Liev Tolstói
Segunda Parte
4
A casa vazia, há muito não aquecida, de Nikólskoie reviveu, porém não reviveu aquilo que a habitava. Mamãe não existia mais e estávamos a sós, frente a frente. Mas agora não precisávamos da solidão, ela até nos constrangia. O inverno foi tanto pior para mim que eu estive doente e só me refiz após o nascimento do meu segundo filho. As minhas relações com o marido continuavam também a ser friamente amistosas, como nos tempos da nossa vida na cidade, mas, na aldeia, cada taco do assoalho, cada parede e cada divã lembravam-me o que ele era para mim e o que eu perdera. Havia entre nós como que uma ofensa não perdoada, era como se ele me castigasse por algo e fingisse não o perceber. Não havia por que pedir perdão: ele me castigava apenas não se entregando a mim totalmente, não me dando toda a sua alma, como outrora; mas não a entregava também a nada nem a ninguém, como se não a tivesse mais. Às vezes, vinha-me à mente que ele apenas fingia ser assim, a fim de me atormentar, mas que nele estava ainda vivo o sentimento de antes, e eu procurava suscitá-lo. Mas, todas as vezes, parecia evitar a franqueza, como se me suspeitasse de fingimento e temesse, como ridícula, toda sensibilidade. O seu olhar e o tom da sua voz diziam: sei tudo, tudo, não há o que dizer; sei também tudo o que tu queres dizer. E também sei que dirás uma coisa e farás outra. A princípio, eu ficava ofendida com este medo da sinceridade, mas depois habituei-me à ideia de que não era insinceridade, e sim falta de uma necessidade de ser sincero. Agora, a minha língua não se moveria para lhe dizer de repente que o amava, ou para lhe pedir que rezasse comigo umas orações, ou então chamá-lo para ouvir-me tocar piano. Já se podia perceber entre nós determinadas relações de conveniência. Vivíamos cada um do seu lado. Ele com as suas ocupações, nas quais eu não precisava e não queria agora participar, eu com o meu ócio, que não o ofendia nem entristecia, como outrora. As crianças ainda eram demasiado pequenas e não podiam unir-nos.
Chegou, porém, a primavera, Kátia e Sônia vieram ao campo, a fim
de passar o verão, nossa casa em Nikólskoie entrou em reforma e
mudamos para Pokróvskoie. Ali, era a mesma casa velha com terraço,
com a mesa dobradiça e um piano no salão claro, com o meu antigo
quarto de cortinas brancas, com os meus sonhos de moça, que pareciam
esquecidos ali. Havia neste pequeno quarto duas caminhas: uma que fora
minha, e na qual eu de noite fazia o sinal da cruz sobre o gorducho
Kokocha¹, de braços e pernas espalhados, e a outra pequena, sobre a
qual o rostinho de Vânia² espiava dentre os cueiros. Depois de fazer
sobre eles o sinal da cruz, eu muitas vezes parava em meio ao quieto
quartinho, e de súbito erguiam-se de todos os cantos, das paredes, das
cortinas, antigas e esquecidas visões da mocidade. Vozes de outrora
entoavam canções de moça. E onde estavam aquelas visões? Onde
estavam as canções queridas e suaves? Realizara-se tudo o que eu mal
ousara esperar. Os sonhos imprecisos, confusos, tornaram-se realidade;
e a realidade transformou-se numa vida pesada, difícil, sem alegria. E
tudo era como dantes: viam-se pela janela o mesmo jardim, a mesma
área, o mesmo caminho, o mesmo banco ali sobre a ravina, os mesmos
cantos de rouxinol vinham do açude, os mesmos lilases apareciam em
plena floração, e a mesma lua estava parada sobre a casa; no entanto,
tudo se transformara de modo tão terrível, tão impossível! Era tão frio
tudo o que podia ter sido tão próximo e querido! Tal como outrora, estou
sentada com Kátia na sala de visitas, conversando a respeito dele. Mas
Kátia ficou enrugada, amarelou, os olhos não lhe brilham mais de
esperança e alegria, mas expressam comiseração, tristeza e simpatia.
Não nos extasiamos mais com ele, como em outros tempos, nós o
julgamos, não nos espantamos com o porquê e o para quê de sermos tão
felizes, e não pretendemos, como outrora, contar a todo mundo aquilo
que estamos pensando; ficamos murmurando como conspiradoras, e,
pela centésima vez, perguntamos uma à outra por que tudo se
transformou tão tristemente. E ele é sempre o mesmo, apenas se tornou
mais funda a ruga que tem entre as sobrancelhas, possui mais cabelos
grisalhos nas têmporas, mas o seu olhar profundo e atento está
continuamente afastado de mim por uma nuvem que o tolda. Eu sou a
mesma, porém não há em mim amor, nem desejo de amor. Não há
necessidade de trabalho, nem satisfação comigo mesma. E parecem-me
tão distantes e impossíveis os antigos êxtases religiosos, o antigo amor
por ele, a antiga plenitude da existência. Eu não compreenderia agora
aquilo que antes me parecia tão claro e justo: ser uma felicidade viver
para outrem. Por que para outrem, quando não se tem vontade de viver
mesmo para si?
[1] Diminutivo brincalhão de Nikolai. (N. do T.)
[1] Diminutivo brincalhão de Nikolai. (N. do T.)
[2] Diminutivo de Ivan. (N. do T.)
Eu abandonara completamente a música desde que nos mudamos
para Petersburgo; mas agora o velho piano, os velhos cadernos de notas,
atraíram-me novamente.
De uma feita, sentindo-me adoentada, fiquei sozinha em casa; Kátia e Sônia foram com ele a Nikólskoie, a fim de olhar a construção. A mesa estava posta para o chá, fui para baixo e, esperando-os, sentei-me ao piano. Abri a sonata Quasi una fantasia e pus-me a tocá-la. Não se via nem se ouvia ninguém, as janelas estavam abertas para o jardim; e ressoaram na sala os sons conhecidos, de uma dolência solene. Terminada a primeira parte, espiei de todo inconsciente, por um velho costume, para o canto em que ele costumava ficar sentado, ouvindo-me. Mas ele não estava; a cadeira, há muito não mexida, permanecia no mesmo canto; via-se pela janela um tufo de lilases sobre o poente claro, e o frescor noturno jorrava pelas janelas abertas. Apoiei ambos os braços sobre o piano, fechei o rosto com as mãos e fiquei pensativa. Passei muito tempo sentada assim, lembrando com sofrimento o passado, o irreversível, e inventando timidamente algo novo. Mas parecia não existir mais nada pela frente, era como se eu nada mais desejasse nem esperasse. “Será possível que já vivi minha vida?” — pensei, soergui horrorizada a cabeça e, procurando esquecer e não pensar, pus me novamente a tocar, e sempre o mesmo andante. “Meu Deus! — pensei — Perdoa-me se eu sou culpada, ou devolve-me tudo o que eu tinha de tão belo em meu íntimo, ou então ensina-me o que fazer e como viver agora.” Rodas ressoaram sobre o capim, vozes conhecidas e cautelosas ouviram-se à entrada da casa, depois sobre o terraço, calando-se em seguida. Mas foi um sentimento diferente dos de outrora que respondeu ao som desses passos conhecidos. Quando terminei, os passos ouviram-se atrás de mim e certa mão pousou-me no ombro.
De uma feita, sentindo-me adoentada, fiquei sozinha em casa; Kátia e Sônia foram com ele a Nikólskoie, a fim de olhar a construção. A mesa estava posta para o chá, fui para baixo e, esperando-os, sentei-me ao piano. Abri a sonata Quasi una fantasia e pus-me a tocá-la. Não se via nem se ouvia ninguém, as janelas estavam abertas para o jardim; e ressoaram na sala os sons conhecidos, de uma dolência solene. Terminada a primeira parte, espiei de todo inconsciente, por um velho costume, para o canto em que ele costumava ficar sentado, ouvindo-me. Mas ele não estava; a cadeira, há muito não mexida, permanecia no mesmo canto; via-se pela janela um tufo de lilases sobre o poente claro, e o frescor noturno jorrava pelas janelas abertas. Apoiei ambos os braços sobre o piano, fechei o rosto com as mãos e fiquei pensativa. Passei muito tempo sentada assim, lembrando com sofrimento o passado, o irreversível, e inventando timidamente algo novo. Mas parecia não existir mais nada pela frente, era como se eu nada mais desejasse nem esperasse. “Será possível que já vivi minha vida?” — pensei, soergui horrorizada a cabeça e, procurando esquecer e não pensar, pus me novamente a tocar, e sempre o mesmo andante. “Meu Deus! — pensei — Perdoa-me se eu sou culpada, ou devolve-me tudo o que eu tinha de tão belo em meu íntimo, ou então ensina-me o que fazer e como viver agora.” Rodas ressoaram sobre o capim, vozes conhecidas e cautelosas ouviram-se à entrada da casa, depois sobre o terraço, calando-se em seguida. Mas foi um sentimento diferente dos de outrora que respondeu ao som desses passos conhecidos. Quando terminei, os passos ouviram-se atrás de mim e certa mão pousou-me no ombro.
— Como foste inteligente em tocar esta sonata — disse ele.
Continuei calada.
— Não tomaste chá?
Meneei negativamente a cabeça e não me voltei para ele, a fim de não
revelar os sinais de perturbação, que me ficaram no rosto.
— Elas virão nesse instante; o cavalo começou a fazer das suas, e
elas vêm a pé desde a estrada principal — disse ele.
— Vamos esperá-las — retruquei, e saí para o terraço, esperando que
me seguisse; mas ele perguntou pelas crianças e foi vê-las. Novamente a
sua presença, a sua voz singela, bondosa, desmentiu que eu tivesse
perdido algo. O que mais eu tinha a desejar? Ele era bondoso, de gênio
brando, bom marido, bom pai, eu mesma não sabia o que mais me
faltava. Saí para o balcão e sentei-me sob a lona do terraço, sobre o
mesmo banco em que estivera sentada no dia da nossa declaração. O sol
já se pusera, começava a escurecer, uma nuvenzinha escura de primavera
estava suspensa sobre a casa e o jardim; somente atrás das árvores via-se
uma faixa limpa de céu, com o poente que se apagava e uma estrelinha
noturna, que acabava de se acender. A sombra da nuvenzinha leve
pairava sobre todas as coisas, e tudo estava à espera da suave chuva de
primavera. O vento imobilizara-se, não se movia uma folha, um talo de
erva, o aroma do lilás e da cerejeira-brava pairava tão intenso no jardim
e sobre o terraço, como se todo o ar florisse, e, por ondas, ora
enfraquecia de repente, ora se fortalecia, de modo que dava vontade de
fechar os olhos, não ver nem ouvir nada, e só sentir esse doce aroma. As
dálias e tufos de roseiras, ainda sem flores, alongados e imóveis no seu
canteiro negro e revolvido, pareciam subir lentamente sobre os seus
brancos e lisos tutores; rãs coaxavam, em uníssono e com um som
penetrante, no fundo da ravina, esgoelando-se como se fossem os seus
últimos gritos antes da chuva, que as enxotaria para a água. Um
indefinido som aquático, fino e incessante, pairava sobre este grito.
Rouxinóis dialogavam a intervalos, e ouvia-se como voavam
sobressaltados de um lugar a outro. Novamente nesta primavera, um
rouxinol tentou instalar-se na moita sob a janela, e, quando eu saí, ouvi
que ele se mudara para além da alameda, onde trinara uma vez e calara
se, igualmente em expectativa de chuva.
Era em vão que eu procurava acalmar-me: esperava e desejava algo.
Era em vão que eu procurava acalmar-me: esperava e desejava algo.
Ele voltou de cima e sentou-se a meu lado.
— Parece que elas vão se molhar.
— Sim — retruquei, e ficamos muito tempo calados.
No entretanto, na ausência de vento, a nuvem descia cada vez mais;
tudo se tornava mais quieto, mais cheiroso e imóvel, e de repente uma
gota caiu e como que saltou sobre o toldo de lona do terraço, uma outra
esfacelou-se sobre o pedregulho do caminho; houve um estalo sobre as
bardanas e gotejou uma chuvinha graúda, fresca, cada vez mais forte.
Rãs e rouxinóis calaram-se de todo, apenas o som fino, aquático, ainda
que parecesse mais distante por causa da chuva, mantinha-se sempre
parado no ar, e certo pássaro, provavelmente escondido entre as folhas
secas, perto do terraço, soltava com regularidade duas notas monótonas.
Ele se levantou e quis afastar-se.
— Aonde vais? — perguntei, retendo-o. — É tão bom aqui.
— É preciso mandar para elas um guarda-chuva e galochas.
— Não precisa, a chuva já vai passar.
Concordou e ficamos junto à balaustrada do terraço. Apoiei a mão
numa barra molhada, escorregadia, e pus a cabeça para fora. A chuvinha
fresca borrifou-me irregularmente os cabelos e o pescoço. Clareando e
tornando-se mais rala, a nuvenzinha desfazia-se em água sobre nós; o
som regular da chuva foi substituído por umas gotas espaçadas, caídas
de cima e das folhas. Embaixo, novamente coaxaram as rãs, rouxinóis
tornaram a se sacudir e passaram a responder um ao outro, de dentro das
moitas molhadas, ora de um, ora de outro lado. Tudo se aclarou na nossa
frente.
— Que bom! — disse ele, sentando-se sobre a balaustrada e
passando a mão sobre os meus cabelos molhados.
Esse carinho singelo atuou sobre mim como uma censura, tive
vontade de chorar.
— Do que mais precisa o homem? — disse ele. — Estou agora tão
contente que não preciso de nada, completamente feliz!
“Não foi assim que falaste um dia sobre a tua felicidade — pensei. —
Por maior que ela fosse, dizias, querias algo mais e mais. E agora estás
tranquilo e satisfeito, enquanto eu tenho na alma como que um
arrependimento inconfessado e lágrimas não choradas.”
— Também me sinto bem — disse eu —, mas dá tristeza justamente
o fato de que tudo seja tão bom diante de mim. Dentro, tenho tanta
incoerência, tudo é tão incompleto, há tanto desejo de algo; e aqui, tudo
é tão belo e sossegado. Será possível que também em ti uma angústia
não se acrescente ao deleite com a natureza, como se quisesses algo
impossível e lamentasses algo que passou?
Ele retirou a mão da minha cabeça e calou-se algum tempo.
— Sim, antes isto me acontecia também, principalmente na
primavera — disse ele, como que lembrando alguma coisa. — Também
eu passei noites sentado, querendo e esperando algo, e eram noites
boas!... Mas, então, tudo estava pela frente, e agora tudo ficou para trás;
agora, basta-me o que tenho, e sinto-me bem — concluiu com um tom
convictamente descuidado, a tal ponto que, embora me fosse muito
doloroso ouvir isto, acreditei que dizia verdade.
— E não te faz falta nada? — perguntei.
— E não te faz falta nada? — perguntei.
— Nada que seja impossível — respondeu ele, adivinhando o meu
sentimento. — Quanto a ti, estás aí molhando a cabeça — acrescentou,
acariciando-me como a uma criança, passando-me novamente a mão
sobre os cabelos —, invejas as folhas e a erva, porque são molhadas pela
chuva, gostarias de ser a erva, a folhagem, a chuva. E eu apenas me
alegro com elas, como me alegro com tudo o que é belo, jovem e feliz no
mundo.
— E não lamentas nada do que passou? — continuei a perguntar,
percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso.
Ficou pensativo e tornou a calar-se. Vi que procurava responder com
toda franqueza.
— Não! — respondeu ele, lacônico.
— Não é verdade! Não é verdade! — disse eu, voltando-me para ele
e fitando-o nos olhos. — Não lamentas o passado?
— Não! — repetiu. — Sou grato por ele, mas não o lamento.
— Mas não gostarias de fazê-lo voltar?
Ele virou a cabeça e pôs-se a olhar para o jardim.
— Não quero isso, como não quero que me cresçam asas — disse. —
Não se pode!
— E não corriges o passado? Não censuras a ti mesmo ou a mim?
— Nunca! Tudo aconteceu para melhor.
— Escuta! — disse eu, tocando-lhe o braço, para que se voltasse para
mim. — Escuta: por que nunca me disseste o que querias, para que eu
vivesse exatamente de acordo com a tua vontade, por que me deste
liberdade, que eu não sabia usar, por que deixaste de me ensinar? Se
quisesses, se me orientasses de outro modo, não teria acontecido nada,
nada — disse eu, com uma voz em que se expressava cada vez mais
fortemente uma fria mágoa e censura, em lugar do antigo amor.
— O que não teria acontecido então? — perguntou surpreso,
virando-se na minha direção. — Está tudo bem. Muito bem —
acrescentou com um sorriso.
“Será possível que ele não compreenda ou, o que é pior ainda, não
queira compreender?” — pensei e lágrimas apareceram-me nos olhos.
— Não, deixa-me falar até o fim... Tiraste-me a tua confiança, o
amor, a consideração até; porque eu não acreditarei que me ames agora,
depois do que aconteceu. Não, preciso dizer de uma vez tudo o que me
atormenta há muito tempo — interrompi-o novamente. — Serei eu
culpada porque não conhecia a vida, e tu me deixaste sozinha em minha
busca?... Serei culpada porque nesse momento, quando eu mesma
compreendi o que é preciso, quando eu, vai fazer um ano já, bato-me por
voltar para junto de ti, tu me repeles, como se não compreendesses o que
eu quero, e tudo se passa de tal modo que não se pode censurar-te nada,
e eu sou culpada e infeliz ao mesmo tempo?! Sim, queres atirar-me de
novo num tipo de existência que poderia ter feito a minha infelicidade e
a tua.
— Mas como foi que eu te mostrei isso? — perguntou ele, com
espanto e um susto sincero.
— Não disseste ainda ontem, e não dizes sempre, que não consigo
viver aqui e que, no inverno, devemos viajar novamente para
Petersburgo, que me é odiosa? — continuei. — Em lugar de me apoiar,
evitas toda franqueza, toda palavra sincera, carinhosa, comigo. E depois,
quando eu tiver caído de vez, vais censurar-me e alegrar-te com a minha
queda.
— Espera, espera — disse ele com severidade e frieza —, é ruim o
que dizes agora. Isto apenas demonstra que estás mal disposta em
relação a mim, que tu não...
— Que eu não te amo? Fala! Fala! — concluí, e lágrimas correram
me dos olhos. Sentei-me num banco e tapei o rosto com um lenço.
“Aí está como ele me compreendeu!” — pensei, procurando conter
os soluços, que me comprimiam. “Está acabado o nosso amor de outros
tempos” — dizia-me certa voz no coração. Ele não se aproximou de
mim, não me consolou. Estava ofendido com o que eu dissera. A sua voz
era tranquila e seca.
— Não sei o que me censuras — começou ele. — Se é o fato de que
te amei menos que antes...
— Amou! — disse eu para dentro do meu lenço, e lágrimas amargas
escorreram sobre este, em maior abundância ainda.
— Nisso têm culpa o tempo e nós mesmos. Cada época tem o seu
amor... — Calou-se um pouco. — Dizer-te toda a verdade, já que tu
queres franqueza? Assim como naquele ano em que eu apenas te
conheci, passei noites sem dormir, pensando em ti e criando eu mesmo
o meu amor, e este amor crescia-me mais e mais no coração, exatamente
do mesmo modo em Petersburgo e no estrangeiro eu passei noites
terríveis de insônia, rompendo, destruindo este amor, que me
atormentava. Eu não o destruí, mas destruí somente aquilo que me
torturava, acalmei-me, e, apesar de tudo, amo ainda, mas é um outro
amor.
— Sim, chamas isto de amor, mas é uma tortura — disse eu. — Por
que me permitiste viver no mundo, se ele te parecia tão pernicioso que
deixaste de me amar por causa dele?
— Não foi o mundo, minha amiga — disse ele.
— Por que não usaste a tua autoridade — prossegui —, não me
amarraste, não me mataste? Seria melhor para mim agora que privar-me
de tudo o que constituía a minha felicidade, seria bom para mim, eu não
teria vergonha.
Tornei a romper em pranto e escondi o rosto.
Nesse ínterim, alegres e molhadas, Kátia e Sônia entravam no
terraço, falando alto e rindo; mas, vendo-nos, silenciaram e saíram no
mesmo instante.
Passamos ainda muito tempo calados; acabei de chorar as minhas
lágrimas e me senti aliviada. Olhei para ele. Estava sentado, a cabeça
apoiada no braço, e queria dizer algo, em resposta ao meu olhar, mas
apenas suspirou pesadamente e tornou à posição anterior.
Aproximei-me dele e afastei-lhe o braço. Seu olhar voltou-se
pensativo para mim.
— Sim — disse ele, como que dando prosseguimento à sua reflexão.
— Todos nós, e particularmente vós mulheres, devemos viver sozinhos
todo o absurdo da existência, a fim de voltar à própria vida; e não se
pode crer em outra coisa. Ainda estavas longe de ter vivido então todo o
absurdo simpático e encantador com que eu me extasiava em ti; e eu te
deixei acabar de vivê-lo e senti não ter o direito de te constranger,
embora para mim o tempo já tivesse passado havia muito.
— Mas, se me amava, por que vivias comigo e me deixavas viver este
absurdo? — disse eu.
— Porque, ainda que quisesses acreditar em mim, não o
conseguirias; devias conhecê-lo por ti mesma, e o conheceste.
— Tu argumentavas, argumentavas muito — disse eu. — Amavas
pouco.
Calamo-nos de novo por algum tempo.
— É cruel o que acabaste de dizer, mas é verdade — disse ele,
erguendo-se de repente e pondo-se a caminhar pelo terraço — sim, é
verdade. Fui culpado! — acrescentou, parando em frente de mim. — Eu
não devia permitir-me amar-te, ou devia amar com mais simplicidade,
sim.
— Esqueçamos tudo — disse eu timidamente.
— Não, o que passou, não há de voltar, é impossível fazê-lo voltar —
e, ao dizer isso, a sua voz abrandou-se.
— Tudo já voltou — disse eu, pondo-lhe a mão no ombro.
Afastou a minha mão e apertou-a.
— Não, eu estava mentindo, ao dizer que não lamento o passado;
não, eu lamento, eu choro aquele amor passado, que não existe nem
pode existir mais. Quem é culpado disso? Não sei. Sobrou o amor, mas
não aquele, sobrou o seu lugar, mas o amor ficou totalmente dolorido,
não tem mais força nem suculência, ficaram as recordações e a gratidão,
mas...
— Não fales assim... — interrompi-o. — Que tudo seja de novo
como antes... Bem que isto pode ser assim? Não é mesmo? — perguntei,
fitando-o nos olhos. Mas eles eram límpidos, tranquilos, e olhavam
dentro dos meus sem profundidade.
Enquanto eu falava, senti que já era impossível aquilo que eu queria e
que pedia a ele. Teve um sorriso tranquilo, humilde, o que me pareceu
senil
— Como és jovem ainda e como sou velho — disse ele. — Em mim,
não existe mais aquilo que procuras; para quê se enganar? —
acrescentou, continuando a sorrir do mesmo jeito.
Coloquei-me em silêncio ao seu lado, e senti maior tranquilidade
interior.
— Não procuremos repetir a vida — prosseguiu ele —, não
mintamos a nós mesmos. E quanto ao fato de não termos mais os
sobressaltos e inquietações de outros tempos, que seja graças a Deus!
Não temos o que procurar, nem motivo para ficar perturbados. Já
encontramos, e coube-nos felicidade bastante. Agora, já temos que nos
apagar e dar caminho aí está a quem — disse, apontando a ama que se
acercara com Vânia e parara à porta do terraço. — Assim é, querida
amiga — concluiu, inclinando para si a minha cabeça e beijando-a.
Quem me beijava não era um amante, mas um velho amigo.
E do jardim erguia-se cada vez mais intensamente e com maior
doçura o frescor cheiroso da noite, os sons e o silêncio tornavam-se cada
vez mais solenes, as estrelas acendiam-se no céu com maior frequência.
Olhei-o e, de repente, senti a alma leve, era como se me tivessem tirado
o nervo moral doente, que me obrigara a sofrer. Percebi de repente, com
nitidez e tranquilidade, que o sentimento daquele tempo passara
irrevogavelmente, assim como o próprio tempo, e que fazê-lo voltar seria
não só impossível, mas até penoso e constrangedor. E ademais, seria
mesmo tão bom aquele tempo que me parecia tão feliz? E tudo isso
acontecera havia tanto, tanto tempo!
— Mas já está na hora do chá! — disse ele e fomos juntos para a sala
de visitas. À porta, encontrei novamente a ama com Vânia. Tomei nos
braços a criança, cobri as suas perninhas vermelhas e desnudas, apertei
a contra mim e beijei-a, mal encostando os lábios. Como que dormindo,
ele moveu a mãozinha de dedos enrugados e muito afastados e abriu os
olhinhos turvos como se procurasse ou lembrasse algo; de repente, esses
olhinhos detiveram-se sobre mim, faiscou neles um fagulha de
pensamento, os labiozinhos rechonchudos, arrepanhados, começaram a
mexer-se e abriram-se num sorriso. “É meu, meu, meu!” — pensei com
uma tensão feliz em todos os membros, apertando-o ao peito e
contendo-me a custo, para não lhe causar dor. E pus-me a beijar-lhe as
perninhas frias, a barriguinha, os braços e a cabecinha em que mal
despontavam cabelos. Meu marido aproximou-se de mim, fechei
depressa o rosto da criança e tornei a descobri-lo.
— Ivan Sierguiéitch!¹ — disse meu marido, tocando-o com o dedo
abaixo do queixinho. Mas, novamente, cobri depressa Ivan Sierguiéitch.
Ninguém além de mim devia olhá-lo por muito tempo. Olhei para meu
marido, os seus olhos riam, fitando os meus, e pela primeira vez, depois
de muito tempo, eu sentia leveza e alegria ao olhá-los.
[1] Corruptela de Sierguiéievitch. (N. do T.)
[1] Corruptela de Sierguiéievitch. (N. do T.)
A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o
sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de
trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos
meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade
completamente diversa, e que ainda não acabei de viver...
Fim...
Fim...
POSFÁCIO
Boris Schnaiderman
Esta novela, Felicidade conjugal, publicada em 1859, pode surpreender o leitor acostumado com a pregação insistente por Tolstói de seu sistema ético-religioso. Com efeito, na mesma época em que a escreveu entregava-se com insistência à elaboração de textos moralizantes.
Assim, anotava em seu diário, em 1852: “Decididamente, não posso escrever sem objetivo e sem esperança de utilidade”. E em 1855, tratava ali do “bem que eu posso fazer com os meus livros”. Estas cogitações chegavam à obsessão. Basta lembrar que, em plena Guerra da Crimeia, sob o bombardeio inimigo e em meio às privações provocadas pelo assédio anglo-francês, entregou-se à ideia de fundar uma nova religião, “que corresponda ao desenvolvimento da humanidade, uma religião de Cristo, mas purificada da fé e do mistério, e que dê a bem-aventurança na terra”.
Esta novela, Felicidade conjugal, publicada em 1859, pode surpreender o leitor acostumado com a pregação insistente por Tolstói de seu sistema ético-religioso. Com efeito, na mesma época em que a escreveu entregava-se com insistência à elaboração de textos moralizantes.
Assim, anotava em seu diário, em 1852: “Decididamente, não posso escrever sem objetivo e sem esperança de utilidade”. E em 1855, tratava ali do “bem que eu posso fazer com os meus livros”. Estas cogitações chegavam à obsessão. Basta lembrar que, em plena Guerra da Crimeia, sob o bombardeio inimigo e em meio às privações provocadas pelo assédio anglo-francês, entregou-se à ideia de fundar uma nova religião, “que corresponda ao desenvolvimento da humanidade, uma religião de Cristo, mas purificada da fé e do mistério, e que dê a bem-aventurança na terra”.
Depois disso, torna-se muito compreensível que, durante a correção
das provas desta novela, tenha escrito: “É uma ignomínia vergonhosa”.
Mas, ao mesmo tempo, felizmente, não eliminou esta “ignomínia”.
Creio que na base desta oscilação encontra-se uma dualidade
tolstoiana sobre a qual já escrevi mais de uma vez. Ele era um moralista
feroz, implacável, mas, ao mesmo tempo, sabia como ninguém expressar
a atração do carnal e as grandes fraquezas humanas tinham nele um
observador genialmente perspicaz. Vejam-se nesta novela as páginas 94 a 98 do capítulo III, da segunda parte, onde a personagem feminina se
sente atraída por um marquês italiano.
Ora, esta contraparte com descrição muito compreensiva das
vacilações inerentes ao humano é uma constante em boa parte da obra
de Tolstói. Mesmo Anna Kariênina, onde o adultério é condenado com
“uma crueldade magnífica”, segundo a expressão feliz de Eisenstein,
contém páginas em que se trata com simpatia o irmão de Anna, que “trai
constantemente a mulher, mas com naturalidade, como algo que não
pode ser diferente, como um comportamento que faz parte do fluxo da
existência”, conforme escrevi um dia¹.É verdade que, nos últimos anos
de vida, radicalizou-se a atitude moralizante de Tolstói, chegando então
ao paroxismo, conforme se constata particularmente em A Sonata a
Kreutzer². Mas Felicidade conjugal constitui um dos momentos em
que está menos imerso em seu delírio de pregador, quando ele se torna
realmente insuperável.
[1] Boris Schnaiderman, Tolstói: antiarte e rebeldia (Coleção Encanto Radical), São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 63 [este ensaio foi republicado como posfácio a Lev Tolstói, Khadji-Murát, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2017].
[1] Boris Schnaiderman, Tolstói: antiarte e rebeldia (Coleção Encanto Radical), São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 63 [este ensaio foi republicado como posfácio a Lev Tolstói, Khadji-Murát, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2017].
[2] Ver Lev Tolstói, A Sonata a Kreutzer, tradução, posfácio e notas de
Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2007.
Esta novela se diferencia de outros escritos de Tolstói, sobretudo na
postura perante as injunções da moral. Assim, escreveria no diário, em
1889: “Vivemos no reino da devassidão e das mulheres. As mulheres
movem tudo”. Mas, em Felicidade conjugal, temos (p. 86) um
pensamento da personagem central: “Ah! Então é este o poder do
marido — pensei. — Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma
culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me
submeterei a eles”. Realmente, impressiona a passagem de uma atitude
compreensiva, humana, que até consegue captar um momento de revolta
contra a prepotência masculina, ao tom ranzinza e rabugento de A
Sonata a Kreutzer, que é, no entanto, magistral como obra de obsessão e
delírio.
Na edição que tenho de Felicidade conjugal¹ há uma nota:
“Segundo testemunho do próprio Tolstói, serviu de fundamento à
concepção literária desse romance a história das suas relações pessoais
com V. V. Arsiênieva”², isto é, a moça com quem tivera um
envolvimento amoroso antes de seu noivado e casamento com Sófia
Behrs, que é sempre lembrada como Sófia Tolstaia, a condessa.
[1] Lev Tolstói, Obras reunidas em 12 volumes, Moscou, Goslitizdát
(Editora Estatal de Obras da Literatura), 1956, vol. 3.
[2] Siemiéinoie schástie (Felicidade conjugal), em op. cit., p. 397.
Na verdade, esta informação só pode ser aceita cum granum salis,
pois a sucessão dos fatos autobiográficos nesta novela é bem tênue. Foi
tudo vivido no plano da fantasia e da fabulação literária. Na vida real,
não aconteceu nada que se aproximasse sequer da trama arquitetada.
Aliás, Tolstói se orgulhava de sua capacidade de fabulação e, em
diversas ocasiões, manifestou-se contra a cópia pura e simples, na ficção,
dos acontecimentos da vida real.
Todavia, é muito comum esta leitura exageradamente biográfica de algumas de suas obras. Assim, os romances Infância, Adolescência e Juventude, planejados como parte de uma tetralogia, que não chegou a completar, foram às vezes editados no Ocidente com a designação Memórias, o que é um absurdo.
Em Felicidade conjugal, provoca até estranheza a ausência de certa problemática russa da época. Visto que o texto é de 1859, os fatos ali narrados decorrem no período em que se articulavam as grandes reformas do reinado de Alexandre II, inclusive a libertação dos servos da gleba, que ocorreria em 1861. No entanto, os camponeses da novela aparecem sem maior destaque, sem qualquer referência à “questão camponesa”, tema candente na época. Ora, Tolstói estava então muito envolvido com esta problemática e participava ativamente das assembleias da nobreza rural no distrito de Tula, onde ficava sua propriedade, Iásnaia Poliana.
Todavia, é muito comum esta leitura exageradamente biográfica de algumas de suas obras. Assim, os romances Infância, Adolescência e Juventude, planejados como parte de uma tetralogia, que não chegou a completar, foram às vezes editados no Ocidente com a designação Memórias, o que é um absurdo.
Em Felicidade conjugal, provoca até estranheza a ausência de certa problemática russa da época. Visto que o texto é de 1859, os fatos ali narrados decorrem no período em que se articulavam as grandes reformas do reinado de Alexandre II, inclusive a libertação dos servos da gleba, que ocorreria em 1861. No entanto, os camponeses da novela aparecem sem maior destaque, sem qualquer referência à “questão camponesa”, tema candente na época. Ora, Tolstói estava então muito envolvido com esta problemática e participava ativamente das assembleias da nobreza rural no distrito de Tula, onde ficava sua propriedade, Iásnaia Poliana.
Também, a estada das personagens numa estação de águas no
exterior não suscitou qualquer das reações indignadas do escritor à vida
burguesa do Ocidente.
A ação da novela se concentra no cotidiano de um casal da nobreza, sem quaisquer preocupações sociais ou políticas. Não procuremos ver em Sierguiéi Mikháilovitch um reflexo de Tolstói, pois ele não aguentaria semelhante comparação. Ao aceitar esta narrativa pura e simplesmente, sem maiores aprofundamentos históricos, veremos que nisso está a sua grandeza, sua contribuição específica. Quem quiser procure em outras obras de Tolstói sua vivência atormentada da Rússia na época. Pois temos de reconhecer: o humano e o literário encontram nesse texto o seu máximo de expressão.
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Primeira Parte:
1. Estávamos de luto por nossa mãe / 2. Chegara a primavera / 3a. Um dia, no tempo da entrada dos trigos /
3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Mach / 4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha /
Segunda Parte:
3 - A partir desse dia / 4 - A casa vazia
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Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com
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