quinta-feira, 2 de julho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.7b (Tudo se esmaecia na névoa)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

7.
continuando...

     Tudo se esmaecia na névoa. O passado fora anulado, o ato da anulação fora esquecido, a mentira se tornara verdade. Somente uma vez na vida ele possuíra — depois do acontecimento: era isso o que contava — um indício concreto, inquestionável, de um ato de falsificação. Esse indício estivera entre seus dedos por trinta segundos. Em 1973, talvez tivesse sido em 1973 — de qualquer modo foi mais ou menos na época em que ele e Katharine se separaram. Mas o dado realmente relevante ocorrera sete ou oito anos antes.
     Na verdade a história tivera início em meados dos anos 1960, época dos grandes expurgos, quando os líderes revolucionários originais haviam sido eliminados de uma vez por todas. Em 1970 já não restava um só deles, com exceção do próprio Grande Irmão. Os demais, àquela altura, haviam sido denunciados como traidores e contrarrevolucionários. Goldstein fugira e ninguém sabia onde ele se escondia; quanto aos outros, alguns tinham simplesmente desaparecido, enquanto a maioria fora executada depois de julgamentos públicos espetaculares, no decorrer dos quais confessavam seus crimes. Entre os últimos sobreviventes estavam três homens chamados Jones, Aaronson e Rutherford. Provavelmente esses três homens haviam sido presos em 1965. Como acontecia tantas vezes, levaram um sumiço de um ano mais ou menos, de modo que ninguém sabia se estavam vivos ou mortos; reapareceram de repente, para reconhecer a própria culpa da maneira usual. Confessaram colaboração com o inimigo (na época o inimigo também era a Eurásia), apropriação indébita de verbas públicas, assassinato de vários membros leais ao Partido, intrigas visando prejudicar a liderança do Grande Irmão — intrigas essas iniciadas bem antes da Revolução — e atos de sabotagem responsáveis pela morte de centenas de milhares de pessoas. Depois de confessar essas coisas, os três haviam sido perdoados, reconduzidos às fileiras do Partido e agraciados com postos que na verdade eram sinecuras, mas que transmitiam a sensação de ser importantes. Os três haviam publicado artigos longos e abjetos no Times, analisando as razões de sua deserção e jurando corrigir-se.
     Algum tempo depois da libertação, Winston por acaso avistou o trio no Café da Castanheira. Lembrou-se da espécie de fascínio aterrorizado com que os observara com o rabo do olho durante algum tempo. Eram homens bem mais velhos que ele, relíquias do mundo de antes, praticamente as últimas grandes figuras remanescentes dos primeiros e heroicos tempos do Partido. O glamour da luta clandestina e da guerra civil ainda envolvia suavemente suas figuras. Tinha a sensação — embora àquela altura fatos e datas já tivessem começado a perder a nitidez em sua mente — de que soubera seus nomes muitos anos antes de ter tomado conhecimento da existência do Grande Irmão. Ao mesmo tempo, sabia que eram foras-da-lei, inimigos, intocáveis, condenados, com absoluta certeza, à extinção em um ano ou dois. Ninguém que algum dia tivesse caído nas mãos da Polícia das Ideias se dava bem no final. Eles eram cadáveres à espera de ser mandados de volta para o túmulo.
     Não havia ninguém nas mesas próximas à deles. Não era prudente ser visto na vizinhança de gente daquela espécie. Estavam sentados em silêncio diante de copos de gim perfumado com cravo, especialidade do café. Dos três, o que mais impressionou Winston devido a sua aparência foi Rutherford. Outrora caricaturista famoso, Rutherford desenhava cenas brutais, que haviam contribuído para inflamar a opinião pública antes e durante a Revolução. Mesmo agora, a longos intervalos, seus cartuns saíam no Times, só que já não passavam de uma imitação banal de seu estilo anterior, eram pouco convincentes, desprovidos de vigor. Continuavam abordando os mesmos temas, só que requentados: favelas, crianças famintas, arruaças, capitalistas de cartola — mesmo no interior das barricadas, os capitalistas, aparentemente, não abriam mão de suas cartolas —, um esforço infinito, desesperado, no sentido de reinstalar-se no passado. Era um homem monstruoso, com uma juba de cabelo ensebado e grisalho, rosto balofo, marcado, grossos lábios negroides. Um dia devia ter sido imensamente forte; agora seu grande corpo estava adernado, vergado, arqueado, despencando em todas as direções. Rutherford parecia estar ruindo à vista de todos, como uma montanha desmoronando.
     Eram três da tarde, hora solitária. Winston já não se lembrava de como era possível que estivesse no café a uma hora daquelas. O lugar estava quase deserto. Uma música metálica escorria das teletelas. Os três homens estavam sentados quase imóveis no canto deles, sem abrir a boca. Sem que ninguém pedisse, o garçom serviu uma nova rodada de gim. Havia um tabuleiro de xadrez na mesa ao lado da deles, com as peças posicionadas, mas sem nenhuma partida iniciada. Nesse momento, durante cerca de meio minuto ao todo, aconteceu uma coisa estranha com as teletelas. A melodia que estava sendo tocada mudou, e a tonalidade da música também mudou. Como se a música tivesse sido invadida... Algo difícil, porém, de descrever. Era uma nota estranha, fragmentada, um clangor: Winston inventou um nome para aquele som: nota amarela. Depois uma voz começou a cantarolar na teletela:

Sob a ramada da castanheira 
Vendi você, você a mim, após: 
Ali estão eles, cá estamos nós 
Sob a ramada da castanheira.

     Os três homens não se moveram, mas quando Winston voltou a fitar o rosto arrasado de Rutherford, viu que os olhos dele estavam rasos de lágrimas. E pela primeira vez observou, com uma espécie de arrepio interno, e ao mesmo tempo sem saber o porquê daquele arrepio, que tanto Aaronson como Rutherford tinham o nariz quebrado.
     Dias depois, os três voltaram a ser presos. Ao que parece, haviam tornado a envolver-se em novas conspirações desde o instante em que foram postos em liberdade. No segundo julgamento, voltaram a confessar todos os antigos crimes, mais uma sucessão de novos. Foram executados, e o destino deles ficou registrado nos anais do Partido como advertência para a posteridade. Cerca de cinco anos depois que esses fatos se passaram, em 1973, Winston estava desenrolando uma pilha de documentos que acabavam de ser ejetados do tubo pneumático sobre o tampo de sua mesa, quando encontrou um fragmento de papel que evidentemente fora enfiado entre os outros e depois esquecido. No instante em que desamassou o papelzinho, entendeu sua importância. Era a metade de uma página arrancada de um número do Times de cerca de dez anos antes — a metade superior da página, de modo que a data aparecia ali — e continha uma fotografia dos delegados presentes a determinada efeméride do Partido realizada em Nova York. Destacavam-se, no centro do grupo, Jones, Aaronson e Rutherford. Não havia confusão possível; de todo modo o nome de cada um constava na legenda, embaixo.
     A questão era que nos dois julgamentos eles haviam confessado que naquela data se encontravam em solo eurasiano. Teriam partido de um campo de pouso secreto em território canadense e voado até algum ponto da Sibéria, onde haviam se reunido com membros do Estado-Maior Eurasiano, a quem haviam revelado importantes segredos militares. A data se fixara na memória de Winston porque casualmente coincidia com o solstício de verão; mas a história toda também devia estar registrada em outros incontáveis lugares. Só havia uma conclusão possível: as confissões eram mentirosas.
     Claro, isso em si não era nenhuma grande revelação. Mesmo naquela época, Winston não imaginava que as pessoas varridas da face da Terra nos expurgos haviam efetivamente cometido os crimes de que eram acusadas. Mas era uma prova concreta; um fragmento do passado abolido, como um osso fóssil que aparece no estrato errado e destrói uma teoria geológica. Bastava para pulverizar o Partido inteiro, se de uma ou outra maneira pudesse ter sido publicado para que o mundo visse e tomasse conhecimento de seu significado.
     Winston não interrompera seu trabalho. Assim que percebeu que fotografia era aquela e o que ela revelava, cobriu-a com outra folha de papel. Por sorte, no momento em que a desenrolara ela estava de cabeça para baixo do ponto de vista da teletela.
     Pôs a prancheta sobre o joelho e empurrou a cadeira para trás, de modo a ficar tão longe quanto possível da teletela. Não era difícil manter um rosto inexpressivo; até mesmo a respiração podia ser controlada, com algum esforço. Uma coisa, porém, você não conseguia controlar: o batimento do coração, e a teletela era suficientemente sensível para captá-lo. Deixou passar o que imaginou fossem dez minutos, atormentado o tempo todo pelo temor de que algum acidente — uma súbita corrente de ar que soprasse por cima da escrivaninha, por exemplo — o traísse. Depois, sem tornar a expô-la, introduziu a fotografia no buraco da memória, junto com outros papéis inúteis. Mais um minuto, provavelmente, e a foto teria virado cinzas.
     Essa cena se passara dez, onze anos antes. Hoje, provavelmente, ele teria guardado a fotografia. Era curioso que tê-la segurado entre os dedos lhe parecesse fazer diferença mesmo hoje, quando a foto propriamente dita, bem como o acontecimento que ela registrava, não passavam de uma lembrança. Será que o controle do Partido sobre o passado teria ficado menos poderoso, pensou, pelo fato de que uma prova material que já não existia havia um dia existido? 
     Mas hoje, supondo que de algum modo fosse possível ressuscitá-la das cinzas, a fotografia talvez nem chegasse a constituir uma prova. Na época em que ele fizera sua descoberta, a Oceania já não estava em guerra com a Eurásia, portanto devia ter sido para agentes provenientes da Lestásia que os três homens mortos haviam traído seu país. Desde então haviam surgido novas acusações — duas, três, ele já não se recordava quantas. Muito provavelmente as confissões haviam sido reescritas e reescritas tantas vezes que os fatos e as datas originais haviam perdido toda a importância. O passado não apenas mudava como mudava sem cessar. O que mais o afligia, o que lhe dava uma sensação de pesadelo, era nunca ter chegado a entender direito por que a grande impostura fora empreendida. As vantagens imediatas de falsificar o passado eram óbvias, mas a razão profunda era misteriosa. Voltou a erguer a caneta e escreveu:

          Entendo COMO, mas não entendo POR QUÊ.

     Considerou a hipótese, como tantas vezes antes, de ele próprio ser um doente mental. Talvez um doente mental fosse simplesmente uma minoria de um. Houvera um tempo em que se considerava sinal de loucura acreditar que a Terra girava em torno do Sol. Hoje, o sinal de loucura era acreditar que o passado era inalterável. Ele podia ser o único a acreditar naquilo e, se fosse o único, seria um doente mental. Mas a ideia de que talvez fosse um doente mental não chegava a perturbá-lo muito: o horror estava em também existir a possibilidade de que estivesse errado.
     Apanhou o livro de história para crianças e contemplou o retrato do Grande Irmão estampado no frontispício. Os olhos hipnóticos fitavam os dele. Era como se alguma força monumental exercesse pressão sobre Winston — uma coisa que invadia seu crânio, golpeava seu cérebro, aterrorizava-o a ponto de fazê-lo abandonar suas crenças, quase convencendo-o a rechaçar as provas que seus sentidos lhe forneciam. No fim o Partido haveria de anunciar que dois mais dois são cinco, e você seria obrigado a acreditar. Era inevitável que mais cedo ou mais tarde o Partido fizesse tal afirmação: a lógica de sua posição o exigia. Além da validade da experiência, a própria existência da realidade externa era tacitamente negada por sua filosofia. A heresia das heresias era o bom senso. E o aterrorizante não era o fato de poderem matá-lo por pensar de outra maneira, mas o fato de poderem ter razão. Porque, afinal de contas, como fazer para saber que dois e dois são quatro? Ou que a força da gravidade funciona? Ou que o passado é imutável? Se tanto o passado como o mundo externo existem apenas na mente, e se a própria mente é controlável — como fazer então?
     Mas não! De repente sua coragem pareceu cristalizar-se por decisão própria. O rosto de O’Brien, que nenhuma associação de ideias parecia convocar, entrara flutuando em sua mente. Ele concluiu, com mais certeza de que antes, que O’Brien estava do seu lado. Escrevia aquele diário para O’Brien — na intenção de O’Brien. Era como uma carta interminável que ninguém jamais leria, mas que era dirigida a uma pessoa específica e se nutria desse fato.
     O Partido lhe dizia para rejeitar as provas materiais que seus olhos e ouvidos lhe oferecessem. Essa era sua instrução final, a mais essencial de todas. O coração de Winston ficou pesado quando lhe veio ao espírito o imenso poderio reunido contra ele, a facilidade com que qualquer intelectual do Partido o derrotaria num debate, os argumentos sutis que não teria capacidade de entender, quanto mais de contestar. E, ainda assim, a razão estava com ele. Os outros estavam errados e ele certo. O óbvio, o tolo e o verdadeiro tinham de ser defendidos. Os truísmos são verdadeiros, não se esqueça disso. O mundo sólido existe, suas leis não mudam. As pedras são duras, a água é úmida e os objetos, sem base de apoio, caem na direção do centro da Terra. Com a sensação de estar falando com O’Brien e também de expor um axioma importante, escreveu:

          Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for admitido, tudo o mais é decorrência.

continua na página 86...
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Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) / Parte 1.7a (Se é que havia esperança:) / Parte 1.7b (Tudo se esmaecia na névoa) /                   
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

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