sábado, 4 de julho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

4



     Estávamos na quaresma da Assunção¹ e por conseguinte ninguém em casa ficou surpreendido com o projeto das minhas devoções.

 [1] Essa expressão consagrada na Rússia, corresponde ao que se chama nos países católicos "fazer um recolhimento espiritual"

     Durante toda esta semana Sérgio não nos veio ver uma única vez e, longe de estar surpreendida, alarmada, ou zangada, estava contente por ele não ter vindo e não o esperava senão no dia do meu aniversário.
     No decorrer desta mesma semana levantei-me todos os dias cedo, e enquanto aparelhavam os cavalos, passeando sozinha no jardim, sonhava no passado meditando no que me era preciso fazer para à noite estar contente com o meu dia e orgulhosa de não ter cometido faltas.
     Quando os cavalos avançavam, subia para o droschki acompanhada por Macha ou por uma criada e partíamos para a igreja, a três verstas de distância, aproximadamente. Entrando aí, recordava-me todas as vezes que ali se reza por todos aqueles «que entram no templo com temor de Deus» e esforçava-me por me elevar até este conceito, sobretudo no momento em que subia os dois degraus do adro que as ervas invadiam. Ordinariamente, a esta hora não havia na igreja mais de uma dúzia de pessoas, camponeses e droroviés, preparando-se para as suas devoções; apressava-me a corresponder com humildade às suas saudações e aproximava-me eu mesma, o que considerava como uma façanha, do armário das velas para receber algumas das mãos do velho soldado que desempenhava as funções de starost², depois ia colocá-las diante das imagens. Através da porta do santuário enxergava a toalha do altar que a mamã havia bordado e por cima do iconóstase dois anjos salpicados de estrelas, que quando era criança, achava muito grandes, e uma pomba rodeada de uma auréola dourada que, naquela mesma época, absorvia muitas vezes a minha atenção. Por detrás do coro entrevia as pias batismais todas lavradas sobre as quais tantas vezes eu segurara nos filhos dos nossos droroviés e onde eu mesma tinha sido batizada. O velho sacerdote aparecia, trazendo uma casula feita de pano do caixão de meu pai, e entoava o ofício com aquela mesma voz que, tanto quanto me lembrava, havia cantado em nossa casa as rezas da igreja, no batismo de Sónia, nos ofícios fúnebres de meu pai e nos funerais de minha mãe. Depois ouvia ressoar no coro aquela outra voz desafinada do chantre, tão familiar para mim; via, como sempre tinha visto, uma velha curvada que, em todos os ofícios, encostada à parede e apertando entre as mãos um lenço desbotado, contemplava com os olhos cheios de lágrimas uma das imagens do coro e murmurava não sei que orações com a boca desdentada. E não era já a simples curiosidade ou as reminiscências que aproximavam de mim todos aqueles objetos, aqueles entes; apresentavam-se todos a meus olhos, grandes e santos, impregnados de um profundo sentido.

[2] Chama-se starost, nas igrejas ortodoxas, aquele que desempenha o cargo de tesoureiro, se encarrega do peditório, etc.

     Prestava atenção a cada uma das palavras da oração cuja leitura escutava, procurava pôr o meu sentimento de acordo com elas e, se não as compreendia, pedia mentalmente a Deus que me esclarecesse ou então substituía a minha própria oração por aquela que não havia percebido bem. Quando liam as rezas da penitência, recordava-me do meu passado, e esse passado da minha inocente infância parecia-me tão negro, em vista do estado de serenidade em que a minha alma se encontrava naquele momento, que, atónita, chorava em silêncio; mas ao mesmo tempo, sentia que tudo me era perdoado e que então, mesmo que tivesse ainda muitas mais faltas a censurar-me, o arrependimento teria sido tanto mais suave.
     No fim do ofício, na ocasião em que o sacerdote pronunciava as palavras «Que o Senhor esteja convosco», julgava experimentar instantaneamente e comunicar-se a todo o meu ser um sentimento de bem-estar físico, como se uma torrente de luz e de calor me tivesse de repente penetrado até ao coração.
     Terminado o ofício, o padre aproximou-se de mim e perguntou-me se não deveria vir celebrar as vésperas a nossa casa. Agradeci-lhe comovida o que ele queria fazer por minha intenção e disse-lhe que não era necessário e que eu mesma me deslocaria à igreja, a pé ou de carruagem. 

— De modo que se quer incomodar? — perguntou-me ele.

     Não soube o que lhe responder, com medo de pecar por orgulho.
     Se não estava com Macha, mandava sempre retirar a carruagem da igreja e voltava sozinha a pé, saudando profunda e humildemente todos os que encontrava, procurando as ocasiões para os socorrer, para lhes dar conselhos, para me sacrificar por eles de alguma maneira, ajudando a erguer um carro, embalando uma criança, pisando a lama para dar aos outros o melhor caminho.
     Uma tarde ouvi o intendente contar a Macha que um camponês, Simão, viera pedir madeira para o caixão da filha e um rublo para o ofício mortuário, e que ele tudo lhe tinha dado. 

— Então eles são assim tão pobres? — perguntei. 
— Muito pobres, menina, vivem sem sal³ — respondeu o intendente.

[3] Locução russa enérgica para exprimir uma grande miséria.

     Apertou-me o coração e, ao mesmo tempo rejubilei, de certo modo, por o ter sabido. Fazendo acreditar a Macha que ia passear, corri pelas escadas acima e peguei em todo o dinheiro que possuía (embora fosse muito pouco); depois, tendo feito o sinal da cruz, parti sozinha, através do terraço e do jardim, para a aldeia até à choupana de Simão. Era mesmo na extremidade e, não tendo sido vista por pessoa alguma, aproximei-me da janela, onde depus o dinheiro e fugi. Então a porta gemeu, alguém saiu da cabana e me chamou; mas eu, toda gelada e trêmula de susto como uma criminosa, corri para casa. Macha perguntou-me de onde vinha e o que tinha. Mas não compreendi sequer o que ela dizia e não lhe respondi. Tudo, naquele momento, me parecia tão insignificante e de tão poucas consequências! Encerrei-me no meu quarto e ali andei por muito tempo, só, de um lado para outro, não me sentindo com disposição de fazer coisa alguma, de pensar, e incapaz de ajuizar os meus próprios sentimentos. Imaginava a alegria de toda uma família, as palavras escapadas de seus lábios para com aquela que havia colocado o dinheiro na janela, e sentia agora pena por eu mesma não ter dado. Perguntava a mim mesmo o que teria dito Sérgio Mikailovitch se soubesse daquele fato e congratulava-me de que ele nunca o conhecesse. E sentia uma tal alegria, estava tão compenetrada da imperfeição de todos e de mim própria, considerava-me e aos outros com tanta doçura que a ideia da morte oferecia-se me como uma visão de felicidade. Sorria, rezava, chorava e naquele instante amei de repente todos os seres que estão no mundo, e amei-me também com um estranho ardor. Procurando nos ofícios, li muitas passagens do Evangelho e tudo o que lia deste livro cada vez se me tornava mais inteligível; mais tocante e mais simples me parecia a história daquela vida divina, mais terríveis e impenetráveis aquelas sublimidades de sentimentos e de pensamentos que descobria no decurso da leitura. Mas também, como tudo me pareceu claro e fácil quando, deixando o livro, encarei de novo a vida em que jazia e meditei nela. Pareceu-me impossível não viver bem e muito simples amar todo o mundo e ser amada por todos. Entretanto, toda a gente era boa e terna para comigo, mesmo Sónia, cujas lições eu prosseguia, e que se tinha tornado completamente outra, esforçando-se por compreender tudo, por me satisfazer e não me causar desgosto algum. O que procurava ser para os outros, eram estes para mim.
     Passando em seguida aos meus inimigos, dos quais devia obter o perdão antes do grande dia, lembrei-me unicamente de uma rapariga da vizinhança de quem, um ano antes, havia zombado diante de visitas e que tinha deixado de nos procurar. Escrevi-lhe uma carta onde reconhecia a minha falta e em que lhe pedia o seu perdão. Respondeu-me solicitando o meu e perdoando-me também. Derramei lágrimas de prazer lendo aquelas simples linhas, que então me pareceram cheias de um sentimento tão profundo e tocante. A minha ama chorou quando igualmente lhe pedi perdão. Porque eram todos tão bons para mim? Como havia merecido tanta afeição?, perguntava a mim mesmo.
     Recordei-me então involuntariamente de Sérgio Mikailovitch e pensei nele. Não podia proceder de outro modo e não considerei absolutamente esta distração como uma leviandade. É verdade que não pensei de modo algum nele como o havia feito naquela noite em que, pela primeira vez, descobri que o amava; pensava nele como em mim mesmo, associando-o, contra a minha vontade, a cada uma das preocupações do meu futuro. A influência dominante que a sua presença tinha exercido sobre mim, extinguia-se completamente na minha imaginação. Sentia-me hoje sua igual e, do cume do edifício ideal em que pairava, tinha dele uma plena compreensão. Tudo o que nele me tinha outrora parecido estranho, tornava-me inteligível. Somente hoje sabia apreciar aquele pensamento que Sérgio me havia expresso, que a felicidade só consiste em viver para os outros, e agora estava perfeitamente de acordo com ele. Parecia-me que ambos gozaríamos de uma tranquila e ilimitada felicidade. E não se me figurava nem a partida para o estrangeiro, nem o mundo, nem o esplendor, mas uma existência toda pacífica, vida de família no campo, abnegação perpétua da vontade própria, amor constante um ao outro, reconhecimento eterno e absoluto da terna e caritativa Providência.
     Fiz as minhas devoções, como me propusera, no dia do aniversário do meu nascimento. O meu coração transbordava de tal modo de felicidade quando naquele dia voltei da igreja que me sentia invadida por toda a espécie de temores: temor da vida, temor de cada situação, temor de tudo o que podia perturbar essa felicidade. Mas apenas tínhamos descido do droschki para o vestíbulo, ouvi ressoar sobre a ponte o rodar tão conhecido do carrinho de Sérgio Mikailovitch e vi-o. Dirigiu-me as suas felicitações e entrámos junto no salão. Nunca, desde que o conhecia, me tinha encontrado tão tranquila perto dele, nem tão independente como naquela manhã. Sentia que trazia em mim mesma um mundo inteiro completamente novo que ele não compreendia e que lhe era superior. Não experimentava junto de Sérgio a menor agitação. Talvez que ele compreendesse o que se passava em mim, porque me mostrou uma ternura de uma delicadeza particular e como uma deferência religiosa. Tinha-me aproximado do piano, mas Mikailovitch fechou-o e meteu a chave na algibeira, dizendo: 

— Não destrua o estado de espírito em que a vejo; neste momento, em si, executa-se no fundo da sua alma uma música que nenhumas harmonias deste mundo podem igualar!

     Fiquei-lhe reconhecida por este pensamento e, ao mesmo tempo, foi-me um pouco desagradável que ele compreendesse assim e muito facilmente, muito claramente, tudo o que, no domínio da minha alma, devia permanecer secreto para todos.
     Depois do jantar, disse que viera felicitar-me e fazer-me também as suas despedidas, porque no dia seguinte partia para Moscovo. Pronunciando estas palavras fitou Macha e em seguida lançou-me rapidamente um olhar, como se temesse notar alguma comoção na minha fisionomia. Mas não me admirei nem me perturbei, e nem sequer lhe perguntei se a sua ausência seria longa. Sabia que ele sustentaria o que tinha dito, mas que não partiria. Como o adivinhava? É o que não posso agora explicar de modo algum; mas naquele dia memorável parecia-me que eu sabia tudo o que tinha acontecido e tudo o que estaria para suceder. Sentia-me embalada por um desses felizes sonhos em que se tem uma espécie de visão luminosa do futuro com do passado.
     Mikailovitch queria retirar-se logo depois do jantar; mas Macha, saindo da mesa, foi fazer a sua sesta e ele teve de esperar que acordasse a fim de lhe dizer adeus.
     O sol dava em cheio no salão; fomos para o terraço. Apenas nos sentámos, encetei, com uma perfeita tranquilidade, a conversação que ia decidir a sorte no nosso amor. Comecei pois a falar, nem antes nem depois, mas exatamente no instante em que nos achámos em face um do outro, e nada se disse de mais. O tom e o caráter geral da conversa não deixou escapar nada que pudesse impedir o que me tinha proposto dizer. Não posso mesmo compreender de onde me vieram aquela calma, aquela resolução e aquela precisão nas minhas palavras. Dir-se-ia que não era eu quem falava e que um não sei quê independente da minha vontade me fazia falar. Sérgio estava à minha frente e, tendo puxado por uma haste de lilás, arrancou-a com as folhas.
     Quando descerrei os lábios, deixou cair o ramo e cobriu o rosto com as mãos. Esta atitude tanto podia ser a de um homem perfeitamente sossegado como a de um homem entregue a uma grande agitação. 

— Por que motivo nos deixa? — comecei num tom resoluto; e parei, fitando-o.

     Não me respondeu logo. 

— Um negócio! — articulou baixando os olhos.

     Compreendi que lhe era difícil fingir diante de uma pergunta feita por mim tão francamente. 

— Escute — disse eu —, sabe que dia é para mim este em que estamos? A muitos respeitos, é um grande dia. Se o interrogo, não é somente para lhe testemunhar interesse; interrogo-o porque assim me é preciso. Porque nos deixa? 
— É para mim excessivamente difícil dizer-lhe a verdade, dizer-lhe o motivo por que parto. Durante esta semana, muito pensei em si e em mim, e decidi que me era forçoso deixá-la. Compreende... por quê? E se me ama, não me interrogue.

     Enxugou a fronte e, com a mesma mão, tapou os olhos, acrescentando: 

— Isto é doloroso para mim. Mas compreende, Katia...

     O coração começava a bater-me fortemente no peito. 

— Não posso compreender — respondi —, não posso; mas o senhor fale, em nome de Deus, em nome deste dia em que estamos, fale, tudo poderei ouvir sossegadamente.

     Sérgio mudou de atitude, contemplou-me e levantou do chão o ramo de lilás. 

— De resto — replicou depois de um instante de silêncio e com uma voz que em vão queria mostrar firme —, ainda que isto seja absurdo e quase impossível de traduzir por palavras, ainda que isto me custe, tentarei dar-lhe explicação. — E terminando estas palavras, franziu as sobrancelhas, como se sentisse alguma dor física. 
— Escuto-o! — respondi. 
— Imagine que havia um homem, chamemos-lhe A., velho e cansado da vida, e uma senhora B., jovem, feliz e não conhecendo ainda nem o mundo, nem a vida. Em virtude de relações de família, ele amava-a como filha e não suspeitava de que um dia chegaria a amá-la de outro modo.

     Calou-se e eu não o interrompi. 

— Mas — prosseguiu subitamente com uma voz resoluta e sem me olhar — ele esquecera que B. era jovem, que a vida não era para ela ainda senão um brinquedo, que podia acontecer facilmente que ele a amasse e que B. podia divertir-se com isso. Tinha-se enganado e um belo dia descobriu que um outro sentimento, pesado como um remorso, deslizara na sua alma e assustou-se. Receou ver as suas antigas relações de boa amizade assim comprometidas e decidiu afastar-se antes que tivessem tempo de mudar de natureza.

     Dizendo estas palavras, passou de novo a mão pelos olhos, com aparente negligência, e tapou-os. 

— E porque receava ele amar de outro modo? — disse eu bem depressa, contendo a minha comoção e com voz firme. Mas sem dúvida esta pareceu-lhe zombeteira, porque me respondeu no tom de um homem ofendido. 
— Você é nova, eu não o sou. Pode gostar de gracejar; a mim é-me precisa outra coisa. Somente não zombe, porque lhe asseguro que, para mim, não seria bom, e a si doer-lhe-ia a consciência se o fizesse. Aqui tem o que respondeu A. — acrescentou —, mas tudo isso é um absurdo; compreende agora o motivo por que parto; não falemos mais nisso, peço-lhe... 
— Sim, sim, falemos! — disse eu, e as lágrimas faziam-me tremer a voz. — Ele amava-a ou não?

     Sérgio não respondeu. 

— E se não a amava — continuei —, para que brincava com ela como uma criança? 
— Sim, sim, A. tinha sido culpado — respondeu interrompendo-me —; mas tudo isso acabou e ficaram... bons amigos. 
— Mas é horrível! E não existe um outro fim? — perguntei, assustada do que dizia. 
— Sim, há um. — E, destapando o seu rosto perturbado, fitou-me. — Há mesmo dois fins diferentes. Somente, pelo amor de Deus, não me torne a interromper e escute-me tranquilamente. Dizem uns — continuou levantando-se e pairando-lhe nos lábios um doloroso e triste sorriso — dizem, que A. se apaixonou loucamente, que ama B. com um amor insensato e que lhe declarou... Mas esta limitou-se a sorrir. Para ela, isto fora apenas uma brincadeira; para ele, a preocupação de toda a sua vida.

     Estremeci e quis interrompê-lo, dizer-lhe que não devia ter a ousadia de interpretar o meu sentir; mas não me deixou e, colocando a mão sobre a minha: 

— Sossegue — terminou com voz trêmula. — Dizem outros que ela se compadeceu dele, que supôs, a desgraçada que não conhecia o mundo, poder efetivamente amá-lo e que consentiu em o desposar. E ele, como um insensato, acreditou que toda a sua vida começava de novo; ela foi a primeira a notar que se enganavam mutuamente... Não falemos mais neste assunto — concluiu, evidentemente sem forças para continuar.

     E ficou silencioso.
     Dissera: «Não falemos mais nisto» e era bem claro que esperava uma palavra minha com todo o entusiasmo da sua alma. Efetivamente queria falar e não podia; havia alguma coisa que me comprimia o peito. Fitei-o, estava pálido e o lábio inferior tremia-lhe. Causou-me imenso pesar. Fiz novo esforço e de repente, conseguindo quebrar o silêncio que me paralisava, disse com voz pausada, concentrada, que a cada instante receava que se extinguisse: 
— Tem um terceiro fim a história… — calei-me, mas Sérgio permaneceu mudo. — E este terceiro fim é que ele não a amava, que lhe fez mal, muito mal, que julgava ter esse direito, que partiu e, ainda mais, que se mostrou orgulhoso. Não foi da minha parte, mas da sua que houve um gracejo; desde o primeiro dia que o amei. — nesta palavra «amei», a minha voz passou involuntariamente da expressão lenta e concentrada a uma espécie de grito selvagem de que eu mesma me assustei.

     Mikailovitch conservava-se pálido e de pé na minha frente; o lábio tremia-lhe cada vez mais e pelas faces rolaram-lhe duas lágrimas. 

— É cruel! — exclamei a custo, sentindo-me sufocar pela cólera e pelo choro. 
— E por quê? — continuei, levantando-me para me afastar.

     Mas ele correu para mim. Bem depressa a sua cabeça repousava sobre os meus joelhos, os seus lábios beijavam e tornavam a beijar as minhas mãos trémulas, banhando-as de lágrimas. 

— Meu Deus, se eu soubesse! — murmurava Sérgio. — Por quê? Por quê? — repetia eu maquinalmente, e a minha alma estava inundada de uma daquelas felicidades que logo se dissipam para sempre, uma dessas felicidades que nunca mais se repetem.

     Daí a cinco minutos, Sónia corria para junto de Macha e por toda a casa, gritando que Katia ia desposar Sérgio Mikailovitch.

continua na página 40...
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Leia também...
3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Mach / 4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha /         
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

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