sábado, 14 de março de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (a)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos


          Nos mares do Sul, entende-se por maná uma espécie de poder sobrenatural e impessoal, capaz de transferir-se de um ser humano para outro. Tal poder é altamente desejável, sendo possível aumentá-lo em indivíduos isolados. Um guerreiro valente pode adquiri-lo em grandes proporções. Devê-lo-á, porém, não a sua experiência em combate ou a seu vigor físico: tal poder transfere-se para ele na qualidade do maná do inimigo tombado.

Assim, nas ilhas Marquesas, um membro de uma tribo podia transformar-se num chefe guerreiro em função de sua valentia pessoal. Supunha-se que o guerreiro continha em seu corpo o maná de todos aqueles que havia matado. Seu próprio maná crescia proporcionalmente a sua valentia. Na imaginação dos nativos, no entanto, essa valentia era não a causa, mas o resultado de seu maná. A cada morte bem-sucedida, crescia também o maná de sua lança. O vitorioso numa luta homem a homem assumia o nome do inimigo tombado: esse era o sinal de que o poder do morto agora lhe pertencia. A fim de incorporar-lhe imediatamente o maná, o vitorioso comia-lhe a carne; e, a fim de, numa batalha, reter consigo esse crescimento de poder, a fim de assegurar-se dessa íntima relação com o maná capturado, carregava ainda consigo, como parte de seu equipamento de guerra, um resto mortal qualquer do inimigo derrotado — um osso, certa mão ressequida, por vezes até um crânio inteiro. 

     Não há expressão mais clara do efeito que a vitória provoca no sobrevivente. Tendo matado o outro, ele se fez mais forte, e esse aumento do maná o capacita para novas vitórias. Trata-se de uma espécie de bênção que arranca do inimigo, mas que só pode receber estando este já morto. A presença física do inimigo — vivo e morto — é imprescindível. É necessário que tenha havido luta e que se tenha matado; tudo depende do ato de matar. As partes do cadáver que o vitorioso carrega consigo — aquelas de que ele se assegura, as que incorpora e das quais se guarnece — lembram-no sempre do crescimento de seu poder. Graças a elas, ele se sente mais forte e desperta o pavor: cada novo inimigo que desafia estremece diante dele, com horror divisando na sua frente o seu próprio destino.
     A crença dos murngins da Terra de Arnhem, na Austrália, identifica uma relação mais pessoal, mas igualmente vantajosa, entre o matador e o morto. O espírito do morto penetra no corpo do matador, conferindo-lhe dupla força: ele se torna efetivamente maior. Pode-se supor que tal ganho atraia os jovens para a guerra. Cada um busca um inimigo para si, a fim de apoderar-se de sua força. Não obstante, tal propósito somente tem sucesso se o inimigo é morto durante a noite; ao longo do dia, a vítima vê seu matador, enraivecendo-se demasiado para penetrar-lhe o corpo.
     Esse processo da “penetração” foi já objeto de minuciosa descrição, e é tão notável que reproduzo a seguir uma boa parte dessa descrição.

Se, durante uma guerra, um homem matou outro, ele retorna para casa e não come nenhum alimento cozido até que a alma do morto se aproxime dele. Pode ouvi-la chegando, pois o cabo da lança pende ainda da ponta de pedra cravada no morto; o cabo arrasta-se pelo chão, batendo em arbustos e árvores e fazendo barulho quando o morto caminha. Estando o espírito já bastante próximo, o matador ouve sons provindos do ferimento do morto.
Pega, então, a lança, retira-lhe a ponta e coloca essa mesma extremidade entre o dedo grande e o seguinte do pé. A outra extremidade é recostada no ombro. A alma passa, então, pela ferida na qual se encontrava cravada a ponta da lança, sobe pela perna do matador e penetra-lhe o corpo. Caminha como uma formiga. Entra pelo estômago e o fecha. O homem sente náuseas e tem febre na barriga. Esfrega o próprio estômago e chama pelo nome daquele que matou. Isso o cura, e ele se sente bem novamente, pois o espírito deixa o estômago e adentra o coração. Uma vez no coração, o efeito que provoca é como se o sangue do morto estivesse agora no matador. É como se, antes de morrer, a vítima tivesse dado todo o seu sangue àquele que iria matá-la.
O matador, que se tornou maior e particularmente forte, adquire toda a energia vital que o morto possuía outrora. Quando sonha, a alma lhe diz que tem alimento para ele, apontando-lhe a direção onde encontrá-lo. “Lá embaixo, junto do rio”, diz ela, “encontrarás muitos cangurus”; ou: “Naquela velha árvore ali há um grande cacho de abelhas”; ou ainda: “Bem junto àquele banco de areia capturarás uma grande tartaruga com tua lança, e, na praia, encontrarás muitos ovos”.
O matador ouve com atenção e, passados alguns instantes, parte sorrateiramente do acampamento em direção à mata, onde encontra a alma do morto. Esta aproxima-se bastante dele e se deita. O matador se assusta e grita: “Quem é? Tem alguém aí?”. Volta-se, então, para o lugar onde estava o espírito do morto e encontra ali um canguru. Trata-se de um animal extraordinariamente pequeno. O matador o contempla e compreende o que aquilo significa: encontra-se exatamente no mesmo lugar onde ouvira os movimentos do espírito. Retira o suor da axila e o esfrega no braço. Ergue sua lança, grita o nome do morto e acerta o animal, que morre na hora, mas, ao morrer, cresce bastante. O matador tenta erguê-lo, mas descobre ser impossível fazê-lo, pois o animal cresceu muito. Deixa, então, a presa no chão e retorna ao acampamento, a fim de contar aos amigos o ocorrido. “Acabei de matar a alma do homem morto”, diz. “Não deixem que ninguém saiba disso: ele poderia enraivecer-se de novo.” Os amigos mais íntimos e parentes vão até lá com ele, para ajudá-lo a despelar o animal e prepará-lo como comida. Ao abri-lo, encontram gordura por toda parte, um petisco que consideram dos mais deliciosos. De início, pedaços bem pequenos são colocados no fogo. Saboreiam-nos cuidadosamente, e a carne tem sempre um sabor desagradável.
Em seguida, o animal inteiro é cozido, saboreando-se dele as partes mais apreciadas. O resto é trazido de volta ao acampamento principal. Os velhos o examinam: trata-se de um animal gigantesco. Postam-se todos à sua volta, e um deles pergunta:
     “Onde você o matou?”
     “Lá em cima, junto do rio.”
Os velhos decerto sabem que não se trata de uma presa comum, visto que há gordura por toda parte. Passados alguns instantes, um velho pergunta:
     “Você viu uma certa alma lá na mata?”
     “Não”, responde o jovem, mentindo.
Os velhos saboreiam a carne, mas seu gosto é diferente daquela de um canguru comum.
Balançam afirmativamente a cabeça e estalam as línguas: “É claro que você viu a alma do morto!”. 
 
     O sobrevivente obtém aí para si a força e o sangue de seu inimigo. Ele não é o único a avolumar-se; também sua presa faz-se mais gorda e maior. O proveito que retira do inimigo é pessoal e deveras imediato. Assim, o pensamento do jovem dirige-se desde muito cedo para a guerra. Como, porém, tudo se passa em segredo e durante a noite, bem pouco há aí em comum com a ideia tradicional do herói que conhecemos.
     O herói conforme o conhecemos, aquele que, destemido e sozinho, lança-se em meio aos inimigos, nós o encontramos nas ilhas Fidji. Uma lenda nos conta acerca de um menino que cresceu ao lado da mãe, sem conhecer o pai. Sob ameaças, ele a obriga a dizer-lhe o nome de seu pai. Tão logo ca sabendo que se trata do rei celestial, parte em busca dele. O pai decepciona-se com o lho, por este ser tão pequeno. Precisa de homens, não de meninos, pois encontra-se no meio de uma guerra. Os homens em torno do pai riem do menino, que, munido de um tacape, racha a cabeça de um dos que riam dele. Bastante encantado, o rei demanda-lhe que que.

Na manhã seguinte, bem cedo, os inimigos subiram até a cidade com seus gritos de guerra e gritaram: “Venha até nós, ó rei celestial, pois estamos famintos. Venha para fora, para que possamos comer”.
O menino, então, levantou-se e disse: “Que ninguém me siga. Fiquem todos na cidade!”. Tomou nas mãos o tacape que ele próprio fizera, lançou-se no meio dos inimigos e pôs-se a desferir raivosos golpes para todos os lados, à direita e à esquerda. A cada golpe matava um, até que, por fim, os inimigos fugiram dele. O menino sentou-se sobre um amontoado de cadáveres e gritou para sua gente na cidade: “Venham para fora e arrastem os mortos para longe!”. Saíram todos, cantaram seu canto fúnebre e arrastaram para longe os cadáveres dos 42 mortos, enquanto na cidade os tambores rufavam.
Por outras quatro vezes o menino derrotou os inimigos de seu pai, de modo que suas almas fizeram-se pequenas e eles vieram até o rei celestial com propostas de paz: “Tenha piedade de nós, ó senhor, e deixa-nos viver!”. Assim foi que o rei ficou sem inimigos, e sua soberania estendeu-se por todo o céu.

     Aqui, o menino enfrenta sozinho todos os inimigos; nenhum de seus golpes é em vão. Ao final, senta-se sobre um amontoado de cadáveres, tendo matado pessoalmente cada um daqueles sobre os quais se encontra sentado. Não se pense, porém, que isso se dá apenas na lenda. Em Fidji, há quatro substantivos distintos para designar os heróis. Koroi é o matador de um único homem. Koli chama-se aquele que matou dez; visa, o que matou vinte; e wangka, aquele que matou trinta. Um famoso chefe, autor de façanha ainda maior, era chamado koli-visa-wangka: fora o matador de dez + vinte + trinta, ou seja, de sessenta homens.
     As façanhas desses grandes heróis são, talvez, ainda mais imponentes do que as dos nossos, pois, após haverem matado seus inimigos, eles os comem também. Um chefe que nutra um ódio particular por alguém reserva se o direito de comê-lo sozinho, e dele realmente não dá um pedaço sequer a pessoa alguma.
     Todavia, o herói — poder-se-á objetar — não luta apenas contra seus inimigos. Nas lendas, sua principal área de atuação centra-se nos perigosos monstros dos quais ele liberta seu povo. Um monstro consome aos poucos um povo inteiro, e ninguém logra defender-se dele. Na melhor das hipóteses, chega-se a uma regulamentação do terror: tantos ou quantos homens ser-lhe-ão entregues anualmente, para que ele os devore. Então, o herói se apieda de seu povo, parte sozinho e abate com as próprias mãos, e sob grande perigo, o monstro. O povo fica-lhe grato; sua memória será fielmente preservada. Em sua invulnerabilidade, graças à qual ele salvou todos os demais, o herói aparece como uma figura de luz.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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