sábado, 21 de março de 2026

Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(c)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
continuando...

“Quando o sol raiou, ele convocou todos os marinheiros; e, separando os rebeldes dos que não tomaram parte no motim, disse aos primeiros que tinha a intenção de açoitá-los – que, pensando bem, assim faria –, teria de fazê-lo – que a justiça assim exigia que fosse; mas agora, levando em consideração a sua oportuna rendição, ele os deixaria ir com uma reprimenda, a qual apropriadamente administrou no vernáculo.
“‘Mas quanto a vocês, seus patifes moribundos’, virando-se para os três homens no cordame – ‘penso em picá-los para a fornalha’; e, pegando uma corda, aplicou-a com toda a força nas costas dos dois traidores, até que parassem de gritar e pendessem as cabeças sem vida para o lado, como a ilustração dos dois ladrões crucificados.
“‘Fizeram-me torcer o pulso!’, gritou, finalmente, ‘mas ainda tenho corda suficiente para você, meu galinho de briga, que não quis desistir. Tirem a mordaça da boca dele e vamos ouvir o que ele tem a dizer a seu favor.’
“Por um momento o exausto amotinado moveu a mandíbula trêmula, depois, virando penosamente a cabeça, disse numa espécie de sussurro: ‘O que eu quero dizer é o seguinte – preste bem atenção –, se me açoitar, eu te mato!’.
“‘Ah, é? Pois veja como me assusta’, e o Capitão afastou a corda para bater.
“‘É melhor não’, sussurrou o lacustre.
“‘Mas eu devo’, e a corda foi novamente puxada para o golpe. 
“Nesse momento, Steelkilt sussurrou algo inaudível para todos, menos para o Capitão, que, para o espanto de todos, recuou, deu dois ou três passos pelo convés, e, atirando subitamente a corda, disse: ‘Não vou fazer isso – soltem-no –, desçam-no daí: ouviram?’. 
“Mas, quando os novatos correram para executar a ordem, um homem pálido, com a cabeça enfaixada, os deteve – Radney, o imediato. Desde o soco, ficara estendido no beliche; mas naquela manhã, ao escutar o tumulto no convés, arrastara-se para fora e até ali assistira a toda a cena. Tal era o estado de sua boca, que ele mal podia falar; mas murmurou algo sobre ele querer e ser capaz de fazer o que o Capitão não ousara tentar; pegou a corda e avançou na direção do seu inimigo atado.
“‘Seu covarde!’, sussurrou o lacustre. 
“‘Sou mesmo, mas tome isto.’ O imediato estava na posição de açoitá-lo, quando um outro sussurro deteve o seu braço erguido. Fez uma pausa: e então, sem pausa alguma, fez valer sua palavra, apesar da ameaça de Steelkilt, qualquer que tenha sido. Os três homens foram soltos, todos voltaram ao trabalho, e, fastidiosamente acionadas pelos tristes marinheiros, as bombas de ferro troaram como antes.
“Logo depois que escureceu aquele dia, após a troca de turno da vigia, ouviu-se um clamor no castelo de proa; e os dois trêmulos traidores, correndo para cima, pararam diante da porta da cabine, dizendo que não se atreviam a juntar-se à tripulação. Súplicas, bofetões ou pontapés, nada os levaria de volta, por isso, atendendo a seu pedido, foram colocados na popa do navio onde ficariam a salvo. E assim não voltou a haver nenhum sinal de motim entre os outros. Pelo contrário, parecia que, principalmente por instigação de Steelkilt, eles haviam resolvido manter a mais perfeita paz, obedecer a todas as ordens, e, quando o navio chegasse ao porto, desertar em massa. Mas para assegurar o fim mais rápido para a viagem todos concordaram com mais uma coisa – a saber, não anunciar caso encontrassem uma baleia. Pois, apesar do vazamento, apesar de todos os outros perigos, o Town-Ho continuava com os seus mastros erguidos, e seu Capitão ainda queria descer, como no primeiro dia em que a embarcação saiu para a pesca; e o imediato Radney da mesma forma estava pronto para trocar o seu beliche por um bote, e, mesmo com sua boca enfaixada, tentar amordaçar até a morte a vigorosa mandíbula da baleia.
“Mas, embora o lacustre tivesse induzido os marinheiros a adotar essa espécie de passividade na conduta, ele mantivera em segredo (ao menos até que tudo tivesse terminado) a sua vingança particular e condizente contra o homem que o ferira nos ventrículos do coração. Ele estava no turno de vigia do imediato Radney; e como se o ensandecido corresse em busca de seu destino, após a cena do cordame, ele insistiu, contrariando o conselho do capitão, em reassumir a liderança da vigília à noite. Com isso, mais uma ou duas outras circunstâncias, Steelkilt sistematicamente construiu o plano de sua vingança.
“Durante a noite, Radney costumava sentar-se, de um modo estranho aos marinheiros, na amurada do tombadilho, encostando o braço na borda de um bote que ficava pendurado, um pouco acima da lateral do navio. Nesta posição, como era sabido por todos, ele às vezes cochilava. Havia um espaço considerável entre o bote e o navio, e lá embaixo disto tudo era o mar. Steelkilt calculou o tempo e viu que o seu próximo turno no leme seria às duas horas, na manhã do terceiro dia após o dia em que fora traído. Calmamente, usou os seus intervalos para tecer algo com muito cuidado, nos quartos embaixo.
“‘O que você está fazendo aí?’, perguntou um companheiro de bordo. 
“‘O que você acha? O que parece?’ 
“‘Parece um riz para o ilhó da sua sacola, mas me parece meio esquisito.’ 
“‘É mesmo, é um pouco esquisito’, disse o lacustre, estendendo-o diante de si, ‘mas acho que vai resolver. Marujo, não tenho mais cordão – você não teria um pouco?’ 
“Mas não tinha mais no castelo de proa. 
“‘Bem, vou ver se consigo algum com o velho Rad’, e levantou-se para ir à popa. 
“‘Você não está pensando em pedir bem para ele!’, disse um marinheiro. 
“‘Por que não? Acha que ele não me fará um favor se é para ajudá-lo no final, companheiro?’
“E aproximando-se do imediato olhou para ele com tranquilidade e pediu-lhe um pouco de cordão para consertar a sua rede. Deu-lhe – nem cordão e nem cabo foram jamais vistos outra vez; mas na noite seguinte uma bola de ferro, presa numa rede, escorregou parcialmente do bolso do casaco de marinheiro de Steelkilt, quando este o dobrava para usar de travesseiro em sua rede. Vinte e quatro horas mais tarde, fazendo o seu turno no leme silencioso – perto do homem que conseguia dormir sobre o túmulo sempre pronto para o marinheiro–, o momento fatal se aproximava; e, para um espírito predisposto como o de Steelkilt, o imediato já estava completamente estirado como um cadáver, com a testa esfacelada.
“Mas, senhores, um tolo salvou o futuro assassino da ação sanguinária que ele planejara. Assim ele foi totalmente vingado, sem ser o vingador. Pois que por uma fatalidade misteriosa o próprio céu pareceu interferir ao tomar em suas mãos e tirando das dele o ato condenável que teria praticado. 
“Foi entre a madrugada e o nascer do sol da manhã do segundo dia, quando estavam lavando o convés, que um estúpido homem de Tenerife, tirando água da mesa da enxárcia, começou a gritar de repente: ‘Lá vem ela! Lá vem ela! Meu Deus, uma baleia!’. Era Moby Dick.”
“‘Moby Dick!’, exclamou Don Sebastian. “Por São Domingos! Senhor marinheiro, as baleias têm nome próprio? A quem o senhor trata de Moby Dick?” 
“Um monstro muito branco, famoso e imortal, Don; – mas essa é uma história muito comprida.” 
“Como assim? Como assim?”, suplicaram todos os jovens espanhóis, aglomerando-se. 
“Não, senhores, senhores – não e não! Não posso contá-la agora. Deixe-me tomar um pouco de ar.” 
“A chicha! A chicha!”, pediu Don Pedro, “o nosso amigo vigoroso parece fraco;– encham o copo dele.”
“Não é necessário, senhores, um momento e já posso continuar. Ora, senhores, assim que avistou a nívea baleia a umas cinquenta jardas do navio – esquecendo se do pacto combinado pela tripulação –, na excitação do momento, o homem de Tenerife, instintiva e involuntariamente, ergueu a voz para o monstro, que pouco tempo antes fora avistado nos três taciturnos topos de mastro. Tudo era agora frenesi. ‘A Baleia Branca! – A Baleia Branca!’ era o grito do capitão, dos pilotos e arpoadores, que, inadvertidos dos horrendos rumores, estavam todos ansiosos para capturar o tão famoso e precioso peixe; enquanto a tripulação desconfiada olhava de soslaio e amaldiçoava a espantosa beleza da vasta massa láctea, que iluminada por um sol luzindo do horizonte se movia e brilhava como uma opala viva no oceano azul da manhã. Senhores, uma fatalidade estranha permeia todo o percurso destes eventos, como que mapeada antes de o próprio mundo ser cartografado. O amotinado era o remador do imediato, e quando arpoavam um peixe era seu dever sentar-se ao seu lado, enquanto Radney ficava em pé com a sua lança na proa, e puxar ou soltar a ostaxa conforme o comando. Além disso, quando os quatro botes foram baixados, o imediato assumiu a dianteira; ninguém gritou mais ferozmente de prazer que Steelkilt, ao fazer força com seu remo. Após uma forte arrancada, o arpoador foi rápido, e com o arpão na mão Radney pulou para a proa. Ele estava sempre furioso, ao que parecia, dentro de um barco. Agora seu grito enfaixado era para que o desembarcassem no alto do dorso da baleia. De bom grado, seus remadores empurraram-no para cima, através de uma neblina cegante que mesclava duas brancuras; até que, de repente, o bote se chocou como que contra um rochedo submerso, e tombou, derrubando o imediato que estava de pé. Naquele instante, quando caiu no dorso escorregadio da baleia, o bote se endireitou e foi arremessado por uma ondulação, enquanto Radney era jogado ao mar, do outro lado da baleia. Ele se bateu por entre os borrifos, e, por um instante, foi visto difusamente, através daquele véu, desesperadamente buscando afastar-se do olho de Moby Dick. Mas a baleia arremeteu de volta num súbito redemoinho; prendeu o nadador entre as maxilas; e erguendo-se com ele bem alto mergulhou de cabeça outra vez, e afundou.
“Entrementes, no primeiro toque do fundo do bote, o lacustre soltara a ostaxa, para que caísse atrás do sorvedouro; olhando tudo calmamente, pensou com os seus botões. Mas um solavanco brusco, terrível e para baixo no bote de repente levou sua faca para a ostaxa. Ele a cortou; e a baleia estava livre. Mas, a uma certa distância, Moby Dick emergiu outra vez, com alguns retalhos da blusa de lã vermelha de Radney presos nos dentes que o haviam destruído. Os quatro botes retornaram à caça; mas a baleia os evitou e finalmente desapareceu por completo. 
“Em boa hora, o Town-Ho chegou a seu porto – um lugar selvagem, solitário –, onde não vivia nenhuma criatura civilizada. Ali, conduzidos pelo lacustre, todos, exceto uns cinco ou seis dos homens do mastro de proa, desertaram deliberadamente por entre as palmeiras; por fim, conforme se viu, tomando uma grande canoa de guerra dupla dos selvagens e velejando para um outro porto.
“Estando a tripulação do navio reduzida apenas a um punhado de homens, o capitão pediu aos ilhéus que o ajudassem na laboriosa tarefa de erguer o navio para consertar o vazamento. Mas tal foi a vigilância desses aliados perigosos exigida do pequeno grupo de brancos, tanto de dia quanto de noite, e o trabalho tão extremamente pesado por que passaram, tão incessante, que quando a embarcação ficou novamente pronta para voltar ao mar, eles estavam tão fracos que o capitão não se atreveu a sair ao mar com eles numa embarcação tão pesada. Depois de se aconselhar com os seus oficiais, ancorou o navio o mais longe possível da costa, carregou as canhoneiras dos dois canhões da proa; ensarilhou os mosquetes no tombadilho; e, avisando os ilhéus para não se aproximarem do navio, pelo perigo que corriam, levou consigo um homem, e, desfraldando a vela do seu melhor bote, rumou de vento em popa para o Taiti, a quinhentas milhas dali, para conseguir reforços para a sua tripulação. 
“No quarto dia de viagem, uma grande canoa foi avistada, que parecia ter feito escala numa ilha pequena de corais. Ele se desviou dela, mas a embarcação selvagem os perseguiu; e logo a voz de Steelkilt disse-lhe que parasse, ou ele os derrubaria dentro d’água. O capitão sacou uma arma. Com um pé em cada proa das canoas de guerra conjugadas, o lacustre riu com desdém; assegurando-lhe que, se a arma fizesse um simples clique, ele o sepultaria em bolhas e espuma.
“‘O que você quer de mim?’, indagou o capitão. 
“‘Para onde você vai? E por que vai?’, perguntou Steelkilt. ‘Não minta.’ 
“‘Vou ao Taiti buscar mais homens.’ 
“‘Ótimo. Deixe-me subir a bordo por um instante; – venho em boa paz.’ E assim ele saltou da canoa, nadou para o bote; e subindo na amurada ficou frente a frente com o capitão. 
“‘Cruze os braços, senhor, coloque a cabeça para trás. Agora repita depois de mim: ‘assim que Steelkilt me deixar, juro que levarei este bote para a praia daquela ilha, e lá permanecerei por seis dias. Que os raios me fulminem se eu não o fizer!’ 
“‘Que aluno aplicado!’, riu o lacustre. ‘Adiós, Señor!’, e, pulando no mar, nadou de volta para os seus companheiros.
“Observando o bote até que desembarcasse na praia, perto das raízes dos coqueiros, Steelkilt zarpou outra vez, e no tempo devido chegou ao Taiti, que era seu próprio destino. Ali, a sorte lhe sorriu: dois navios estavam zarpando para a França e necessitavam providencialmente do número exato de homens que o marinheiro liderava. Embarcaram; abrindo assim uma distância definitiva de seu antigo capitão, caso estivesse em seus planos uma retaliação legal contra eles. 
“Uns dez dias depois que os navios franceses partiram, o bote baleeiro chegou, e o capitão foi forçado a arregimentar alguns taitianos entre os mais civilizados, que de alguma maneira estivessem acostumados ao mar. Fretando uma pequena escuna nativa, ele voltou com eles à sua embarcação; e, encontrando ali tudo em ordem, seguiu viagem. 
“Onde Steelkilt está agora, senhores, ninguém sabe; mas na ilha de Nantucket, a viúva de Radney ainda olha para o mar, que se recusa a entregar seu morto; ainda vê em sonhos a terrível baleia branca que o destruiu.”

*   *   *   *   *   *
     
     “Terminou?”, disse Don Sebastian, com calma.
     “Sim, Don.”
     “Suplico-lhe então que me diga, a bem de suas próprias convicções, se a sua história é realmente verdadeira? É mais que maravilhosa! Soube-a de fonte segura? Tenha paciência comigo se parece que faço pressão.”
     “Também lhe pedimos paciência conosco, senhor marinheiro; pois todos queremos fazer o mesmo pedido de Don Sebastian”, exclamou o grupo, com grande interesse.
     “Há um exemplar dos Sagrados Evangelhos na Estalagem Dourada, senhores?”
     “Não”, disse Don Sebastian, “mas conheço um padre muito ilustre aqui perto, que poderia facilmente conseguir um para mim. Vou tratar disso; mas pensou bem? Isto pode se tornar uma coisa séria demais.”
     “Você poderia trazer o padre também, Don?”
     “Embora já não haja autos-de-fé em Lima”, disse um do grupo para o outro, “receio que o nosso amigo marinheiro corra perigo com o arcebispado. Afastemo-nos um pouco da luz da lua. Não vejo a necessidade disto.”
     “Desculpe importuná-lo, Don Sebastian, mas posso pedir-lhe também que procure os maiores Evangelhos que encontrar?”

     “Aqui está o padre, e traz consigo os Evangelhos”, disse Don Sebastian, grave, voltando com uma pessoa alta e solene.
     “Vou tirar o chapéu. Bem, venerável sacerdote, um pouco mais para a luz, e segure o Livro Sagrado diante de mim, para que eu possa tocá-lo.
     “Que o céu me proteja! Palavra de honra que a história que lhes contei, senhores, é verídica na sua essência e nos assuntos principais. Sei que é verídica; que aconteceu neste mundo; estive no navio; conheci a tripulação; vi Steelkilt e conversei com ele, depois da morte de Radney.”

Continua na página 252...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) / 54 - A História do Town-ho(b) / 54 - A História do Town-ho(c) /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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