Hannah Arendt
Parte III
TOTALITARISMO
Os homens normais não sabem que tudo é possível.
David Rousset
Nos capítulos precedentes, reiteramos o fato de que os métodos do domínio total não são apenas mais
drásticos, mas que o totalitarismo difere essencialmente de outras formas de opressão política que
conhecemos, como o despotismo, a tirania e a ditadura. Sempre que galgou o poder, o totalitarismo criou
instituições políticas inteiramente novas e destruiu todas as tradições sociais, legais e políticas do país.
Independentemente da tradição especificamente nacional ou da fonte espiritual particular da sua
ideologia, o governo totalitário sempre transformou as classes em massas, substituiu o sistema
partidário não por ditaduras unipartidárias, mas por um movimento de massa, transferiu o centro do
poder do Exército para a polícia e estabeleceu uma política exterior que visava abertamente ao domínio
mundial. Os governos totalitários do nosso tempo evoluíram a partir de sistemas unipartidários; sempre
que estes se tornavam realmente totalitários, passavam a operar segundo um sistema de valores tão
radicalmente diferente de todos os outros que nenhuma das nossas tradicionais categorias utilitárias —
legais, morais, lógicas ou de bom senso — podia mais nos ajudar a aceitar, julgar ou prever o seu curso de
ação.
Se é verdade que podemos encontrar os elementos do totalitarismo se repassarmos a história e
analisarmos as implicações políticas daquilo que geralmente chamamos de crise do nosso século,
chegaremos à conclusão inelutável de que essa crise não é nenhuma ameaça de fora, nenhuma
consequência de alguma política exterior agressiva da Alemanha ou da Rússia, e que não desaparecerá
com a morte de Stálin, como não desapareceu com a queda da Alemanha nazista. Pode ser até que os
verdadeiros transes do nosso tempo somente venham a assumir a sua forma autêntica — embora não
necessariamente a mais cruel — quando o totalitarismo pertencer ao passado.
Com relação a estas reflexões, podemos indagar se o governo totalitário, nascido dessa crise e, ao mesmo
tempo, o seu mais claro sintoma, o único inequívoco, é apenas um arranjo improvisado que adota os
métodos de intimidação, os meios de organização e os instrumentos de violência do conhecido arsenal
político da tirania, do despotismo e das ditaduras, e deve a sua existência apenas ao fracasso, deplorável mas talvez acidental, das tradicionais forças políticas — liberais ou
conservadoras, nacionais ou socialistas, republicanas ou monarquistas, autoritárias ou democratas. Ou se,
pelo contrário, existe algo que se possa chamar de natureza do governo totalitário, se ele tem essência
própria e pode ser comparado com outras formas de governo conhecidas do pensamento ocidental e
reconhecidas desde os tempos da filosofia antiga, e definido como elas podem ser definidas. Se a segunda
suposição for verdadeira, então as formas inteiramente novas e inauditas da organização e do modo de
agir do totalitarismo devem ter fundamento numa das poucas experiências básicas que os homens podem
realizar quando vivem juntos e se interessam por assuntos públicos. Se existe uma experiência básica que
encontre expressão no domínio totalitário, então, dada a novidade da forma totalitária de governo, deve
ser uma experiência que, por algum motivo, nunca antes havia servido como base^jara uma estrutura
política, e cujo ânimo geral — embora conhecido sob outras formas — nunca antes permeou e dirigiu o
tratamento das coisas públicas.
Em função da história das ideias, isso parece extremamente improvável. Pois as formas de governo sob as
quais os homens vivem são muito poucas; foram descobertas cedo, classificadas pelos gregos, e
demonstraram rara longevidade. Se aplicarmos esses dados, cuja ideia fundamental, a despeito de muitas
variações, não mudou nos dois milênios e meio que vão de Platão a Kant, somos imediatamente tentados
a interpretar o totalitarismo como forma moderna de tirania, ou seja, um governo sem leis no qual o poder
é exercido por um só homem. De um lado, o poder arbitrário, sem o freio das leis, exercido no interesse
do governante e contra os interesses dos governados; e, de outro, o medo contrário da ação, ou seja,
o medo que o povo tem pelo governante e o medo do governante pelo povo — eis as marcas registradas
da tirania no decorrer de toda a nossa tradição.
Em vez de dizer que o governo totalitário não tem precedentes, poderíamos dizer que ele destruiu a
própria alternativa sobre a qual se baseiam, na filosofia política, todas as definições da essência dos
governos, isto é, a alternativa entre o governo legal e o ilegal, entre o poder arbitrário e o poder legítimo.
Nunca se pôs em dúvida que o governo legal e o poder legítimo, de um lado, e a ilegalidade e o poder
arbitrário, de outro, são aparentados e inseparáveis. No entanto, o totalitarismo nos coloca diante de uma
espécie totalmente diferente do governo. É verdade que desafia todas as leis positivas, mesmo ao ponto
de desafiar aquelas que ele próprio estabeleceu (como no caso da Constituição Soviética de 1936, para
citar apenas o exemplo mais notório) ou que não se deu ao trabalho de abolir (como no caso da
Constituição de Weimar, que o governo nazista nunca revogou). Mas não opera sem a orientação de uma
lei, nem é arbitrário, pois afirma obedecer rigorosa e inequivocamente àquelas leis da Natureza ou da
História que sempre acreditamos serem a origem de todas as leis.
A afirmação monstruosa e, no entanto, aparentemente irrespondível do governo totalitário é que, longe de
ser "ilegal", recorre à fonte de autoridade da qual as leis positivas recebem a sua legitimidade final; que,
longe de ser arbitrário, é mais obediente a essas forças sobre-humanas que qualquer governo jamais o foi; e que, longe de
exercer o seu poder no interesse de um só homem, está perfeitamente disposto a sacrificar os interesses
vitais e imediatos de todos à execução do que supõe ser a lei da História ou a lei da Natureza. O seu
desafio às leis positivas pretende ser uma forma superior de legitimidade que, por inspirar-se nas próprias
fontes, pode dispensar legalidades menores. A legalidade totalitária pretende haver encontrado um meio
de estabelecer a lei da justiça na terra — algo que a legalidade da lei positiva certamente nunca pôde
conseguir. A discrepância entre a legalidade e a justiça nunca pôde ser corrigida, porque os critérios de
certo e errado nos quais a lei positiva converte a sua fonte de autoridade — a "lei natural" que governa
todo o universo, ou a lei divina revelada na história humana, ou os costumes e tradições que representam
a lei comum para os sentimentos de todos os homens — são necessariamente gerais e devem ser válidos
para um número sem conta e imprevisível de casos, de sorte que cada caso individual concreto, com o seu
conjunto de circunstâncias irrepetíveis, lhes escapa de certa forma.
A legitimidade totalitária, desafiando a legalidade e pretendendo estabelecer diretamente o reino da
justiça na terra, executa a lei da História ou da Natureza sem convertê-la em critérios de certo e errado
que norteiem a conduta individual. Aplica a lei diretamente à humanidade, sem atender à conduta dos
homens. Espera que a lei da Natureza ou a lei da História, devidamente executada, engendre a
humanidade como produto final; essa esperança — que está por trás da pretensão de governo global — é
acalentada por todos os governos totalitários. A política totalitária afirma transformar a espécie humana
em portadora ativa e inquebrantável de uma lei à qual os seres humanos somente passiva e relutantemente
se submeteriam. Se é verdade que os monstruosos crimes dos regimes totalitários destruíram o elo de
ligação entre os países totalitários e o mundo civilizado, também é verdade que esses crimes não foram
consequência de simples agressividade, crueldade, guerra e traição, mas do rompimento consciente com
aquele consensus iuris que, segundo Cícero, constitui um "povo", e que, como lei internacional, tem
constituído o mundo civilizado nos tempos modernos, na medida em que se mantém como pedra
fundamental das relações internacionais, mesmo em tempos de guerra. Tanto o julgamento moral como a
punição legal pressupõem esse consentimento básico; o criminoso só pode ser julgado com justiça porque
faz parte do consensus iuris, e mesmo a lei revelada de Deus só pode funcionar entre os homens quando
eles a ouvem e aceitam.
A esta altura, torna-se clara a diferença fundamental entre o conceito totalitário de lei e de todos os outros
conceitos. A política totalitária não substitui um conjunto de leis por outro, não estabelece o seu próprio
consensus iuris, não cria, através de uma revolução, uma nova forma de legalidade. O seu desafio a todas
as leis positivas, inclusive às que ela mesma formula, implica a crença de que pode dispensar qualquer
consensus iuris e ainda assim não resvalar para o estado tirânico da ilegalidade, da arbitrariedade e do
medo. Pode dispensar o consensus iuris porque promete libertar o cumprimento da lei de todo ataque do desejo humano; e promete a justiça na terra porque afirma tornar a humanidade a encarnação
da lei.
Essa identificação do homem com a lei, que parece fazer desaparecer a discrepância entre a legalidade e a
justiça que tanto atormentou o pensamento legal desde os tempos antigos, nada tem em comum com o
lumen naturale ou com a voz da consciência, por meio dos quais a Natureza ou a Divindade, como fonte
de autoridade para o ius naturale ou para os históricos mandamentos de Deus, supostamente revela a sua
autoridade no próprio homem. Esta nunca fez do homem uma encarnação viva da lei mas, pelo contrário,
permaneceu separada dele com a autoridade que exige consentimento e obediência. A Natureza ou a
Divindade, como fonte de autoridade para as leis positivas, eram tidas como permanentes e eternas; as
leis positivas eram inconstantes e mudavam segundo as circunstâncias, mas possuíam uma permanência
relativa em comparação com as ações dos homens, que mudavam muito mais depressa; e derivavam essa
permanência da presença eterna da sua fonte de autoridade. As leis positivas, portanto, destinam-se
primariamente a funcionar como elementos estabilizadores para os movimentos do homem, que são
eternamente mutáveis.
Na interpretação do totalitarismo, todas as leis se tornam leis de movimento. Embora os nazistas falassem
da lei da natureza e os bolchevistas falem da lei da história, natureza e história deixam de ser a força
estabilizadora da autoridade para ás ações dos homens mortais; elas próprias tornam-se movimentos. Sob
a crença nazista em leis raciais como expressão da lei da natureza, está a ideia de Darwin do homem
como produto de uma evolução natural que não termina necessariamente na espécie atual de seres
humanos, da mesma forma como, sob a crença bolchevista numa luta de classes como expressão da lei da
história, está a noção de Marx da sociedade como produto de um gigantesco movimento histórico que se
dirige, segundo a sua própria lei de dinâmica, para o fim dos tempos históricos, quando então se
extinguira a si mesmo.
A diferença entre a atitude histórica de Marx e a atitude naturalista de Darwin já foi apontada muitas
vezes, quase sempre com justiça, a favor de Marx. Isso nos leva a esquecer o profundo e positivo
interesse de Marx pelas teorias de Darwin; para Engels, o maior cumprimento à obra erudita de Marx era
chamá-lo de "Darwin da história".[1] Se considerarmos não a obra propriamente dita, mas as filosofias
básicas de ambos, verificaremos que, afinal, o movimento da história e o movimento da natureza são um
só. O fato de Darwin haver introduzido o conceito de evolução na natureza, sua insistência em que, pelo
menos no terreno da biologia, o movimento natural não é circular, mas unilinear, numa direção que
progride infinitamente, significa de fato que a natureza está, por assim dizer, sendo assimilada à história,
que a vida natural deve ser vista como histórica. A lei "natural" da sobrevivência dos mais aptos é lei tão histórica — e pôde
ser usada como tal pelo racismo — quanto a lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista. Por
outro lado, a luta de classes de Marx como força motriz da história é apenas a expressão externa do
desenvolvimento de forças produtivas que, por sua vez, emanam da "energia-trabalho" dos homens. O
trabalho, segundo Marx, não é uma força histórica, mas natural-biológica — produzida pelo
"metabolismo [do homem] com a natureza", através do qual ele conserva a sua vida individual e reproduz
a espécie.[2] Engels viu com muita clareza a afinidade entre as convicções básicas dos dois homens porque
compreendia o papel decisivo que o conceito de evolução desempenhava nas duas teorias. A tremenda
mudança intelectual que ocorreu em meados do século XIX consistiu na recusa de encarar qualquer coisa
"como é" e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior. Que
a força motriz dessa evolução fosse chamada de natureza ou de história tinha importância relativamente
secundária. Nessas ideologias, o próprio termo "lei" mudou de sentido: deixa de expressar a estrutura de
estabilidade dentro da qual podem ocorrer os atos e os movimentos humanos, para ser a expressão do
próprio movimento.
[1] Na oração fúnebre a Marx, Engels disse: "Tal como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da vida orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana". Comentário semelhante encontra-se na introdução que Engels escreveu para a edição de 1890 do Manifesto comunista; e, na introdução a Ursprung der Familie, ele menciona outra vez, lado a lado, "a teoria da evolução de Darwin" e a "teoria de Marx da mais-valia".
[2] Quanto ao conceito de Marx do trabalho como "necessidade eterna imposta pela natureza, sem a qual não pode
haver metabolismo entre o homem e a natureza e, portanto, não pode haver vida", ver O capital, vol. I, parte I,
capítulos 1 e 5. O trecho citado é do capítulo 1, seção 2.
A política totalitária, que passou a adotar a receita das ideologias, desmascarou a verdadeira natureza
desses movimentos, na medida em que demonstrou claramente que o processo não podia ter fim. Se é lei
da natureza eliminar tudo o que é nocivo e indigno de viver, a própria natureza seria eliminada quando
não se pudessem encontrar novas categorias nocivas e indignas de viver; se é lei da história que, numa
luta de classes, certas classes "fenecem", a própria história humana chegaria ao fim se não se formassem
novas classes que, por sua vez, pudessem "fenecer" nas mãos dos governantes totalitários. Em outras
palavras, a lei de matar, pela qual os movimentos totalitários tomam e exercem o poder, permaneceria
como lei do movimento mesmo que conseguissem submeter toda a humanidade ao seu domínio.
Por governo legal compreendemos um corpo político no qual há necessidade de leis positivas para
converter e realizar o imutável ius naturale ou a eterna lei de Deus, em critérios de certo e errado.
Somente nesses critérios, no corpo das leis positivas de cada país, o ius naturale ou os Mandamentos de
Deus atingem realidade política. No corpo político do governo totalitário, o lugar das leis positivas é
tomado pelo terror total, que se destina a converter em realidade a lei do movimento da história ou da
natureza. Do mesmo modo como as leis positivas, embora definam transgressões, são independentes
destas — a ausência de crimes numa sociedade não torna as leis supérfluas, mas, pelo contrário, significa
o mais perfeito domínio da lei —, também o terror no governo totalitário deixa de ser um meio para
suprimir a oposição, embora ainda seja usado para tais fins. O terror torna-se total quando independe de toda oposição; reina supremo quando
ninguém mais lhe barra o caminho. Ser legal é a essência do governo não-tirânico e a ilegalidade é
a essência da tirania, então o terror é a essência do domínio totalitário.
O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível à força da natureza
ou da história propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana
espontânea. Como tal, o terror procura "estabilizar" os homens a fim de liberar as forças da natureza ou da
história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e
não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do
"inimigo objetivo" da História ou da Natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos
vazios; "culpado" é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento
quanto às "raças inferiores", quanto a quem é "indigno de viver", quanto a "classes agonizantes e povos
decadentes". O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são
subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque
realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal
superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis históricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lei inerente. O terror é
a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana, seja a Natureza ou a
História.
O terror, como execução da lei de um movimento cujo fim ulterior não é o bem-estar dos homens nem o
interesse de um homem, mas a fabricação da humanidade elimina os indivíduos pelo bem da espécie,
sacrifica as "partes" em benefício do "todo". A força sobre-humana da Natureza ou da História tem o seu
próprio começo e o seu próprio fim, de sorte que só pode ser retardada pelo novo começo e pelo fim
individual que é, na verdade, a vida de cada homem.
No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a erigir fronteiras e a estabelecer canais de
comunicação entre os homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos novos homens
que nela nascem. A cada nascimento, um novo começo surge para o mundo, um novo mundo em
potencial passa a existir. A estabilidade das leis corresponde ao constante movimento de todas as coisas
humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os homens nasçam e morram. As leis
circunscrevem cada novo começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de movimento, a
potencialidade de algo inteiramente novo e imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência
política do homem o que a memória é para a sua existência histórica: garantem a preexistência de um
mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração individual de cada geração,
absorve todas as novas origens e delas se alimenta.
Confundir o terror total com um sintoma de governo tirânico é tão fácil porque o governo totalitário, em
seus estágios iniciais, tem de conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si
nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao benefício do poder despótico de um homem
contra todos, e muito menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das fronteiras e dos canais de
comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é
como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas
da lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos homens os seus direitos e destruir a
liberdade como realidade política viva; pois o espaço entre os homens, delimitado pelas leis, é o espaço
vital da liberdade. O terror total usa esse velho instrumento da tirania mas, ao mesmo tempo, destrói
também o deserto sem cercas e sem lei, deserto da suspeita e do medo que a tirania deixa atrás de si. Esse
deserto da tirania certamente já não é o espaço vital da liberdade, mas ainda deixa margem aos
movimentos medrosos e cheios de suspeita dos seus habitantes.
Pressionando os homens, uns contra os outros, o terror total destrói o espaço entre eles; comparado às
condições que prevalecem dentro do cinturão de ferro, até mesmo o deserto da tirania, por ainda constituir
algum tipo de espaço, parece uma garantia de liberdade. O governo totalitário não restringe simplesmente
os direitos nem simplesmente suprime as liberdades essenciais; tampouco, pelo menos ao que saibamos,
consegue erradicar do coração dos homens o amor à liberdade, que é simplesmente a capacidade de
mover-se, a qual não pode existir sem espaço.
O terror total, a essência do regime totalitário, não existe a favor nem contra os homens. Sua suposta
função' é proporcionar às forças da natureza ou da história um meio de acelerar o seu movimento. Esse
movimento, transcorrendo segundo a sua própria lei, não pode ser tolhido a longo prazo; no fim, a sua
força se mostrará sempre mais poderosa que as mais poderosas forças engendradas pela ação e pela
vontade do homem. Mas pode ser retardado, e é retardado quase inevitavelmente pela liberdade do
homem; nem mesmo os governantes totalitários podem negar essa liberdade — por mais irrelevante e
arbitrária que lhes pareça —, porque ela equivale ao fato de que os homens nascem e que, portanto, cada
um deles é um novo começo e, em certo sentido, o início de um mundo novo. Do ponto de vista
totalitário, o fato de que os homens nascem e morrem não pode ser senão um modo aborrecido de
interferir com forças superiores. O terror, portanto, como servo obediente do movimento natural ou
histórico, tem de eliminar do processo não apenas a liberdade em todo sentido específico, mas a própria
fonte de liberdade que está no nascimento do homem e na sua capacidade de começar de novo. No
cinturão de ferro do terror, que destrói a pluralidade dos homens e faz de todos aquele Um que
invariavelmente agirá como se ele próprio fosse parte da corrente da história ou da natureza, encontrou-se
um meio não apenas de libertar as forças históricas ou naturais, mas de imprimir-lhes uma velocidade que
elas, por si mesmas, jamais atingiriam. Na prática, isso significa que o terror executa sem mais delongas
as sentenças de morte que a Natureza supostamente pronunciou contra aquelas raças ou aqueles
indivíduos que são "indignos de viver", ou que a História decretou contra as "classes agonizantes", sem esperar pelos processos mais lerdos e menos eficazes da
própria história ou natureza.
Nesse conceito, onde o movimento se torna a essência do próprio regime, um problema muito antigo do
pensamento político parece encontrar solução semelhante à que já vimos para a discrepância entre a
legalidade e a justiça. Se a essência do governo é definida como a legalidade, e se fica compreendido que
as leis são as forças estabilizadoras dos negócios públicos dos homens (como realmente sempre o foram
desde que Platão invocou em su&s Leis a Zeus, o deus dos limites), surge então o problema do
movimento do corpo político e dos atos dos seus cidadãos. A legalidade impõe limites aos atos, mas não
os inspira; a grandeza, mas também a perplexidade, das leis nas sociedades livres está em que apenas
dizem o que não se deve fazer, mas nunca o que se deve fazer. Õ necessário movimento de um corpo
político não se encontra em sua essência, porque essa essência — novamente desde Platão — sempre foi
definida com vistas à sua permanência. A continuidade sempre pareceu um dos modos mais seguros de
medir a virtude de um governo. Para Montesquieu, a suprema prova da imperfeição da tirania era ainda o
fato de que somente as tiranias tendiam a se destruir por dentro, a engendrar o seu declínio, enquanto
eram circunstâncias externas que destruíam todos os outros governos. Portanto, o que sempre faltou à
definição de governo é o que Montesquieu chamou de um "princípio de ação"
que, sendo diferente para
cada forma de governo, inspiraria governantes e cidadãos em sua atividade pública e serviria como
critério, além da avaliação meramente negativa da legalidade, para julgar todos os atos no terreno das
coisas públicas. Esses princípios orientadores e critérios da ação, segundo Montesquieu, são, numa
monarquia, a honra; numa república, a virtude; e numa tirania, o medo.
Num perfeito governo totalitário, onde todos os homens tornaram-se Um-Só-Homem, onde toda ação
visa à aceleração do movimento da natureza ou da história, onde cada ato é a execução de uma sentença
de morte que a Natureza ou a História já pronunciou, isto é, em condições nas quais se pode ter plena
certeza de que o terror manterá o movimento em constante atividade —, um princípio de ação separado
da sua essência seria absolutamente desnecessário. Não obstante, enquanto o governo totalitário não
conquista toda a terra e, com o cinturão de ferro do terror, não transforma cada homem em parte de uma
humanidade única, o terror, em sua dupla função de essência de governo e princípio não de ação mas de
movimento, não pode ser completamente realizado. Do mesmo modo como a legalidade, no governo
constitucional, é insuficiente para inspirar e guiar as ações dos homens, também o terror no governo
totalitário não é suficiente para inspirar e guiar o comportamento humano.
Embora, nas condições atuais, o domínio totalitário ainda compartilhe com outras formas de governo a
necessidade de um guia para a conduta dos seus cidadãos na esfera pública, não precisa e nem poderia, a
rigor, usar um princípio de ação, pois este só fará eliminar no homem precisamente a capacidade de agir.
Nas condições do terror total, nem mesmo o medo pode aconselhar a conduta do cidadão, porque o terror
escolhe as suas vítimas independentemente de ações ou pensamentos individuais, unicamente segundo a necessidade objetiva do processo
natural ou histórico. Nas condições totalitárias, o medo é provavelmente mais difundido do que nunca;
mas o medo perde a sua utilidade prática quando as ações que inspira já não ajudam a evitar o perigo que
se teme. O mesmo se pode dizer da simpatia ou do apoio ao regime; pois o terror total não apenas
seleciona as suas vítimas segundo critérios objetivos: escolhe os seus carrascos com o mais completo
descaso pelas convicções e simpatias do candidato. A consistente eliminação da convicção como um
motivo para a ação tornou-se um fato desde os grandes expurgos da Rússia soviética e dos países
satélites. O objetivo da educação totalitária nunca foi insuflar convicções, mas destruir a
capacidade de adquiri-las. A introdução de critérios puramente objetivos no sistema de seleção das tropas
da SS foi a grande invenção organizacional de Himmler; selecionava os candidatos através de fotografias
segundo critérios puramente raciais. A própria natureza decidia não apenas quem seria eliminado, mas
também quem seria treinado como carrasco.
Nenhum princípio orientador da conduta que seja, ele próprio, extraído da esfera da ação humana, como a
virtude, a honra ou o medo, é necessário ou pode servir para acionar um corpo político que já não
emprega o terror como forma de intimidação, mas cuja essência é o próprio terror. Em seu lugar, o
totalitarismo introduziu um princípio inteiramente novo no terreno das "coisas -públicas que dispensa
inteiramente o desejo humano de agir, e atende à desesperada necessidade de alguma intuição da lei do
movimento, segundo a qual o terror funciona e da qual, portanto, dependem todos os destinos pessoais.
Os habitantes de um país totalitário são arremessados e engolfados num processo da natureza ou da
história para que se acelere o seu movimento; como tal, só podem ser carrascos ou vítimas da sua lei
inseparável. O processo pode decidir que aqueles que hoje eliminam raças e indivíduos ou membros das
classes agonizantes e dos povos decadentes serão amanhã os que devam ser imolados. Aquilo de que o
sistema totalitário precisa para guiar a conduta dos seus súditos é um preparo para que cada um se ajuste
igualmente bem ao papel de carrasco e ao papel de vítima. Essa preparação bilateral, que substitui o
princípio de ação, é a ideologia.
As ideologias — os ismos que podem explicar, a contento dos seus aderentes, toda e qualquer ocorrência
a partir de uma única premissa — são fenômeno muito recente e, durante várias décadas, tiveram papel
insignificante na vida política. Somente agora, com a vantagem que nos dá o seu estudo retrospectivo,
podemos descobrir os elementos que as tornaram tão perturbadoramente úteis para o governo totalitário.
As grandes potencialidades das ideologias não foram .descobertas antes de Hitler e de Stálin.
As ideologias são notórias por seu caráter científico: combinam a atitude científica com resultados de
importância filosófica, e pretendem ser uma filosofia científica. A palavra "ideologia" parece sugerir que
uma ideia pode tornar-se o objeto do estudo de uma ciência, como os animais são o objeto de estudo na
zoologia, e que o sufixo -logia da palavra ideologia, como em zoologia, indica nada menos que os discursos científicos que se fazem a respeito da ideia. Se isso
fosse verdadeiro, a ideologia seria realmente uma pseudociência e uma pseudofilosofia, violando ao
mesmo tempo os limites da ciência e os da filosofia. O deísmo, por exemplo, passaria a ser a ideologia
que trata da ideia de Deus, da qual se ocupa a filosofia, à maneira científica da teologia, para a qual Deus
é uma realidade revelada. (Uma teologia que não se baseasse na revelação como realidade admitida, mas
tratasse Deus como ideia, seria tão louca como uma zoologia que já não estivesse segura da existência
física e tangível dos animais.) Contudo, sabemos que isso é apenas parte da verdade. O deísmo, embora
negue a revelação divina, não faz meras afirmações "científicas" a respeito de um Deus que é apenas uma
"ideia", mas usa a ideia de Deus para explicar os destinos do mundo. As "ideias" dos ismos — a raça no
racismo, Deus no deísmo etc. — nunca constituem o objeto das ideologias, e o sufixo -logia nunca indica
simplesmente um conjunto de postulados "científicos".
Uma ideologia é bem literalmente o que o seu nome indica: é a lógica de uma ideia. O seu objeto de
estudo é a história, à qual a "ideia" é aplicada; o resultado dessa aplicação não é um conjunto de
postulados acerca de algo que é, mas a revelação de um processo que está em constante mudança. A ideologia trata o curso dos acontecimentos como se seguisse a mesma "lei" adotada na exposição lógica da sua
"ideia". As ideologias pretendem conhecer os mistérios de todo o processo histórico — os segredos do
passado, as complexidades do presente, as incertezas do futuro — em virtude da lógica inerente de suas
respectivas ideias.
As ideologias nunca estão interessadas no milagre do ser. São históricas, interessadas no vir-a-ser e no
morrer, na ascensão e queda das culturas, mesmo que busquem explicar a história através de alguma "lei
da natureza". A palavra "raça" no racismo não significa qualquer curiosidade genuína acerca das raças
humanas como campo de exploração científica, mas é a "ideia" através da qual o movimento da história é
explicado como um único processo coerente.
A "ideia" de uma ideologia não é a essência eterna de Platão, vislumbrada pelos olhos da mente, nem o
princípio regulador da razão, de Kant, mas passa a ser instrumento de explicação. Para uma ideologia, a
história não é vista à luz de uma ideia (o que significaria ver a história sob forma de alguma eternidade
ideal que, por si, está além do movimento histórico), mas como algo que pode ser calculado por ela. O
que torna a "ideia" capaz dessa nova função é a sua própria "lógica", que é um movimento decorrente da
própria "ideia" e dispensa qualquer fator externo para colocá-la em atividade. O racismo é a crença de que
existe um movimento inerente da própria ideia de raça, tal como é a crença de que existe um
movimento inerente da própria noção de Deus.
O movimento da história e o processo lógico da noção de história suposta^ mente correspondem um ao
outro, de sorte que o que quer que aconteça, acontece segundo a lógica de uma "ideia". Mas o único
movimento possível no terreno da lógica é o processo de dedução a partir de uma premissa. Nas mãos
de uma ideologia, a lógica dialética, com o seu processo de ir da tese, através da antítese, para a síntese, que por sua vez se torna a tese do próximo movimento dialético, não difere em
princípio; a primeira tese passa a ser a premissa, e a sua vantagem para a explicação ideológica é que esse
expediente dialético pode fazer desaparecer as contradições factuais, explicando-as como estágios de um
só movimento coerente e idêntico.
Assim que se aplica a uma ideia a lógica como movimento de pensamento — e não como o necessário
controle do ato de pensar — essa ideia se transforma em premissa. As explicações ideológicas do mundo
realizaram essa operação muito antes que ela se tornasse tão eminentemente útil para o raciocínio
totalitário. A coerção puramente negativa da lógica, a proibição das contradições, passou a ser
"produtiva", de modo que se podia criar toda uma linha de pensamento e forçá-la sobre a mente, pelo fato
de se tirarem conclusões através da mera argumentação. Esse processo argumentativo não podia ser
interrompido nem por uma nova ideia (que teria sido outra premissa com um diferente conjunto de
consequências) nem por uma nova experiência. As ideologias pressupõem sempre que uma ideia é
suficiente para explicar tudo no desenvolvimento da premissa, e que nenhuma experiência ensina coisa
alguma porque tudo está compreendido nesse coerente processo de dedução lógica. O perigo de trocar a
necessária insegurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e por sua
Weltanschauung não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre
destituída de crítica quanto o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa
de força da lógica, que pode subjugar o homem quase tão violentamente quanto uma força externa.
As Weltanschauungen e ideologias do século XIX não constituem por si mesmas o totalitarismo. Embora
o racismo e o comunismo tenham se tornado as ideologias decisivas do século XX, não eram, em
princípio, "mais totalitárias" do que as outras; isso aconteceu porque os elementos da experiência nos
quais originalmente se baseavam — a luta entre as raças pelo domínio do mundo, e a luta entre as classes
pelo poder político nos respectivos países — vieram a ser politicamente mais importantes que os das
outras ideologias. Nesse sentido, a vitória ideológica do racismo e do comunismo sobre todos os outros
ismos já estava definida antes que os movimentos totalitários se apoderassem precisamente dessas
ideologias. Por outro lado, todas as ideologias contêm elementos totalitários, mas estes só se manifestam
inteiramente através de movimentos totalitários — o que nos dá a falsa impressão de que somente o
racismo e o comunismo são de caráter totalitário. Mas, no fundo, é a verdadeira natureza de todas as
ideologias que se revelou no papel que a ideologia desempenhou no mecanismo do domínio totalitário.
Vistas desse ângulo, surgem três elementos especificamente totalitários, peculiares de todo pensamento
ideológico.
Em primeiro lugar, na pretensão de explicação total, as ideologias têm a tendência de analisar não o que é,
mas o que vem a ser, o que nasce e passa. Em todos os casos, elas estão preocupadas unicamente com o elemento de movimento, isto é, a história no
sentido corrente da palavra. As ideologias sempre se orientam na direção da história, mesmo quando,
como no caso do racismo, parecem partir da premissa da natureza; nesse caso, a natureza serve apenas
para explicar as questões históricas e reduzi-las a elementos da natureza. A pretensão de explicação total
promete esclarecer todos os acontecimentos históricos — a explanação total do passado, o conhecimento
total do presente e a previsão segura do futuro. Em segundo lugar, o pensamento ideológico, nessa
capacidade, liberta-se de toda experiência da qual não possa aprender nada de novo, mesmo que se trate
de algo que acaba de acontecer. Assim, o pensamento ideológico emancipa-se da realidade que
percebemos com os nossos cinco sentidos e insiste numa realidade "mais verdadeira" que se esconde
por trás de todas as coisas perceptíveis, que as domina a partir desse esconderijo e exige um sexto sentido
para que possamos percebê-la. O sexto sentido é fornecido exatamente pela ideologia, por aquela
doutrinação ideológica particular que é ensinada nas instituições educacionais, estabelecidas
exclusivamente para esse fim, para treinar os "soldados políticos" nas Ordensburgen do nazismo ou nas
escolas do Comintern e do Cominform. A propaganda do movimento totalitário serve também para
libertar o pensamento da experiência e da realidade; procura sempre injetar um significado secreto em
cada evento público tangível e farejar intenções secretas atrás de cada ato político público. Quando
chegam ao poder, os movimentos passam a alterar a realidade segundo as suas afirmações ideológicas. O
conceito de inimizade é substituído pelo conceito de conspiração, e isso produz uma mentalidade na qual
já não se experimenta e se compreende a realidade em seus próprios termos — a verdadeira inimizade ou
a verdadeira amizade — mas automaticamente se presume que ela significa outra coisa.
Em terceiro lugar, como as ideologias não têm o poder de transformar a realidade, conseguem libertar o
pensamento da experiência por meio de certos métodos de demonstração. O pensamento ideológico
arruma os fatos sob a forma de um processo absolutamente lógico, que se inicia a partir de uma premissa
aceita axiomaticamente, tudo mais sendo deduzido dela; isto é, age com uma coerência que não existe em
parte alguma no terreno da realidade. A dedução pode ser lógica ou dialética: num caso ou no outro,
acarreta um processo de argumentação que, por pensar em termos de processos, supostamente pode
compreender o movimento dos processos sobre-humanos, naturais ou históricos. Atinge-se a
compreensão pelo fato de a mente imitar, lógica ou dialeticamente, as leis dos movimentos
"cientificamente" demonstrados, aos quais ela se integra pelo processo de imitação. A argumentação
ideológica, sempre uma espécie de dedução lógica, corresponde aos dois elementos das ideologias que
mencionamos acima — o elemento do movimento e o elemento da emancipação da realidade e da
experiência —, primeiro, porque o movimento do pensamento não emana da experiência, mas gera-se a si
próprio e, depois, porque transforma em premissa axiomática o único ponto que é tomado e aceito da
realidade verificada, deixando, daí em diante, o subsequente processo de argumentação inteiramente a
salvo de qualquer experiência ulterior. Uma vez que tenha estabelecido a sua premissa, o seu ponto de partida," a experiência já não interfere com o pensamento
ideológico, nem este pode aprender com a realidade.
O expediente que ambos os governantes totalitários usaram para transformar suas respectivas ideologias
em armas, com as quais cada um dos seus governados podia obrigar-se a entrar em harmonia com o
movimento do terror, era enganadoramente simples e imperceptível: levavam-nas mortalmente a sério e
orgulhavam-se, um, do seu supremo dom de "raciocínio frio como o gelo" (Hitler), e o outro, da
"impiedade da sua dialética", e passaram a levar as implicações ideológicas aos extremos da coerência
lógica que, para o observador, pareciam despropositadamente "primitivos" e absurdos: a "classe
agonizante" consistia em pessoas condenadas à morte; as raças "indignas de viver" eram pessoas que iam
ser exterminadas. Quem concordasse com a existência de "classes agonizantes" e não chegasse à
consequência de matar os seus membros, ou com o fato de que o direito de viver tinha algo a ver com a
raça e não deduzisse que era necessário matar as "raças incapazes", evidentemente era ou estúpido ou
covarde. Essa lógica persuasiva como guia da ação impregna toda a estrutura dos movimentos e governos
totalitários. Deve-se exclusivamente a Hitler e a Stálin, que, embora não acrescentassem um único
pensamento novo às ideias e aos slogans de propaganda dos seus movimentos, só por isso merecem ser
considerados ideólogos da maior importância.
Esses novos ideólogos totalitários distinguiam-se dos seus predecessores por já não serem atraídos
basicamente pela "ideia" da ideologia — a luta de classes e a exploração dos trabalhadores, ou a luta de
raças e a proteção dos povos germânicos — mas sim pelo processo lógico que dela pode ser deduzido.
Segundo Stálin, nem a ideia nem a oratória mas "a força irresistível da lógica subjugava completamente o
público" [de Lênin]. Verificou-se que a força, que Marx julgava surgir quando a ideia se apossava das
massas, residia não na própria ideia, mas no seu processo lógico, que, "como um poderoso tentáculo, nos
aperta por todos os lados, como num torno, e de cujo controle não temos a força de sair; ou nos
entregamos, ou nos resignamos à mais completa derrota".[3] Essa força somente se manifesta quando está
em jogo a realização dos objetivos ideológicos, a sociedade sem classes ou a raça dominante. No processo
da realização, a substância original que servia de base às ideologias no tempo em que buscavam atrair as
massas — a exploração dos trabalhadores ou as aspirações nacionais da Alemanha — gradualmente se
perde, como que devorada pelo próprio processo: em perfeita consonância com o "raciocínio frio" e a
"irresistível força da lógica", os trabalhadores perderam, sob o domínio bolchevista, até mesmo aqueles
direitos que haviam tido sob a opressão czarista, e o povo alemão sofreu um tipo de guerra que não tinha
a mais leve ligação com as necessidades mínimas de sobrevivência da nação alemã. È da natureza das
políticas ideológicas — e não simples traição cometida em benefício do egoísmo ou do desejo do poder — que o verdadeiro conteúdo da ideologia (a classe trabalhadora ou os povos
germânicos), que originalmente havia dado azo à "ideia" (a luta de classes como lei da história, ou a luta
de raças como lei da natureza), seja devorado pela lógica com que a "ideia" é posta em prática.
[3] Discurso de Stálin de 28 de janeiro de 1924, citado em Lênin, Selected works, vol. I, p. 33, Moscou, 1947. É
interessante notar que a "lógica" de Stálin foi uma das poucas qualidades que Krushchev louvou no seu devastador
discurso perante o Vigésimo Congresso do Partido.
O preparo das vítimas e dos carrascos, que o totalitarismo requer em lugar do princípio de ação de
Montesquieu, não é a ideologia em si — o racismo ou o materialismo dialético —, mas a sua lógica
inerente. Nesse ponto, o argumento mais persuasivo — argumento muito do gosto de Hitler e de Stálin —
é: não se pode dizer A sem dizer B e C, e assim por diante, até o fim do mortífero alfabeto. Parece ser esta
a origem da força coerciva da lógica: emana do nosso pavor à contradição. Quando o expurgo bolchevista
faz com que as vítimas confessem delitos que nunca cometeram, confia principalmente nesse medo básico
e argumenta da seguinte forma: todos concordamos com a premissa de que a história é uma luta de
classes e com o papel do Partido nessa luta. Sabemos, portanto, que, do ponto de vista histórico, o Partido
sempre tem razão (nas palavras de Trótski, "só podemos ter razão com o Partido e através dele, pois a
história não nos concede outro meio de termos razão"). Neste momento histórico, que obedece à lei da
história, certos crimes certamente serão cometidos, e o Partido, conhecendo a lei da história, deve puni-los. Para esses crimes, o Partido necessita de criminosos; pode suceder que o Partido, conhecendo os
crimes, não conheça inteiramente os criminosos; porém, mais importante que ter certeza quanto aos
criminosos é punir os crimes, porque, sem essa punição, a História não poderia progredir, e até mesmo o
seu curso poderia ser tolhido. Tu, portanto, ou cometeste os crimes ou foste convocado pelo Partido para
desempenhar o papel de criminoso — de qualquer forma, és objetivamente um inimigo do Partido. Se não
confessares, deixarás de ajudar a História através do Partido, e te tornarás um verdadeiro inimigo. A força
coerciva do argumento é: se te recusas, te contradizes e, com essa contradição toda a tua vida perde o
sentido; pois o A que pronunciaste domina toda a vida através das consequências do B e do C que se
lhe seguem logicamente.
Para a limitada mobilização das pessoas, que nem ele pode dispensar, o governante totalitário conta com a
compulsão que nos impele para a frente; essa compulsão interna é a tirania da lógica, contra a qual nada
se pode erguer senão a grande capacidade humana de começar algo novo. A tirania da lógica começa
com
a submissão da mente à lógica como processo sem fim, no qual o homem se baseia para elaborar os seus
pensamentos. Através dessa submissão, ele renuncia à sua liberdade interior, tal como renuncia à
liberdade de movimento quando se curva a uma tirania externa. A liberdade, como capacidade interior
do homem, equivale à capacidade de começar, do mesmo modo que a liberdade como realidade política
equivale a um espaço que permita o movimento entre os homens. Contra o começo, nenhuma lógica,
nenhuma dedução pode ter qualquer poder, porque o processo da dedução pressupõe o
começo sob forma de premissa. Tal como o terror é necessário para que o nascimento de cada novo ser
humano não dê origem a um novo começo que imponha ao mundo a sua lógica também a força auto coerciva da lógica é mobilizada para que ninguém jamais comece a pensar — e o pensamento, como a mais livre e a mais pura das atividades
humanas, é exatamente o oposto do processo compulsório de dedução. O governo totalitário só se sente
seguro na medida em que pode mobilizar a própria força de vontade do homem para forçá-lo a mergulhar
naquele gigantesco movimento da História ou da Natureza que supostamente usa a humanidade como
material e ignora nascimento ou morte.
Por um lado, a compulsão do terror total — que, com o seu cinturão de ferro, comprime as massas de
homens isolados umas contra as outras e lhes dá apoio num mundo que para elas se tornou um deserto —
e, por outro, a força auto coerciva da dedução lógica — que prepara cada indivíduo em seu isola1 mento
solitário contra todos os outros — correspondem uma à outra e precisam uma da outra para acionar o
movimento dominado pelo terror e conservá-lo em atividade? Do mesmo modo como o terror, mesmo em
sua forma pré-total e meramente tirânica, arruína todas as relações entre os homens, também a auto
compulsão do pensamento ideológico destrói toda relação com a realidade. O preparo triunfa quando as
pessoas perdem o contato com os seus semelhantes e com a realidade que as rodeia; pois, juntamente com
esses contatos, os homens perdem a capacidade de sentir e de pensar. O súdito ideal do governo totalitário
não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre
o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os
critérios do pensamento).
À questão que levantamos no início destas considerações, e à qual agora retornaremos, diz respeito ao
tipo de experiência básica na vida humana em comum que inspira uma forma de governo cuja essência é
o terror e cujo princípio de ação é a lógica do pensamento ideológico. Obviamente, nunca antes se havia
usado tal mistura nas várias formas de domínio político. Não obstante, a experiência básica em que ela se
fundamenta deve ser humana e conhecida dos homens, uma vez que esse corpo político absolutamente
"original" foi planejado por homens e, de alguma forma, está respondendo a necessidades humanas.
Já se observou muitas vezes que o terror só pode reinar absolutamente sobre homens que se isolam uns
contra os outros e que, portanto, uma das preocupações fundamentais de todo governo tirânico é provocar
esse isolamento. O isolamento pode ser o começo do terror; certamente é o seu solo mais fértil e sempre
decorre dele. Esse isolamento é, por assim dizer, pré-totalitário; sua característica é a impotência, na
medida em que a força sempre surge quando os homens trabalham em conjunto, "agindo em concerto"
(Burke); os homens isolados são impotentes por definição.
O isolamento e a impotência, isto é, a incapacidade básica de agir, sempre foram típicos das tiranias. Os
contatos políticos entre os homens são cortados no governo tirânico, e as capacidades humanas de ação e
poder são frustradas. Mas nem todos os contatos entre os homens são interrompidos, e nem todas as
capacidades humanas são destruídas. Toda a esfera da vida privada, juntamente com a capacidade de sentir, de inventar e de pensar, permanece intacta. Sabemos que o
cinturão de ferro do terror total elimina o espaço parir essa vida privada, e que a auto coerção da lógica
totalitária destrói a capacidade humana de sentir e pensar tão seguramente como destrói a capacidade de
agir.
O que chamamos de isolamento na esfera política é chamado de solidão na esfera dos contatos sociais.
Isolamento e solidão não são a mesma coisa. Posso estar isolado — isto é, numa situação em que não
posso agir porque não há ninguém para agir comigo — sem que esteja solitário; e posso estar solitário —
isto é, numa situação em que, como pessoa, me sinto completamente abandonado por toda companhia
humana — sem estar isolado. O isolamento é aquele impasse no qual os homens se veem quando a esfera
política de suas vidas, onde agem em conjunto na realização de um interesse comum, é destruída. E, no
entanto, o isolamento, embora destrua o poder e a capacidade de agir, não apenas deixa intactas todas as
chamadas atividades produtivas do homem, mas lhes é necessário. O homem, como homo faber, tende a
isolar-se com o seu trabalho, isto é, a deixar temporariamente o terreno da política. A fabricação (poiesis,
o ato de fazer coisas), que se distingue, por um lado, da ação (praxis) e, por outro, do mero trabalho,
sempre é levada a efeito quando o homem, de certa forma, se isola dos interesses comuns, não importa
que o seu resultado seja um objeto de artesanato ou de arte. No isolamento, o homem permanece em
contato com o mundo como obra humana; somente quando se destrói a forma mais elementar de
criatividade humana, que é a capacidade de acrescentar algo de si mesmo ao mundo ao redor, o
isolamento se torna inteiramente insuportável. Isso pode acontecer num mundo cujos principais valores
são ditados pelo trabalho, isto é, onde todas as atividades humanas se resumem em trabalhar. Nessas
condições, a única coisa que sobrevive é o mero esforço do trabalho, que é o esforço de se manter vivo, e
desaparece a relação com o mundo como criação do homem. O homem isolado que perdeu o seu lugar no
terreno político da ação é também abandonado pelo mundo das coisas, quando já não é reconhecido como
homo faber, mas tratado como animal laborans cujo necessário "metabolismo com a natureza" não é do
interesse de ninguém. É aí que o isolamento se torna solidão. A tirania baseada no isolamento geralmente
deixa intactas as capacidades produtivas do homem; mas uma tirania que governasse "trabalhadores",
como por exemplo o domínio sobre os escravos na Antiguidade, seria automaticamente um domínio de
homens solitários, não apenas isolados, e tenderia a ser totalitária.
Enquanto o isolamento se refere apenas ao terreno político da vida, a solidão se refere à vida humana
como um todo. O governo totalitário, como todas as tiranias, certamente não poderia existir sem destruir a
esfera da vida pública, isto é, sem destruir, através do isolamento dos homens, as suas capacidades
políticas. Mas o domínio totalitário como forma de governo é novo no sentido de que não se contenta com
esse isolamento, e destrói também a vida privada. Baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer
ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o homem pode ter.
A solidão, o fundamento para o terror, a essência do governo totalitário, e, para a ideologia ou a lógica, a
preparação de seus carrascos e vitimar, sem íntima ligação com o desarraigamento e a superfluidade que
atormentavam as massas modernas desde o começo da Revolução Industrial e se tornaram cruciais com o
surgimento do imperialismo no fim do século passado e o colapso das instituições políticas e tradições
sociais do nosso tempo. Não ter raízes significa não ter no mundo um lugar reconhecido e garantido pelos
outros; ser superfluido significa não pertencer ao mundo de forma alguma. O desarraigamento pode ser a
condição preliminar da superfluidade, tal como o isolamento pode (mas não deve) ser a condição
preliminar da solidão. Se a tomarmos em sua essência, sem atentar para as suas recentes causas históricas
e o seu novo papel na política, a solidão é, ao mesmo tempo, contrária às necessidades básicas da
condição humana e uma das experiências fundamentais de toda vida humana. Até mesmo a experiência
do mundo, que nos é dado material e sensorialmente, depende do nosso contato com os outros homens, do
nosso senso comum que regula e controla todos os outros sentidos, sem o qual cada um de nós
permaneceria enclausurado em sua própria particularidade de dados sensoriais, que, em si mesmos, são
traiçoeiros e indignos de fé. Somente por termos um senso comum, isto é, somente porque a terra é
habitada, não por um homem, mas por homens no plural, podemos confiar em nossa experiência sensorial
imediata. No entanto, basta que nos lembremos que um dia teremos de deixar este mundo comum, que
continuará como antes, e para cuja continuidade somos supérfluos, para que nos demos conta da solidão e
da experiência de sermos abandonados por tudo e por todos.
Solidão não é estar só. Quem está desacompanhado está só, enquanto a solidão se manifesta mais
nitidamente na companhia de outras pessoas. À parte algumas observações ocasionais — geralmente de
espírito paradoxal como a afirmação de Catão (relatada por Cícero, De re publica, I, 17): numquam mi
nus solum esse quam cum solus esset, "nunca ele esteve menos só do que quando estava sozinho", ou,
antes, "nunca ele esteve menos solitário do que quando estava a sós" — parece que foi Epicteto, o filósofo
escravo-forro de origem grega, o primeiro a distinguir entre solidão e ausência de companhia. De certa
forma, a sua descoberta foi acidental, uma vez que o seu principal interesse não era uma coisa nem outra,
mas o ser só (monos) no sentido de ser absolutamente independente. Na opinião de Epicteto
(Dissertationes, livro 3, capítulo 12), o homem solitário (éremos) vê-se rodeado por outros com os quais
não pode estabelecer contato e a cuja hostilidade está exposto. O homem só, ao contrário, está
desacompanhado e, portanto, "pode estar em companhia de si mesmo", já que os homens têm a
capacidade de "falar consigo mesmos". Em outras palavras, quando estou só, estou "comigo mesmo", em
companhia do meu próprio eu, e sou, portanto, dois-em-um; enquanto, na solidão sou realmente apenas
um, abandonado por todos os outros. A rigor, todo ato de pensar é feito quando se está a sós, e constitui
um diálogo entre eu e eu mesmo; mas esse diálogo dos dois-em-um não perde o contato com o mundo dos
meus semelhantes, pois que eles são representados no meu eu, com o qual estabeleço o diálogo do pensamento. O problema de estar a sós é que esses dois-em-um necessitam dos outros para
que voltem a ser um — um indivíduo imutável cuja identidade jamais pode ser confundida com a de
qualquer outro. Para a confirmação da minha identidade, dependo inteiramente de outras pessoas; e o
grande milagre salvador da companhia para os homens solitários é que os "integra" novamente; poupa-os
do diálogo do pensamento no qual permanecem sempre equívocos, e restabelece-lhes a identidade que
lhes permite falar com a voz única da pessoa impermutável.
Viver a sós pode levar à solidão; isso acontece quando, estando a sós, o meu próprio eu me abandona. Os
que vivem sozinhos sempre correm o risco de se tornarem solitários, quando já não podem alcançar a
graça redentora de uma companhia que os salve da dualidade, do equívoco e da dúvida. Historicamente,
parece que somente no século XIX esse risco se tornou suficientemente grande para ser notado e
registrado. Foi claramente percebido quando os filósofos, os únicos para os quais estar a sós é um meio de
vida e uma condição para o trabalho, já não se contentavam com o fato de que "a filosofia é apenas para
uns poucos", e puseram-se a insistir em que ninguém os "compreendia". A esse respeito, é típica a frase
de Hegel, em seu leito de morte, que não poderia aplicar-se a nenhum outro grande filósofo antes dele:
"Ninguém me compreendeu a não ser um homem; e, assim mesmo, me compreendeu mal". Inversamente,
existe sempre a possibilidade de que um homem solitário se encontre a si próprio e inicie o diálogo
pensado dos que estão a sós. Ê o que parece ter ocorrido com Nietzsche em Sils Maria, quando concebeu
Zarathustra. Em dois poemas ("Sils Maria" e "Aus Hohen Bergen"), ele nos descreve a expectacão vazia
e a ansiosa espera do homem solitário, até que, de repente, um Mittag wars, da wurde Eins zu
Zwei.../Nunfeiern wir, vereinten Siegs gewiss,/ das Fest der Feste;/FreundZarathustra kam, der Gast der
Gaste! ("Ao meio-dia, o Um tornou-se Dois... Certos de que venceremos unidos, celebramos a festa das
festas; chegou o amigo Zaratustra, o convidado dos convidados.")
O que torna a solidão tão insuportável é a perda do próprio eu, que pode realizar-se quando está a sós,
mas cuja identidade só é confirmada pela companhia confiante e fidedigna dos meus iguais. Nessa
situação, o homem perde a confiança em si mesmo como parceiro dos próprios pensamentos, e perde
aquela confiança elementar no mundo que é necessária para que se possam ter quaisquer experiências. O
eu e o mundo, a capacidade de pensar e de sentir, perdem-se ao mesmo tempo.
A única capacidade do espírito humano que não precisa do eu nem dos outros nem do mundo para
funcionar sem medo de errar, e que independe tanto da experiência como do pensamento, é a capacidade
do raciocínio lógico, cuja premissa é aquilo que é evidente por si mesmo. As regras elementares da
evidência irrefutável, o truísmo de que dois e dois são quatro, não podem se perverter mesmo na solidão
absoluta. É a única "verdade" segura em que os seres humanos podem apoiar-se quando perdem a
garantia mútua, que é o senso comum, de que necessitam para sentir, viver e encontrar o seu caminho
num mundo comum. Mas essa "verdade" é vazia ou, antes, não chega a ser verdade, uma vez revelada-revela. (Definir a verdade como coerência, como o fazem certos lógicos modernos, é
negar a existência da verdade.) Na solidão, portanto, o que é evidente por si mesmo já não é apenas um
instrumento do intelecto, e passa a ser produtivo, a desenvolver as suas próprias linhas de "pensamento".
Os processos do pensamento, caracterizados pela lógica exata e evidente por si mesma, da qual
aparentemente não há como escapar, têm algo a ver com a solidão; como observou certa vez Lutero (cuja
experiência dos fenômenos da solidão e da vida a sós provavelmente não foram suplantadas pelas de
ninguém, e que uma vez ousou dizer que "deve existir um Deus porque o homem precisa de um ser em
que possa confiar"), numa frase pouco conhecida acerca das palavras da Bíblia, "não é bom que os
homens estejam a sós". O homem solitário, diz Lutero, "sempre deduz uma coisa da outra e sempre pensa
o pior de tudo".'' O famoso extremismo dos movimentos totalitários, longe de se relacionar com o
verdadeiro radicalismo, consiste, na verdade, em "pensar o pior", nesse processo dedutivo que sempre
leva às piores conclusões possíveis.
O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não-totalitário é o fato de que a solidão,
que já foi uma experiência fronteiriça, sofrida geralmente em certas condições sociais marginais como a
velhice, passou a ser, em nosso século, a experiência diária de massas cada vez maiores. O impiedoso
processo no qual o totalitarismo engolfa e organiza as massas parece uma fuga suicida dessa realidade. O
"raciocínio frio como o gelo" e o "poderoso tentáculo" da dialética que nos "segura como um torno"
parecem ser o último apoio num mundo onde ninguém merece confiança e onde não se pode contar com
coisa alguma. Ê a coerção interna, cujo conteúdo único é a rigorosa evitação de contradições, que parece
confirmar a identidade de um homem independentemente de todo relacionamento com os outros. Prende-o no cinturão de ferro do terror mesmo quando ele está sozinho, e o domínio totalitário procura nunca
deixá-lo sozinho, a não ser na situação extrema da prisão solitária. Destruindo todo o espaço entre os
homens e pressionando-os uns contra os outros, destrói-se até mesmo o potencial produtivo do
isolamento; ensinando e glorificando o raciocínio lógico da solidão, onde o homem sabe que estará
completamente perdido se deixar fugir a primeira premissa que dá início a todo o processo, elimina-se até
mesmo a vaga possibilidade de que a solidão espiritual se transforme em solidão física, e a lógica se
transforme em pensamento. Quando comparamos esse método com o da tirania, parece-nos ter sido
encontrado um meio de imprimir movimento ao próprio deserto, um meio de desencadear uma
tempestade de areia que pode cobrir todas as partes do mundo habitado.
As condições em que hoje vivemos no terreno da política são realmente ameaçadas por essas
devastadoras tempestades de areia. O perigo não é que possam estabelecer um mundo permanente. O
domínio totalitário, como a tirania, traz em si o germe da sua própria destruição. Tal como o medo e a
impotência que vem do medo são princípios antipolíticos e levam os homens a uma situação contrária à ação
política, também a solidão e a dedução do pior por meio da lógica ideológica, que advém da solidão,
representam uma situação anti-social e contêm um princípio que pode destruir toda forma de vida humana
em comum. Não obstante, a solidão organizada é consideravelmente mais perigosa que a impotência
organizada de todos os que são dominados pela vontade tirânica e arbitrária de um só homem. É o seu
perigo que ameaça devastar o mundo que conhecemos — um mundo que, em toda parte, parece ter
chegado ao fim — antes que um novo começo, surgindo desse fim, tenha tido tempo de firmar-se.
À parte estas considerações — que, como predições, são de pouca valia e ainda menos consolo —,
permanece o fato de que a crise do nosso tempo e a sua principal experiência deram origem a uma forma
inteiramente nova de governo que, como potencialidade, como risco sempre presente, tende infelizmente
a ficar conosco de agora em diante, como ficaram, a despeito de derrotas passageiras, outras formas de
governo surgidas em diferentes momentos históricos e baseadas em experiências fundamentais —
monarquias, repúblicas, tiranias, ditaduras e despotismos.
Mas permanece também a verdade de que todo fim na história constitui necessariamente um novo
começo; esse começo é a promessa, a única "mensagem" que o fim pode produzir. O começo, antes de
tornar-se evento histórico, é a suprema capacidade do homem; politicamente, equivale à liberdade do
homem. Initium ut esset homo creatus est — "o homem foi criado para que houvesse um começo", disse
Agostinho.[4] Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós.
[4] De Civitate Dei, livro 12, capítulo 20.
Fim
continua página 510...
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Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 4. Ideologia e Terror: Uma nova forma de governo)
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