À memória de Meu Pai,
de Minha Mãe
e de Meu Irmão
O. D. C.
AS TRÊS IRMÃS DO POETA
Traduzido de E. Berthoud
É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão três pálidas virgens silenciosas
Através da procela irrequieta.
Vão três pálidas virgens... vão sombrias
Rindo colar num beijo as bocas frias...
Na fronte cismadora do — Poeta —
“Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença.
Sou eu quem te sepulta a ideia imensa,
Quem no teu nome a escuridão projeta...
Fui eu que te vesti do meu sudário...
Que vais fazer tão triste e solitário?...
— “Eu lutarei!” — responde-lhe o Poeta.
“Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...
O teu mísero pão, mísero atleta!
Boa Vista, 1867
Hoje, amanhã, depois... depois (qu’importa?)
Virei sempre sentar-me à tua porta...”
— “Eu sofrerei!” — responde-lhe o Poeta.
“Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte!
Suspende em meio o hino augusto e forte.
Marquei-te a fronte, mísero profeta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cântico gelar-se no meu seio?!...”
— “Eu cantarei no céu” — diz-lhe o Poeta!
São Paulo, 25 de agosto de 1868
O VÔO DO GÊNIO
À atriz Eugênia Câmara
Um dia, em que na terra a sós vagava
Pela estrada sombria da existência,
Sem rosas — nos vergéis da adolescência,
Sem luz d’estrela — pelo céu do amor,
Senti as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte,
Como o cisne, que adeja sobre a fonte
Às vezes toca a solitária flor.
E disse então: “Quem és, pálido arcanjo!
Tu, que o poeta vens erguer do pego?
Eras acaso tu, que Milton cego
Ouvia em sua noite erma de sol?
Quem és tu?
Quem és tu? — “Eu sou o gênio”
Disse-me o anjo “vem seguir-me o passo,
Quero contigo me arrojar no espaço,
Onde tenho por c’roas o arrebol!”
“Onde me levas, pois!...” — Longe te levo
Ao país do ideal, terra das flores,
Onde a brisa do céu tem mais amores
E a fantasia — lagos mais azuis...”
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o voo d’águia não se eleva...
Abaixo — via a terra — abismo em treva!
Acima — o firmamento — abismo em luz!
“Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!”
— “Não, poeta, é o vedado paraíso,
Onde os lírios mimosos do sorriso
Eu abro em todo o seio, que chorou,
Onde a loura comédia canta alegre,
Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,
Que a sombra de Molière vem sorrindo
Beijar na fronte, que o Senhor beijou...”
“Onde me levas mais, anjo divino?”
— “Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,
O canto das esferas namoradas,
Quando eu encho de amor o azul dos céus,
Quero levar-te das paixões nos mares.
Quero levar-te a dédalos profundos,
Onde refervem sóis... e céus... e mundos...
Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é meu...”
“Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia:
A brisa morna, a sombra do arvoredo,
A linfa clara, que murmura a medo,
A luz que abraça a flor e o céu ao mar.
Ó princesa, a razão já se me perde,
És a sereia da encantada Sila,
Anjo, que transformaste-te em Dalila,
Sansão de novo te quisera amar!
“Porém não paras neste voo errante!
A que outros mundos elevar-me tentas?
Já não sinto o soprar de auras sedentas,
Nem bebo a taça de um fogoso amor.
Sinto que rolo em báratros profundos...
Já não tens asas, águia da Tessália,
Maldição sobre ti... tu és Onfália,
Ninguém te ergue das trevas e do horror.
“Porém silêncio! No maldito abismo,
Onde caí contigo criminosa,
Canta uma voz, sentida e maviosa,
Que arrependida sobe a Jeová!
Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça,
Talvez seja algum anjo peregrino...
...
Mas não! inda eras tu, gênio divino,
Também sabes chorar, como Eloá!
“Não mais, ó serafim! suspende as asas!
Que, através das estrelas arrastado,
Meu ser arqueja louco, deslumbrado,
Sobre as constelações e os céus azuis.
Arcanjo! Arcanjo! basta... Já contigo
Mergulhei das paixões nas vagas cérulas...
Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas —
Mas na minh’alma — já não cabe — luz!...”
Recife, maio de 1866
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita / Mocidade e Morte / Os três amores / O Gondoleiro do Amor / As Três Irmãs do Poeta /
________________Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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