pode construir-se sobre ideias imprecisas e indeterminadas.
Em segundo lugar, repito o que já estabeleci: que não temos uma ideia precisa de igualdade e desigualdade, de mais curto e mais longo, como não a temos da linha reta e da curva e que por conseguinte uma jamais pode fornecer--nos um critério perfeito para a outra. Uma ideia precisa nunca pode construir-se sobre ideias imprecisas e indeterminadas.
A ideia de superfície plana é tão pouco susceptível de
critério preciso como a de linha reta, e não temos outro
meio de distinguir tal superfície além do seu aspecto geral.
É em vão que os matemáticos representam a superfície
plana como produzida pela deslocação de uma linha reta.
Imediatamente se objetará que a nossa ideia de superfície
é tão independente deste método de gerar uma superfície,
como a nossa ideia de elipse o é da ideia do cone; que a
ideia de linha reta não é mais precisa do que a de superfície plana; que uma reta pode deslocar-se irregularmente,
gerando assim uma figura muito diferente do plano; e que
portanto devemos admitir que ela se desloca ao longo de duas linhas retas, paralelas uma à outra, e situadas no
mesmo plano; ora esta definição explica uma coisa por si
mesma, caindo pois num círculo.
Parece portanto que as ideias mais essenciais à geometria, a saber, as de igualdade e desigualdade, de linha reta
e superfície plana, estão longe de ser rigorosas e determinadas, segundo a nossa maneira corrente de as conceber.
Não só somos incapazes de distinguir, em casos onde houver dúvida de qualquer grau, quando é que tais figuras particulares são iguais, tal linha é reta e tal superfície plana;
além disso não podemos formar desta relação ou destas
figuras uma ideia firme e invariável. Continuamos a apelar
para aquele juízo fraco e falível que formamos em conformidade com a aparência dos objetos e que corrigimos
mediante uma bússola ou uma medida comum; e se acrescentamos a hipótese de nova correção, esta é uma correção inútil ou imaginária. Em vão recorreríamos a um lugar
comum e empregaríamos a hipótese de uma divindade,
cuja omnipotência pode torná-lo capaz de formar uma
figura geométrica perfeita e traçar uma reta sem curva
nem inflexão. Visto que o critério último destas figuras não
é tirado senão dos sentidos e da imaginação, é absurdo falar
duma perfeição além daquela que estas faculdades podem
julgar; com efeito, a verdadeira perfeição de uma coisa
reside na sua conformidade ao seu critério.
Ora, sendo estas ideias tão vagas e tão incertas, gostaria de perguntar ao matemático que certeza infalível tem
ele não apenas das proposições mais intricadas e obscuras
da sua ciência, mas ainda dos princípios mais banais e mais
evidentes. Como pode ele demonstrar-me, por exemplo, que
duas linhas retas não podem ter um segmento comum?
Ou que é impossível desenhar mais de uma linha reta
entre dois pontos? Se ele me dissesse que estas opiniões são
manifestamente absurdas e repugnam às nossas ideias claras,
eu responderia que não nego que, se duas retas são oblíquas uma em relação à outra num ângulo apreciável, é
absurdo supor que têm um segmento comum. Mas, supondo que estas duas linhas se aproximam à razão de uma
polegada em vinte léguas, não me parece absurdo afirmar
que, ao encontrarem-se, elas se tornam uma só. Pois rogo--vos que me digais por que regra ou critério julgais quando afirmais que a linha, na qual supus que as outras duas se
encontram, não pode formar a mesma linha reta com essas
duas, que entre si fazem um ângulo tão pequeno. Certamente tendes da linha reta uma ideia com a qual esta
linha não se conforma. Quereis dizer que ela não apresenta
os pontos na mesma ordem e segundo a mesma regra, conforme é próprio e essencial à linha reta? Se assim é, devo
informar-vos que, julgando desta maneira, além de concederdes que a extensão é composta de pontos indivisíveis
(o que talvez ultrapasse as vossas intenções), além disto, acres
cento, não é esse o critério pelo qual formamos a ideia de
reta; e, mesmo que fosse, não há nos nossos sentidos ou na
nossa imaginação firmeza bastante para determinar quando
é que esta ordem é violada ou preservada. O critério inicial da reta em realidade não é outra coisa senão uma certa
aparência geral; e é evidente que podemos fazer que duas
retas se encontrem e contudo correspondam a este critério, mesmo corrigido por todos os meios praticáveis ou
imagináveis.
Isto pode abrir-nos um pouco os olhos e fazer-nos ver
que nenhuma demonstração geométrica da divisibilidade
da extensão até ao infinito pode ter tanta força quanta
atribuímos naturalmente a todo o argumento que se apoia
em pretensões tão grandiosas. Ao mesmo tempo podemos
ficar a conhecer a razão por que a geometria carece de
evidência apenas neste ponto, enquanto que todos os outros raciocínios seus têm o nosso mais completo assenti
mento e aprovação. E certamente parece mais necessário
apresentar a razão desta excepção do que mostrar que devemos efetivamente fazer tal excepção, e considerar
inteiramente sofisticas todos os argumentos matemáticos
em favor da divisibilidade até ao infinito. Pois é evidente
que, não sendo infinitivamente divisível nenhuma ideia de
quantidade, não se pode imaginar absurdo mais flagrante
do que tentar provar que a própria quantidade admite tal
divisão; e prová-lo mediante ideias que neste ponto são
diretamente opostas. E visto que este absurdo é em si
mesmo tão flagrante, não há argumento baseado nele que
não seja acompanhado de novo absurdo e não envolva evidente contradição.
Poderia dar como exemplos os argumentos a favor da
divisibilidade até ao infinito que se tiram do ponto de contato. Sei que não há matemático que não se recuse a ser
julgado pelos diagramas que traça no papel, os quais são,
diz-nos ele, esboços imprecisos servindo unicamente para
com maior facilidade nos comunicar certas ideias que são a
verdadeira base de todo o nosso raciocínio. Contento-me
com esta resposta e aceito restringir a controvérsia a estas
ideias. Desejo pois que o nosso matemático forme ideias
tão precisas quanto possível do círculo e da linha reta; pergunto depois se, quando concebe o seu contato, pode
concebê-las como tocando-se num ponto matemático, ou
se necessariamente tem de imaginar que elas se encontram
nalgum espaço. Qualquer que seja a solução escolhida, ele
cai em idênticas dificuldades. Se afirmar que ao traçar estas
figuras na imaginação pode imaginar que elas se tocam
apenas num ponto, admite a possibilidade dessa ideia, e
consequentemente da coisa. Se disser que, ao conceber o
contacto dessas linhas, tem de fazer que elas se encontrem,
reconhece desse modo a falácia das demonstrações geométricas, quando levadas além de um certo grau de minúcia;
porque com certeza ele tem tais demonstrações que se
opõem à coincidência de um círculo e uma reta; por
outras palavras, pode provar que uma ideia, a de coincidência, é incompatível com outras duas ideias, a de círculo e a
de linha reta, embora reconheça ao mesmo tempo que
estas ideias são inseparáveis.
continua na página 93...
______________
Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
___________________
4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
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