quinta-feira, 2 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse

             Quatro bandidos, Claquesous, Gueulemer, Babet e Montparnasse, governavam o entressolo de Paris, pelos anos de 1830 a 1835. Gueulemer era um Hércules em disponibilidade. O seu antro era o esgoto do Arche-Mariom. Tinha seis pés de altura, peito de mármore, músculos de bronze, uma respiração de caverna, cintura e ombros de colosso, crânio de pássaro. Dir-se-ia o Hércules Farnésio vestido com calças de cotim e jaqueta de veludinho. Construído desse modo escultural, Gueulemer seria capaz de domar monstros; achara, porém, mais simples ser ele mesmo um. Testa curta, fontes amplas, quarenta anos incompletos, e pés de pato, cabelo áspero e curto, faces salientes, barba como pelos de porco-espinho; eis o esboço deste homem. Os seus músculos solicitavam o trabalho, a sua estupidez rejeitava-o. Era uma grande força preguiçosa, um assassino por indolência. Dizia-se que este Gueulemer era crioulo. Como em 1815 fora carrejão em Avinhão, talvez tivesse convivido com o marechal Brune. Acabado este tempo de prática, passara a ser bandido.
     A transparência de Babet contrastava com a corpulência de Gueulemer. Babet era magro e instruído e, apesar de transparente, impenetrável. Via-se-lhe a luz através dos ossos, mas através das pupilas, nada. Declarava-se químico. Havia sido licorista no estabelecimento de Bobeche, palhaço com Bobino, e além disto ator de farsas em Saint Mihiel. Era um homem de propósito, bem falante, que sublinhava os seus sorrisos e punha comas nos seus gestos. Consistia o seu modo de «vida em andar a vender pelas ruas bustos de gesso e retratos do chefe do Estado. Além disto também tirava dentes. Em tempos andara mostrando fenômenos pelas feiras, nas quais levantava barraca, chamando os espectadores com trombetas e este cartaz: «Babet, artista dentista, membro das academias, faz experiências físicas sobre metais e metaloides, extirpa dentes, tira as arnelas abandonadas pelos seus colegas. Preços: um dente, um franco e cinquenta cêntimos: dois, dois francos; três, dois francos e cinquenta cêntimos. Aproveitar da ocasião». Este «aproveitar da ocasião» queria dizer: quanto maior número de dentes tirardes, melhor. Babet tinha casado e do filhas, porém não sabia o que era feito nem da mulher nem dos filhos. Perdera-os como quem perde o lenço. Por uma excepção, raríssima no obscuro mundo a que ele pertencia, Babet lia jornais. Uma ocasião, no tempo em que ele ainda trazia consigo a família na sua barraca ambulante, lera no Mensageiro que uma mulher tinha dado à luz uma vivedoura criança com focinho de touro, e exclamara: «Isto é que é ser feliz! Não é minha mulher capaz de me arranjar assim um pequeno!»
     Depois abandonara tudo para «tentar Paris», para nos servirmos da sua expressão.
     Quem vinha a ser Claquesous? Era a escuridão. Para se mostrar esperava que o céu se enfarruscasse de negro. À noite saía de um buraco, em que tornava a entrar antes de ser dia. Onde ficava essa cova? Ninguém o sabia No meio da mais completa escuridão, aos seus cúmplices só falava de costas voltadas. Chamava-se Claquesous? Não. O meu nome, dizia ele, é Nada. Se aparecia alguma vela, punha logo uma máscara. Era ventríloquo. Claquesous é um nocturno a duas vozes, dizia Babet, Claquesous era vago, errante, terrível. Não se sabia se ele tinha nome, visto que Claquesous era uma alcunha; não se sabia se tinha voz, visto que falava mais com o ventre do que com a boca; nem se tinha rosto, visto que nunca ninguém lhe Vira mais do que a máscara. Este homem desaparecia como uma visão e aparecia como quem irrompe das entranhas da terra.
     Criatura lúgubre, Montparnasse. Montparnasse era uma criança de vinte anos incompletos, bonito rosto, lábios rubros, lindos cabelos pretos, olhos resplandecentes do brilho da Primavera; Montparnasse tinha todos os vícios e aspirava a todos os crimes. Era o gaiato convertido em voyou e o voyou convertido em escarpa. Era gentil, efeminado, gracioso, robusto, lânguido feroz. Trazia a aba do chapéu revirada para dar lugar ao tufo dos cabelos, como era moda em 1829. Montparnasse vivia de roubar com violência. O casacão que trazia era bem feito, mas já usado Montparnasse era uma gravura de modas, cheia de miséria e cometendo homicídios. A causa de todos os atentados deste adolescente era o desejo de andar bem trajado. A primeira costureira que lhe disse:

— És belo! — impusera-lhe uma missão de trevas ao coração e fizera deste Abel um Caim.

     Achou-se bonito, quis ser elegante; ora a principal elegância é a ociosidade e a ociosidade do pobre é o crime. Poucos vadios havia mais temidos do que Montparnasse. Aos dezoito anos já tinha por trás de si um rasto de muitos cadáveres. Mais de um viandante jazia de braços estendidos na sombra deste miserável, com o rosto num lago de sangue. Frisado, embanhado, cintura delgada, espáduas de mulher, busto de oficial prussiano, admirado das pros tutas do boulevard, cassetete no bolso, flor ao peito; eis o retrato deste peralta do sepulcro.

continua na página 543...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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