sexta-feira, 13 de março de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (30)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

30

— Ele se chama sr. Arthur, querida — corrigiu Atticus com delicadeza. — Jean Louise, esse é o Sr. Arthur Radley. Acho que ele já conhece você.

     Só Atticus para, num momento como aquele, me apresentar a Boo Radley— Atticus era assim mesmo.
     Boo me viu correr instintivamente para a cama onde Jem dormia, pois o mesmo sorriso tímido se insinuou no rosto dele. Vermelha de constrangimento, tentei disfarçar cobrindo Jem. 

— Ah-ah, não mexa nele — disse Atticus.

     O sr. Tate olhava fixamente para Boo com os óculos de aro de tartaruga. Ia dizer alguma coisa, quando ouvimos o dr. Reynolds vindo pelo corredor. 

— Saiam todos — disse, ao chegar à porta. — Boa noite, Arthur, não vi que você estava aí.

     A voz do médico era tão jovial quanto o andar, como se ele tivesse feito aquele cumprimento todas as noites da sua vida, o que me deixou ainda mais perplexa do que estar no mesmo cômodo que Boo Radley. Claro… até Boo Radley às vezes ficava doente, pensei. Mas, por outro lado, não tinha tanta certeza.
     O dr. Reynolds estava carregando um grande pacote enrolado em jornal. Colocou-o sobre a escrivaninha de Jem e tirou o paletó.

— Então, está convencida de que ele está vivo? Vou dizer como eu sabia. Quando fui examiná-lo ele reagiu com um chute. Precisei colocá-lo fora de combate para conseguir tocá-lo. Agora vá — ele disse para mim. 
Ah… — fez Atticus, olhando para Boo. — Heck, vamos para a varanda da frente. Lá tem cadeiras suficientes e ainda está fazendo calor.

     Fiquei pensando por que Atticus tinha nos convidado para ir para a varanda e não para a sala, então entendi: as luzes da sala eram muito fortes.
     Saímos em fila, primeiro o sr. Tate.... Atticus ficou esperando na porta para que passássemos na frente dele, mas mudou de ideia e foi atrás do sr. Tate.
     As pessoas têm a mania de manter as rotinas diárias até nas situações mais estranhas. Eu não era exceção. 

— Venha, sr. Arthur, sei que não conhece bem a casa. Vou levá-lo até a varanda — ouvi eu mesma dizer.

     Ele olhou para mim e concordou com a cabeça.
     Levei-o através do corredor e da sala de visitas. 

— Não quer sentar, sr. Arthur? Esta cadeira de balanço é muito confortável.

     Lembrei da minha pequena fantasia com ele: ele estaria sentado na varanda… “Que dias bonitos tem feito, não, sr. Arthur?” “Sim, muito bonitos.” Sentindo-me um pouco irreal, levei-o para a cadeira mais distante de Atticus e do sr. Tate. Ficava bem no escuro. Boo se sentiria melhor assim.
     Atticus estava sentado no balanço e o sr. Tate numa cadeira ao lado. A luz forte que vinha da janela da sala incidia sobre eles. Sentei-me ao lado de Boo. 

— Bom, Heck — Atticus estava dizendo. — Acho que o melhor a fazer é… Meu Deus, estou perdendo a memória… — Atticus empurrou os óculos para cima e apertou os olhos com as mãos. — Jem ainda não fez treze anos… não, ele já tem treze... Não me lembro. De todo jeito, o caso vai ter que ser apresentado ao tribunal… 
— Que caso, Sr. Finch? — o sr. Tate descruzou as pernas e se inclinou para a frente. 
— É claro que foi legítima defesa, mas tenho de ir ao escritório e procurar… 
— O senhor acha que foi Jem que matou Bob Ewell, sr. Finch? Acha mesmo? 
— Você ouviu o que Scout disse, não há dúvida. Ela disse que Jem se levantou e tirou Ewell de cima dela… Deve ter pego a faca de Ewell no escuro… Bem, saberemos amanhã. 
— Espere um momento, sr. Finch. Jem não esfaqueou Bob Ewell — disse o sr. Tate.

     Atticus ficou em silêncio por um instante. Olhou para o sr. Tate como se gostasse do que tinha ouvido. Mas balançou a cabeça. 

— Heck, é muita gentileza sua, e sei que está falando isso porque tem um bom coração, mas não faça isso.

     O sr. Tate se levantou e foi até a beira da varanda. Cuspiu nos arbustos, pôs as mãos nos bolsos e olhou para Atticus. 

— Não faça o quê? — perguntou o sr. Tate. 
— Desculpe se fui ríspido, Heck, mas esse caso não vai ser abafado. Não sou assim. 
— Ninguém vai abafar nada, sr. Finch.

     O sr. Tate falava calmamente, mas suas botas estavam tão solidamente plantadas nas tábuas da varanda que pareciam ter crescido ali. Havia uma curiosa disputa sendo travada entre meu pai e o xerife cuja natureza eu não conseguia saber. 
     Foi a vez de Atticus levantar-se e ir até a beira da varanda. Pigarreou e deu uma cuspida no jardim. Pôs as mãos nos bolsos e olhou para o sr. Tate. 

— Heck, você não disse nada, mas sei o que está pensando e agradeço. Jean Louise… — ele se virou para mim —, você disse que Jem tirou o sr. Ewell de cima de você? 
— Sim, senhor, foi o que pensei… Eu… 
— Está vendo, Heck? Agradeço do fundo do meu coração, mas não quero que meu filho comece a vida com um peso desses nas costas. O melhor é deixar tudo às claras. Deixar que os moradores do condado venham para assistir e tragam seus sanduíches. Não quero que ele cresça com gente cochichando pelas costas dele: “Jem Finch? O pai pagou uma nota para abafar a história.” Quanto antes acabarmos com isso, melhor. 
— Sr. Finch, Bob Ewell caiu em cima da faca. Ele se matou.

     Atticus foi até o canto da varanda e olhou as glicínias. Cada um a seu modo, pensei, um era tão teimoso quanto o outro. Não dava para saber quem ia entregar os pontos primeiro. A teimosia de Atticus era tranquila e raras vezes evidente, mas de certa maneira ele era tão cabeça-dura quanto os Cunningham. O sr. Tate era menos culto e mais direto, mas era igual ao meu pai. 

— Heck — Atticus estava de costas para nós —, se isso for abafado, vai contradizer tudo o que sempre ensinei a Jem. Às vezes acho que sou um completo fracasso como pai, mas sou tudo o que eles têm. Antes de olhar para qualquer pessoa, Jem olha para mim, e procuro viver de modo que eu possa olhar diretamente para ele… Se eu for conivente com uma coisa dessas, não poderei olhá-lo nos olhos, e no dia em que não puder fazer isso, vou perdê-lo. Não quero perder nem ele nem a Scout, porque eles são tudo o que eu tenho. 
— Sr. Finch — o sr. Tate continuava com os pés plantados no chão da varanda —, Bob Ewell caiu em cima da faca, posso provar.

     Atticus girou nos calcanhares. As mãos se enterraram ainda mais nos bolsos. 

— Heck, pode ao menos tentar ver as coisas do meu ponto de vista? Você também tem filhos, mas sou mais velho. Quando os meus crescerem, serei um homem velho, se é que chegarei lá, mas agora… se eles não confiarem em mim, não vão confiar em ninguém. Jem e Scout sabem o que aconteceu. Se eles souberem que eu disse outra coisa na cidade, Heck, vou perdê-los. Não posso ser uma pessoa na cidade e outra em casa.

     O sr. Tate balançou-se nos calcanhares e disse, paciente: 

— Ele derrubou Jem, tropeçou na raiz da árvore e veja… posso mostrar.

     O sr. Tate procurou no bolso do paletó e tirou um longo canivete. Nesse momento, o dr. Reynolds apareceu na porta. 

— O filho da… O morto está embaixo daquela árvore, doutor, no pátio da escola. Tem uma lanterna? Se não tem, é melhor levar esta. 
— Posso ir de carro e ligar os faróis — disse o dr. Reynolds, mas pegou a lanterna do sr. Tate. — Jem está bem, vai dormir até amanhã, acredito, portanto, não se preocupem. Foi essa faca que o matou, Heck? 
— Não, senhor, a faca ainda está enfiada nele. Pelo cabo, parece faca de cozinha. Ken deve estar chegando lá com o rabecão, doutor. Boa noite.

     O sr. Tate abriu o canivete e disse: 

— Foi assim.

     Ele empunhou o canivete e fingiu tropeçar; quando caiu, o braço esquerdo ficou na frente dele. 

— Está vendo? Ele se apunhalou e a faca entrou no espaço entre as costelas. O peso dele enterrou a faca no corpo.

     O sr. Tate fechou o canivete e guardou-o no bolso outra vez. 

— Scout tem oito anos, estava muito assustada para saber o que aconteceu exatamente — ele concluiu. 
— Você ficaria surpreso — disse Atticus, entredentes. 
— Não estou dizendo que ela inventou, só que estava assustada demais para saber o que aconteceu exatamente. Estava escuro como breu. Precisava ser alguém muito acostumado com o escuro para ser uma boa testemunha… 
— Não estou convencido — disse Atticus baixinho. 
Pelo amor de Deus, não estou pensando em Jem!

     O sr. Tate bateu com tanta força as botas no chão que as luzes do quarto da srta. Maudie se acenderam. As da srta. Stephanie Crawford também. Atticus e o sr. Tate olharam para o outro lado da rua, depois se entreolharam. Esperaram.
     Quando o sr. Tate voltou a falar, mal dava para ouvir a voz dele. 

— Sr. Finch, não gosto de discutir com o senhor no estado em que se encontra agora. Nenhum homem deveria passar pela tensão pela qual o senhor passou esta noite. Não sei como ainda não está de cama, mas sei que pela primeira vez não está conseguindo juntar dois mais dois e temos de resolver isso agora, porque amanhã será tarde demais. Bob Ewell tem uma faca de cozinha enfiada na barriga.

     O sr. Tate disse ainda que papai não ia insistir que um garoto do tamanho de Jem, com um braço quebrado, teria força para atacar e matar um homem adulto, na escuridão total. 

— Heck, você mostrou um canivete. Onde arrumou? — perguntou Atticus. 
— Tirei de um bêbado — respondeu o sr. Tate, calmo.

     Tentei me lembrar: o sr. Ewell estava em cima de mim… Ele caiu… Jem deve ter se levantado. Pelo menos foi o que pensei… 

— Heck? 
— Eu disse que peguei de um bêbado na cidade esta noite. Ewell deve ter encontrado aquela faca no lixão. Pegou e esperou uma oportunidade… só isso.

     Atticus foi até o balanço e sentou-se. As mãos ficaram caídas no meio das pernas. Olhava para o chão. Mexia-se com a mesma lentidão daquela noite na frente da cadeia, quando achei que ele levou uma eternidade para dobrar o jornal e colocá-lo na cadeira.
     O sr. Tate continuava andando pesado pela varanda. 

— A decisão não é sua, Finch, é minha. A decisão e a responsabilidade são minhas. Pela primeira vez, se não conseguir ver as coisas como eu, não poderá fazer nada. Se tentar, vou chamá-lo de mentiroso na sua cara. Seu filho não esfaqueou Bob Ewell — disse, devagar. — Longe disso, e agora o senhor sabe. Ele só queria chegar em casa em segurança com a irmã.

     O sr. Tate parou de andar. Ficou de frente para Atticus e de costas para nós. 

— Posso não ser o melhor dos homens, mas sou o xerife do condado de Maycomb. Moro aqui desde que nasci e já vou fazer quarenta e três anos. Sei de tudo que aconteceu aqui desde antes de eu nascer. Um rapaz negro foi morto sem motivo e o responsável por isso também está morto. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos desta vez, sr. Finch. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos.

     O sr. Tate foi até o balanço e pegou o chapéu que estava ao lado de Atticus. Puxou os cabelos para trás e pôs o chapéu na cabeça. 

— Não sabia que era contra a lei alguém fazer todo o possível para evitar que um crime seja cometido, e foi exatamente isso que ele fez. Talvez o senhor ache que tenho a obrigação de contar tudo para a cidade inteira e não abafar nada. Sabe o que vai acontecer então? Todas as senhoras da cidade, inclusive a minha mulher, vão bater na porta dele levando bolos. Eu acho, sr. Finch, que colocar holofotes sobre um homem tímido e recluso que prestou um grande serviço ao senhor e à cidade… é um erro. E não quero ter esse erro na minha consciência. Se fosse outro homem, seria diferente. Mas não esse, sr. Finch.

     O sr. Tate tentava cavar um buraco no piso com o salto da bota. Passou a mão no nariz depois massageou o braço esquerdo. 

— Posso não ser grande coisa, sr. Finch, mas continuo sendo o xerife do condado de Maycomb e Bob Ewell caiu em cima da faca. Boa noite, senhor.

     O sr. Tate saiu pisando forte pela varanda e atravessou o jardim. Bateu a porta do carro e foi embora.
     Atticus ficou olhando para o chão por um bom tempo. Finalmente, levantou a cabeça. 

— Scout, o sr. Ewell caiu em cima da faca, consegue entender isso? — perguntou.

     Tive a impressão de que Atticus precisava de ânimo. Fui até ele, e o abracei e o beijei com força. 

— Consigo, sim. O sr. Tate está certo — garanti.

     Atticus desvencilhou-se do abraço e me encarou. 

— O que você quer dizer com isso? 
— Bom, seria como matar um rouxinol, não?

     Atticus enfiou o rosto nos meus cabelos e acariciou-os. Quando se levantou e foi até a parte escura da varanda, seus passos joviais tinham voltado. Antes de entrar em casa, parou na frente de Boo Radley. 

— Obrigado pelo que fez pelos meus filhos, Arthur — disse.

continua página 197...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) / O Sol é para todos: 2ª Parte (30)   
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

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