Liev Tolstói
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Estávamos na quaresma da Assunção¹ e por conseguinte ninguém em casa ficou surpreendido com o projeto das minhas devoções.
[1] Essa expressão consagrada na Rússia, corresponde ao que se chama nos países católicos "fazer um recolhimento espiritual"
Durante toda esta semana Sérgio não nos veio ver uma única vez e, longe de
estar surpreendida, alarmada, ou zangada, estava contente por ele não ter vindo e
não o esperava senão no dia do meu aniversário.
No decorrer desta mesma semana levantei-me todos os dias cedo, e enquanto
aparelhavam os cavalos, passeando sozinha no jardim, sonhava no passado
meditando no que me era preciso fazer para à noite estar contente com o meu dia
e orgulhosa de não ter cometido faltas.
Quando os cavalos avançavam, subia para o droschki acompanhada por Macha
ou por uma criada e partíamos para a igreja, a três verstas de distância,
aproximadamente. Entrando aí, recordava-me todas as vezes que ali se reza por
todos aqueles «que entram no templo com temor de Deus» e esforçava-me por
me elevar até este conceito, sobretudo no momento em que subia os dois degraus
do adro que as ervas invadiam. Ordinariamente, a esta hora não havia na igreja
mais de uma dúzia de pessoas, camponeses e droroviés, preparando-se para as
suas devoções; apressava-me a corresponder com humildade às suas saudações e
aproximava-me eu mesma, o que considerava como uma façanha, do armário
das velas para receber algumas das mãos do velho soldado que desempenhava as
funções de starost², depois ia colocá-las diante das imagens. Através da porta do
santuário enxergava a toalha do altar que a mamã havia bordado e por cima do
iconóstase dois anjos salpicados de estrelas, que quando era criança, achava
muito grandes, e uma pomba rodeada de uma auréola dourada que, naquela
mesma época, absorvia muitas vezes a minha atenção. Por detrás do coro
entrevia as pias batismais todas lavradas sobre as quais tantas vezes eu segurara
nos filhos dos nossos droroviés e onde eu mesma tinha sido batizada. O velho
sacerdote aparecia, trazendo uma casula feita de pano do caixão de meu pai, e
entoava o ofício com aquela mesma voz que, tanto quanto me lembrava, havia
cantado em nossa casa as rezas da igreja, no batismo de Sónia, nos ofícios
fúnebres de meu pai e nos funerais de minha mãe. Depois ouvia ressoar no coro
aquela outra voz desafinada do chantre, tão familiar para mim; via, como sempre
tinha visto, uma velha curvada que, em todos os ofícios, encostada à parede e
apertando entre as mãos um lenço desbotado, contemplava com os olhos cheios
de lágrimas uma das imagens do coro e murmurava não sei que orações com a
boca desdentada. E não era já a simples curiosidade ou as reminiscências que
aproximavam de mim todos aqueles objetos, aqueles entes; apresentavam-se
todos a meus olhos, grandes e santos, impregnados de um profundo sentido.
[2] Chama-se starost, nas igrejas ortodoxas, aquele que desempenha o cargo de tesoureiro, se encarrega do peditório, etc.
Prestava atenção a cada uma das palavras da oração cuja leitura escutava,
procurava pôr o meu sentimento de acordo com elas e, se não as compreendia,
pedia mentalmente a Deus que me esclarecesse ou então substituía a minha
própria oração por aquela que não havia percebido bem. Quando liam as rezas da
penitência, recordava-me do meu passado, e esse passado da minha inocente
infância parecia-me tão negro, em vista do estado de serenidade em que a minha
alma se encontrava naquele momento, que, atónita, chorava em silêncio; mas ao
mesmo tempo, sentia que tudo me era perdoado e que então, mesmo que tivesse
ainda muitas mais faltas a censurar-me, o arrependimento teria sido tanto mais
suave.
No fim do ofício, na ocasião em que o sacerdote pronunciava as palavras «Que o
Senhor esteja convosco», julgava experimentar instantaneamente e comunicar-se
a todo o meu ser um sentimento de bem-estar físico, como se uma torrente de luz
e de calor me tivesse de repente penetrado até ao coração.
Terminado o ofício, o padre aproximou-se de mim e perguntou-me se não
deveria vir celebrar as vésperas a nossa casa. Agradeci-lhe comovida o que ele
queria fazer por minha intenção e disse-lhe que não era necessário e que eu
mesma me deslocaria à igreja, a pé ou de carruagem.
— De modo que se quer incomodar? — perguntou-me ele.
Não soube o que lhe responder, com medo de pecar por orgulho.
Se não estava com Macha, mandava sempre retirar a carruagem da igreja e
voltava sozinha a pé, saudando profunda e humildemente todos os que
encontrava, procurando as ocasiões para os socorrer, para lhes dar conselhos,
para me sacrificar por eles de alguma maneira, ajudando a erguer um carro,
embalando uma criança, pisando a lama para dar aos outros o melhor caminho.
Uma tarde ouvi o intendente contar a Macha que um camponês, Simão, viera
pedir madeira para o caixão da filha e um rublo para o ofício mortuário, e que
ele tudo lhe tinha dado.
— Então eles são assim tão pobres? — perguntei.
— Muito pobres, menina, vivem sem sal³ — respondeu o intendente.
[3] Locução russa enérgica para exprimir uma grande miséria.
Apertou-me o coração e, ao mesmo tempo rejubilei, de certo modo, por o ter
sabido. Fazendo acreditar a Macha que ia passear, corri pelas escadas acima e
peguei em todo o dinheiro que possuía (embora fosse muito pouco); depois,
tendo feito o sinal da cruz, parti sozinha, através do terraço e do jardim, para a
aldeia até à choupana de Simão. Era mesmo na extremidade e, não tendo sido
vista por pessoa alguma, aproximei-me da janela, onde depus o dinheiro e fugi.
Então a porta gemeu, alguém saiu da cabana e me chamou; mas eu, toda gelada e
trêmula de susto como uma criminosa, corri para casa. Macha perguntou-me de
onde vinha e o que tinha. Mas não compreendi sequer o que ela dizia e não lhe
respondi. Tudo, naquele momento, me parecia tão insignificante e de tão poucas
consequências! Encerrei-me no meu quarto e ali andei por muito tempo, só, de
um lado para outro, não me sentindo com disposição de fazer coisa alguma, de
pensar, e incapaz de ajuizar os meus próprios sentimentos. Imaginava a alegria
de toda uma família, as palavras escapadas de seus lábios para com aquela que
havia colocado o dinheiro na janela, e sentia agora pena por eu mesma não ter
dado. Perguntava a mim mesmo o que teria dito Sérgio Mikailovitch se soubesse
daquele fato e congratulava-me de que ele nunca o conhecesse. E sentia uma tal
alegria, estava tão compenetrada da imperfeição de todos e de mim própria,
considerava-me e aos outros com tanta doçura que a ideia da morte oferecia-se
me como uma visão de felicidade. Sorria, rezava, chorava e naquele instante
amei de repente todos os seres que estão no mundo, e amei-me também com um
estranho ardor. Procurando nos ofícios, li muitas passagens do Evangelho e tudo
o que lia deste livro cada vez se me tornava mais inteligível; mais tocante e mais
simples me parecia a história daquela vida divina, mais terríveis e impenetráveis
aquelas sublimidades de sentimentos e de pensamentos que descobria no decurso
da leitura. Mas também, como tudo me pareceu claro e fácil quando, deixando o
livro, encarei de novo a vida em que jazia e meditei nela. Pareceu-me impossível
não viver bem e muito simples amar todo o mundo e ser amada por todos.
Entretanto, toda a gente era boa e terna para comigo, mesmo Sónia, cujas lições
eu prosseguia, e que se tinha tornado completamente outra, esforçando-se por
compreender tudo, por me satisfazer e não me causar desgosto algum. O que
procurava ser para os outros, eram estes para mim.
Passando em seguida aos meus inimigos, dos quais devia obter o perdão antes do
grande dia, lembrei-me unicamente de uma rapariga da vizinhança de quem, um
ano antes, havia zombado diante de visitas e que tinha deixado de nos procurar.
Escrevi-lhe uma carta onde reconhecia a minha falta e em que lhe pedia o seu
perdão. Respondeu-me solicitando o meu e perdoando-me também. Derramei
lágrimas de prazer lendo aquelas simples linhas, que então me pareceram cheias
de um sentimento tão profundo e tocante. A minha ama chorou quando
igualmente lhe pedi perdão. Porque eram todos tão bons para mim? Como havia
merecido tanta afeição?, perguntava a mim mesmo.
Recordei-me então involuntariamente de Sérgio Mikailovitch e pensei nele. Não
podia proceder de outro modo e não considerei absolutamente esta distração
como uma leviandade. É verdade que não pensei de modo algum nele como o
havia feito naquela noite em que, pela primeira vez, descobri que o amava;
pensava nele como em mim mesmo, associando-o, contra a minha vontade, a
cada uma das preocupações do meu futuro. A influência dominante que a sua
presença tinha exercido sobre mim, extinguia-se completamente na minha
imaginação. Sentia-me hoje sua igual e, do cume do edifício ideal em que
pairava, tinha dele uma plena compreensão. Tudo o que nele me tinha outrora
parecido estranho, tornava-me inteligível. Somente hoje sabia apreciar aquele
pensamento que Sérgio me havia expresso, que a felicidade só consiste em viver
para os outros, e agora estava perfeitamente de acordo com ele. Parecia-me que
ambos gozaríamos de uma tranquila e ilimitada felicidade. E não se me figurava
nem a partida para o estrangeiro, nem o mundo, nem o esplendor, mas uma
existência toda pacífica, vida de família no campo, abnegação perpétua da
vontade própria, amor constante um ao outro, reconhecimento eterno e absoluto
da terna e caritativa Providência.
Fiz as minhas devoções, como me propusera, no dia do aniversário do meu
nascimento. O meu coração transbordava de tal modo de felicidade quando
naquele dia voltei da igreja que me sentia invadida por toda a espécie de
temores: temor da vida, temor de cada situação, temor de tudo o que podia
perturbar essa felicidade. Mas apenas tínhamos descido do droschki para o
vestíbulo, ouvi ressoar sobre a ponte o rodar tão conhecido do carrinho de Sérgio
Mikailovitch e vi-o. Dirigiu-me as suas felicitações e entrámos junto no salão.
Nunca, desde que o conhecia, me tinha encontrado tão tranquila perto dele, nem
tão independente como naquela manhã. Sentia que trazia em mim mesma um
mundo inteiro completamente novo que ele não compreendia e que lhe era
superior. Não experimentava junto de Sérgio a menor agitação. Talvez que ele
compreendesse o que se passava em mim, porque me mostrou uma ternura de
uma delicadeza particular e como uma deferência religiosa. Tinha-me
aproximado do piano, mas Mikailovitch fechou-o e meteu a chave na algibeira,
dizendo:
— Não destrua o estado de espírito em que a vejo; neste momento, em si,
executa-se no fundo da sua alma uma música que nenhumas harmonias deste
mundo podem igualar!
Fiquei-lhe reconhecida por este pensamento e, ao mesmo tempo, foi-me um
pouco desagradável que ele compreendesse assim e muito facilmente, muito
claramente, tudo o que, no domínio da minha alma, devia permanecer secreto
para todos.
Depois do jantar, disse que viera felicitar-me e fazer-me também as suas
despedidas, porque no dia seguinte partia para Moscovo. Pronunciando estas
palavras fitou Macha e em seguida lançou-me rapidamente um olhar, como se
temesse notar alguma comoção na minha fisionomia. Mas não me admirei nem
me perturbei, e nem sequer lhe perguntei se a sua ausência seria longa. Sabia que
ele sustentaria o que tinha dito, mas que não partiria. Como o adivinhava? É o
que não posso agora explicar de modo algum; mas naquele dia memorável
parecia-me que eu sabia tudo o que tinha acontecido e tudo o que estaria para
suceder. Sentia-me embalada por um desses felizes sonhos em que se tem uma
espécie de visão luminosa do futuro com do passado.
Mikailovitch queria retirar-se logo depois do jantar; mas Macha, saindo da mesa,
foi fazer a sua sesta e ele teve de esperar que acordasse a fim de lhe dizer adeus.
O sol dava em cheio no salão; fomos para o terraço. Apenas nos sentámos,
encetei, com uma perfeita tranquilidade, a conversação que ia decidir a sorte no
nosso amor. Comecei pois a falar, nem antes nem depois, mas exatamente no
instante em que nos achámos em face um do outro, e nada se disse de mais. O
tom e o caráter geral da conversa não deixou escapar nada que pudesse impedir o
que me tinha proposto dizer. Não posso mesmo compreender de onde me vieram
aquela calma, aquela resolução e aquela precisão nas minhas palavras. Dir-se-ia
que não era eu quem falava e que um não sei quê independente da minha
vontade me fazia falar. Sérgio estava à minha frente e, tendo puxado por uma
haste de lilás, arrancou-a com as folhas. Quando descerrei os lábios, deixou cair o ramo e cobriu o rosto com as mãos.
Esta atitude tanto podia ser a de um homem perfeitamente sossegado como a de
um homem entregue a uma grande agitação.
— Por que motivo nos deixa? — comecei num tom resoluto; e parei, fitando-o.
Não me respondeu logo.
— Um negócio! — articulou baixando os olhos.
Compreendi que lhe era difícil fingir diante de uma pergunta feita por mim tão
francamente.
— Escute — disse eu —, sabe que dia é para mim este em que estamos? A
muitos respeitos, é um grande dia. Se o interrogo, não é somente para lhe
testemunhar interesse; interrogo-o porque assim me é preciso. Porque nos deixa?
— É para mim excessivamente difícil dizer-lhe a verdade, dizer-lhe o motivo por
que parto. Durante esta semana, muito pensei em si e em mim, e decidi que me
era forçoso deixá-la. Compreende... por quê? E se me ama, não me interrogue.
Enxugou a fronte e, com a mesma mão, tapou os olhos, acrescentando:
— Isto é doloroso para mim. Mas compreende, Katia...
O coração começava a bater-me fortemente no peito.
— Não posso compreender — respondi —, não posso; mas o senhor fale, em
nome de Deus, em nome deste dia em que estamos, fale, tudo poderei ouvir
sossegadamente.
Sérgio mudou de atitude, contemplou-me e levantou do chão o ramo de lilás.
— De resto — replicou depois de um instante de silêncio e com uma voz que em
vão queria mostrar firme —, ainda que isto seja absurdo e quase impossível de
traduzir por palavras, ainda que isto me custe, tentarei dar-lhe explicação. — E
terminando estas palavras, franziu as sobrancelhas, como se sentisse alguma dor
física.
— Escuto-o! — respondi.
— Imagine que havia um homem, chamemos-lhe A., velho e cansado da vida, e
uma senhora B., jovem, feliz e não conhecendo ainda nem o mundo, nem a vida.
Em virtude de relações de família, ele amava-a como filha e não suspeitava de
que um dia chegaria a amá-la de outro modo.
Calou-se e eu não o interrompi.
— Mas — prosseguiu subitamente com uma voz resoluta e sem me olhar — ele
esquecera que B. era jovem, que a vida não era para ela ainda senão um
brinquedo, que podia acontecer facilmente que ele a amasse e que B. podia
divertir-se com isso. Tinha-se enganado e um belo dia descobriu que um outro
sentimento, pesado como um remorso, deslizara na sua alma e assustou-se.
Receou ver as suas antigas relações de boa amizade assim comprometidas e
decidiu afastar-se antes que tivessem tempo de mudar de natureza.
Dizendo estas palavras, passou de novo a mão pelos olhos, com aparente
negligência, e tapou-os.
— E porque receava ele amar de outro modo? — disse eu bem depressa,
contendo a minha comoção e com voz firme. Mas sem dúvida esta pareceu-lhe
zombeteira, porque me respondeu no tom de um homem ofendido.
— Você é nova, eu não o sou. Pode gostar de gracejar; a mim é-me precisa outra
coisa. Somente não zombe, porque lhe asseguro que, para mim, não seria bom, e
a si doer-lhe-ia a consciência se o fizesse. Aqui tem o que respondeu A. —
acrescentou —, mas tudo isso é um absurdo; compreende agora o motivo por
que parto; não falemos mais nisso, peço-lhe...
— Sim, sim, falemos! — disse eu, e as lágrimas faziam-me tremer a voz. — Ele
amava-a ou não?
Sérgio não respondeu.
— E se não a amava — continuei —, para que brincava com ela como uma
criança?
— Sim, sim, A. tinha sido culpado — respondeu interrompendo-me —; mas
tudo isso acabou e ficaram... bons amigos.
— Mas é horrível! E não existe um outro fim? — perguntei, assustada do que
dizia.
— Sim, há um. — E, destapando o seu rosto perturbado, fitou-me. — Há mesmo
dois fins diferentes. Somente, pelo amor de Deus, não me torne a interromper e
escute-me tranquilamente. Dizem uns — continuou levantando-se e pairando-lhe
nos lábios um doloroso e triste sorriso — dizem, que A. se apaixonou
loucamente, que ama B. com um amor insensato e que lhe declarou... Mas esta
limitou-se a sorrir. Para ela, isto fora apenas uma brincadeira; para ele, a
preocupação de toda a sua vida.
Estremeci e quis interrompê-lo, dizer-lhe que não devia ter a ousadia de
interpretar o meu sentir; mas não me deixou e, colocando a mão sobre a minha:
— Sossegue — terminou com voz trêmula. — Dizem outros que ela se
compadeceu dele, que supôs, a desgraçada que não conhecia o mundo, poder
efetivamente amá-lo e que consentiu em o desposar. E ele, como um insensato,
acreditou que toda a sua vida começava de novo; ela foi a primeira a notar que se
enganavam mutuamente... Não falemos mais neste assunto — concluiu,
evidentemente sem forças para continuar.
E ficou silencioso.
Dissera: «Não falemos mais nisto» e era bem claro que esperava uma palavra
minha com todo o entusiasmo da sua alma. Efetivamente queria falar e não
podia; havia alguma coisa que me comprimia o peito. Fitei-o, estava pálido e o
lábio inferior tremia-lhe. Causou-me imenso pesar. Fiz novo esforço e de
repente, conseguindo quebrar o silêncio que me paralisava, disse com voz
pausada, concentrada, que a cada instante receava que se extinguisse:
— Tem um terceiro fim a história… — calei-me, mas Sérgio permaneceu mudo.
— E este terceiro fim é que ele não a amava, que lhe fez mal, muito mal, que
julgava ter esse direito, que partiu e, ainda mais, que se mostrou orgulhoso. Não
foi da minha parte, mas da sua que houve um gracejo; desde o primeiro dia que o
amei. — nesta palavra «amei», a minha voz passou involuntariamente da
expressão lenta e concentrada a uma espécie de grito selvagem de que eu mesma
me assustei.
Mikailovitch conservava-se pálido e de pé na minha frente; o lábio tremia-lhe
cada vez mais e pelas faces rolaram-lhe duas lágrimas.
— É cruel! — exclamei a custo, sentindo-me sufocar pela cólera e pelo choro.
— E por quê? — continuei, levantando-me para me afastar.
Mas ele correu para mim. Bem depressa a sua cabeça repousava sobre os meus
joelhos, os seus lábios beijavam e tornavam a beijar as minhas mãos trémulas,
banhando-as de lágrimas.
— Meu Deus, se eu soubesse! — murmurava Sérgio.
— Por quê? Por quê? — repetia eu maquinalmente, e a minha alma estava
inundada de uma daquelas felicidades que logo se dissipam para sempre, uma
dessas felicidades que nunca mais se repetem.
Daí a cinco minutos, Sónia corria para junto de Macha e por toda a casa,
gritando que Katia ia desposar Sérgio Mikailovitch.
continua na página 40...
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Leia também...
1. Estávamos de luto por nossa mãe / 2. Chegara a primavera / 3a. Um dia, no tempo da entrada dos trigos /
3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Mach / 4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha /
___________________
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com
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