O Sol é para todos
Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto
Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB
SEGUNDA PARTE
31
Eu estava tão acostumada com a ausência dele que achei incrível que estivesse sentado ao meu lado o tempo todo,
presente. Em absoluto silêncio.
Ele se levantou de novo. Virou-se para mim e fez sinal com a cabeça indicando a porta.
— Quer se despedir de Jem, não é, sr. Arthur? Venha.
Fui andando com ele pelo corredor. Tia Alexandra estava sentada ao lado da cama de Jem.
— Entre, Arthur — ela convidou. — Jem ainda está dormindo. O dr. Reynolds deu um sedativo forte para ele. Jean Louise,
seu pai está na sala?
— Acho que sim, senhora.
— Vou falar com ele um instante. O dr. Reynolds deixou algumas… — a voz dela desapareceu na distância.
Boo tinha se esgueirado para um canto do quarto e estava com o queixo levantado, olhando Jem de longe. Peguei a mão
dele, que era muito quente, apesar de tão branca. Puxei-a de leve e ele deixou que o levasse até a cama de Jem.
O dr. Reynolds tinha feito uma espécie de armação no braço de Jem para que ficasse isolado, acho. Boo se debruçou sobre
a armação e olhou; em seu rosto havia uma curiosidade tímida, como se ele nunca tivesse visto um menino. Abriu de leve a
boca e olhou Jem dos pés à cabeça. Levantou a mão, mas deixou-a cair ao lado do corpo.
— Pode fazer carinho nele, sr. Arthur, ele está dormindo. Se estivesse acordado, ele não deixaria… Vá em frente —
expliquei.
A mão de Boo pairou sobre a cabeça de Jem.
— Vá em frente, ele está dormindo.
Eu estava começando a entender a linguagem corporal dele. Ele apertou a minha mão, o que significava que queria ir
embora.
Levei-o até a varanda da frente, onde seus passos inseguros pararam. Continuava segurando a minha mão e parecia que não
ia soltar.
— Pode me levar em casa?
Ele praticamente sussurrou, com a voz de uma criança com medo do escuro.
Pisei no primeiro degrau da escada e parei. Eu podia conduzi-lo pela nossa casa, mas não podia conduzi-lo até a casa
dele.
— Sr. Arthur, dobre o braço assim. Isso, muito bem.
Enfiei minha mão na dobra do braço dele.
Ele teve de curvar-se um pouco para me dar o braço, mas se a srta. Stephanie Crawford estivesse olhando da janela dela,
veria Arthur Radley me acompanhando pela calçada, como qualquer cavalheiro faria.
Chegamos ao poste da esquina e pensei em quantas vezes Dill tinha ficado ali agarrado naquele mastro gordo, olhando,
esperando, imaginando. E quantas vezes Jem e eu tínhamos feito aquele caminho, mas era a segunda vez na vida que eu entrava
no portão dos Radley. Boo e eu subimos a escada da varanda. Ele segurou na maçaneta. Soltou minha mão delicadamente,
abriu a porta, entrou e fechou a porta. Nunca mais o vi.
As pessoas levam flores quando alguém morre e comida quando alguém adoece, e pequenos presentes em outras ocasiões.
Boo era nosso vizinho. Ele nos deu dois bonecos esculpidos em sabão, um relógio quebrado com a corrente, duas moedas da
sorte e nossas vidas. Mas os vizinhos retribuem. Nós nunca colocamos de volta na árvore o que tínhamos tirado de lá: não
demos nada para ele em troca, e isso me entristecia.
Virei-me para fazer o caminho de volta. Os postes piscavam na rua até a cidade. Eu nunca tinha visto o nosso bairro por
aquele ângulo. Ali estavam a casa da srta. Maudie, a da srta. Stephanie... a nossa casa. Vi o balanço da varanda, a casa da srta.
Rachel depois da nossa, perfeitamente visível. Dava para ver até a casa da sra. Dubose.
Olhei para trás. À esquerda da porta marrom havia uma janela comprida, com venezianas. Fui até lá, fiquei na frente dela e
me virei. De dia, pensei, dava para ver a esquina do correio.
De dia… na minha cabeça, a noite desapareceu. Era dia e o bairro estava movimentado. A srta. Stephanie atravessava a
rua para contar as últimas novidades para a srta. Rachel. A srta. Maudie estava debruçada sobre suas azáleas. Era verão e
duas crianças iam pela calçada ao encontro de um homem. O homem acenou e as crianças correram até ele.
Ainda era verão e as crianças se aproximaram. Um menino veio pela calçada equilibrando uma vara de pescar no ombro.
Um homem ficou olhando, com as mãos na cintura. Verão, e os filhos dele brincavam no jardim com um amigo, encenando uma
estranha peça que tinham inventado.
Era outono e os filhos brigavam na calçada na frente da casa da sra. Dubose. O menino ajudou a irmã a se levantar e foram
para casa. Outono, e os filhos iam e voltavam pela esquina, no rosto as derrotas e as vitórias do dia. Pararam num carvalho,
encantados, confusos, apreensivos.
Inverno, e os filhos dele tremiam de frio no portão da frente, as silhuetas recortadas contra uma casa consumida pelas
chamas. Inverno e um homem veio andando pela rua, tirou os óculos e atirou num cachorro.
Verão, e ele viu os filhos ficarem de coração partido. Outono de novo, e as crianças de Boo precisavam dele.
Atticus tinha razão. Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica
lá um tempo. Ficar parada na varanda dos Radley foi o suficiente.
A luz dos postes estava difusa sob a chuva fina que caía. Enquanto ia para casa, me senti muito velha, então olhei para a
ponta do meu nariz e vi gotas minúsculas, mas fiquei tonta e parei com aquilo. Enquanto ia para casa, pensei em todas as
coisas que tinha para contar a Jem no dia seguinte. Ele ia ficar com tanta raiva de ter perdido tudo que ia passar dias sem falar
comigo. Enquanto ia para casa, pensei que Jem e eu íamos crescer mas não tínhamos mais muita coisa para aprender, a não
ser, talvez, álgebra.
Subi a escada correndo e entrei em casa. Tia Alexandra tinha ido dormir e o quarto de Atticus estava escuro. Fui ver se
Jem tinha acordado. Atticus estava lá, sentado na cama de Jem. Estava lendo um livro.
— Jem ainda não acordou?
— Está dormindo tranquilo. Só vai acordar de manhã.
— Ah. Você vai ficar aí com ele?
— Só por uma hora, mais ou menos. Vá dormir, Scout. O dia foi longo.
— Acho que vou ficar um pouco com você.
— Como quiser — disse Atticus. Devia ser mais de meia-noite, e fiquei surpresa por ele ter concordado. Mas ele era mais
esperto que eu: mal me sentei e comecei a ficar com sono.
— O que você está lendo? — perguntei.
Atticus me mostrou a capa do livro.
— Um livro de Jem. Chama-se O fantasma cinzento.
De repente, despertei.
— Por que escolheu esse?
— Querida, não sei. Só peguei. É um dos poucos livros que ainda não li — ele disse, direto.
— Por favor, leia alto, Atticus. Esse livro dá muito medo.
— Não, você já levou muito susto. O livro é bem…
— Atticus, eu não tive medo.
Ele franziu o cenho e eu protestei:
— Só tive medo quando comecei a contar tudo para o sr. Tate. Jem não teve medo. Perguntei e ele respondeu que não
estava com medo. Além do mais, só nos livros é que as coisas são assustadoras de verdade.
Atticus abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou de novo. Desmarcou a página que estava segurando com o dedo e
voltou para a primeira página. Encostei a cabeça no joelho dele.
— Hum, vejamos: O fantasma cinzento, de Seckatary Hawkins, Capítulo Um…
Fiz um esforço para ficar acordada, mas a chuva estava tão fina, o quarto tão acolhedor, a voz dele tão agradável e o
joelho tão confortável que adormeci.
Segundos depois, ou pelo menos foi o que me pareceu, o sapato dele tocou de leve nas minhas costelas. Ele me levantou e
me levou para o meu quarto.
— Ouvi tudo o que você leu… não estava dormindo… é a história de um navio, Fred Três Dedos e o menino Stoner… —
eu disse.
Ele desabotoou o meu macacão, me encostou nele e tirou-o. Me segurou com uma das mãos e pegou o meu pijama com a
outra.
— E todos pensavam que era o menino Stoner que fazia bagunça no clube deles e jogava tinta por toda parte e…
Ele me levou até a cama e me fez sentar. Levantou minhas pernas e me colocou embaixo das cobertas.
— Eles o perseguiram, mas nunca conseguiam pegá-lo porque não sabiam como ele era e depois, Atticus, quando
finalmente o encontraram viram que ele não tinha feito nada daquilo… Atticus, ele era muito bom…
As mãos dele estavam embaixo do meu queixo, puxando as cobertas e ajeitando-as em volta de mim.
— A maioria das pessoas é, Scout, quando enfim as conhecemos.
Ele apagou a luz e foi para o quarto de Jem. Ele ia ficar lá a noite toda, e estaria lá quando Jem acordasse de manhã.
***
Leia também:
O Sol é para todos: 1ª Parte (1a) / O Sol é para todos: 1ª Parte (11a) / O Sol é para todos: 2ª Parte (12a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (13) / O Sol é para todos: 2ª Parte (14) / O Sol é para todos: 2ª Parte (15a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (16) / O Sol é para todos: 2ª Parte (17a) / O Sol é para todos: 2ª Parte (18a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (18b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (19) / O Sol é para todos: 2ª Parte (20)
O Sol é para todos: 2ª Parte (21) / O Sol é para todos: 2ª Parte (22) / O Sol é para todos: 2ª Parte (23a) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (23b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (24) / O Sol é para todos: 2ª Parte (25) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / O Sol é para todos: 2ª Parte (27) / O Sol é para todos: 2ª Parte (28a) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) / O Sol é para todos: 2ª Parte (30) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (31).
__________________
Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês
TO KILL A MOCKINGBIRD
__________________
Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.
Nenhum comentário:
Postar um comentário