sábado, 22 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 4 - A casa vazia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
4

     A casa vazia, há muito não aquecida, de Nikólskoie reviveu, porém não reviveu aquilo que a habitava. Mamãe não existia mais e estávamos a sós, frente a frente. Mas agora não precisávamos da solidão, ela até nos constrangia. O inverno foi tanto pior para mim que eu estive doente e só me refiz após o nascimento do meu segundo filho. As minhas relações com o marido continuavam também a ser friamente amistosas, como nos tempos da nossa vida na cidade, mas, na aldeia, cada taco do assoalho, cada parede e cada divã lembravam-me o que ele era para mim e o que eu perdera. Havia entre nós como que uma ofensa não perdoada, era como se ele me castigasse por algo e fingisse não o perceber. Não havia por que pedir perdão: ele me castigava apenas não se entregando a mim totalmente, não me dando toda a sua alma, como outrora; mas não a entregava também a nada nem a ninguém, como se não a tivesse mais. Às vezes, vinha-me à mente que ele apenas fingia ser assim, a fim de me atormentar, mas que nele estava ainda vivo o sentimento de antes, e eu procurava suscitá-lo. Mas, todas as vezes, parecia evitar a franqueza, como se me suspeitasse de fingimento e temesse, como ridícula, toda sensibilidade. O seu olhar e o tom da sua voz diziam: sei tudo, tudo, não há o que dizer; sei também tudo o que tu queres dizer. E também sei que dirás uma coisa e farás outra. A princípio, eu ficava ofendida com este medo da sinceridade, mas depois habituei-me à ideia de que não era insinceridade, e sim falta de uma necessidade de ser sincero. Agora, a minha língua não se moveria para lhe dizer de repente que o amava, ou para lhe pedir que rezasse comigo umas orações, ou então chamá-lo para ouvir-me tocar piano. Já se podia perceber entre nós determinadas relações de conveniência. Vivíamos cada um do seu lado. Ele com as suas ocupações, nas quais eu não precisava e não queria agora participar, eu com o meu ócio, que não o ofendia nem entristecia, como outrora. As crianças ainda eram demasiado pequenas e não podiam unir-nos.
     Chegou, porém, a primavera, Kátia e Sônia vieram ao campo, a fim de passar o verão, nossa casa em Nikólskoie entrou em reforma e mudamos para Pokróvskoie. Ali, era a mesma casa velha com terraço, com a mesa dobradiça e um piano no salão claro, com o meu antigo quarto de cortinas brancas, com os meus sonhos de moça, que pareciam esquecidos ali. Havia neste pequeno quarto duas caminhas: uma que fora minha, e na qual eu de noite fazia o sinal da cruz sobre o gorducho Kokocha¹, de braços e pernas espalhados, e a outra pequena, sobre a qual o rostinho de Vânia² espiava dentre os cueiros. Depois de fazer sobre eles o sinal da cruz, eu muitas vezes parava em meio ao quieto quartinho, e de súbito erguiam-se de todos os cantos, das paredes, das cortinas, antigas e esquecidas visões da mocidade. Vozes de outrora entoavam canções de moça. E onde estavam aquelas visões? Onde estavam as canções queridas e suaves? Realizara-se tudo o que eu mal ousara esperar. Os sonhos imprecisos, confusos, tornaram-se realidade; e a realidade transformou-se numa vida pesada, difícil, sem alegria. E tudo era como dantes: viam-se pela janela o mesmo jardim, a mesma área, o mesmo caminho, o mesmo banco ali sobre a ravina, os mesmos cantos de rouxinol vinham do açude, os mesmos lilases apareciam em plena floração, e a mesma lua estava parada sobre a casa; no entanto, tudo se transformara de modo tão terrível, tão impossível! Era tão frio tudo o que podia ter sido tão próximo e querido! Tal como outrora, estou sentada com Kátia na sala de visitas, conversando a respeito dele. Mas Kátia ficou enrugada, amarelou, os olhos não lhe brilham mais de esperança e alegria, mas expressam comiseração, tristeza e simpatia. Não nos extasiamos mais com ele, como em outros tempos, nós o julgamos, não nos espantamos com o porquê e o para quê de sermos tão felizes, e não pretendemos, como outrora, contar a todo mundo aquilo que estamos pensando; ficamos murmurando como conspiradoras, e, pela centésima vez, perguntamos uma à outra por que tudo se transformou tão tristemente. E ele é sempre o mesmo, apenas se tornou mais funda a ruga que tem entre as sobrancelhas, possui mais cabelos grisalhos nas têmporas, mas o seu olhar profundo e atento está continuamente afastado de mim por uma nuvem que o tolda. Eu sou a mesma, porém não há em mim amor, nem desejo de amor. Não há necessidade de trabalho, nem satisfação comigo mesma. E parecem-me tão distantes e impossíveis os antigos êxtases religiosos, o antigo amor por ele, a antiga plenitude da existência. Eu não compreenderia agora aquilo que antes me parecia tão claro e justo: ser uma felicidade viver para outrem. Por que para outrem, quando não se tem vontade de viver mesmo para si?

[1] Diminutivo brincalhão de Nikolai. (N. do T.)
[2] Diminutivo de Ivan. (N. do T.)

     Eu abandonara completamente a música desde que nos mudamos para Petersburgo; mas agora o velho piano, os velhos cadernos de notas, atraíram-me novamente.
     De uma feita, sentindo-me adoentada, fiquei sozinha em casa; Kátia e Sônia foram com ele a Nikólskoie, a fim de olhar a construção. A mesa estava posta para o chá, fui para baixo e, esperando-os, sentei-me ao piano. Abri a sonata Quasi una fantasia e pus-me a tocá-la. Não se via nem se ouvia ninguém, as janelas estavam abertas para o jardim; e ressoaram na sala os sons conhecidos, de uma dolência solene. Terminada a primeira parte, espiei de todo inconsciente, por um velho costume, para o canto em que ele costumava ficar sentado, ouvindo-me. Mas ele não estava; a cadeira, há muito não mexida, permanecia no mesmo canto; via-se pela janela um tufo de lilases sobre o poente claro, e o frescor noturno jorrava pelas janelas abertas. Apoiei ambos os braços sobre o piano, fechei o rosto com as mãos e fiquei pensativa. Passei muito tempo sentada assim, lembrando com sofrimento o passado, o irreversível, e inventando timidamente algo novo. Mas parecia não existir mais nada pela frente, era como se eu nada mais desejasse nem esperasse. “Será possível que já vivi minha vida?” — pensei, soergui horrorizada a cabeça e, procurando esquecer e não pensar, pus me novamente a tocar, e sempre o mesmo andante. “Meu Deus! — pensei — Perdoa-me se eu sou culpada, ou devolve-me tudo o que eu tinha de tão belo em meu íntimo, ou então ensina-me o que fazer e como viver agora.” Rodas ressoaram sobre o capim, vozes conhecidas e cautelosas ouviram-se à entrada da casa, depois sobre o terraço, calando-se em seguida. Mas foi um sentimento diferente dos de outrora que respondeu ao som desses passos conhecidos. Quando terminei, os passos ouviram-se atrás de mim e certa mão pousou-me no ombro.

— Como foste inteligente em tocar esta sonata — disse ele. 

     Continuei calada. 

— Não tomaste chá?

     Meneei negativamente a cabeça e não me voltei para ele, a fim de não revelar os sinais de perturbação, que me ficaram no rosto. 

— Elas virão nesse instante; o cavalo começou a fazer das suas, e elas vêm a pé desde a estrada principal — disse ele. 

— Vamos esperá-las — retruquei, e saí para o terraço, esperando que me seguisse; mas ele perguntou pelas crianças e foi vê-las. Novamente a sua presença, a sua voz singela, bondosa, desmentiu que eu tivesse perdido algo. O que mais eu tinha a desejar? Ele era bondoso, de gênio brando, bom marido, bom pai, eu mesma não sabia o que mais me faltava. Saí para o balcão e sentei-me sob a lona do terraço, sobre o mesmo banco em que estivera sentada no dia da nossa declaração. O sol já se pusera, começava a escurecer, uma nuvenzinha escura de primavera estava suspensa sobre a casa e o jardim; somente atrás das árvores via-se uma faixa limpa de céu, com o poente que se apagava e uma estrelinha noturna, que acabava de se acender. A sombra da nuvenzinha leve pairava sobre todas as coisas, e tudo estava à espera da suave chuva de primavera. O vento imobilizara-se, não se movia uma folha, um talo de erva, o aroma do lilás e da cerejeira-brava pairava tão intenso no jardim e sobre o terraço, como se todo o ar florisse, e, por ondas, ora enfraquecia de repente, ora se fortalecia, de modo que dava vontade de fechar os olhos, não ver nem ouvir nada, e só sentir esse doce aroma. As dálias e tufos de roseiras, ainda sem flores, alongados e imóveis no seu canteiro negro e revolvido, pareciam subir lentamente sobre os seus brancos e lisos tutores; rãs coaxavam, em uníssono e com um som penetrante, no fundo da ravina, esgoelando-se como se fossem os seus últimos gritos antes da chuva, que as enxotaria para a água. Um indefinido som aquático, fino e incessante, pairava sobre este grito. Rouxinóis dialogavam a intervalos, e ouvia-se como voavam sobressaltados de um lugar a outro. Novamente nesta primavera, um rouxinol tentou instalar-se na moita sob a janela, e, quando eu saí, ouvi que ele se mudara para além da alameda, onde trinara uma vez e calara se, igualmente em expectativa de chuva.

     Era em vão que eu procurava acalmar-me: esperava e desejava algo. 
     Ele voltou de cima e sentou-se a meu lado.

— Parece que elas vão se molhar. 
— Sim — retruquei, e ficamos muito tempo calados.

     No entretanto, na ausência de vento, a nuvem descia cada vez mais; tudo se tornava mais quieto, mais cheiroso e imóvel, e de repente uma gota caiu e como que saltou sobre o toldo de lona do terraço, uma outra esfacelou-se sobre o pedregulho do caminho; houve um estalo sobre as bardanas e gotejou uma chuvinha graúda, fresca, cada vez mais forte. Rãs e rouxinóis calaram-se de todo, apenas o som fino, aquático, ainda que parecesse mais distante por causa da chuva, mantinha-se sempre parado no ar, e certo pássaro, provavelmente escondido entre as folhas secas, perto do terraço, soltava com regularidade duas notas monótonas. Ele se levantou e quis afastar-se. 

— Aonde vais? — perguntei, retendo-o. — É tão bom aqui. 
— É preciso mandar para elas um guarda-chuva e galochas. 
— Não precisa, a chuva já vai passar.

     Concordou e ficamos junto à balaustrada do terraço. Apoiei a mão numa barra molhada, escorregadia, e pus a cabeça para fora. A chuvinha fresca borrifou-me irregularmente os cabelos e o pescoço. Clareando e tornando-se mais rala, a nuvenzinha desfazia-se em água sobre nós; o som regular da chuva foi substituído por umas gotas espaçadas, caídas de cima e das folhas. Embaixo, novamente coaxaram as rãs, rouxinóis tornaram a se sacudir e passaram a responder um ao outro, de dentro das moitas molhadas, ora de um, ora de outro lado. Tudo se aclarou na nossa frente.

— Que bom! — disse ele, sentando-se sobre a balaustrada e passando a mão sobre os meus cabelos molhados. 

     Esse carinho singelo atuou sobre mim como uma censura, tive vontade de chorar. 

— Do que mais precisa o homem? — disse ele. — Estou agora tão contente que não preciso de nada, completamente feliz!

“Não foi assim que falaste um dia sobre a tua felicidade — pensei. — Por maior que ela fosse, dizias, querias algo mais e mais. E agora estás tranquilo e satisfeito, enquanto eu tenho na alma como que um arrependimento inconfessado e lágrimas não choradas.”

— Também me sinto bem — disse eu —, mas dá tristeza justamente o fato de que tudo seja tão bom diante de mim. Dentro, tenho tanta incoerência, tudo é tão incompleto, há tanto desejo de algo; e aqui, tudo é tão belo e sossegado. Será possível que também em ti uma angústia não se acrescente ao deleite com a natureza, como se quisesses algo impossível e lamentasses algo que passou?

     Ele retirou a mão da minha cabeça e calou-se algum tempo. 

— Sim, antes isto me acontecia também, principalmente na primavera — disse ele, como que lembrando alguma coisa. — Também eu passei noites sentado, querendo e esperando algo, e eram noites boas!... Mas, então, tudo estava pela frente, e agora tudo ficou para trás; agora, basta-me o que tenho, e sinto-me bem — concluiu com um tom convictamente descuidado, a tal ponto que, embora me fosse muito doloroso ouvir isto, acreditei que dizia verdade.
— E não te faz falta nada? — perguntei. 
— Nada que seja impossível — respondeu ele, adivinhando o meu sentimento. — Quanto a ti, estás aí molhando a cabeça — acrescentou, acariciando-me como a uma criança, passando-me novamente a mão sobre os cabelos —, invejas as folhas e a erva, porque são molhadas pela chuva, gostarias de ser a erva, a folhagem, a chuva. E eu apenas me alegro com elas, como me alegro com tudo o que é belo, jovem e feliz no mundo. 
— E não lamentas nada do que passou? — continuei a perguntar, percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso.

     Ficou pensativo e tornou a calar-se. Vi que procurava responder com toda franqueza. 

— Não! — respondeu ele, lacônico. 
— Não é verdade! Não é verdade! — disse eu, voltando-me para ele e fitando-o nos olhos. — Não lamentas o passado? 
— Não! — repetiu. — Sou grato por ele, mas não o lamento. 
— Mas não gostarias de fazê-lo voltar?

     Ele virou a cabeça e pôs-se a olhar para o jardim. 

— Não quero isso, como não quero que me cresçam asas — disse. — Não se pode! 
— E não corriges o passado? Não censuras a ti mesmo ou a mim? 
— Nunca! Tudo aconteceu para melhor. 
— Escuta! — disse eu, tocando-lhe o braço, para que se voltasse para mim. — Escuta: por que nunca me disseste o que querias, para que eu vivesse exatamente de acordo com a tua vontade, por que me deste liberdade, que eu não sabia usar, por que deixaste de me ensinar? Se quisesses, se me orientasses de outro modo, não teria acontecido nada, nada — disse eu, com uma voz em que se expressava cada vez mais fortemente uma fria mágoa e censura, em lugar do antigo amor. 
— O que não teria acontecido então? — perguntou surpreso, virando-se na minha direção. — Está tudo bem. Muito bem — acrescentou com um sorriso.

“Será possível que ele não compreenda ou, o que é pior ainda, não queira compreender?” — pensei e lágrimas apareceram-me nos olhos.

— Não, deixa-me falar até o fim... Tiraste-me a tua confiança, o amor, a consideração até; porque eu não acreditarei que me ames agora, depois do que aconteceu. Não, preciso dizer de uma vez tudo o que me atormenta há muito tempo — interrompi-o novamente. — Serei eu culpada porque não conhecia a vida, e tu me deixaste sozinha em minha busca?... Serei culpada porque nesse momento, quando eu mesma compreendi o que é preciso, quando eu, vai fazer um ano já, bato-me por voltar para junto de ti, tu me repeles, como se não compreendesses o que eu quero, e tudo se passa de tal modo que não se pode censurar-te nada, e eu sou culpada e infeliz ao mesmo tempo?! Sim, queres atirar-me de novo num tipo de existência que poderia ter feito a minha infelicidade e a tua. 
— Mas como foi que eu te mostrei isso? — perguntou ele, com espanto e um susto sincero. — Não disseste ainda ontem, e não dizes sempre, que não consigo viver aqui e que, no inverno, devemos viajar novamente para Petersburgo, que me é odiosa? — continuei. — Em lugar de me apoiar, evitas toda franqueza, toda palavra sincera, carinhosa, comigo. E depois, quando eu tiver caído de vez, vais censurar-me e alegrar-te com a minha queda. 
— Espera, espera — disse ele com severidade e frieza —, é ruim o que dizes agora. Isto apenas demonstra que estás mal disposta em relação a mim, que tu não... 
— Que eu não te amo? Fala! Fala! — concluí, e lágrimas correram me dos olhos. Sentei-me num banco e tapei o rosto com um lenço.

“Aí está como ele me compreendeu!” — pensei, procurando conter os soluços, que me comprimiam. “Está acabado o nosso amor de outros tempos” — dizia-me certa voz no coração. Ele não se aproximou de mim, não me consolou. Estava ofendido com o que eu dissera. A sua voz era tranquila e seca.

— Não sei o que me censuras — começou ele. — Se é o fato de que te amei menos que antes... 
— Amou! — disse eu para dentro do meu lenço, e lágrimas amargas escorreram sobre este, em maior abundância ainda. 
— Nisso têm culpa o tempo e nós mesmos. Cada época tem o seu amor... — Calou-se um pouco. — Dizer-te toda a verdade, já que tu queres franqueza? Assim como naquele ano em que eu apenas te conheci, passei noites sem dormir, pensando em ti e criando eu mesmo o meu amor, e este amor crescia-me mais e mais no coração, exatamente do mesmo modo em Petersburgo e no estrangeiro eu passei noites terríveis de insônia, rompendo, destruindo este amor, que me atormentava. Eu não o destruí, mas destruí somente aquilo que me torturava, acalmei-me, e, apesar de tudo, amo ainda, mas é um outro amor. 
— Sim, chamas isto de amor, mas é uma tortura — disse eu. — Por que me permitiste viver no mundo, se ele te parecia tão pernicioso que deixaste de me amar por causa dele? 
— Não foi o mundo, minha amiga — disse ele. 
— Por que não usaste a tua autoridade — prossegui —, não me amarraste, não me mataste? Seria melhor para mim agora que privar-me de tudo o que constituía a minha felicidade, seria bom para mim, eu não teria vergonha. 

     Tornei a romper em pranto e escondi o rosto.
     Nesse ínterim, alegres e molhadas, Kátia e Sônia entravam no terraço, falando alto e rindo; mas, vendo-nos, silenciaram e saíram no mesmo instante.
     Passamos ainda muito tempo calados; acabei de chorar as minhas lágrimas e me senti aliviada. Olhei para ele. Estava sentado, a cabeça apoiada no braço, e queria dizer algo, em resposta ao meu olhar, mas apenas suspirou pesadamente e tornou à posição anterior.
     Aproximei-me dele e afastei-lhe o braço. Seu olhar voltou-se pensativo para mim.

— Sim — disse ele, como que dando prosseguimento à sua reflexão. — Todos nós, e particularmente vós mulheres, devemos viver sozinhos todo o absurdo da existência, a fim de voltar à própria vida; e não se pode crer em outra coisa. Ainda estavas longe de ter vivido então todo o absurdo simpático e encantador com que eu me extasiava em ti; e eu te deixei acabar de vivê-lo e senti não ter o direito de te constranger, embora para mim o tempo já tivesse passado havia muito. 
— Mas, se me amava, por que vivias comigo e me deixavas viver este absurdo? — disse eu. 
— Porque, ainda que quisesses acreditar em mim, não o conseguirias; devias conhecê-lo por ti mesma, e o conheceste. 
— Tu argumentavas, argumentavas muito — disse eu. — Amavas pouco.

     Calamo-nos de novo por algum tempo.

— É cruel o que acabaste de dizer, mas é verdade — disse ele, erguendo-se de repente e pondo-se a caminhar pelo terraço — sim, é verdade. Fui culpado! — acrescentou, parando em frente de mim. — Eu não devia permitir-me amar-te, ou devia amar com mais simplicidade, sim. 
— Esqueçamos tudo — disse eu timidamente. 
— Não, o que passou, não há de voltar, é impossível fazê-lo voltar — e, ao dizer isso, a sua voz abrandou-se. 
— Tudo já voltou — disse eu, pondo-lhe a mão no ombro.

     Afastou a minha mão e apertou-a.

— Não, eu estava mentindo, ao dizer que não lamento o passado; não, eu lamento, eu choro aquele amor passado, que não existe nem pode existir mais. Quem é culpado disso? Não sei. Sobrou o amor, mas não aquele, sobrou o seu lugar, mas o amor ficou totalmente dolorido, não tem mais força nem suculência, ficaram as recordações e a gratidão, mas... 
— Não fales assim... — interrompi-o. — Que tudo seja de novo como antes... Bem que isto pode ser assim? Não é mesmo? — perguntei, fitando-o nos olhos. Mas eles eram límpidos, tranquilos, e olhavam dentro dos meus sem profundidade.

     Enquanto eu falava, senti que já era impossível aquilo que eu queria e que pedia a ele. Teve um sorriso tranquilo, humilde, o que me pareceu senil

— Como és jovem ainda e como sou velho — disse ele. — Em mim, não existe mais aquilo que procuras; para quê se enganar? — acrescentou, continuando a sorrir do mesmo jeito.

     Coloquei-me em silêncio ao seu lado, e senti maior tranquilidade interior.

— Não procuremos repetir a vida — prosseguiu ele —, não mintamos a nós mesmos. E quanto ao fato de não termos mais os sobressaltos e inquietações de outros tempos, que seja graças a Deus! Não temos o que procurar, nem motivo para ficar perturbados. Já encontramos, e coube-nos felicidade bastante. Agora, já temos que nos apagar e dar caminho aí está a quem — disse, apontando a ama que se acercara com Vânia e parara à porta do terraço. — Assim é, querida amiga — concluiu, inclinando para si a minha cabeça e beijando-a. Quem me beijava não era um amante, mas um velho amigo. E do jardim erguia-se cada vez mais intensamente e com maior doçura o frescor cheiroso da noite, os sons e o silêncio tornavam-se cada vez mais solenes, as estrelas acendiam-se no céu com maior frequência. Olhei-o e, de repente, senti a alma leve, era como se me tivessem tirado o nervo moral doente, que me obrigara a sofrer. Percebi de repente, com nitidez e tranquilidade, que o sentimento daquele tempo passara irrevogavelmente, assim como o próprio tempo, e que fazê-lo voltar seria não só impossível, mas até penoso e constrangedor. E ademais, seria mesmo tão bom aquele tempo que me parecia tão feliz? E tudo isso acontecera havia tanto, tanto tempo!
— Mas já está na hora do chá! — disse ele e fomos juntos para a sala de visitas. À porta, encontrei novamente a ama com Vânia. Tomei nos braços a criança, cobri as suas perninhas vermelhas e desnudas, apertei a contra mim e beijei-a, mal encostando os lábios. Como que dormindo, ele moveu a mãozinha de dedos enrugados e muito afastados e abriu os olhinhos turvos como se procurasse ou lembrasse algo; de repente, esses olhinhos detiveram-se sobre mim, faiscou neles um fagulha de pensamento, os labiozinhos rechonchudos, arrepanhados, começaram a mexer-se e abriram-se num sorriso. “É meu, meu, meu!” — pensei com uma tensão feliz em todos os membros, apertando-o ao peito e contendo-me a custo, para não lhe causar dor. E pus-me a beijar-lhe as perninhas frias, a barriguinha, os braços e a cabecinha em que mal despontavam cabelos. Meu marido aproximou-se de mim, fechei depressa o rosto da criança e tornei a descobri-lo.

— Ivan Sierguiéitch!¹ — disse meu marido, tocando-o com o dedo abaixo do queixinho. Mas, novamente, cobri depressa Ivan Sierguiéitch. Ninguém além de mim devia olhá-lo por muito tempo. Olhei para meu marido, os seus olhos riam, fitando os meus, e pela primeira vez, depois de muito tempo, eu sentia leveza e alegria ao olhá-los.

[1] Corruptela de Sierguiéievitch. (N. do T.)

     A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver...

Fim...


POSFÁCIO 
Boris Schnaiderman

     Esta novela, Felicidade conjugal, publicada em 1859, pode surpreender o leitor acostumado com a pregação insistente por Tolstói de seu sistema ético-religioso. Com efeito, na mesma época em que a escreveu entregava-se com insistência à elaboração de textos moralizantes.
     Assim, anotava em seu diário, em 1852: “Decididamente, não posso escrever sem objetivo e sem esperança de utilidade”. E em 1855, tratava ali do “bem que eu posso fazer com os meus livros”. Estas cogitações chegavam à obsessão. Basta lembrar que, em plena Guerra da Crimeia, sob o bombardeio inimigo e em meio às privações provocadas pelo assédio anglo-francês, entregou-se à ideia de fundar uma nova religião, “que corresponda ao desenvolvimento da humanidade, uma religião de Cristo, mas purificada da fé e do mistério, e que dê a bem-aventurança na terra”.
     Depois disso, torna-se muito compreensível que, durante a correção das provas desta novela, tenha escrito: “É uma ignomínia vergonhosa”. Mas, ao mesmo tempo, felizmente, não eliminou esta “ignomínia”.
     Creio que na base desta oscilação encontra-se uma dualidade tolstoiana sobre a qual já escrevi mais de uma vez. Ele era um moralista feroz, implacável, mas, ao mesmo tempo, sabia como ninguém expressar a atração do carnal e as grandes fraquezas humanas tinham nele um observador genialmente perspicaz. Vejam-se nesta novela as páginas 94 a 98 do capítulo III, da segunda parte, onde a personagem feminina se sente atraída por um marquês italiano. 
     Ora, esta contraparte com descrição muito compreensiva das vacilações inerentes ao humano é uma constante em boa parte da obra de Tolstói. Mesmo Anna Kariênina, onde o adultério é condenado com “uma crueldade magnífica”, segundo a expressão feliz de Eisenstein, contém páginas em que se trata com simpatia o irmão de Anna, que “trai constantemente a mulher, mas com naturalidade, como algo que não pode ser diferente, como um comportamento que faz parte do fluxo da existência”, conforme escrevi um dia¹.É verdade que, nos últimos anos de vida, radicalizou-se a atitude moralizante de Tolstói, chegando então ao paroxismo, conforme se constata particularmente em A Sonata a Kreutzer². Mas Felicidade conjugal constitui um dos momentos em que está menos imerso em seu delírio de pregador, quando ele se torna realmente insuperável.

[1] Boris Schnaiderman, Tolstói: antiarte e rebeldia (Coleção Encanto Radical), São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 63 [este ensaio foi republicado como posfácio a Lev Tolstói, Khadji-Murát, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2017].
[2] Ver Lev Tolstói, A Sonata a Kreutzer, tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2007. 

     Esta novela se diferencia de outros escritos de Tolstói, sobretudo na postura perante as injunções da moral. Assim, escreveria no diário, em 1889: “Vivemos no reino da devassidão e das mulheres. As mulheres movem tudo”. Mas, em Felicidade conjugal, temos (p. 86) um pensamento da personagem central: “Ah! Então é este o poder do marido — pensei. — Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles”. Realmente, impressiona a passagem de uma atitude compreensiva, humana, que até consegue captar um momento de revolta contra a prepotência masculina, ao tom ranzinza e rabugento de A Sonata a Kreutzer, que é, no entanto, magistral como obra de obsessão e delírio.
     Na edição que tenho de Felicidade conjugal¹ há uma nota: “Segundo testemunho do próprio Tolstói, serviu de fundamento à concepção literária desse romance a história das suas relações pessoais com V. V. Arsiênieva”², isto é, a moça com quem tivera um envolvimento amoroso antes de seu noivado e casamento com Sófia Behrs, que é sempre lembrada como Sófia Tolstaia, a condessa.

[1] Lev Tolstói, Obras reunidas em 12 volumes, Moscou, Goslitizdát (Editora Estatal de Obras da Literatura), 1956, vol. 3.
[2] Siemiéinoie schástie (Felicidade conjugal), em op. cit., p. 397.

     Na verdade, esta informação só pode ser aceita cum granum salis, pois a sucessão dos fatos autobiográficos nesta novela é bem tênue. Foi tudo vivido no plano da fantasia e da fabulação literária. Na vida real, não aconteceu nada que se aproximasse sequer da trama arquitetada. Aliás, Tolstói se orgulhava de sua capacidade de fabulação e, em diversas ocasiões, manifestou-se contra a cópia pura e simples, na ficção, dos acontecimentos da vida real.
     Todavia, é muito comum esta leitura exageradamente biográfica de algumas de suas obras. Assim, os romances Infância, Adolescência e Juventude, planejados como parte de uma tetralogia, que não chegou a completar, foram às vezes editados no Ocidente com a designação Memórias, o que é um absurdo.
     Em Felicidade conjugal, provoca até estranheza a ausência de certa problemática russa da época. Visto que o texto é de 1859, os fatos ali narrados decorrem no período em que se articulavam as grandes reformas do reinado de Alexandre II, inclusive a libertação dos servos da gleba, que ocorreria em 1861. No entanto, os camponeses da novela aparecem sem maior destaque, sem qualquer referência à “questão camponesa”, tema candente na época. Ora, Tolstói estava então muito envolvido com esta problemática e participava ativamente das assembleias da nobreza rural no distrito de Tula, onde ficava sua propriedade, Iásnaia Poliana.
     Também, a estada das personagens numa estação de águas no exterior não suscitou qualquer das reações indignadas do escritor à vida burguesa do Ocidente.
     A ação da novela se concentra no cotidiano de um casal da nobreza, sem quaisquer preocupações sociais ou políticas. Não procuremos ver em Sierguiéi Mikháilovitch um reflexo de Tolstói, pois ele não aguentaria semelhante comparação. Ao aceitar esta narrativa pura e simplesmente, sem maiores aprofundamentos históricos, veremos que nisso está a sua grandeza, sua contribuição específica. Quem quiser procure em outras obras de Tolstói sua vivência atormentada da Rússia na época. Pois temos de reconhecer: o humano e o literário encontram nesse texto o seu máximo de expressão.

________________________

Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 4 - A casa vazia  
___________________

Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

________________________

Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário