A Montanha Mágica
Capítulo VII
O trovão
Sete anos passou Hans Castorp com a gente ali de cima. Não é um número redondo ao
gosto dos partidários do sistema decimal, é todavia um número bom, prático à sua maneira; um
lapso de tempo com um cunho mítico e pitoresco, não há negá-lo, e mais satisfatório para a alma
do que, por exemplo, uma árida meia dúzia. Comera ele em cada uma das sete mesas da sala de
refeições, aproximadamente um ano em cada lugar. Por último achava-se à mesa dos “russos
ordinários”, junto com dois armênios, dois fineses, um bucarense e um curdo. Achava-se ali,
arvorando uma barbicha que deixara crescer nesse meio tempo, um cavanhaquezinho louro como
o trigo, de forma indefinível, cuja existência devemos considerar como a expressão de certa
indiferença filosófica quanto à sua apresentação. Temos até de ir mais longe, relacionando a ideia
de uma tendência particular para descuidar-se de si próprio, com uma tendência análoga que o
mundo exterior manifestava no que se referia a ele. As autoridades haviam cessado de inventar
novas diversões para a sua pessoa. Verdade é que o conselheiro continuava a perguntar-lhe todas
as manhãs se havia dormido bem. Mas, exceção feita dessa pergunta retórica, de caráter coletivo,
só raras vezes lhe dirigia a palavra, e Adriática von Mylendonk – que na época de que tratamos
andava com um terçol totalmente maduro – já não falava com ele nem sequer de vez em quando.
Deixavam-no em paz, pouco mais ou menos como se faz com um aluno que goza do estado
singularmente feliz de já não ser examinado nem ter necessidade de trabalhar, porque a “bomba”
é um fato consumado e ninguém mais se preocupa com ele; um tipo orgiástico de liberdade –
digamos isso de passagem, perguntando-nos se a liberdade pode jamais ter outra natureza que
não precisamente esta. Fosse como fosse, Hans Castorp constituía um caso pelo qual as
autoridades já não precisariam velar, visto ser certo que no seu peito nunca mais evoluiriam
decisões indisciplinadas, subversivas. Era um paciente garantido, definitivo, que desde muito
tempo cessara de saber para onde mais poderia ir e se tornara completamente incapaz de sequer
ventilar a ideia do regresso à planície... Não se demonstrava um certo descuido com respeito à
sua pessoa no simples fato de o terem transferido para a mesa dos “russos ordinários”? Com isso
nada, absolutamente nada queremos dizer contra a chamada mesa dos “russos ordinários”. Não
havia entre as sete mesas vantagens ou desvantagens manifestas. Era uma democracia de mesas
de honra, para empregar uma metáfora audaciosa. A mesma comida superabundante era servida
nessa mesa como em todas as demais. O próprio Radamanto jantava ali às vezes, conforme o
turno, as manzorras gigantescas diante do seu prato, e os povos que em torno dela tomavam as
refeições eram honrados membros da humanidade, se bem que não entendessem latim e não
comessem com gestos excessivamente elegantes.
O tempo – mas não aquele que marcam os relógios de estação, cujo ponteiro grande dá
saltos bruscos, de cinco em cinco minutos, senão o indicado por relógios pequeninos, cujo
movimento de agulhas permanece imperceptível, ou o tempo que a relva leva para crescer, sem
que nenhum olho o perceba, apesar de ela fazê-lo constantemente, o que um belo dia se torna um
fato inegável; o tempo, uma linha composta de um sem-número de pontos sem extensão – o
malogrado Naphta perguntaria provavelmente como coisas desprovidas de extensão conseguem
produzir uma linha –, o tempo, à sua maneira silenciosa, imperceptível, secreta e contudo ativa,
havia continuado a trazer consigo transformações. O pequeno Teddy, para citar apenas um
exemplo, deixara um dia – o que, naturalmente, não significa um dia determinado, senão uma
época cujo começo é vago – de ser pequeno. As senhoras já não podiam sentá-lo no colo, nas
ocasiões em que se levantava, trocava o pijama por uma roupa esporte e descia para ir ter com
elas. Insensivelmente mudara a situação; agora era ele quem as sentava no seu colo, e isso
produzia a ambas as partes o mesmo prazer, ou talvez ainda mais. Tornara-se adolescente; não
queremos dizer que tivesse desabrochado, mas pelo menos espigara depressa. Hans Castorp não
o notara, porém agora notou-o. Nem o tempo nem o espigamento trouxeram proveito ao
adolescente Teddy, que não era talhado para eles. A vida temporal não lhe fez bem. Aos vinte e
um anos sucumbiu à enfermidade, para a qual se mostrara predisposto, e o seu quarto foi
desinfetado. Contamos a sua história em voz calma, já que não houve grande diferença entre o
novo estado e o antigo.
Houve, entretanto, óbitos mais importantes, óbitos na planície que interessavam mais ao
nosso herói ou, ao menos, o teriam feito em outras épocas. Pensamos no passamento recente do
velho Cônsul Tienappel, tio-avô e pai de criação de Hans, de remota lembrança. Evitando
cuidadosamente expor-se a condições atmosféricas pouco saudáveis, deixara ele a tio James a
oportunidade de tornar-se ridículo. Mesmo assim não lograra esquivar-se indefinidamente à
apoplexia, e a notícia do seu finamento, transmitida num telegrama lacônico, porém redigido em
termos delicados e cautelosos – em consideração ao defunto antes do que ao destinatário da
mensagem –, essa notícia subiu um belo dia até a excelente espreguiçadeira de Hans Castorp.
Depois de recebê-la, o jovem comprou papel tarjado de preto e escreveu aos tios-primos que ele,
órfão de pai e mãe, tinha de considerar-se órfão pela terceira vez e sentia-se ainda mais aflito
porque as circunstâncias não lhe permitiam e até lhe vedavam estritamente interromper a sua
estada nessas alturas para acompanhar o tio-avô à sua última morada.
Falar em luto seria exagerar as coisas. Contudo, mostravam os olhos de Hans Castorp,
naqueles dias, expressão mais pensativa do que em geral. Essa morte, cujo efeito sentimental em
época alguma teria sido grande e pelos aventurosos anos de separação quase chegara a ser nulo,
significava sem embargo a ruptura de mais um laço, de mais uma relação que o ligava à esfera lá
de baixo e completava aquilo que Hans Castorp, com razão, chamava de liberdade. Com efeito,
nessa fase final a que nos referimos, estava totalmente interrompido o contato entre ele e a
planície. Não escrevia cartas nem as recebia. Já não mandava vir os Maria Mancini. Encontrara ali
em cima uma marca que lhe agradava, e à qual demonstrava a mesma fidelidade que àquela amiga
de tempos passados. Era um produto que teria ajudado um explorador polar a suportar as piores
privações no gelo eterno. Dispondo dele, podia-se ficar estendido como na praia e aguentar tudo
quanto sucedesse. Tratava-se de um charuto especialmente bem-acabado, de nome Rütlischwur,
um pouco mais grosso do que o Maria, de cor cinzenta como a do camundongo, com um anel
azulado em torno, e que tinha caráter muito dócil e suave; ao consumir-se, convertia-se numa
cinza branca que guardava a forma originária, na qual se salientavam as nervuras do invólucro.
Esse processo realizava-se com tamanha regularidade, que o fumante podia servir-se do charuto
em lugar de uma ampulheta, o que Hans Castorp realmente fazia, em caso de necessidade, pois
deixara de usar o relógio de bolso. Este já não trabalhava. Certo dia caíra da mesinha de
cabeceira, e Hans Castorp não tratara de mandar consertá-lo, para que reassumisse aquela
cadenciada marcha circular, pela mesma razão por que havia muito renunciara a recorrer à
folhinha, quer arrancando diariamente a folha, quer se informando de antemão acerca de certos
dias ou festas. Agia assim em prol da “liberdade”, em homenagem ao “passeio pela praia”, a esse
“sempre” constante e imóvel, ao feitiço hermético para o qual o jovem arrebatado a essas alturas
se mostrara predisposto e que fora a aventura fundamental do seu espírito, aquela em cujo curso
se haviam desenrolado todas as aventuras alquimísticas dessa singela matéria.
Assim o jovem deixou-se estar, e assim o ano completou mais uma vez o seu ciclo, em
pleno verão, época da sua chegada; era a sétima vez, mas o nosso herói não se deu conta do fato.
Foi quando estrondeou...
Mas a reserva e o pudor impedem-nos de empregar termos exagerados ao contar o que
então ressoou e sucedeu. Justamente nesse ponto não cabem nem bravatas nem fanfarrices.
Abafemos a voz para comunicar que de fato estrondeou aquele trovão, de que todo mundo tem
conhecimento, a ensurdecedora detonação da sinistra mistura de tédio e de irritação de há muito
acumulados; um trovão histórico – seja dito com discreta reverência – que abalou os alicerces da
terra, e, para nós, o trovão que fez explodir a montanha mágica e arremessou o nosso
dorminhoco brutalmente diante das portas. Estupefato, o jovem se acha sentado na relva e
esfrega os olhos, como faz quem se omitiu, em que pesem numerosas admoestações, de ler os
jornais.
Seu amigo e mentor do Mediterrâneo sempre procurara remediar esse mal e se esforçara
por informar o filho enfermiço dos seus esforços pedagógicos em grandes linhas a respeito
daquilo que acontecia lá embaixo. Mas encontrara ouvidos moucos por parte de um discípulo
que, ao “reinar”, imaginava, na verdade, isto ou aquilo das sombras espirituais das coisas, mas não
se preocupava com as próprias coisas, devido a uma tendência arrogante para tomar as sombras
pelas coisas e para ver nestas apenas sombras. E não devemos censurá-lo severamente por causa
disso, visto a relação entre sombras e coisas não estar definitivamente esclarecida.
Outrora, o Sr. Settembrini enchia o ambiente de repentina clareza, sentava-se à beira da
cama do jovem e empenhava-se em exercer sobre ele uma influência corretiva em assuntos da
vida e da morte. Agora já não era assim. Agora era Hans Castorp quem sentava, com as mãos
entre os joelhos, à beira da cama do humanista, no pequeno cubículo, ou ao pé do divã onde
Settembrini repousava de dia, no simpático gabinete do sótão, com as cadeiras do carbonário e
com a garrafa de água. Fazia companhia ao italiano e escutava cortesmente seus comentários
sobre a situação mundial. Haviam-se tornado raras as ocasiões em que o Sr. Lodovico se achava
de pé. Para a natureza sensível do humanista, o fim cruento de Naphta, essa façanha terrorista do
disputante sagaz e desesperado, tinha sido um choque violento do qual não conseguia refazer-se.
Desde então sentia-se muito fraco e decrépito. Sua colaboração na Patologia sociológica estava
interrompida. O dicionário de todas as obras beletrísticas relativas ao sofrimento humano deixara
de progredir, e aquela liga esperava em vão pelo respectivo tomo da sua enciclopédia. O Sr.
Settembrini via-se forçado a limitar à palavra falada as suas contribuições para a organização do
progresso, e precisamente para esse fim lhe ofereciam as visitas amistosas de Hans Castorp uma
oportunidade de que, sem elas, teria sentido falta.
Embora em voz débil, dizia muitas coisas formosas que lhe vinham do coração. Falava sobre o aperfeiçoamento social que a própria humanidade devia realizar. Seu discurso avançava como sobre pés de pomba, mas quando chegava a tratar de assuntos como o da união dos povos liberados em prol da felicidade geral, ressoava logo nas suas palavras, sem que ele mesmo o quisesse ou soubesse, o rumor de asas de águia. A causa disso era sem dúvida a política, a herança do avô, que, unindo-se à herança humanística do pai, formava na alma de Lodovico o ideal das belas-letras, exatamente como a humanidade e a política se uniam no ideal sublime da civilização, essa ideia mansa como as pombas e denodada como as águias, que aguardava o dia de tornar-se realidade, a manhã dos povos em que o princípio da reação caísse derrotado e se efetuasse a santa aliança da democracia burguesa... Contudo, havia nesse ponto algumas desarmonias. O Sr. Settembrini era humanitário, mas, ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, era quase explicitamente belicoso. Por ocasião do duelo com o sanguinário Naphta comportara-se humanamente; porém, em assuntos de maior importância, em que o espírito humano se aliava com entusiasmo à política, para gerar o ideal triunfante e dominador da civilização, e onde se glorificava o cidadão no altar da humanidade, tornava-se duvidoso saber se o Sr. Settembrini, objetivamente falando, desejava ou não evitar que sua mão derramasse sangue. E a situação íntima tinha por consequência que na sua bela alma o elemento do denodo aquilino se impusesse cada vez mais à brandura columbina. Frequentemente, a sua atitude em face das grandes constelações do mundo era
contraditória, acossada de escrúpulos e perturbada por embaraços. Recentemente, fazia apenas
ano e meio ou dois anos, a cooperação diplomática do seu país com a Áustria, na questão da
Albânia, enchera de desassossego as suas explanações; essa cooperação que o satisfazia por ser
dirigida contra a Semi-Ásia antilatina, contra o cnute e contra Schlüsselburg, ao mesmo tempo o
atormentava por ser a mésalliance com o inimigo hereditário, com o princípio da reação e do
avassalamento dos povos. No outono passado, o grande empréstimo que a França fizera à Rússia
para a construção de uma vasta rede ferroviária na Polônia despertara nele sentimentos
igualmente heterogêneos; ora, o Sr. Settembrini pertencia ao partido francófilo da sua terra, o que
não nos deve admirar se nos lembrarmos que o avô comparara os dias da Revolução de Julho aos
da criação do universo; e, no entanto, o acordo entre a república iluminada e o bizantinismo
cítico deixava-o com dúvidas morais e lhe oprimia o peito. Mas também essa angústia não tardava
em converter-se em esperança e alegria que lhe aceleravam a respiração, sempre que se recordava
do significado estratégico dessas vias férreas. Então teve lugar o atentado contra o príncipe
herdeiro, que para todos, exceção feita de alguns dorminhocos alemães, constituía um sinal de
tempestade, um aviso aos iniciados, entre os quais temos toda a razão de incluir o Sr. Settembrini.
Hans Castorp, na verdade, viu-o horrorizar-se como indivíduo diante desse ato terrorista, mas
observou como o peito do humanista vibrava com o pensamento de que se tratava de uma
façanha libertadora, brotada do seio de uma nação e dirigida contra a cidadela que ele mais
odiava, posto que, ao mesmo tempo, tivesse de considerar esse feito como fruto de atividades
moscovitas, o que o inquietava, porém não impedia de qualificar de insulto a humanidade e de
crime hediondo o ultimato que a monarquia, três semanas mais tarde, endereçou à Sérvia. Assim
agia em face das consequências que previa como conhecedor do assunto, e com as quais se
regozijava, a ponto de respirar mais depressa de tanta exaltação...
Numa palavra, os sentimentos do Sr. Settembrini eram tão complexos quanto a fatalidade
que ele via precipitar-se com imensa rapidez, e para a qual procurava por meio de palavras
veladas preparar o seu discípulo, se bem que uma espécie de cortesia e de compaixão nacional o
impedisse de falar sem rebuços a esse respeito. Nos dias das primeiras mobilizações e da primeira
declaração de guerra adquirira o hábito de estender ambas as mãos ao visitante e de apertar as do
nosso jovem simplório, como se lhe quisesse falar, senão ao cérebro, pelo menos ao coração. –
Meu amigo! – dizia o italiano. – A pólvora e a imprensa, sim, é incontestável que foram
inventadas por vocês. Mas se o senhor pensa que nós marcharemos contra a Revolução... Caro...
Durante os dias de expectativa, os dias mais carregados de eletricidade, enquanto os
nervos da Europa se achavam num verdadeiro leito de Procusto, Hans Castorp não foi ter com o
Sr. Settembrini. Os jornais cheios de horrores chegavam agora diretamente da planície ao seu
compartimento de sacada, empestando com o seu cheiro de enxofre a sala de refeições e mesmo
os quartos dos doentes graves ou moribundos. Referimo-nos àqueles momentos em que o
dorminhoco, sem saber o que lhe acontecera, se soerguia lentamente na relva, antes de sentar-se e
de esfregar os olhos... Desenvolvamos essa imagem para analisar devidamente o que se passava
no seu espírito. Encolheu-se, levantou-se e olhou em torno. Viu-se desencantado, redimido, livre – não pelo seu próprio esforço, como teve de confessar a si mesmo, envergonhado, senão
expulso por forças elementares, exteriores, para as quais a libertação do nosso herói era um efeito
completamente secundário. Mas, embora o seu pequeno destino se perdesse no destino geral, não
se expressavam, contudo, nesse fato certa bondade e justiça que o miravam pessoalmente e
portanto eram de origem divina? Se a vida uma vez mais acolhia o seu pecaminoso filho
enfermiço, não podia fazê-lo por um preço barato, mas somente dessa forma grave e severa,
impondo-lhe uma prova que para ele, o pecador, talvez não significasse a vida, mas justamente
nesse caso extremo equivaleria a três salvas fúnebres. E assim Hans Castorp se pôs de joelhos,
erguendo o rosto e as mãos ao céu, que estava sombrio, sulfurino, mas já não era o teto da gruta
da montanha dos pecados.
Foi nessa posição que o encontrou o Sr. Settembrini. É óbvio que falamos
metaforicamente; pois, em realidade, o caráter reservado do nosso herói não permitia tal atitude
teatral. Na fria realidade, o mentor encontrou-o ocupado a fazer as malas, porquanto Hans
Castorp, desde o momento em que acordava, se via arrastado por uma torrente remoinhosa de
partidas “em falso”, que o trovão abalador desencadeara no vale. A “pátria”, o Berghof,
assemelhava-se a um formigueiro em pânico. De cinco mil pés de altura, seus habitantes
precipitavam-se de cabeça para baixo em direção à planície, onde os aguardava a prova.
Suspendiam-se nos estribos do trenzinho tomado de assalto, deixando atrás, se assim fosse
necessário, as bagagens que em pilhas enfileiradas cobriam a plataforma da estação – a estação
apinhada de gente, a cuja altura parecia chegar o bafo abrasador do incêndio da planície. E Hans
precipitava-se tal qual os outros. No meio do tumulto abraçou-o Lodovico; abraçou-o
literalmente, cingiu-o com os braços e beijou-lhe ambas as faces, à maneira meridional, mas
também à maneira russa, o que, não obstante a emoção, não deixou de acanhar o nosso viajante
“em falso”. Mas este quase perdeu a serenidade, quando, no último instante, o Sr. Settembrini o
chamou pelo primeiro nome, a saber “Giovanni” e, abandonando a forma de tratamento
habitualmente usada no Ocidente civilizado, serviu-se do “tu”.
– E cosi in giù – disse – in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver-te partir
de outra forma. Mas vá lá que seja, uma vez que os deuses dispuseram assim e não de um modo
diferente. Eu esperava despedir-me de ti, quando voltasses ao trabalho, e agora lutarás no meio
da tua gente. Deus meu, é a ti que isso coube em sorte, e não ao nosso tenente. Como é estranho
o jogo da vida!... Vai lutar valentemente, lá para onde te mandam os laços do sangue! Ninguém
pode fazer mais, a esta hora. Mas perdoa-me se emprego o resto das minhas forças para concitar
também o meu país à luta, ao lado daqueles que lhe indicam o espírito e o sagrado egoísmo.
Addio!
Hans Castorp enfiou a cabeça entre dez outras que enchiam o vão da janelinha. Abanou
com a mão por cima delas. Também o Sr. Settembrini abanou com a direita, enquanto a ponta do
dedo anular da esquerda tocava delicadamente o canto de um olho.
Onde estamos? Que é isso? Aonde nos levou o sonho? Crepúsculo, chuva e barro, rubros
clarões de fogo no céu turvo que sem cessar estruge atroadoramente; os úmidos ares invadidos e
dilacerados por silvos agudos, por uivos raivosos que avançam como o cão dos infernos e
terminam a sua órbita, entre estilhaços, jatos de terra, detonações e labaredas, por gemidos e por
gritos, por clarinadas estridentes e pelo rufar de tambores, clamando depressa, cada vez mais
depressa... Ali há um bosque do qual brotam enxames incolores, correndo, caindo, pulando.
Acolá se estende uma cadeia de colinas diante do longínquo incêndio, cujas brasas às vezes se
condensam em chamas flutuantes. Ao nosso redor espraiam-se campos aráveis, ondulosos,
encharcados, revolvidos. Uma estrada rústica, barrenta, coberta de ramos quebrados alonga-se
paralela ao bosque. Um atalho, sulcado e alagadiço, desvia-se dela e conduz em vasta curva rumo
às colinas. Troncos de árvores erguem-se, nus e desgalhados, na chuva fria... Aí se vê um poste
indicador. Não vale a pena consultá-lo. A penumbra velaria as inscrições, mesmo que da tabuleta
não houvessem sido arrancadas lascas por um impacto direto. Leste ou oeste? É a planície, é a
guerra. E nós somos tímidas sombras à beira do caminho, envergonhando-nos da segurança de
sombras que gozamos, e não temos a menor intenção de nos entregar a bravatas e fanfarrices.
Quem nos guiou até aqui foi o espírito da nossa história, para que possamos ver mais uma vez,
antes de perdê-lo de vista, o rosto singelo de um dentre os camaradas cinzentos que ali correm e
caem, impelidos pelos tambores, um rosto conhecido, o rosto do pecador ingênuo que
acompanhamos pelo seu caminho durante tantos anos, e cuja voz tantas vezes ouvimos.
Eles têm sido procurados, esses companheiros de armas, a fim de pôr o ponto final num
combate que já se prolongou pelo dia inteiro e visa à reconquista das posições nas colinas e das
aldeias em chamas, que se acham situadas atrás delas e dois dias antes haviam sido abandonadas
ao inimigo. É um regimento de voluntários, composto de jovens, na maioria estudantes, com
pouco tempo na frente de batalha. Foram avisados em plena noite, viajaram de trem até a
madrugada e marcharam através da chuva até a tarde por caminhos péssimos, que nem eram
caminhos. As estradas estavam atravancadas de veículos, de modo que tiveram de avançar por
campos e pântanos, sete horas a fio, com o equipamento completo, e isso não foi absolutamente
um passeio agradável, pois quem não quisesse perder as botas tinha de curvar-se quase a cada
passo, para enfiar o dedo no puxador e livrar assim o pé do solo encharcado. Assim gastaram
mais de uma hora para atravessar um pequeno prado. Finalmente alcançaram a meta; seu sangue
jovem tem suportado todas as fadigas; os corpos, excitados e já exaustos, mas ainda mantidos
num estado de tensão pelas mais íntimas reservas vitais, não se preocupam com a alimentação
nem com o sono de que foram privados. Os rostos molhados, salpicados de lodo, emoldurados
pela correia, ardem sob os capacetes revestidos de pano cinzento e revirados pela corrida. Estão
inflamados pelo esforço e também pelo aspecto das baixas que sofreram durante a marcha
através do bosque alagado. O inimigo, sabendo que eles estão próximos, lançou sobre o seu
caminho uma barragem de Schrapnells e de granadas de grosso calibre; já no meio do bosque, estes
se estilhaçaram, irrompendo nos seus grupos, e agora açoitam a vasta campina arada, uivando,
vomitando chamas, arrojando terras para todos os lados.
E eles devem passar por isso, esses três mil rapazotes febris; são os reforços que têm de
decidir, com suas baionetas, o assalto às trincheiras cavadas diante e atrás da cadeia de colinas e às
aldeias incendiadas; cabe-lhes levar o ataque até determinado ponto que se encontra assinalado na
ordem que seu chefe traz no bolso. Há três mil deles, para que sobrem dois mil, quando
chegarem às colinas e às aldeias, e aí está a explicação de serem em tão grande número. Formam
um só corpo, composto de tal maneira que mesmo depois de graves perdas possam ainda agir,
vencer e saudar o triunfo com um hurra de milhares de vozes, sem se importar com aqueles que
se houverem desagregado, saindo de forma. Muitos já fizeram isso, não aguentando a marcha
forçada para a qual eram demasiado jovens e fracos. Empalideciam cada vez mais; cambaleavam;
cerrando os dentes, exigiam de si energias de homens, e todavia ficavam para trás. Arrastavam-se
ainda por algum tempo ao lado da coluna em marcha; pelotão após pelotão ultrapassava-os, e por
fim desaparecia, ficando estendidos onde não era bom deitar-se. Depois, veio o bosque
despedaçado. Mesmo assim há ainda muitos que dele saem enxameando; três mil podem suportar
uma boa sangria e continuam sendo uma multidão. Já estão inundando a terra açoitada pela
chuva, a estrada, o atalho, os campos lamacentos. Nós, as sombras observadoras, à beira do
caminho, achamo-nos entre eles. Na orla do bosque todos calam a baioneta com manobras
destras. Os clarins clamam com insistência, os tambores rufam, ribombam num baixo profundo,
e os homens, soltando gritos roucos, precipitam-se para a frente, o melhor que podem, como
num pesadelo, com os pés chumbados pelos torrões que se grudam nas toscas botas.
Atiram-se de bruços, para esquivar-se aos projéteis que se aproximam ululando.
Novamente se levantam, avançam às pressas, encorajando-se com estridentes brados juvenis,
cada vez que escapam ilesos. São alvejados, caem, agitando os braços, com um tiro na testa, no
coração, nas entranhas. Jazem, com as faces na lama, imóveis já. Jazem, com as cabeças
enterradas no barro, as costas despegadas da mochila, e agarram o ar com ambas as mãos. Mas o
bosque envia outros que se atiram, que saltam, gritam ou avançam mudos, a passo trôpego, por
entre os feridos.
Ah, toda essa juventude, com suas mochilas e baionetas, com as capas e as botas
enlameadas! Sonhando de modo humanístico-estético, poderíamos imaginá-la num quadro
diferente. Poderíamos ter a seguinte visão: esses jovens montando e banhando cavalos numa
enseada do mar, caminhando pela praia em companhia da namorada, achegando os lábios à
orelha da meiga noiva, ou talvez ensinando uns aos outros, numa amizade feliz, o tiro de arco.
Em lugar disso, jazem ali, com o nariz no barro bombardeado. Que façam isso com alegria, ainda
que transidos de medo e cheios de saudades da mãe, é assunto à parte, que nos orgulha e
envergonha, mas nunca nos deveria induzir a colocá-los nesta situação.
Eis aí o nosso amigo, Hans Castorp! Já de longe o reconhecemos pela barbicha que
deixou crescer, enquanto comia à mesa dos “russos ordinários”. Arde e está ensopado como os
demais. Corre com os pés pesados, agarrando o fuzil com o braço caído. Vejam só: pisou na mão
de um camarada que se desagregou; com a bota ferrada afunda essa mão no solo lamacento,
salpicado de galhos lascados. E todavia é ele! Mas como? Ele canta? Canta, assim como se faz
sem saber, de si para si, numa excitação surda, vazia de pensamentos, aproveitando a respiração
ofegante para cantarolar a meia voz:
“Talhei em sua cascaMil coisas que senti...”
Caiu. Não, atirou-se ao chão, porque um cão dos infernos chega uivando, um enorme
obus, um asqueroso pão de açúcar, saído das trevas. Acha-se estendido, comprimindo o rosto no
barro frio com as pernas escancaradas e os pés torcidos, colados ao chão. O produto de uma
ciência barbarizada abate-se como o Diabo em pessoa a trinta passos dele, penetrando
obliquamente no solo, onde explode com espantosa violência e joga à altura de uma casa um
jorro de terra, fogo, chumbo, ferro e de humanidade despedaçada; pois nesse lugar havia dois
jovens estendidos, eram amigos que se haviam atirado um ao lado do outro, no momento de
perigo, e agora estão mesclados, sumidos.
Ó vergonha da nossa segurança de sombras! Vamos embora! Não desejamos narrar isso.
O nosso conhecido recebeu algum ferimento? Durante um momento, ele mesmo acreditou que
sim. Um grande torrão lhe batera na canela. Aquilo doía, mas não era sério! Ele se põe em
marcha; coxeando, prossegue a cambalear para a frente, com os pés pesados de barro. E canta
inconscientemente:
“Os galhos sussurraavam,Falando para mim...”
E assim, no tumulto, na chuva, no crepúsculo, o perdemos de vista.
Felicidade, Hans Castorp, enfermiço e cândido filho da vida! Tua história terminou:
contamo-la até o fim. Ela não foi nem breve nem longa; é uma história hermética. Contamo-la
por amor a ela e não a ti, pois tu eras simples. Mas, afinal, era tua essa história, e como ela te
coube em sorte, deves ter certas qualidades. Não dissimulamos a simpatia pedagógica que, ao
narrá-la, começamos a nutrir por ti, e que seria capaz de nos induzir a tocar delicadamente o
canto de um olho com a ponta do dedo, ao pensar que nunca mais tornaremos a te ver nem
ouvir.
Adeus – para a vida ou para a morte! Tens poucas probabilidades a teu favor. O macabro baile ao qual te arrastaram durará ainda vários anos malignos. Não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar indecisa essa questão. Certas aventuras da carne e do espírito, sublimando a tua singeleza, fizeram teu espírito sobreviver ao que tua carne dificilmente poderá resistir. Momentos houve em que, cheio de pressentimentos e absorto na tua obra de “rei”, viste brotar da morte e da luxúria carnal um sonho de amor. Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?
Adeus – para a vida ou para a morte! Tens poucas probabilidades a teu favor. O macabro baile ao qual te arrastaram durará ainda vários anos malignos. Não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar indecisa essa questão. Certas aventuras da carne e do espírito, sublimando a tua singeleza, fizeram teu espírito sobreviver ao que tua carne dificilmente poderá resistir. Momentos houve em que, cheio de pressentimentos e absorto na tua obra de “rei”, viste brotar da morte e da luxúria carnal um sonho de amor. Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?
Finis operis
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Leia também:
Capítulo I / A Chegada
Capítulo II / Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo V / Sopa eterna e clareza repentina (a)
Capítulo VI / Transformações (a)
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a] / Coisas muito problemáticas - [b] /
Coisas muito problemáticas - [c] / Coisas muito problemáticas - [d] / A grande irritação - [a] / A grande irritação - [b] /
A grande irritação - [c] / O trovão - Finis operis.
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
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