segunda-feira, 23 de março de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Primeira Reforma Agrária da América Latina (19)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     29. A Primeira Reforma Agrária da América Latina: Um século e meio de derrotas para José Artigas
          Com cargas de lança e golpes de facão foi que os despossuídos, ao despontar o século XIX, lutaram contra o poder espanhol nos campos da América. A independência não os recompensou: traiu as esperanças dos que tinham derramado seu sangue. Quando chegou a paz, com ela foi reaberto o tempo da infelicidade. Os donos da terra e os grandes mercadores aumentaram suas fortunas, enquanto aumentava a pobreza das massas populares.
     Ao mesmo tempo, e no ritmo dos novos donos da América Latina, os quatro vice-reinados do império espanhol saltaram em pedaços e múltiplos países nasceram como cacos da unidade nacional pulverizada. A ideia de “nação” que o patriciado latino-americano engendrou se parecia demais com a imagem de um porto ativo, habitado por uma clientela mercantil e financeira do império britânico, com latifúndios e socavões na retaguarda. A legião de parasitas que recebeu as notícias da independência dançando o minueto nos salões das cidades brindava pela liberdade de comércio com taças de cristal britânicas. Tornaram-se moda as mais altissonantes consignas republicanas da burguesia europeia: nossos países punham-se a serviço dos industriais ingleses e dos pensadores franceses. Mas que “burguesia nacional” era a nossa, formada pelos terras-tenentes, contrabandistas, mercadores, especuladores, politiqueiros de fraque e doutores desarraigados? A América Latina teve em seguida suas constituições burguesas, muito envernizadas de liberalismo, mas não teve, em troca, uma burguesia criativa, no estilo europeu ou norte-americano, que assumisse como missão histórica o desenvolvimento de um capitalismo nacional pujante. As burguesias destas terras nasceram como simples instrumentos do capitalismo internacional, prósperas peças da engrenagem mundial que sangrava as colônias e as semicolônias. Os burgueses de vitrine, usurários e comerciantes, que arrebataram o poder político, não tinham o menor interesse em impulsionar a ascensão das manufaturas locais, mortas no ovo quando o livre-câmbio abriu as portas para a avalanche de mercadorias britânicas. Por sua vez seus sócios, os donos de terras, não estavam interessados em resolver a “questão agrária”, a não ser na medida de suas próprias conveniências. O latifúndio se consolidou sobre a espoliação, tudo ao longo do século XIX. A reforma agrária, na região, foi uma bandeira precoce.
     Frustração econômica, frustração social, frustração nacional: uma história de traições seguiu-se à independência, e a América Latina, despedaçada por suas novas fronteiras, continuou condenada à monocultura e à dependência. Em 1824, Simón Bolívar expediu o Decreto de Trujillo para proteger os índios do Peru e reordenar ali o sistema da propriedade agrária: suas disposições legais em absoluto não afetaram os privilégios da oligarquia peruana, que a despeito dos bons propósitos do Libertador permaneceram intatos, e os índios continuaram tão explorados como sempre. No México, Hidalgo e Morelos já tinham sido derrotados, e decorreria ainda um século antes que rebrotassem os frutos de suas prédicas em favor da emancipação dos humildes e da reconquista das terras usurpadas.
     No sul, José Artigas encarnou a revolução agrária. Esse caudilho, com tanta fúria caluniado e tão desfigurado pela história oficial, liderou as massas populares dos territórios hoje ocupados pelo Uruguai e as províncias argentinas de Santa Fe, Corrientes, Entre Ríos, Misiones e Córdoba, no ciclo heroico de 1811 a 1820. Artigas quis lançar as bases econômicas, sociais e políticas de uma Pátria Grande nos limites do antigo Vice-Reinado do Rio da Prata, e foi o mais importante e lúcido dos chefes federais que lutaram contra o capitalismo aniquilador do porto de Buenos Aires. Lutou contra os espanhóis e contra os portugueses, e finalmente suas forças foram trituradas pelo jogo de pinças do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, instrumentos do império britânico, e pela oligarquia que, fiel ao seu estilo, traiu-o tão logo se sentiu traída pelo programa de reivindicações sociais do caudilho.
     Seguiam Artigas, lança na mão, os patriotas. Em sua maioria eram camponeses pobres, gaúchos rudes, índios que recuperavam na luta o sentido da dignidade, escravos que ganhavam a liberdade incorporando-se ao exército da independência. A revolução dos cavaleiros pastores incendiava a pradaria. A traição de Buenos Aires, que em 1811 deixara nas mãos do poder espanhol e das tropas portuguesas o território hoje ocupado pelo Uruguai, provocou o êxodo maciço da população para o norte. O povo em armas fez-se povo em marcha; homens e mulheres, velhos e crianças, abandonavam tudo no rastro do caudilho, uma caravana de peregrinos sem fim. No norte, junto do rio Uruguai, acampou Artigas com a cavalhada e as carroças, e no norte, pouco depois, estabelecia seu governo. Em 1815, Artigas controlava várias comarcas de seu acampamento de Purificación, em Paysandú. “Que acham que eu vi?”, narrava um viajante inglês [1]. “O Excelentíssimo Senhor Protetor de metade do Novo Mundo estava sentado numa cabeça de boi, junto de um fogo aceso no embarrado piso de seu rancho, comendo carne de espeto e bebendo gim num chifre de vaca! Rodeava-o uma dúzia de oficiais andrajosos (...)”. De todas as partes chegavam a galope soldados, ajudantes e exploradores. Caminhando com as mãos às costas, Artigas ditava os decretos revolucionários de seu governo. Dois secretários (não existia papel-carbono) tomavam nota. Assim nasceu a primeira reforma agrária da América Latina, que seria aplicada durante um ano na “Província Oriental”, hoje Uruguai, e que seria feita em pedaços por uma nova invasão portuguesa, quando a oligarquia abriu as portas de Montevidéu para o general Lecor, saudou-o como um libertador e o conduziu sob um pálio para um solene te déum – honra ao invasor – nos altares da catedral. Anteriormente, Artigas tinha promulgado também um regulamento alfandegário que fixava um oneroso imposto para mercadorias estrangeiras que concorressem com produtos das manufaturas e artesanatos locais, de considerável desenvolvimento em algumas regiões hoje argentinas e então compreendidas nos domínios do caudilho, ao mesmo tempo em que liberava a importação de bens de produção necessários ao desenvolvimento econômico e estipulava um gravame insignificante para os artigos americanos, como a erva e o tabaco do Paraguai [2]. Os coveiros da revolução também enterrariam o regulamento alfandegário. O código agrário de 1815 – terra livre, homens livres foi “a mais avançada e gloriosa constituição” [3] entre todas que os uruguaios chegariam a conhecer. As ideias de Campomanes e Jovellanos no ciclo reformista de Carlos III seguramente influenciaram o regulamento de Artigas, mas esse diploma, não menos seguramente, surgiu como uma resposta revolucionária à necessidade nacional de recuperação econômica e de justiça social. Decretava-se a expropriação e a partilha das terras dos “maus europeus e piores americanos” emigrados por causa da revolução e não indultados por ela. Confiscava-se a terra dos inimigos sem qualquer indenização, e aos inimigos pertencia, dado importante, a imensa maioria dos latifúndios. Os filhos não pagavam pela culpa dos pais: o regulamento lhes oferecia o mesmo que recebiam os patriotas pobres. As terras eram partilhadas de acordo com o princípio de que “os mais infelizes seriam os mais privilegiados”. Na concepção de Artigas, tinham os índios “o principal direito”. O sentido essencial dessa reforma agrária consistia na fixação dos pobres do campo à terra, convertendo em camponês o gaúcho acostumado à vida errante da guerra, às empresas clandestinas e ao contrabando em tempos de paz. Os governos posteriores na bacia do Prata vão abater o gaúcho a sangue e fogo, incorporando-o à força nas peonadas das grandes estâncias, ao passo que Artigas queria torná-lo um proprietário: “Os gaúchos alçados começavam a gostar do trabalho honrado, levantavam ranchos e mangueiras, plantavam suas primeiras sementeiras” [4].
     A intervenção estrangeira terminou com tudo. A oligarquia ergueu a cabeça e se vingou. Em seguida a legislação passou a desconhecer a validade das doações de terra feitas por Artigas. De 1820 até fins do século foram desalojados, a tiros, os patriotas pobres que tinham sido beneficiados pela reforma agrária. Não conservariam “outra terra além de suas tumbas”. Derrotado, Artigas se retirou para o Paraguai, para morrer tão só ao cabo de um longo exílio de austeridade e silêncio. Os títulos de propriedade que expediu não valiam nada: o fiscal do governo Bernardo Bustamante dizia, por exemplo, que se notava à primeira vista “a precariedade que caracteriza os indicados documentos”. Entrementes, seu governo se aprestava a celebrar, já restaurada a “ordem”, a primeira constituição do Uruguai independente, separado da pátria grande pela qual Artigas havia lutado em vão.
     O regulamento de 1815 continha disposições para evitar o acúmulo de terras em poucas mãos. Em nossos dias, o campo uruguaio oferece o espetáculo de um deserto: 500 famílias monopolizam a metade da terra total e constelação do poder – controlam também três quartas partes do capital investido na indústria e no sistema bancário [5]. Os projetos de reforma agrária se acumulam, uns sobre os outros, no cemitério parlamentar, enquanto o campo se despovoa: desempregados se somam a desempregados e há cada vez menos pessoas dedicadas às atividades agropecuárias, segundo o dramático registro de sucessivos censos. O país vive da lã e da carne, mas em seus campos, hoje, pastam menos ovelhas e reses do que no princípio do século. O atraso dos métodos de produção reflete-se nos baixos rendimentos da pecuária – sujeita à ação de touros e carneiros na primavera, às chuvas periódicas e à fertilidade natural do solo – e também na fraca produtividade das culturas agrícolas. A produção de carne por animal não chega nem à metade do que obtêm França ou Alemanha, e outro tanto ocorre com o leite em comparação com a Nova Zelândia, Dinamarca e Holanda; cada ovelha rende um quilo de lã a menos do que na Austrália. O rendimento do trigo por hectare é três vezes menor do que o da França, e no milho o rendimento dos Estados Unidos é sete vezes maior do que o do Uruguai [6]. Os grandes proprietários, que encaminham seus lucros para o exterior, passam seus verões em Punta del Este, e tampouco no inverno, de acordo com suas próprias tradições, moram em suas terras e só de vez em quando as visitam em seus aviões: há um século, quando foi fundada a Associação Rural, duas terças partes de seus membros tinham já seus domicílios na capital. A produção extensiva, obra da natureza e de peões famélicos, não implica maiores dores de cabeça.
     E seguramente dá lucro. As rendas e os lucros dos capitalistas pecuários, na atualidade, somam não menos de 75 milhões de dólares [7]. Os rendimentos produtivos são baixos, mas os benefícios são altos, por causa dos baixíssimos custos. Terra sem homens, homens sem terra: os maiores latifúndios empregam – e não no ano todo apenas duas pessoas por cada mil hectares. Nos rancherios à margem das estâncias se acumulam, miseravelmente, as reservas sempre disponíveis de mão de obra. O gaúcho das estampas folclóricas, tema de pinturas e poemas, têm pouco a ver com o peão que trabalha em extensas e alheias terras. As alpargatas desfiadas tomaram o lugar das botas de couro; um cinto comum, ou às vezes uma simples corda, substituiu o largo cinturão com enfeites de ouro e prata. Quem produz a carne perdeu o direito de comê-la: os criollos raramente têm acesso ao típico assado criollo, a carne suculenta e macia a dourar nas brasas. Embora as estatísticas internacionais sorriam exibindo médias enganosas, a verdade é que o ensopado, guisado de macarrão e tripas de capão, constitui a dieta básica, carente de proteínas, dos camponeses do Uruguai [8].

continua na página 197...
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[1] ROBERTSON, J. P. e G. P. La Argentina en la época de la revolución. Cartas sobre el Paraguay. Buenos Aires, 1920.
[2] REYES ABADIE, Washington, BRUSCHERA, Óscar & MELOGNO, Tabaré. El ciclo artiguista. Montevideo, 1968. t.4.
[3] TORRE, Nelson de la, RODRÍGUEZ, Julio C. & TOURON, Lucía Sala de. Artigas: TIERRA Y REVOLUCIÓN. Montevideo, 1967.
[4] TORRES, RODRÍGUEZ & TOURON, op. cit. Dos mesmos autores: Evolución económica de la Banda Oriental. Montevideo, 1967, e Estructura económico social de la colonia. Montevideo, 1968.
[5] TRIAS, Vivian. Reforma agraria en el Uruguay. Montevideo, 1962. Este livro constitui todo um prontuário, família por família, da oligarquia uruguaia
[6] GALEANO, Eduardo. “Uruguay: promise and betrayal”. In: Latin America: reform or revolution? Ed. J. Petras & M. Zeitlin. New York, 1968.
[7] INSTITUTO DE ECONOMÍA. El proceso económico del Uruguay. Contribución al estudio de su evolución y perspectivas. Montevideo, 1969. Na época do auge da indústria nacional, fortemente subsidiada e protegida pelo Estado, boa parte dos lucros do campo derivou para as fábricas que nasciam. Quando a indústria entrou em seu agônico ciclo de crises, os excedentes de capital da pecuária tomaram outras direções. As mais inúteis e luxuosas mansões de Punta del Este brotaram da desgraça nacional; a especulação financeira desencadeou, depois, a febre dos pescadores no revolto rio da inflação. No entanto, os capitais principalmente fugiram: os capitais e os lucros que, ano após ano, o país produz. Entre 1962 e 1966, segundo dados oficiais, 250 milhões de dólares voaram do Uruguai rumo aos seguros bancos da Suíça e dos Estados Unidos. Também os homens, os homens jovens, há vinte anos vieram do campo para a cidade oferecer seus braços à indústria em desenvolvimento e hoje partem, por terra e por mar, para o estrangeiro. É claro que seus destinos são diferentes. Os capitais são recebidos de braços abertos; quanto aos peregrinos, enfrentam uma vida dura o desenraizamento e as intempéries, a incerteza da aventura. O Uruguai de 1970, estremecido por uma crise feroz, já não é o mitológico oásis de paz e progresso que era prometido aos imigrantes europeus, mas um país turbulento que condena ao êxodo seus próprios habitantes. Produz violência e exporta homens tão naturalmente como produz e exporta carne e lã.
[8] WETTSTEIN, German & RUDOLF, Juan. La sociedad rural. In: coleção Nuestra Tierra (16), Montevideo, 1969.
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Primeira Reforma Agrária da América Latina (19)

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