sábado, 22 de agosto de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (II - Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
II

Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia. Seus convidados eram de todas as idades e temperamentos, mas todos rigorosamente do mesmo meio, a alta sociedade de Petersburgo. Lá estavam: a bela Helena, filha do príncipe Vassili, trajando um vestido de gala como distintivo das damas de companhia, que vinha buscar o pai para acompanhá-lo à festa do embaixador; a princesinha Bolkonskaia, conhecida como a mulher mais sedutora de Petersburgo, que casara no último inverno, e só era vista nos saraus mais íntimos por causa da gravidez, que a impedia de ir às grandes recepções; Mortemart, que era introduzido pelo príncipe Hippolyte, filho do príncipe Vassili; o abade Morio e muitos outros. “Ainda não viu ma tante?” ou “Ainda não conhece ma tante?”, perguntava Ana Pavlovna a todos os convidados que chegavam, conduzindo-os gravemente até uma velhinha toda cheia de fitas que surgira do aposento vizinho quando os convidados começaram a reunir-se.


     Ana Pavlovna olhava o recém-chegado ao apresentá-lo à ma tante, deixando-a em seguida para trazer outros. Todos faziam os cumprimentos de uso à tia que não conheciam, por quem não se interessavam, e de quem ninguém precisava. Com ar solene e triste, Ana Pavlovna observava os salamaleques que faziam, aprovando-os silenciosamente. Com as mesmas palavras, ma tante perguntava pela saúde de cada um, falava na própria saúde e na de Sua Majestade que hoje, graças a Deus, estava melhor. Por cortesia, todos se aproximavam da velha e se afastavam sem pressa, mas com a intenção de não mais encontrá-la o resto da noite e com o sentimento de um penoso dever cumprido. A princesinha Bolkonskaia trouxera seu tricô numa bolsa de veludo bordada a ouro. Seu lábio superior, muito bonito, sombreado por uma leve penugem, era um pouco curto em relação aos dentes, mas sempre encantador, quer com a boca entreaberta, quer forçando para fechá-la. Como sempre acontece às mulheres muito atraentes, seu defeito — o lábio curto e a boca entreaberta — parecia ser sua beleza peculiar.
     Era um encanto para todos olhar essa linda future maman, cheia de saúde e vivacidade, que suportava tão facilmente seu estado. Em sua companhia os velhos e moços entediados pareciam transformar-se; os que a escutavam e viam em cada uma de suas palavras o sorriso claro e os dentes brancos e brilhantes que a cada instante se mostravam, imaginavam-se particularmente amáveis nesse dia. E todos pensavam assim.
     Em passos curtos e rápidos, num leve ritmo de dança, a princesinha fez a volta da mesa levando a bolsa do tricô e, ajustando o vestido, sentou-se no divã, perto do samovar de prata, como se tudo que fazia fosse um brinquedo para ela e para os que a cercavam. 

— Trouxe o meu trabalho — disse, abrindo a bolsa e dirigindo-se a todos ao mesmo tempo. — Tome cuidado, Annette, não me pregue uma peça — acrescentou, falando à dona da casa. — Você me escreveu dizendo que era uma reunião íntima; veja como me vesti!

     E abriu os braços para mostrar o elegante vestido cinza, guarnecido de rendas, com uma larga fita marcando a cintura abaixo dos seios. 

— Fique sossegada, Lisa, você sempre será a mais linda de todas — respondeu Ana Pavlovna. — Sabem que estou sendo abandonada? — continuou no mesmo tom, dirigindo-se a todos. — Meu marido vai acabar morto. Diga-me, qual é a razão dessa guerra horrível? — perguntou ao príncipe Vassili e, sem esperar a resposta, voltou-se para a filha dele, a bela Helena. 
— Que deliciosa criatura, esta princesinha! — disse o príncipe Vassili em voz baixa a Ana Pavlovna.

     Pouco depois da princesinha, entrou na sala um rapaz corpulento, cabeça raspada, de óculos, calças claras à moda da época, colarinho alto e fraque marrom. Era filho natural do conde Bezukhov, célebre no tempo de Catarina II, agora agonizante em Moscou. Nunca se dedicara a nenhuma atividade, acabava de chegar do exterior onde fora educado, e pela primeira vez comparecia a um sarau. Ana Pavlovna recebeu-o com o cumprimento reservado aos homens do último degrau hierárquico em seu salão. Vendo Pierre entrar, embora o cumprimentasse como a um inferior, a fisionomia de Ana Pavlovna exprimia a inquietação e o medo que se sente ao ver, fora do lugar, alguma coisa descomunalmente grande. Pierre era, de fato, um pouco mais alto que os outros homens que lá se encontravam; mas esse medo era causado pelo olhar inteligente e ao mesmo tempo tímido, observador e franco, que o distinguia de todos os outros convidados. 

— Foi muito amável, Monsieur Pierre, em visitar uma pobre doente — disse-lhe Ana Pavlovna, trocando com a tia um olhar ansioso e levando-o para junto dela.

     Pierre murmurou qualquer coisa incompreensível, continuando a procurar alguém com os olhos. Sorrindo alegremente, cumprimentou a princesinha como a uma pessoa íntima e aproximou-se da tia. O receio de Ana Pavlovna não era infundado, pois Pierre afastou-se da velha sem ouvir o final de sua frase sobre a saúde de Sua Majestade. Aterrada, Ana Pavlovna deteve-o com as seguintes palavras: 

— Não conhece o abade Morio? É um homem muito interessante… 
— Sim, já ouvi falar nos seus projetos de paz eterna; é muito interessante, mas será possível… 
— Acha?… — atalhou Ana Pavlovna para dizer qualquer coisa e voltar às suas obrigações de anfitriã; mas Pierre cometeu outra incivilidade. Antes afastara-se sem ouvir as últimas palavras de uma interlocutora; agora, com sua conversa, retinha outra que precisava afastar-se dele. Abrindo as compridas pernas, baixou a cabeça e começou a demonstrar a Ana Pavlovna por que achava irrealizáveis os planos do abade. — Falaremos nisso depois — disse Ana Pavlovna, sorrindo.

     Livrando-se do rapaz que não possuía a menor noção de trato social, voltou a seus deveres, continuando a ouvir e observar, pronta a intervir no momento em que a conversação perdesse o fluxo. Como o mestre de uma fiação, depois de instalar os operários em seus lugares, passeia pela oficina e ao notar a imobilidade ou algum barulho anormal dos fusos, corre à frente de todos para parar as máquinas e reajustá-las ao verdadeiro ritmo. Ana Pavlovna andava, ora aproximando-se de um grupo silencioso, ora de outro que falava demais, e com uma palavra, um deslocamento de pessoas, consertava a máquina de conversação que continuava funcionando num movimento regular e conveniente. Mas, entre esses cuidados, via-se que, acima de tudo, temia qualquer coisa de Pierre. Olhava-o atentamente quando ele se aproximava de Mortemart, prestando atenção ao que se dizia na roda deste, e depois se dirigia para o grupo onde estava o abade. Para Pierre, criado no estrangeiro, esse sarau de Ana Pavlovna era o primeiro de que participava na Rússia. Sabia que a elite de São Petersburgo estava reunida ali e seus olhos, como os de uma criança num bazar de brinquedos, ziguezagueavam em todas as direções. Receava perder alguma palestra inteligente que pudesse ouvir. Observando na fisionomia dos presentes a elegância e segurança da expressão, esperava sempre algum dito extraordinariamente sagaz. Finalmente aproximou-se de Morio. O assunto pareceu-lhe interessante; parou à espera da ocasião de externar seu pensamento, como gostam de fazer todos os moços.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
I - Meu Deus, que virulência! / II - Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia / 
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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