A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra
PRIMEIRA PARTE
As Fontes Subterrâneas do Poder
38. Dentes de ferro sobre o Brasil
Pelo ferro que compram do Brasil e da Venezuela, os
Estados Unidos pagam menos do que pelo ferro extraído de
seu próprio subsolo. Mas esta não é a chave da ânsia norte
americana de apossar-se de jazidas de ferro no exterior: a
posse ou o controle das minas fora de suas fronteiras
constitui, mais do que um negócio, um imperativo da
segurança nacional. O subsolo norte-americano, como
vimos, já se exaure. Sem o ferro não se faz o aço, e 85 por
cento da produção industrial dos Estados Unidos, de uma
forma ou de outra, contém aço. Quando, em 1969,
reduziram-se os fornecimentos do Canadá, houve um
imediato aumento das importações da América Latina.
O cerro Bolívar, na Venezuela, é tão rico que a terra
dele retirada pela US Steel Co. é carregada diretamente
para os porões dos navios rumo aos Estados Unidos. O cerro
expõe em suas encostas as profundas feridas que lhe
infligem os bulldozers: a empresa estima que contém cerca
de oito bilhões de dólares em ferro. Num só ano, em 1960, a
US Steel e a Bethlehem Steel repartiram ganhos
equivalentes a mais de 30 por cento do capital investido no
ferro da Venezuela, e o volume desses lucros resultou igual
à soma de todos os impostos pagos ao Estado venezuelano
nos dez anos transcorridos desde 1950
[1]. Como as duas
empresas vendem o ferro com destino aos seus próprios
estabelecimentos siderúrgicos nos Estados Unidos, não têm
o menor interesse na defesa do preço; ao contrário,
convêm-lhes que o custo da matéria-prima seja o mais
barato possível. A cotação internacional do ferro, que caíra
verticalmente entre 1958 e 1964, estabilizou-se
relativamente nos anos posteriores e permanece estancada;
entrementes, o preço do aço não parou de subir. O aço é
produzido nos centros ricos do mundo, o ferro nos subúrbios
pobres; o aço paga salários de “aristocracia operária”, e o
ferro, diárias de mera subsistência.
[1] PLAZA, Salvador de la. In: Perfiles de la economía venezolana, volume
coletivo. Caracas, 1964.
Graças às informações recolhidas e divulgadas, lá por
1910, por um Congresso Internacional de Geologia reunido
em Estocolmo, os homens de negócios dos Estados Unidos
puderam, pela primeira vez, avaliar as dimensões dos
tesouros escondidos sob o solo de uma série de países, um
dos quais, talvez o mais tentador, era o Brasil. Muitos anos
depois, em 1948, a embaixada dos Estados Unidos criou um
cargo novo no Brasil, o adido mineral, que logo teve tanto
trabalho quanto o adido militar e o adido cultural: tanto que,
rapidamente, foram designados dois adidos minerais no
lugar de um só
[2]. Pouco depois, a Bethlehem Steel recebia
do governo de Dutra as esplêndidas jazidas de manganês
do Amapá. Em 1952, o acordo militar assinado com os
Estados Unidos proibiu o Brasil de vender matérias-primas
de valor estratégico – como o ferro – para os países
socialistas. Esta foi uma das causas da trágica queda do
presidente Getúlio Vargas, que desobedeceu essa imposição
e, em 1953 e 1954, vendeu ferro para a Polônia e a
Tchecoslováquia a preços mais altos do que aquele que era
pago pelos Estados Unidos. Em 1957, a Hanna Mining Co.
comprou, por seis milhões de dólares, a maioria das ações
de uma empresa britânica, a Saint John Mining Co., que se
dedicava à extração do ouro em Minas Gerais desde os
distantes tempos do Império. A Saint John operava no vale
do Paraopeba, onde jaz a maior concentração de ferro do
mundo inteiro, avaliada em 200 bilhões de dólares. A
empresa inglesa não estava legalmente habilitada a
explorar essa fabulosa riqueza, e tampouco a Hanna estaria,
de acordo com as claras disposições constitucionais e legais
que Duarte Pereira enumera em sua obra sobre o tema. Mas
este foi, logo se soube, o negócio do século.
[2] PEREIRA, Osny Duarte. Ferro e independência. Um desafio à dignidade
nacional. Rio de Janeiro, 1967.
O levantamento popular encabeçado por Leonel Brizola
em Porto Alegre frustrou o golpe dos militares e colocou no
poder o vice-presidente de Quadros, João Goulart. Em julho
de 1962, quando um ministro quis pôr em prática o decreto
fatal contra a Hanna – que fora mutilado no Diário Oficial –,
o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, enviou
um telegrama a Goulart, protestando com viva indignação
pelo atentado que o governo ia cometer contra os
interesses da uma empresa norte-americana. O Poder
Judiciário confirmou a validade da resolução de Jânio
Quadros, mas Goulart vacilava. Enquanto isto, o Brasil dava
os primeiros passos para estabelecer um entreposto de
minerais no Adriático, com o fim de abastecer de ferro
vários países europeus, capitalistas e socialistas: a venda
direta do ferro significava um desafio insuportável para as
grandes empresas que manejam os preços em escala
mundial. O entreposto nunca se tornou realidade, mas
outras medidas nacionalistas – como o dique oposto à
drenagem dos lucros das empresas estrangeiras – passaram
a viger e proporcionaram detonadores para a explosiva
situação política. A espada de Dâmocles da resolução de
Quadros permanecia em suspenso sobre a cabeça da
Hanna. Até que, no último dia de março de 1964,
prorrompeu um golpe de Estado em Minas Gerais,
casualmente o cenário das jazidas de ferro em disputa.
“Para a Hanna”, escreveu a revista Fortune, “a revolta que
derrubou Goulart na primavera passada chegou como um
desses resgates de último minuto pelo Primeiro de
Cavalaria.”
[3]
[3] “Immovable mountains”. Fortune, abril de 1965.
Homens da Hanna passaram a ocupar a vice presidência do Brasil e três dos ministérios. No mesmo dia da insurreição militar, o Washington Star havia publicado um editorial no mínimo profético: “Eis aqui uma situação em que um bom e efetivo golpe de Estado, no velho estilo, de líderes militares conservadores, pode servir aos melhores interesses de todas as Américas” [4]. Goulart ainda não renunciara nem abandonara o Brasil quando Lyndon Johnson, sem poder conter-se, enviou seu célebre telegrama ao presidente do Congresso brasileiro, que havia assumido provisoriamente a presidência do país: “O povo norte americano acompanhou com ansiedade as dificuldades políticas e econômicas pelas quais tem atravessado sua grande nação, e admirou a resoluta vontade da comunidade brasileira de solucionar essas dificuldades no marco da democracia constitucional e sem guerra civil” [5]. Pouco mais de um mês decorrera quando o embaixador Lincoln Gordon, que percorria euforicamente os quartéis, pronunciou um discurso na Escola Superior de Guerra, afirmando que o triunfo da conspiração de Castelo Branco “poderia ser incluído, ao lado da proposta do Plano Marshall, do bloqueio de Berlim, da derrota da agressão comunista na Coreia e da solução da crise dos foguetes em Cuba, como um dos mais importantes momentos de mudança na história mundial de meados do século XX” [6]. Um dos membros militares da embaixada dos Estados Unidos tinha oferecido ajuda material aos conspiradores, pouco antes da eclosão do golpe [7], e o próprio Gordon lhes sugerira que os Estados Unidos reconheceriam um governo se ele fosse capaz de se sustentar dois dias em São Paulo [8]. Não vale a pena esbanjar testemunhos sobre a importância que teve, no desenvolvimento e no desenlace dos acontecimentos, a ajuda econômica dos Estados Unidos, da qual, de resto, nos ocuparemos mais adiante, ou a assistência norte-americana no plano militar ou sindical. [9]
[4] Conf. PEDROSA, Mário. A opção brasileira. Rio de Janeiro, 1966.
[5] De Lyndon Johnson a Rainieri Mazzilli, 2 de abril de 1964, versão da
Associated Press.
[6] Segundo informou o jornal O Estado de São Paulo, 4 de maio de 1964.
[7] STACCHINI, José. Mobilização de audácia. São Paulo, 1965.
[8] SIEKMAN, Philip. “When Executives Turned Revolutionaries”. Fortune, julho
de 1964.
[9] Vejam-se as declarações ante o Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara
de Representantes dos Estados Unidos, citadas por MAGDOFF, op. cit., e o
revelador artigo de Eugene Methvin em Selecciones de Reader’s Digest em
espanhol, de dezembro de 1966: segundo Methvin, graças aos bons serviços do
Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre, com sede em
Washington, os golpistas brasileiros puderam coordenar por telegrama seus
movimentos de tropa, e o novo regime militar recompensou o IADSL designando
quatro de seus graduados “para que fizessem uma limpa nos sindicatos
dominados pelos vermelhos (...)”.
Depois que cansaram de atirar na fogueira ou ao fundo da baía da Guanabara os livros de autores russos tais como Dostoiévski, Tolstói ou Gorki, e depois ainda de ter condenado ao exílio, à prisão ou à sepultura um número considerável de brasileiros, a flamante ditadura de Castelo Branco pôs mãos à obra: entregou o ferro e todo o resto. A Hanna recebeu seu decreto de 24 de dezembro de 1964. Esse presente de Natal não só lhe dava toda a segurança para explorar em paz as jazidas do Paraopeba, como também garantia os planos da empresa de ampliar um porto próprio a 60 milhas do Rio de Janeiro e de construir uma ferrovia destinada ao transporte do ferro. Em outubro de 1965, a Hanna formou um consórcio com a Bethlehem Steel para a exploração conjunta do ferro presenteado. Essa espécie de aliança, frequente no Brasil, não pode se efetivar nos Estados Unidos, pois ali as leis a proíbem [10]. O incansável Lincoln Gordon tinha chegado ao fim de sua missão – já todo mundo era feliz e a fábula havia terminado– e passara a presidir uma universidade em Baltimore. Em abril de 1966, Johnson designou seu substituto, John Tuthill, depois de vários meses de vacilações, e explicou que se demorara porque para o Brasil era preciso nomear um bom economista.
[10] DUARTE PEREIRA, op. cit.
A US Steel não ficou atrás. Acaso pretendiam deixá-la sem convite para o jantar? Pouco depois se associou com a empresa mineira do Estado, a Companhia Vale do Rio Doce, que assim se transformou em seu pseudônimo oficial. Por esta via a US Steel, resignando-se a nada mais do que 49 por cento das ações, obteve a concessão das jazidas de ferro da serra dos Carajás, na Amazônia. Sua magnitude, segundo afirmam os técnicos, é comparável à coroa de ferro da Hanna-Bethlehem em Minas Gerais. Como de costume, o governo aduziu que o Brasil não dispunha de capitais para fazer a exploração por sua própria conta.
continua na página 248...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Dentes de ferro sobre o Brasil (6)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
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