sexta-feira, 13 de março de 2026

Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(b)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
continuando...

“Portanto, em seu tom costumeiro, apenas entrecortado pelo cansaço em que se encontrava temporariamente, respondeu dizendo que varrer o convés não era sua obrigação, e que não o faria. E então, não mencionando a pá, apontou para os três rapazes que costumavam varrer o convés, os quais não tinham sido escalados para as bombas e portanto não tinham feito quase nada ou nada mesmo o dia inteiro. A isso, Radney respondeu com blasfêmias, repetindo incondicionalmente a sua ordem, de modo arrogante e insultante, ao mesmo tempo em que avançava para cima do lacustre, que continuava sentado, empunhando um martelo de toneleiro, que apanhara de um barril próximo.
“Esquentado e irritado pelo trabalho intermitente com as bombas, apesar daquele primeiro sentimento anônimo de abstenção, o suado Steelkilt mal podia suportar tal ousadia no imediato; mas de alguma forma, ainda abafando a conflagração dentro de si, sem falar nada, permaneceu obstinadamente preso ao seu assento até que o raivoso Radney sacudiu o martelo a poucos centímetros de seu rosto, ordenando furiosamente que obedecesse ao comando.
“Steelkilt levantou-se e, dando a volta ao sarilho, sempre seguido pelo imediato com o martelo ameaçador, repetiu deliberadamente o seu propósito de não obedecer. Ao perceber que a sua abstenção não surtia o menor efeito, por uma intimação algo terrível e indizível com o punho cerrado, preveniu o estúpido homem ensandecido; porém de nada adiantou. E, desse modo, os dois deram mais uma volta no sarilho, até que, resolvido a não recuar e achando já ter aguentado tudo o que podia aguentar, o lacustre parou na escotilha e assim falou ao oficial:
“‘Sr. Radney, não vou lhe obedecer. Tire esse martelo daqui ou então tome cuidado’. Mas o imediato predestinado, chegando ainda mais perto de onde o lacustre estava parado, sacudiu o pesado martelo a um centímetro dos seus dentes, enquanto repetia uma série de intragáveis maldições. Sem recuar um milésimo de centímetro; fulminando-o com o destemido punhal do seu olhar fito, Steelkilt, fechando sua mão direita atrás de si e trazendo-a para frente, disse a seu perseguidor que se o martelo apenas roçasse a sua face ele (Steelkilt) o mataria. Mas, senhores, o louco havia sido marcado pelos deuses para o morticínio. Naquele momento, o martelo tocou o seu rosto; no instante seguinte a mandíbula do oficial foi partida ao meio; ele caiu na escotilha jorrando sangue como uma baleia.
“Antes que o grito chegasse à popa, Steelkilt sacudiu um dos cabos do mastro, onde estavam dois colegas seus como gajeiros. Os dois eram Canalenses.”
“Canalenses?!”, gritou Don Pedro. “Já vi muitos baleeiros em nossos portos, mas nunca ouvi falar em Canalenses. Perdão, mas quem e o que são eles?”
“Canalenses, Don Pedro, são os barqueiros do nosso grande canal Erie. O senhor deve ter ouvido falar deles.”
“Não, señor; aqui nesta terra insípida, quente, ociosíssima e hereditária sabemos muito pouco sobre o seu norte vigoroso.”
“É mesmo? Bom, Don Pedro, encha o meu copo de novo. A sua chicha está muito boa; antes de prosseguir, vou contar-lhes quem são os nossos Canalenses, pois essa informação pode lançar alguma luz sobre a minha história.
“Por trezentas e sessenta milhas, senhores, na extensão total do Estado de Nova York; através de numerosas cidades populosas e vilarejos prósperos; através de grandes pântanos desabitados e sinistros, e campos cultivados e opulentos de fertilidade ímpar; nos bares e nos bilhares; através da mais sagrada das florestas sagradas; por arcos romanos sobre rios indígenas; sob o sol e sob a sombra; por corações felizes ou partidos; por todo o cenário contrastante da terra dos nobres Mohawk; e especialmente pelas fileiras de níveas capelinhas, cujas torres se erguem como marcos, onde corre o rio ininterrupto de uma corrupção veneziana e muitas vezes sem lei. Lá está, senhores, seu verdadeiro Axanti; lá se lamentam os pagãos; onde sempre se encontram, na porta ao lado; à sombra comprida, ao abrigo padroeiro das igrejas. Por uma curiosa fatalidade, como se nota muitas vezes entre os seus piratas metropolitanos, sempre acampados em torno aos palácios de justiça, assim também os pecadores, senhores, transbordam das sacras cercanias.”
“Será um frade passando?”, perguntou Don Pedro, olhando para a praça povoada, com uma preocupação divertida
“Que bom para o nosso amigo do norte que a Inquisição de Dona Isabel está acabando em Lima”, riu Don Sebastian. “Continue, senhor.”
“Um momento! Perdão!”, exclamou um outro do grupo. “Em nome de todos nós, Limenhos, desejo apenas lhe dizer, senhor marinheiro, que não nos passou despercebida a sua gentileza ao substituir a Lima de hoje pela remota Veneza, na sua comparação sobre a corrupção. Ah! Não precisa fazer cerimônia, nem mostrar-se surpreso; o senhor conhece o provérbio que corre por toda a costa: ‘Corrupta como Lima’. Por certo só faz corroborar a sua afirmação; ou seja, há mais igrejas sempre abertas do que salões de bilhar, e, no entanto, ‘Corrupta como Lima’. Assim também em Veneza; já estive lá; a cidade sagrada dos abençoados evangelistas, São Marcos! Que São Domingos a purifique! O seu copo! Agradecido, eu vou enchê-lo; bem, agora é a sua vez.”
“Livremente descrito por seus próprios dons, senhores, o Canalense daria um excelente herói dramático, tão abundantes e pitorescos são os seus ardis. Como Marco Antônio, por dias e dias ao longo de seu Nilo florido e verdejante, navega indolente, brincando descuidado com a sua Cleópatra de faces rosadas, amadurecendo a sua coxa adamascada ao sol no convés. Mas em terra toda essa efeminação acaba. A aparência bandoleira que o Canalense ostenta com tanto orgulho; seu chapéu de lado, alegre e enfeitado com fitas, auguram seu grandioso condão. Um terror para a inocência sorridente dos vilarejos por onde passa; de sua aparência trigueira e atitude arrogante tampouco se escapa nas cidades. Certa vez em que vagava por seu canal, recebi boa ajuda de um desses Canalenses; agradeço-lhe de coração; não quero ser ingrato; mas é frequentemente uma das principais qualidades compensatórias desse homem violento estender a mão para ajudar um pobre estrangeiro em apuros e saquear um rico. Em suma, senhores, a selvageria dessa vida no canal é enfaticamente provada por isto; e mesmo em nossa bravia pesca da baleia havendo tantos desses rematados tipos, quase nenhuma raça de homens, exceto os de Sidney, inspiram tanta desconfiança em nossos capitães baleeiros. O mais curioso é que, para milhares dos nossos garotos rústicos e jovens nascidos ao longo dessas águas, a prova da vida no Grand Canal representa uma simples transição entre ceifar um milharal cristão e singrar afoitamente as águas dos oceanos mais bárbaros.”
“Entendi! Entendi!”, exclamou com ímpeto Don Pedro, derramando a chicha em seus punhos argênteos. “Não há necessidade de viajar! O mundo inteiro é Lima. Eu achava que no seu norte temperado as gerações fossem frias e santas como os outeiros. Mas vamos à história.”
“Senhores, parei quando o lacustre sacudia o brandal. Nem bem o fizera quando foi cercado por três pilotos novatos e quatro arpoadores, que o empurraram para o convés. Mas, descendo pelas cordas tais malignos cometas, os dois Canalenses acudiram ao tumulto e tentaram arrastar seu homem para o castelo de proa. Outros marinheiros se juntaram a eles nessa tentativa, e formou se a balbúrdia infernal; enquanto o valente capitão, para ficar fora de perigo, movia para cima e para baixo um forcado de baleia, instigando os seus oficiais a deter aquele canalha atroz, para castigá-lo no tombadilho. De tempos em tempos, corria para perto da borda revoltosa da confusão e, abrindo o cerco com seu forcado, tentava espetar o objeto de seu ressentimento. Mas Steelkilt e seus celerados eram demais para eles: conseguiram ganhar o convés do castelo de proa, onde, rolando três ou quatro barris grandes, formando uma fileira com o sarilho, esses parisienses do mar entrincheiraram-se atrás da barricada.
“‘Saiam daí, seus piratas!’, rugiu o capitão, ameaçando-os com uma pistola em cada mão, que um camareiro acabara de lhe trazer. ‘Saiam daí, seus degoladores!’
“Steelkilt pulou para a barricada e, caminhando por ali a passos largos, desafiou o pior que as pistolas podiam fazer; mas fez com que o capitão entendesse claramente que a sua morte (a de Steelkilt) seria o sinal para um motim assassino por parte de todos. Receando profundamente que isso se tornasse verdade, o capitão recuou um pouco, mas ainda ordenou que os insurgentes voltassem imediatamente ao seu dever.
“‘O senhor promete que não seremos molestados se o fizermos?’, perguntou o líder do motim.
“‘Voltem! Voltem! – Não faço promessas. – Ao dever! Querem afundar o navio abandonando seus postos numa hora destas? Voltem!’, e levantou outra vez uma pistola.
“‘Afundar o navio?’, gritou Steelkilt. ‘É mesmo, pois que afunde. Nenhum de nós vai voltar, a não ser que você jure que não irá tocar em nenhum fio do nosso cabelo. O que acham, rapazes?’, virando-se para os seus companheiros. Como resposta, animadamente deram vivas.
“O lacustre agora patrulhava a barricada, o tempo todo de olho no Capitão, soltando frases como estas: – ‘A culpa não é nossa; nós não queríamos; eu disse a ele que tirasse o seu martelo da minha frente; isso é coisa de moleque; ele já devia me conhecer; falei para ele não mexer no vespeiro; acho que quebrei um dedo no maldito queixo dele; os facões não estão no castelo de proa?; vejam essas alavancas, meus caros. Capitão, pelo amor de Deus, veja bem; é só dizer; não seja tolo; esqueça tudo; estamos prontos para voltar; trate-nos decentemente e seremos os seus homens; mas não seremos açoitados’.
“‘Voltem! Não faço promessas. Repito, voltem!’
“‘Agora você vai ouvir’, gritou o lacustre, estendendo o braço na sua direção, ‘há poucos de nós aqui (e eu sou um deles) que embarcaram só pela viagem, entendeu? Ora, como o senhor bem sabe, podemos pedir para sermos dispensados assim que a âncora baixar; por isso não queremos uma rixa; não nos interessa; queremos ser pacíficos; estamos prontos para trabalhar, mas não seremos açoitados.’
“‘Voltem’, rugiu o Capitão.
“Steelkilt olhou a sua volta por um momento e disse – ‘Vou lhe dizer uma coisa, Capitão, em vez de matá-lo e ser enforcado por causa de um tratante miserável, não faremos nada contra o senhor a não ser que sejamos atacados; mas enquanto o senhor não der a sua palavra de que não seremos açoitados não mexeremos um dedo’.
“‘Para o castelo de proa, então, vão para lá. Vou deixá-los ali até que enjoem. Para lá.’
“‘Vamos descer, então?’, gritou o líder a seus homens. A maior parte era contra, mas por obediência a Steelkilt precederam-no na descida ao seu antro sinistro e desapareceram rosnando, como ursos numa caverna.
“Assim que a cabeça despida do lacustre chegou à altura das pranchas do convés, o capitão e a sua súcia pularam sobre a barricada e, puxando rapidamente a peça corrediça da escotilha, colocaram as suas mãos sobre ela e pediram em voz alta ao camareiro que trouxesse o cadeado pesado de bronze do tombadilho. Abrindo então um pouco a peça, o Capitão sussurrou algo pela fenda, fechou-a e girou sobre eles – em número de dez –, deixando no convés uns vinte ou mais que se mostraram neutros.
“Durante toda a noite manteve-se a vigília de todos os oficiais, na popa e na proa, especialmente no escotilhão do castelo de proa e na caverna-mestra; por onde temiam que os insurgentes pudessem emergir, caso arrombassem o tabique. Mas as horas de escuridão transcorreram em paz; os homens que continuaram cumprindo os seus deveres, trabalhando arduamente nas bombas, cujo troar e retroar na noite lúgubre sinistramente ressoavam por todo o navio.
“Quando o sol nasceu o Capitão foi para vante, e, batendo no convés, intimou os prisioneiros ao trabalho; mas, aos berros, eles se recusaram. Desceram-lhes então água, e alguns punhados de biscoitos lhes foram atirados em seguida; quando então novamente o Capitão girou a chave, e, colocando-a no bolso, voltou ao tombadilho. Isso se repetiu duas vezes por dia, durante três dias, mas na quarta manhã ouviu-se um tumulto que parecia uma briga, e depois um burburinho, quando as ordens costumeiras foram dadas; de repente, quatro homens assomaram ao castelo de proa, dizendo que estavam prontos para voltar. O fétido ar enclausurado, a dieta de fome, somados talvez a eventuais temores de uma retaliação definitiva, obrigaram-nos à rendição incondicional. Encorajado por isso, o Capitão reiterou a sua ordem para o resto, mas Steeklilt gritou-lhe que parasse com o falatório e fosse para o seu lugar. Na quinta manhã outros três amotinados irromperam ao ar livre, desvencilhando-se dos braços que tentavam segurá-los lá embaixo. Apenas três restaram. 
“‘É melhor voltar agora!’, disse o Capitão, zombando cruelmente.
“‘Tranque-nos de novo!’, gritou Steelkilt.
“‘Ah! Pois não!’, disse o Capitão, e a chave girou.
“Foi nessa hora, senhores, que, enraivecido pela deserção de sete dos seus companheiros, mordido pela voz zombeteira que o chamara, e enlouquecido pelo sepultamento de vários dias num lugar escuro como a entranha do desespero; foi aí que Steelkilt propôs aos dois Canalenses, que até então pareciam estar de acordo com ele, que saíssem do buraco na próxima intimação da guarda; e que, armados com suas facas afiadas (utensílios longos, pesados, em forma de crescente, com um cabo de cada lado), corressem do gurupés ao balaústre da popa; e, como que por um desespero diabólico, tomassem posse do navio. Quanto a ele, disse que o faria de qualquer jeito, caso se juntassem a ele ou não. Esta era a última noite que ele passaria naquele antro. Mas os outros dois não se opuseram ao plano; juraram que estavam prontos para aquilo, ou qualquer outra loucura, qualquer coisa, em suma, exceto a rendição. E, mais do que isso, ambos insistiram em ser o primeiro a subir ao convés, quando chegasse a hora de agir. Mas a isso seu líder opôs tenaz objeção, reservando a primazia para si mesmo; principalmente porque nenhum de seus dois companheiros cederia ao outro nessa questão, e ambos não poderiam subir juntos primeiro, pois a escada só permitia um homem por vez. E, aqui, senhores, a perfídia desses canalhas deve ser revelada.
“Ao ouvir o projeto ensandecido de seu líder, cada um deles arquitetou o mesmo golpe traiçoeiro no seu íntimo, a saber: ser o primeiro a sair, para ser o primeiro dos três, embora o último dos dez, a se entregar; e assim garantir qualquer mínima possibilidade de perdão que tal conduta merecesse. Mas, quando Steelkilt lhes fez saber sua determinação de liderá-los até o fim, de algum modo os dois, por uma química de sutil vilania, mesclaram todas juntas as suas traições secretas; e, quando o líder pegou no sono, expuseram verbalmente, um ao outro, as suas ideias em três sentenças; amarraram o adormecido com cordas, e o amordaçaram; e chamaram aos gritos o Capitão à meia-noite.
“Pressentindo a iminência de um assassinato, e farejando o sangue no ar escuro, ele e todos os seus companheiros armados e arpoadores avançaram para o castelo de proa. Em alguns minutos a escotilha foi aberta, e, de pés e mãos atados, o líder ainda se debatendo foi empurrado para cima por seus pérfidos aliados, que imediatamente quiseram receber o crédito pela prisão de um homem plenamente disposto ao assassinato. Mas foram os três encoleirados e arrastados pelo convés como reses mortas; e, lado a lado, foram içados ao cordame de mezena, como três quartos de carne, e ali ficaram pendurados até de manhã. ‘Diabos os carreguem!’, gritou o Capitão, andando de um lado para o outro à frente deles, ‘nem os abutres querem vocês, seus canalhas!’

Continua na página 245...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) / 54 - A História do Town-ho(b) /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

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