sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Espumas Flutuantes - As Três Irmãs do Poeta

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AS TRÊS IRMÃS DO POETA   
Traduzido de E. Berthoud

É noite! as sombras correm nebulosas. 
 Vão três pálidas virgens silenciosas 
 Através da procela irrequieta. 
 Vão três pálidas virgens... vão sombrias 
 Rindo colar num beijo as bocas frias... 

Na fronte cismadora do — Poeta — 
 “Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença. 
 Sou eu quem te sepulta a ideia imensa, 
 Quem no teu nome a escuridão projeta... 
 Fui eu que te vesti do meu sudário... 
 Que vais fazer tão triste e solitário?... 

— “Eu lutarei!” — responde-lhe o Poeta.

“Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome. 
 Sou eu quem o teu negro pão consome... 
 O teu mísero pão, mísero atleta! Boa Vista, 1867 
 Hoje, amanhã, depois... depois (qu’importa?) 
 Virei sempre sentar-me à tua porta...”  

— “Eu sofrerei!” — responde-lhe o Poeta.

“Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte! 
 Suspende em meio o hino augusto e forte. 
 Marquei-te a fronte, mísero profeta! 
 Volve ao nada! Não sentes neste enleio 
 Teu cântico gelar-se no meu seio?!...”  

— “Eu cantarei no céu” — diz-lhe o Poeta!

São Paulo, 25 de agosto de 1868 


O VÔO DO GÊNIO 
À atriz Eugênia Câmara 

Um dia, em que na terra a sós vagava 
 Pela estrada sombria da existência, 
 Sem rosas — nos vergéis da adolescência, 
 Sem luz d’estrela — pelo céu do amor, 
 Senti as asas de um arcanjo errante 
 Roçar-me brandamente pela fronte, 
 Como o cisne, que adeja sobre a fonte 
 Às vezes toca a solitária flor. 

E disse então: “Quem és, pálido arcanjo! 
 Tu, que o poeta vens erguer do pego? 
 Eras acaso tu, que Milton cego 
 Ouvia em sua noite erma de sol? Quem és tu? 
Quem és tu? — “Eu sou o gênio” 
 Disse-me o anjo “vem seguir-me o passo, 
 Quero contigo me arrojar no espaço, 
 Onde tenho por c’roas o arrebol!” 

“Onde me levas, pois!...” — Longe te levo 
 Ao país do ideal, terra das flores, 
 Onde a brisa do céu tem mais amores 
 E a fantasia — lagos mais azuis...” 
 E fui... e fui... ergui-me no infinito, 
 Lá onde o voo d’águia não se eleva... 
 Abaixo — via a terra — abismo em treva! 
 Acima — o firmamento — abismo em luz! 

“Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!” 
 — “Não, poeta, é o vedado paraíso, 
 Onde os lírios mimosos do sorriso 
 Eu abro em todo o seio, que chorou, 
 Onde a loura comédia canta alegre, 
Onde eu tenho o condão de um gênio infindo, 
 Que a sombra de Molière vem sorrindo 
 Beijar na fronte, que o Senhor beijou...” 

“Onde me levas mais, anjo divino?” 
 — “Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas, 
 O canto das esferas namoradas, 
 Quando eu encho de amor o azul dos céus, 
 Quero levar-te das paixões nos mares. 
 Quero levar-te a dédalos profundos, 
 Onde refervem sóis... e céus... e mundos... 
 Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é meu...” 

“Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia: 
 A brisa morna, a sombra do arvoredo, 
 A linfa clara, que murmura a medo, 
 A luz que abraça a flor e o céu ao mar. 
 Ó princesa, a razão já se me perde
 És a sereia da encantada Sila, 
 Anjo, que transformaste-te em Dalila, 
 Sansão de novo te quisera amar! 

“Porém não paras neste voo errante! 
 A que outros mundos elevar-me tentas? 
 Já não sinto o soprar de auras sedentas, 
 Nem bebo a taça de um fogoso amor. 
 Sinto que rolo em báratros profundos... 
 Já não tens asas, águia da Tessália, 
 Maldição sobre ti... tu és Onfália, 
 Ninguém te ergue das trevas e do horror. 

“Porém silêncio! No maldito abismo, 
 Onde caí contigo criminosa, 
 Canta uma voz, sentida e maviosa, 
 Que arrependida sobe a Jeová! 
 Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça, 
 Talvez seja algum anjo peregrino... ... 
Mas não! inda eras tu, gênio divino, 
 Também sabes chorar, como Eloá! 

“Não mais, ó serafim! suspende as asas! 
 Que, através das estrelas arrastado, 
 Meu ser arqueja louco, deslumbrado, 
 Sobre as constelações e os céus azuis. 
 Arcanjo! Arcanjo! basta... Já contigo 
 Mergulhei das paixões nas vagas cérulas... 
 Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas — 
 Mas na minh’alma — já não cabe — luz!...” 

Recife, maio de 1866  

continua pag 23...
____________________

________________

Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário