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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / III — Os Quadrifrons

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     III — Os Quadrifrons

             A noite, ao despedir-se para se deitar, Mário meteu casualmente a mão ao bolso do casaco e encontrou o embrulho que achara no boulevard e de que já se tinha esquecido. Lembrou-se que seria conveniente abri-lo porque talvez dentro viesse a indicação da morada das raparigas, se, na realidade, este lhes pertencia, e, em todo o caso, os esclarecimentos necessários para o restituir à pessoa que o perdera.
     Desfez o embrulho e encontrou nele quatro cartas abertas, mas todas com direção e exalando forte cheiro a tabaco.
     A primeira era dirigida à Senhora Marquesa de Grucheray, defronte do palácio das cortes n.º...
     Mário julgou que talvez nesta carta encontrasse as indicações que procurava, e parecendo-lhe verosímil que, visto ela não estar fechada, podia ser lida sem inconveniente, resolveu lê-la.
     A carta era concebida nos seguintes termos:

Senhora Marquesa:
A virtude da clemência e piedade é a que mais estreitamente une a sociedade. Digne-se V. Ex.ª dar largas aos seus sentimentos cristãos, lançando um olhar de compaixão sobre este infeliz espanhol, vítima da sua lealdade e afeto à sagrada causa da legitimidade, pela qual verteu o seu sangue e arruinou toda a sua fortuna, vendo-se hoje na maior miséria. Bem certo está ele de que V. Ex.ª lhe não negará algum socorro para conservar os tristes dias da vida a um militar bem educado, honrado e coberto de feridas, que de antemão conta com os sentimentos da humanidade que animam V. Ex.ª e com o interesse que sempre tem mostrado por uma nação tão desditosa. As suas súplicas, pois, não serão vãs, pelo que desde já me confesso eternamente grato.
Digne-se V. Ex.ª aceitar os protestos de respeito e veneração com que tenho a honra de ser.
De V. Ex.ª
Dom Alvarez, capitão espanhol de cavalaria, realista refugiado em França, que se dispõe a regressar para a sua pátria, mas que lhe faltam os recursos para continuar a viagem.

     Nem uma só palavra depois da assinatura continha a carta por onde o jovem conhecesse a residência do capitão espanhol.
     Esperando encontrá-la na segunda carta, resolveu lê-la também. Era dirigida à Senhora Condessa de Montvernet, rua Cassette n.º 9, e o seu conteúdo era o seguinte:

Senhora Condessa:
Sou uma desgraçada mãe de família com seis filhos, tendo o último só oito meses. Desde o meu último parto que estou doente e abandonada há cinco meses por meu marido, sem recurso nenhum no mundo e na mais completa indigência.
Esperançada em V. Ex.ª, tenho a honra de ser com o mais profundo respeito.
De V. Ex.ª
A infeliz Balizard 

     Passou à terceira carta, que era uma súplica, como as precedentes, e eis o que leu:

Senhor Pabourgeot, eleitor, negociante de bonés por atacado, Rua de S. Dinis, à esquina da Rua dos Ferros.
Tomo a liberdade de me dirigir ao senhor para lhe rogar que me conceda o precioso favor das suas simpatias e tome debaixo da sua proteção um homem de letras, autor de um drama que deseja pôr em cena, no Teatro Francês. O assunto deste drama é histórico, e a ação passa-se no Auvergne no tempo do império; o seu estilo, no meu entender, é natural, lacónico, e tem talvez algum merecimento. Tem «couplets» para se cantarem, em quatro passagens. Ao chiste, gravidade e arrojo dos lances, junta este drama a variedade nos caracteres e uns laivos românticos ao de leve espalhados por todo o entrecho, que se desenvolve misteriosamente, indo afinal, após peripécias de grande efeito, terminar no meio de muitos lances admiráveis.
O meu fito principal é satisfazer o desejo que progressivamente anima o homem do nosso século, quero dizer, a «moda», caprichosa e singular grimpa, que quase muda a cada novo vento. 
Apesar destas qualidades receio que a inveja, o egoísmo dos autores privilegiados, consiga a minha exclusão do teatro, pois bem sei os dissabores que têm a tragar os autores que pela primeira vez se apresentam.
Senhor, a sua justa reputação de protetor esclarecido dos homens de letras, infunde-me ousadia para lhe mandar minha filha que lhe exporá a nossa indigente situação, faltos de pão e de lume, nesta invernosa quadra. Dizer-lhe que lhe peço que aceite a homenagem que desejo fazer-lhe do meu drama e de todos os que vier a compor, é dar-lhe uma prova de quanto ambiciono a honra de me abrigar debaixo da sua égide e adornar os meus escritos com o seu nome. Se se dignar honrar-me aceitando tão modesta oferenda, brevemente encetarei uma peça em verso, para deste modo lhe pagar o meu tributo de reconhecimento. Esta peça que diligenciarei tornar o mais perfeita que me seja possível, ser-lhe-á enviada antes de ser inserida no princípio do drama, e recitada em cena. 
Ao senhor e senhora Pabourgeot, as minhas mais respeitosas homenagens
Genflot 
Homens de letras.
P. S. — Ainda que não sejam senão quarenta soldos. 
Desculpe-me por mandar minha filha e não me apresentar eu mesmo; porém, infelizmente, não o permitem tristes motivos de vestuário...

     Mário abriu por fim a quarta carta, cujo sobrescrito era endereçado ao Senhor benfeitor da igreja de S. Jacques du Haut-Pas, e continha estas poucas linhas:

Homem caridoso: 
Se se dignar acompanhar minha filha verá uma calamidade miserável e eu lhe mostrarei os meus atestados.
Ao aspecto destes escritos a sua generosa alma experimentará um sentimento de sensível benevolência, pois os verdadeiros filósofos experimentam sempre vivas emoções. 
Decerto concorda comigo, homem compassivo, que necessariamente tem de sofrer grandes necessidades e ser-lhes bem doloroso, que os que gemem na penúria o façam atestar pela autoridade, como se nem ao menos fosse isto sofrer e morrer de inanição, enquanto os não aliviam na sua miséria. O destino que tão pródigo ou tão protetor se mostra para alguns, para outros não pode ser mais fatal. 
Espero a vossa presença ou a esmola que se dignar mandar-me, e peço-lhe aceite os protestos de respeito com que tenho a honra de ser,
Homem verdadeiramente magnânimo,
Humilde servo e criado obrigadíssimo, 
P. Fabantou 
artista dramático

     Mário, depois de ter lido estas quatro cartas não se achou mais adiantado do que dantes.
     Em primeiro lugar nenhuma das assinaturas estava acompanhada da morada; depois, pareciam provir de quatro indivíduos diferentes: D. Alvarez, uma mulher apelidada Belizard, o poeta Genflot, e o artista dramático Faibantou; mas o seu lado extraordinário, era serem todas escritas com a mesma letra.
     O que havia de concluir senão que provinham da mesma pessoa?
     Além de tudo, o que tornava a conjectura ainda mais verosímil, o papel grosso e amarelado era igual nas quatro cartas, todas cheiravam a tabaco, e, conquanto tivessem evidentemente diligenciado variar o estilo, produziam-se em todas os mesmos erros de ortografia com a mais profunda tranquilidade, não sendo mais isento deles o homem de letras Genflot, do que o capitão espanhol.
     Esforçar-se em adivinhar este mistério, era trabalho inútil. Se não vesse sido um achado, parecia um logro. Mário estava demasiadamente triste para aceitar de bom grado um gracejo do acaso e prestar-se aos brinquedos que pareciam oferecer-lhe as pedras da rua. Pareceu-lhe estar jogando a cabra-cega com as quatro cartas que se riam dele.
     No fim de tudo, coisa nenhuma indicava que as cartas pertencessem às raparigas que Mário encontrara no boulevard. Tornou portanto a embrulhá-las e atirou o embrulho para um canto e deitou-se.
     As sete horas da manhã tinha-se levantado e almoçado, e dispunha-se para começar a trabalhar, quando ouviu bater de mansinho à porta.
     Como não possuía coisa nenhuma, não tirava a chave da porta, senão às vezes, e essas muito raras, quando estava fazendo algum trabalho com muita pressa. Fora destas ocasiões deixava sempre a chave na fechadura.

— Algum dia roubam-lhe as suas coisas — dizia-lhe mame Bougon. 
— O quê? — respondia Mário.

     O fato é que um dia roubaram-lhe um par de botas velhas, o que foi grande triunfo para mame Bougon.
     Bateram segunda pancada, devagarinho, como da primeira vez.

— Entre — disse Mário.

     A porta abriu-se.
— Que me quer, senhora Bougon? — tornou Mário, sem afastar os olhos dos livros e manuscritos que tinha em cima da mesa.

     A isto respondeu-lhe uma voz, que não era a da senhora Bougon.

— Queira desculpar...

     Era uma voz surda, falhada, rouca. Voz de um velho saturado de aguardente. 
     Mário voltou-se de repente e viu que era uma rapariga.

continua na página 551...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - III — Os Quadrifrons
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / II — Achado

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     II — Achado

             Mário continuava a morar no casarão Gorbeau, sem se importar nem fazer reparo em nenhum dos outros moradores.
     Para bem dizer, nessa época, os únicos moradores do casarão eram ele e os tais Jondra e, a quem o jovem uma ocasião pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros inquilinos tinham mudado ou morrido, ou sido expulsos por não pagarem.
     Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da antiga festa de Candelária, cujo sol traiçoeiro, precursor de um frio de seis semanas, inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justiça se tornaram clássicos:
Qu’il luise ou qu’il luiserne, 
L’ours rentre en sa caverne.
     
     Mário acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar, pois o rapaz vira-se na necessidade de continuar o seu antigo costume de jantar. Oh, fraquezas das paixões ideais!
     Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento andava a varrer, proferindo este memorável monólogo: 

— Hoje em dia que coisa deixa de estar cara? Nada. Está tudo pela hora da morte. A única coisa barata são os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os trabalhos deste mundo? Para nada!

     Mário caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira, a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensativo e de olhos fitos no chão, quando de súbito por entre a névoa sentiu um encontrão; voltou-se e viu duas jovens esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente, esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o não viram, tinham esbarrado com ele. Por entre o crepúsculo, Mário distinguiu-lhes os lívidos rostos, as cabeças descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e os pés descalços. Iam correndo e falando uma com a outra, e a mais alta dizia à sua companheira, em voz que se ouvia: 

— O caso é que os partazanas por um triz me não deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.

     E a outra respondia. 

— Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!

     Através desta sinistra gíria, Mário entendeu que os gendarmes ou os cabos estiveram quase a apanhar aquelas duas crianças e que elas lhes tinham fugido. As duas raparigas embrenharam-se por baixo das árvores do boulevard, de onde o jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escuridão uma espécie de vaga brancura que se desfez; e Mário, que parara um momento, dispôs-se a seguir para o seu destino.
     Ia, porém, a continuar o seu caminho, quando, olhando para o chão, avistou um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espécie de sobrescrito que parecia conter papéis. 

— Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! — disse ele.

     Voltou atrás, chamou, porém não as tornou a ver; julgando, pois, que já iriam longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.
     No caminho viu numa álea da rua de Mouffetard um caixão de um anjinho coberto com um pano preto, colocado em cima de três cadeiras e alumiado por uma vela. Voltaram-lhe então à lembrança as duas raparigas do anoitecer. 

— Pobres mães! — disse ele consigo. — Ainda há para vós coisa mais triste do que verdes morrer vossos filhos; é vê-los viver mal!

     Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saíram-lhe do pensamento e ele voltou às suas habituais preocupações. Principiou a pensar nos seus seis meses de amor e ventura, ao ar livre e à luz do meio-dia, debaixo das belas árvores do Luxemburgo. 

— Como se tornou sombria a minha vida! — dizia ele a sós consigo. — Ainda me aparecem as jovens, porém dantes eram anjos, agora são gaviões depenados!

continua na página 548...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - II — Achado
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OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / I — Mário procura uma mulher de chapéu

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     I — Mário procura uma mulher de chapéu e encontra um homem de boné

             Passou o Verão, o Outono e chegou o Inverno. Em todo este tempo nem Leblarac nem a jovem tornaram a aparecer no Luxemburgo. O constante pensamento de Mário era ver outra vez aquele meigo rosto tão querido. Procurava, pois, sempre e por toda a parte, mas nada encontrava. Mário já não era o sonhador entusiasta, o homem resoluto, ardente e firme, o ousado provocador do destino, o cérebro que planeava futuros sobre futuros, o espírito cheio de planos, projetos, orgulhos, ideias e vontades; era um cão perdido. Desalentado pelo infrutuoso resultado das suas buscas, caiu numa negra tristeza, expressão do seu grande sofrimento. Estava tudo acabado. Aborrecia-lhe o trabalho, a solidão, o passeio; a vasta natureza, outrora tão farta de formas, de fulgores, de vozes, de conselhos, de perspectivas, de horizontes, de lições, nada disto tinha agora para ele; parecia-lhe que tudo havia desaparecido.
     Pensava ainda, pois que não podia esquivar-se a isso, porem já não achava gosto nos seus pensamentos. A tudo o que eles de contínuo lhe propunham em voz baixa respondia ele misteriosamente: «Para quê?»
     A par disto, a si mesmo dirigia um sem-número de recriminações. «Para que a segui eu, se só o vê-la era já para mim tamanha felicidade! Ela fitava-me os olhos. Não era imenso? Dava mostras ”de amar-me. Não era tudo? Que mais queria eu? Daqui em diante não se pode passar, porque não há mais nada. Fui absurdo. O culpado sou eu!»
     Courfeyrac, a quem Mário, como era seu costume, nada confiava, mas que adivinhava parte das coisas, como também costumava, ao princípio, não sem admiração, dera a Mário os parabéns por estar enamorado; ultimamente, porém, vendo o rapaz a braços com a sua negra melancolia, dissera-lhe:

— Vejo que não passavas de um pateta. Deixa lá isso, vamos até à Chaumière.

     Uma ocasião, Mário, confiado num belo sol de Setembro, acedera aos rogos de Courfeyrac, Bossuet e Grantaire, acompanhando-os ao baile de Sceaux, esperançado — que sonho! — em que talvez lá a encontrasse. Escusado é dizer que as suas esperanças ficaram frustradas. Por mais que fizesse, não viu quem ele procurava.

— Ora esta. Mas aqui é que se encontram as mulheres perdidas —, murmurava Grantaire num aparte.

     Mário deixou os seus amigos no baile e voltou para casa a pé, só, cansado, a arder em febre, com os olhos turvos e tristes no meio da escuridão, aturdido com o barulho e com o pó levantado pelos carros cheios de joviais criaturas que voltavam da função e passavam por ele, cantando, ao passo que o jovem vinha desalentado, aspirando o cheiro acre das nogueiras da estrada para refrescar a cabeça.
     Principiou então a viver cada vez mais solitário, desvairado e triste, sempre a braços com a sua angústia íntima, girando em torno da sua dor como o lobo em roda do fosso, procurando por toda a parte a ausente, embrutecido pelo amor.
     Noutra ocasião teve um encontro que lhe causou uma singular sensação. Ao passar por uma das estreitas ruas próximas ao boulevard dos Inválidos, encontrou-se com um homem trajado a modo de operário, com um boné de pala comprida na cabeça, por baixo do qual lhe saíam umas farripas de alvíssimo cabelo. Impressionado com a beleza daqueles cabelos brancos, pôs-se a contemplar aquele homem que caminhava a passos lentos e como que absorvido em dolorosa meditação. Estranha coisa! Ao vê-lo, afigurou se a Mário reconhecer naquele velho o senhor Leblanc. Eram os mesmos cabelos, o mesmo aspecto, embora algum tanto modificado pelo trajo, o mesmo modo de andar, apenas com uma diferença para mais triste. Mas que queria dizer aquele trajo de operário? Que significava semelhante disfarce? Mário ficou maravilhado. Apenas voltou a si do seu pasmo, o seu primeiro pensamento foi seguir aquele homem, que talvez lhe fizesse achar os vestígios de quem ele baldadamente tinha procurado. Em todo o caso, era necessário ver o homem de perto e aclarar o enigma. Quando, porém, tomou esta resolução, era tarde, porque o homem já tinha desaparecido, tomando decerto por alguma viela, de modo que Mário não foi capaz de tornar a encontrá-lo.
     O jovem andou alguns dias preocupado com este encontro, ao cabo dos quais se lhe varreu da memória.

«Afinal de contas», disse ele consigo, «talvez não passasse de uma semelhança».

continua na página 547...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - I — Mário procura uma mulher de chapéu
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OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / IV — Composição da quadrilha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     IV — Composição da quadrilha

             Estes quatro bandidos juntos formavam uma espécie de Proteu, serpenteando por entre a polícia e forcejando por escapar às indiscretas vistas de Vidocq «sob diversa figura, árvore, chama, fonte», emprestando-se mutuamente os nomes e a lábia, escondendo-se na própria sombra, caixas de segredos e asilos uns dos outros, desfazendo as suas personalidades como quem tira um nariz postiço num baile de máscaras, às vezes simplificando-se a ponto de se tornarem num só, outras multiplicando-se a ponto do próprio Ooco-Lacouor os tomar por uma multidão. 
     Estes quatro homens não eram quatro homens, eram uma espécie de misterioso ladrão com quatro cabeças operando sobre Paris em ponto grande; eram o monstruoso pólipo do mal habitando a cripta da sociedade.
     Em consequência das suas ramificações e da rede subjacente das suas relações, Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse tinham a empresa geral das ciladas do departamento do Sena. Praticavam no transeunte o golpe de Estado inferior. Os descobridores de ideias neste gênero, os homens de imaginação noturna, dirigiam-se a eles para a execução. Fornecia-se aos quatro gatunos a lona e eles encarregavam-se de pôr o espetáculo em cena. Estavam sempre em circunstâncias de poder prestar um pessoal proporcional e conveniente a todos os atentados em que se tornasse necessário um empuxão de ombros e que fossem bastante lucrativos. A qualquer crime que andasse à busca de braços, eles alugavam-lhe cúmplices. Tinham uma companhia de atores de trevas à disposição de todas as tragédias de cavernas.
     De ordinário, reuniam-se ao anoitecer, hora do seu despontar nas steppes próximas à Salpêtrière, e aí conferenciavam sobre o emprego que dariam às doze horas de trevas que tinham diante de si.
     Patron-Minette, eis o nome que na Circulação subterrânea davam à associação destes quatro homens. Na antiga e extravagante linguagem popular, que vai gradualmente decaindo, Patron-Minette significa a manhã, assim como entre cão e lobo significa a noite. A denominação de Patron-Minette derivava, provavelmente, da hora a que terminava a sua missão, sendo a madrugada o momento da desaparição dos fantasmas e da separação dos bandidos. Estes quatro homens eram conhecidos sob esta rubrica. Quando o presidente do tribunal criminal foi à prisão interrogar Lacenaire sobre certo crime que ele negava, perguntou-lhe: «Quem fez isto?» Ao que Lacenaire deu a seguinte resposta enigmática para o magistrado, mas clara para a polícia:

— Talvez fosse Patron-Minette.

     Às vezes adivinha-se uma peça pelo enunciado dos personagens; do mesmo modo pode quase apreciar-se uma quadrilha pela lista dos bandidos. Eis as denominações dos principais filiados da associação Patron-Minette, denominações que sobrevivem nas memórias especiais:

Panchaud, ou Printanier ou Bigrenaille. 
Brujon (havia uma dinas a de Brujon, de que não nos damos por desobrigados de dizer alguma coisa).
Boulatruelle, o cantoneiro, de quem já nesta história fizemos menção. 
Laveuve. 
Finistère. 
Homero-Hogu, negro. 
Mardisoir. 
Dépêche. 
Fauntleroy, conhecido por Ramalheteira. 
Glorieux, forçado solto. 
Barrecarosse, conhecido por senhor Dupont. 
Lesplanade-du-Sud. 
Poussagrive. 
Carmagnolet. 
Kruideniers, conhecido por Bizarro. 
Mangedentelle. 
Les-pieds-en-air. 
Demi-liard, ou DeuxnMilliarids. 
Etc., etc.

     Omitimos outros, que não são dos piores. Estes nomes têm figuras. Não exprimem somente criaturas, mas espécies. Cada um destes nomes corresponde a uma variedade destes disformes tortulhos do subterrâneo da civilização.
     Estas criaturas, pouco pródigas dos seus rostos, não eram das que se veem pelas ruas. De dia, fatigados das noites ferozes que passavam, dormiam umas vezes nos fornos de cal, outras nas pedreiras abandonadas de Montmartre, ou Montrouge, e às vezes até nos canos. Metiam-se debaixo da terra.
     Que é feito de tais homens? Ainda existem e existiram sempre. Fala deles Horácio: Ambubaiarum collegia, pharmacopolee, mendice, mimes; e enquanto a sociedade for o que é, eles serão o que são. Sob o escuro teto das suas covas, renascem sempre da transudação social. Voltam, espectros sempre idênticos, apenas com a diferença de não usarem os mesmos nomes nem existirem dentro das mesmas peles.
     Extirpam-se os indivíduos, mas subsiste a tribo.
     As suas faculdades são sempre as mesmas. Desde o truão ao vadio, conserva-se pura a raça. Estes homens adivinham as bolsas nas algibeiras, farejam os relógios nos bolsos. O ouro e a prata para eles têm cheiro. Há burgueses simples de quem quase se pode dizer que têm cara de se deixarem roubar, estes homens seguem-nos pacientemente. Ao passar algum estrangeiro ou provinciano, sentem estremecimentos de aranha.
     Mete medo encontrar estes homens ou somente avistá-los à meia-noite em algum boulevard deserto. Não parecem homens, mas formas feitas de nevoeiro vivo; dir-se-ia que fazem montão com as trevas, que não são distintos delas, que não têm outra alma senão a escuridão, e que só momentaneamente e com o fim de viver alguns minutos de uma vida monstruosa é que eles se desagregam das trevas.
     Que é preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um só morcego resiste ao clarão da aurora: Iluminai, portanto, o subterrâneo da sociedade.

continua na página 546...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse

             Quatro bandidos, Claquesous, Gueulemer, Babet e Montparnasse, governavam o entressolo de Paris, pelos anos de 1830 a 1835. Gueulemer era um Hércules em disponibilidade. O seu antro era o esgoto do Arche-Mariom. Tinha seis pés de altura, peito de mármore, músculos de bronze, uma respiração de caverna, cintura e ombros de colosso, crânio de pássaro. Dir-se-ia o Hércules Farnésio vestido com calças de cotim e jaqueta de veludinho. Construído desse modo escultural, Gueulemer seria capaz de domar monstros; achara, porém, mais simples ser ele mesmo um. Testa curta, fontes amplas, quarenta anos incompletos, e pés de pato, cabelo áspero e curto, faces salientes, barba como pelos de porco-espinho; eis o esboço deste homem. Os seus músculos solicitavam o trabalho, a sua estupidez rejeitava-o. Era uma grande força preguiçosa, um assassino por indolência. Dizia-se que este Gueulemer era crioulo. Como em 1815 fora carrejão em Avinhão, talvez tivesse convivido com o marechal Brune. Acabado este tempo de prática, passara a ser bandido.
     A transparência de Babet contrastava com a corpulência de Gueulemer. Babet era magro e instruído e, apesar de transparente, impenetrável. Via-se-lhe a luz através dos ossos, mas através das pupilas, nada. Declarava-se químico. Havia sido licorista no estabelecimento de Bobeche, palhaço com Bobino, e além disto ator de farsas em Saint Mihiel. Era um homem de propósito, bem falante, que sublinhava os seus sorrisos e punha comas nos seus gestos. Consistia o seu modo de «vida em andar a vender pelas ruas bustos de gesso e retratos do chefe do Estado. Além disto também tirava dentes. Em tempos andara mostrando fenômenos pelas feiras, nas quais levantava barraca, chamando os espectadores com trombetas e este cartaz: «Babet, artista dentista, membro das academias, faz experiências físicas sobre metais e metaloides, extirpa dentes, tira as arnelas abandonadas pelos seus colegas. Preços: um dente, um franco e cinquenta cêntimos: dois, dois francos; três, dois francos e cinquenta cêntimos. Aproveitar da ocasião». Este «aproveitar da ocasião» queria dizer: quanto maior número de dentes tirardes, melhor. Babet tinha casado e do filhas, porém não sabia o que era feito nem da mulher nem dos filhos. Perdera-os como quem perde o lenço. Por uma excepção, raríssima no obscuro mundo a que ele pertencia, Babet lia jornais. Uma ocasião, no tempo em que ele ainda trazia consigo a família na sua barraca ambulante, lera no Mensageiro que uma mulher tinha dado à luz uma vivedoura criança com focinho de touro, e exclamara: «Isto é que é ser feliz! Não é minha mulher capaz de me arranjar assim um pequeno!»
     Depois abandonara tudo para «tentar Paris», para nos servirmos da sua expressão.
     Quem vinha a ser Claquesous? Era a escuridão. Para se mostrar esperava que o céu se enfarruscasse de negro. À noite saía de um buraco, em que tornava a entrar antes de ser dia. Onde ficava essa cova? Ninguém o sabia No meio da mais completa escuridão, aos seus cúmplices só falava de costas voltadas. Chamava-se Claquesous? Não. O meu nome, dizia ele, é Nada. Se aparecia alguma vela, punha logo uma máscara. Era ventríloquo. Claquesous é um nocturno a duas vozes, dizia Babet, Claquesous era vago, errante, terrível. Não se sabia se ele tinha nome, visto que Claquesous era uma alcunha; não se sabia se tinha voz, visto que falava mais com o ventre do que com a boca; nem se tinha rosto, visto que nunca ninguém lhe Vira mais do que a máscara. Este homem desaparecia como uma visão e aparecia como quem irrompe das entranhas da terra.
     Criatura lúgubre, Montparnasse. Montparnasse era uma criança de vinte anos incompletos, bonito rosto, lábios rubros, lindos cabelos pretos, olhos resplandecentes do brilho da Primavera; Montparnasse tinha todos os vícios e aspirava a todos os crimes. Era o gaiato convertido em voyou e o voyou convertido em escarpa. Era gentil, efeminado, gracioso, robusto, lânguido feroz. Trazia a aba do chapéu revirada para dar lugar ao tufo dos cabelos, como era moda em 1829. Montparnasse vivia de roubar com violência. O casacão que trazia era bem feito, mas já usado Montparnasse era uma gravura de modas, cheia de miséria e cometendo homicídios. A causa de todos os atentados deste adolescente era o desejo de andar bem trajado. A primeira costureira que lhe disse:

— És belo! — impusera-lhe uma missão de trevas ao coração e fizera deste Abel um Caim.

     Achou-se bonito, quis ser elegante; ora a principal elegância é a ociosidade e a ociosidade do pobre é o crime. Poucos vadios havia mais temidos do que Montparnasse. Aos dezoito anos já tinha por trás de si um rasto de muitos cadáveres. Mais de um viandante jazia de braços estendidos na sombra deste miserável, com o rosto num lago de sangue. Frisado, embanhado, cintura delgada, espáduas de mulher, busto de oficial prussiano, admirado das pros tutas do boulevard, cassetete no bolso, flor ao peito; eis o retrato deste peralta do sepulcro.

continua na página 543...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

sábado, 27 de junho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / II — O «Bas-fond»

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     II — O «Bas-fond»

             Aí desaparece o desinteresse e divisa-se o vago esboço do demônio; içada qual para si. O eu sem olhos uiva, procura, apalpa e rói. Existe nesse pego o Ugolino social. 
     As figuras ferozes que giram nessa cova, quase animais, quase fantasmas, não se ocupam do progresso universal, cuja ideia ignoram; só cuidara de saciar-se cada uma a si mesma Quase lhes falta a consciência, e parece haver uma espécie de amputação terrível dentro delas. São duas as suas mães, ambas madrastas: a ignorância e a miséria. O seu guia é a necessidade; e para todas as formas da satisfação, o apetite. São brutalmente vorazes, quer dizer, ferozes; não à maneira de tirano, mais a maneira do tigre. Do sofrimento passam estas larvas ao crime; filiação fatal, geração aterradora, lógica das trevas. O que roja pelo entresolo social não é a reclamação sufocada do absoluto; é o protesto da matéria. Torna-se aí dragão o homem. Ter fome e sede, é o ponto de partida; ser Satanás, é o ponto de chegada. Esta cova produz Lacenaine.
     Viu-se há pouco no livro quarto, um dos compartimentos da mina superior, da grande cova política, revolucionária e filosófica, onde, como acabou de ver, é tudo nobre, puro, digno, honesto; onde, sem dúvida, é possível um engano, e efetivamente se dão; mas onde o erro se torna digno de respeito, tão grande é o heroísmo a que anda anexo. O complexo do trabalho que aí se opera chama-se Progresso.
     Chegou porém o momento de se entrever outras profundidades, as profundidades hediondas.
     Por baixo da saciedade, insistamos neste ponto, existirá sempre a grande caverna do mal, enquanto não chegar o dia da dissipação da ignorância.
     Esta cova fica por baixo de todas e é a inimiga de todas. É o ódio sem excepção. Esta não conhece filósofos; o seu punhal nunca aparou penas. A sua negrura não tem nenhuma relação com a sublime negrura da escrita. Nunca os negros dedos que se crispam debaixo desse teto asfixiante folhearam um livro ou abriram um jornal. Para Cartucho, Babeuf é um especulador para Schinderhannes, Marat é um aristocrata. O alvo desta cova é abismar tudo.
     Tudo. Inclusive as covas superiores que esta aborrece de morte. No seu medonho formigar, não mina somente a ordem social: mina a filosofia, mina a ciência, mina o direito, mina o pensamento humano, mina a civilização, a revolução, o progresso. Tem simplesmente o nome de roubo, prostituição, homicídio e assassínio. É trevas, quer o caos. A sua abóbada é formada da ignorância.
     Todas as outras, as de cima, têm por único alvo suprimi-la, alvo para o qual tendem a filosofia e o progresso, por todos os seus órgãos, juntamente, tanto pelo melhoramento do real, como pela contemplação do absoluto. Destruí a cova Ignorância, e tereis destruído a toupeira do Crime.
     Condensemos em poucas palavras uma parte do que acabamos de escrever. O único perigo social é a Treva.
     Humanidade, quer dizer identidade. Os homens são todos do mesmo barro. Na predestinação não há diferença nenhuma, ao menos neste mundo. A mesma sombra antes, a mesma carne agora, a mesma cinza depois. Mas a ignorância misturada com a massa humana enegrece-a. Essa negrura comunica-se ao interior do homem e converte se no Mal.

continua na página 541...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - II — O «Bas-fond»
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / I — As minas e os mineiros

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     I — As minas e os mineiros

             Em todas as sociedades humanas há aquilo a que nos teatros se dá o nome de entresolo. O solo social é todo minado, ora para o bem, ora para o mal, e essas minas são sobrepostas. Há as superiores e inferiores. Tem altos e baixos esse escuro subterrâneo, cavado sob a civilização, por cima do qual nós passeamos com descuidada indiferença. No século passado, a Enciclopédia era uma mina quase sem abóbada As trevas que chocaram o cristianismo primitivo esperavam apenas ensejo oportuno para rebentarem debaixo dos Césares e inundarem de luz o género humano. Porquanto, nas trevas sagradas há luz latente. Os vulcões estão cheios de trevas susceptíveis de disparar em clarões. Toda a lava principia por escuridão. As catacumbas onde se disse a primeira missa não eram só os covais de Roma, eram também o subterrâneo do mundo.
     Por baixo do edifício social existem as variadas escavações que constituem a complicada maravilha de um edifício em ruínas. Existe a mina religiosa, a mina filosófica, a mina política, a mina económica, a mina revolucionária. Uma cavada com ideia, outra com o algarismo, outra com a cólera. Ouvem-se as vozes dos que chamam de uma catacumba para a outra, e os chamados e as que chamam mutuamente se respondem. As utopias caminham por canais subterrâneos, ramificam-se em todas as direções, e às vezes encontram-se e fraternizam. Então Jean Jacques empresta o seu picão a Diógenes e este empresta-lhe a sua lanterna. Outras vezes combatem-se, e então Calvino trava de Socino pelos cabelos. Mas nada faz parar ou interromper a tensão de todas estas energias para o seu fim, nem a vasta atividade simultânea que vai e vem, sob e desce, e torna a subir no meio daquelas obscuridades, voltando lentamente o de cima para baixo e o de fora para dentro: espécie de formigueiro ignorado, mas imenso. A sociedade mal suspeita estas escavações que lhe deixam a super cie e lhe mudam as entranhas. Quantos são os andares subterrâneos, outros tantos trabalhos diferentes, outras tantas extrações diversas. Que sai de todas estas subterrâneas escavações? O futuro.
     Quanto mais vai afundando o edifício, mais misteriosos são os operários. Até certo degrau que o filósofo social sabe conhecer é bom o trabalho; desse degrau para baixo torna-se duvidoso e misto; quanto mais fundo mais terrível. A certa profundidade já as escavações não são penetráveis ao espírito de civilização, acaba o limite respirável ao homem; principiam a ser possíveis os monstros.
     É singular a escala descendente, mas cada um desses degraus corresponde a um andar, em que a filosofia pode firmar-se e onde sempre se encontra algum desses obreiros, umas vezes divinos, outras disformes. Por baixo de Jean Huss está Lutero; por baixo de Lutero está Descartes; por baixo de Descartes, Voltaire; por baixo de Voltaire, Condorcet; por baixo de Condorcet, Robespierre; por baixo de Robespierre, Marat; por baixo de Marat, Babeuf. E assim por diante. Mas no fundo, confusamente, no limite que separa o indistinto do invisível, divisam-se outros homens sombrios que talvez ainda não existam. Os de ontem são espectros; os de amanhã são larvas Obscuramente os distinguem os olhos do espírito. O trabalho embrionário do futuro é uma das visões do filósofo.
     Que singular aspecto o de um mundo nos limbos em estado de feto!
     Nesse mundo existem também em minas laterais Saint-Simon, Owen, Fourier.
     Com efeito, posto que uma divina cadeia invisível una uns aos outros, sem que eles o saibam, esses viandantes subterrâneos, que quase sempre se julgam isolados e não o estão, os seus trabalhos são muito diversos e a luz de uns contrasta com o resplendor dos outros. Uns são paradisíacos, os outros trágicos. Contudo, por maior que seja o contraste, todos estes obreiros, de cima até baixo, desde o mais ajuizado até ao mais tolo, têm entre si a semelhança do desinteresse. Marat olvida o que é, como Jesus Põem se a si de lado, omitem-se, não se lembram de si, veem outra coisa sem ser as suas próprias pessoas. Olham, mas o seu olhar procura o absoluto. O primeiro tem o céu todo nos olhos; o último, por mais enigmático que seja, ainda assim tem por baixo do sobrolho o pálido clarão do infinito. Faça ele o que fizer, venerai sempre o que ver este sinal a pupila estrela.
     A pupila sombra é o outro sinal.
     Nela tem seu princípio o mal. Fronte sem olhar, tremei e fugi dela. A ordem social também tem mineiros negros.
     Há um ponto, porém, em que o afundar é cavar uma sepultura em que a luz se apaga.
     Por baixo de todas estas minas de que acabamos de fazer menção, de todas estas galerias, de todo este imenso sistema venoso, subterrâneo do progresso e da utopia, bem pela terra dentro, abaixo de Marat, abaixo de Babeuf, mais abaixo, muito mais, e sem nenhuma relação com os andares superiores, existe a última cova Lugar formidável, que é ao que nós demos o nome de entresolo. É o fosso das trevas, a cova dos cegos. Inferi.
     Isto comunica com os abismos.

continua na página 540...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - I — As minas e os mineiros
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira