David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade
Seção II
Da probabilidade; e da ideia de causa e efeito
Isso é tudo que penso ser necessário observar a respeito das quatro relações que constituem o fundamento da ciência. Quanto às outras três, que não dependem da ideia e podem estar presentes ou ausentes enquanto aquela permanece a mesma, cabe explicá-las mais
detalhadamente. Essas três relações são identidade, situações no tempo
e no espaço, e causalidade.
Todos os tipos de raciocínio consistem apenas em uma comparação e uma descoberta das relações, constantes ou inconstantes, entre dois ou mais objetos. Essa comparação pode ser feita quando
ambos os objetos estão presentes aos sentidos, ou quando nenhum
dos dois está presente, ou ainda quando apenas um está. Quando ambos
os objetos estão presentes aos sentidos, juntamente com a relação, chamamos a isso antes de percepção que de raciocínio - pois neste caso
não há, propriamente falando, um exercício do pensamento, e tampouco uma ação, mas uma mera admissão passiva das impressões pelos órgãos da sensação. De acordo com esse modo de pensar, não
deveríamos considerar como raciocínio nenhuma das observações
que se podem fazer a respeito da identidade e das relações de tempo e
espaço. Em nenhuma delas, a mente é capaz de ir além daquilo que
está imediatamente presente aos sentidos, para descobrir seja a existência real, seja as relações dos objetos. Apenas a causalidade produz
uma conexão capaz de nos proporcionar uma convicção sobre a existência ou ação de um objeto que foi seguido ou precedido por outra
existência ou ação. As outras duas relações só podem ser emprega
das no raciocínio enquanto afetam ou são afetadas por ela. Não há
nada em nenhum objeto capaz de nos persuadir de que ele está sempre distante de outro ou que os dois sejam sempre contíguos. E quando, pela observação e experiência, descobrimos que essa sua relação
é invariável, sempre concluímos haver alguma causa secreta que os
separa ou une. O mesmo raciocínio aplica-se à identidade. Estamos
sempre prontos a supor que um objeto pode continuar sendo numericamente idêntico, ainda que se ausente e se reapresente diversas
vezes perante os sentidos. Apesar da descontinuidade da percepção,
atribuímos a ele uma identidade sempre que concluímos que, caso o
tivéssemos mantido constantemente ao alcance de nosso olhar ou
sob nossa mão, ele teria transmitido uma percepção invariável e ininterrupta. Mas tal conclusão, que ultrapassa as impressões de nossos
sentidos, só pode estar fundada na conexão de causa e efeito. De outro modo, não poderíamos de forma alguma estar seguros de que o
que temos agora diante de nós não é um outro objeto, muito semelhante àquele que estava antes presente aos sentidos. Sempre que descobrimos uma semelhança tão perfeita, examinamos se essa semelhança é comum nessa espécie de objeto; e se é possível ou provável
que alguma causa tenha produzido a mudança e a semelhança. Nosso juízo a respeito da identidade do objeto será formulado de acordo
com a conclusão acerca dessas causas e efeitos.
Vemos assim que, dessas três relações que não dependem meramente das ideias, a única que remete para além de nossos sentidos, e nos informa acerca de existências e objetos que não vemos ou tocamos, é a causalidade. Por isso, procuraremos explicar essa relação
de maneira mais completa antes de abandonarmos o tema do entendimento.
Para começar de maneira ordenada, devemos considerar a ideia
de causação e examinar qual sua origem. E impossível raciocinar de
maneira correta sem compreender perfeitamente a ideia sobre a qual
raciocinamos; e é impossível compreender perfeitamente uma ideia
sem referi-la à sua origem, e sem examinar aquela impressão primeira
da qual ela surge. O exame da impressão confere clareza à ideia; e o
exame da ideia confere uma clareza semelhante a todos os nossos
raciocínios.
Voltemos, assim, nosso olhar para dois objetos quaisquer, que
chamaremos de causa e efeito, e examinemo-los de todos os lados, a
fim de encontrar a impressão que produz uma ideia de tamanha importância. Logo à primeira vista, percebo que não devo buscar essa
impressão em nenhuma das qualidades particulares dos objetos, pois,
qualquer que seja a qualidade que escolho, encontro sempre um objeto que não a possui e que não obstante se inclui sob a denominação de
causa ou de efeito. De fato, não existe nada, interno ou externo, que
não deva ser considerado uma causa ou um efeito. E, entretanto, é
claro que não existe nenhuma qualidade que pertença universalmente
a todos os seres, e que lhes dê direito a essa denominação. A ideia de causação, portanto, deve ser derivada de alguma relação entre os objetos; e é essa relação que devemos agora tentar encontrar. Em primeiro lugar, vejo que todos os objetos considerados
causas ou efeitos são contíguos; e que nenhum objeto pode atuar em
um momento ou lugar afastados, por menos que seja, do momento
e lugar de sua própria existência. Embora algumas vezes possa parecer que objetos distantes produzem uns aos outros, descobrimos ao
examiná-los que estão ligados por uma cadeia de causas contíguas
entre si e em relação ao objeto distante. E quando, em um caso particular, não somos capazes de descobrir essa conexão, ainda assim presumimos que ela existe. Podemos, portanto, considerar a relação
de CONTIGUIDADE como essencial à de causalidade. Ou ao menos
podemos supor que é essencial, de acordo com a opinião geral, até que
encontremos uma ocasião¹ mais apropriada para esclarecer esse problema, examinando que objetos são ou não suscetíveis de justaposição e de conjunção.
[1] Parte 4, Seção 5.
[1] Parte 4, Seção 5.
A segunda relação que assinalarei como essencial às causas e efeitos não é tão universalmente reconhecida, estando, ao contrário, sujeita a alguma controvérsia. Trata-se da PRIORIDADE temporal da causa
em relação ao efeito. Há os que afirmam que não é absolutamente
necessário que uma causa preceda seu efeito, e que qualquer objeto
ou ação, já no primeiro instante de sua existência, pode exercer sua
qualidade produtiva, gerando outro objeto ou ação que lhe seja perfeitamente contemporâneo. Contudo, além do fato de que a experiência parece contradizer essa opinião na maioria dos casos, podemos
estabelecer a relação de prioridade por meio de uma espécie de
inferência ou raciocínio. Tanto a filosofia da natureza como a filosofia moral têm como uma máxima estabelecida que um objeto que
exista durante algum período de tempo em sua plena perfeição sem
produzir um outro não é a única causa deste, sendo antes auxiliado
por algum outro princípio, que o arranca de seu estado de inatividade, fazendo com que exerça aquela energia que secretamente possuía.
Ora, se alguma causa pode ser perfeitamente contemporânea a seu
efeito, é certo que, de acordo com essa máxima, todas devem sê-lo.
Pois qualquer causa que retarde sua operação por um só instante deixa
de atuar naquele momento particular preciso em que poderia ter atuado - e, portanto, não é propriamente uma causa. A consequência
disso seria nada menos que a destruição da sucessão de causas que
observamos no mundo e mesmo a total aniquilação do tempo. Porque se uma causa fosse contemporânea a seu efeito, e esse efeito a
seu efeito, e assim por diante, é claro que não haveria algo como uma
sucessão; e os objetos seriam todos coexistentes.
Se esse argumento parece satisfatório, ótimo. Se não, peço ao leitor que me conceda a mesma liberdade que tomei no caso anterior,
isto é, de supor que é satisfatório, pois verá que a questão não tem
grande importância.
Tendo assim descoberto ou suposto que as duas relações, de contiguidade e sucessão, são essenciais às causas e efeitos, vejo que tenho
de parar subitamente, e que não posso ir adiante pelo exame de um
exemplo isolado de causa e efeito. O movimento de um corpo é visto
como a causa, por impacto, do movimento de outro corpo. Quando
consideramos atentamente esses objetos, tudo que vemos é que um
corpo se aproxima do outro; e que seu movimento precede o movi
mento do outro, porém sem um intervalo perceptível. É inútil
atormentarmo-nos com mais pensamentos e reflexões sobre esse assunto. Não podemos ir mais longe considerando este caso particular.
Se alguém descartar esse exemplo e quiser definir uma causa como uma coisa que produz outra, é evidente que não estará dizendo
nada. Pois o que quer dizer com produção? Poderá dar uma definição
desse termo que não seja a mesma que a definição de causação? Se
puder, peço que a mostre. Se não puder, é porque está andando em
círculos, oferecendo um sinónimo em lugar de uma definição.
Deveremos, pois, ficar satisfeitos com essas duas relações, de contiguidade e sucessão, como fornecendo uma ideia completa da
causação? De forma alguma. Um objeto pode ser contíguo e anterior
a outro, sem ser considerado sua causa. Há uma CONEXÃO NECESSÁRIA a ser levada em consideração; e essa relação é muito mais importante que as outras duas anteriormente mencionadas.
Aqui, novamente, examino o objeto de todos os lados, a fim de descobrir a natureza dessa conexão necessária e encontrar a impressão, ou impressões, de que pode ser derivada sua ideia. Quando dirijo meu olhar para as qualidades conhecidas dos objetos, descubro imediatamente que a relação de causa e efeito não depende em nada delas. Quando considero suas relações, as únicas que encontro são as de contiguidade e sucessão - que já mostrei serem imperfeitas e insatisfatórias. Deverei afirmar, em desespero de causa, que estou aqui de posse de uma ideia que não é precedida por qualquer impressão similar? Isso seria uma prova demasiadamente forte de leviandade e inconstância, uma vez que o princípio contrário já foi firmemente estabelecido, não admitindo mais dúvidas - ao menos até termos examinado de modo mais completo a presente dificuldade.
Aqui, novamente, examino o objeto de todos os lados, a fim de descobrir a natureza dessa conexão necessária e encontrar a impressão, ou impressões, de que pode ser derivada sua ideia. Quando dirijo meu olhar para as qualidades conhecidas dos objetos, descubro imediatamente que a relação de causa e efeito não depende em nada delas. Quando considero suas relações, as únicas que encontro são as de contiguidade e sucessão - que já mostrei serem imperfeitas e insatisfatórias. Deverei afirmar, em desespero de causa, que estou aqui de posse de uma ideia que não é precedida por qualquer impressão similar? Isso seria uma prova demasiadamente forte de leviandade e inconstância, uma vez que o princípio contrário já foi firmemente estabelecido, não admitindo mais dúvidas - ao menos até termos examinado de modo mais completo a presente dificuldade.
Devemos, portanto, proceder como aqueles que, à procura de alguma coisa escondida e não a encontrando no lugar esperado, saem
por todos os campos vizinhos, sem objetivo ou propósito certo, na
esperança de que a sorte acabe por guiá-los até aquilo que buscam. E
necessário que abandonemos a investigação direta dessa questão a
respeito da natureza daquela conexão necessária que faz parte de nossa
ideia de causa e efeito, e que nos esforcemos para encontrar outras
questões, cujo exame talvez nos forneça alguma indicação para esclarecermos apresente dificuldade. Dessas questões, há duas que examinarei a seguir, a saber:
Em primeiro lugar, por que razão afirmamos ser necessário que
tudo aquilo cuja existência tem um começo deva também ter uma
causa?
Em segundo lugar, por que concluímos que tais causas particulares devem necessariamente ter tais efeitos particulares; e qual a natureza da inferência que fazemos daquelas a estes, bem como da crença
que depositamos nessa inferência?
Antes de passar adiante, observarei apenas que, embora as ideias
de causa e de efeito sejam derivadas das impressões de reflexão assim como das de sensação, entretanto, no interesse da concisão, mencionarei em geral apenas estas últimas como a origem de tais ideias - mas estou supondo que tudo o que delas disser pode se estender
às primeiras. As paixões estão tão conectadas com seus objetos e
umas com as outras quanto os corpos externos entre si. Portanto, a
mesma relação de causa e efeito que pertence a um tipo de impressão deve ser comum a todas.
continua na página 103...
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3
Seção I / Seção II /
___________________
4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
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