Hannah Arendt
Parte II
IMPERIALISMO
Se eu pudesse, anexaria os planetas.
Cecil Rhodes
4.3 - Partido e Movimento
A principal diferença entre o imperialismo continental e o ultramarino é que os sucessos e os
fracassos iniciais dos dois foram exatamente opostos. Enquanto o imperialismo continental,
mesmo em seu começo, conseguiu realizar sua hostilidade contra o Estado-nação, organizando
vastas camadas do povo fora do sistema partidário, mas sem jamais obter resultados em termos
de expansão perceptível, o imperialismo ultramarino, em sua louca e bem-sucedida carreira para
a anexação de um número crescente de territórios extensos, nunca teve muito sucesso em mudar
a estrutura política do seu país de origem. A ruína do sistema de Estados-nações, preparada por
seu próprio imperialismo de ultramar, foi finalmente levada a cabo por aqueles movimentos
que se haviam originado fora do seu próprio âmbito. E, quando os movimentos começaram a
competir vitoriosamente com o sistema partidário do Estado-nação, verificou-se também que
eles só podiam debilitar países que tivessem um sistema multipartidário e que a mera tradição
imperialista não era suficiente para lhes dar "apelo de massa". A Grã-Bretanha, o clássico país
do governo bipartidário, não chegou a produzir um movimento de orientação fascista ou
comunista de qualquer importância fora do seu sistema de partidos. O slogan "acima dos partidos", o apelo a "homens de todos os partidos" e a bazófia de se
manterem "bem longe de lutas partidárias" e de representarem "somente um objetivo nacional"
eram característicos de todos os grupos imperialistas,[74] parecendo consequência natural do seu
interesse exclusivo em política externa, esfera em que a nação, de qualquer modo, devia agir como um todo, independente
de classes e de partidos.[75] Além disso, como nos sistemas continentais essa representação da
nação como um todo havia sido o monopólio do Estado,[76] poderia até parecer que os
imperialistas colocavam os interesses do Estado acima de tudo, ou que o interesse da nação
como um todo finalmente encontrara neles o apoio popular que buscava havia tanto tempo.
Contudo, a despeito de todas essas pretensões de verdadeira popularidade, os "partidos acima de
partidos" não passavam de pequenas sociedades de intelectuais que, como a Liga Pangermânica,
só encontravam maior apoio em horas de emergência nacional.[77]
A invenção decisiva dos movimentos de unificação, portanto, não foi o alegarem estar fora e
acima do sistema partidário, mas sim o fato de se chamarem de "movimentos", sua própria
denominação refletindo a profunda desconfiança nos partidos, tão corrente na Europa desde o
fim do século XIX que, nos dias da República de Weimar, "cada novo grupo achava que a
melhor maneira de se legitimizar e apelar às massas era insistir em que não era um 'partido', e
sim um 'movimento' ",[78]
Na verdade, a real desintegração do sistema partidário europeu não foi provocada pelos
movimentos de unificação, mas pelos movimentos totalitários. Os movimentos de unificação,
porém, que se situavam entre as pequenas e relativamente inofensivas sociedades imperialistas e
os movimentos totalitários, foram precursores destes últimos, no sentido de já terem
abandonado o elemento de esnobismo tão marcante de todas as ligas imperialistas — fosse o
esnobismo da riqueza e da linhagem dos ingleses, ou da educação na Alemanha —, podendo
portanto tirar partido do profundo ódio do povo contra essas instituições, que supostamente o representavam.[79] Não é surpreendente que a atração dos movimentos na
Europa pouco tenha diminuído com a derrota do nazismo e com o crescente medo do bolchevismo.
Atualmente, a Grã-Bretanha é o único país da Europa em que o Parlamento não é desprezado e onde o
sistema partidário não desperta a animosidade do povo.[80]
Diante da estabilidade das instituições políticas nas Ilhas Britânicas e o simultâneo declínio de todos os
Estados-nações do continente europeu, é preciso concluir que a diferença entre o sistema partidário anglo
saxão e o continental deve ter sido fator importante. Porque não era tão grande a diferença meramente
material entre uma Inglaterra fortemente empobrecida e uma França não-destruída após a Segunda Guerra
Mundial; o desemprego, importante fator gerador de revoluções na Europa antes da guerra, havia atingido
a Inglaterra com maior gravidade que a muitos países continentais; e os choques aos quais foi submetida a
estabilidade política da Inglaterra, logo depois da guerra, quando o governo trabalhista liquidava a
presença imperialista na índia, tentando construir uma política externa em bases não-imperialistas, devem
ter sido tremendos. Nem a simples diferença de estrutura social explica a relativa força da Grã-Bretanha,
pois a base econômica do seu sistema foi profundamente alterada pelo governo socialista, sem que
surgisse qualquer mudança decisiva nas instituições políticas.
Por trás da diferença externa entre o sistema bipartidário anglo-saxônico e o sistema multipartidário da
Europa continental, existe uma distinção fundamental, e de profundas consequências para a atitude do
partido em relação ao poder, entre a função do partido dentro do corpo político e a posição do cidadão
dentro do Estado. No sistema bipartidário, um partido sempre representa o governo e realmente governa o
país, de sorte que, temporariamente, o partido no poder identifica-se com o Estado. O Estado, como
garantia permanente da unidade do país, é representado apenas pela permanência da função do rei.[81] Como ambos os partidos são planejados e organizados para governarem alternadamente,[82] todos os
setores da administração são planejados e organizados para essa alternação. E, como o governo de cada partido é limitado no tempo, o partido da
oposição exerce um controle cuja eficiência é fortalecida pela certeza de que governará amanhã. De fato,
é a oposição, e não a posição simbólica do rei, que garante a integridade do todo contra a ditadura
unipartidária. As vantagens desse sistema são óbvias: elimina as diferenças essenciais entre o governo e
o Estado; mantém tanto o poder como o Estado ao alcance do cidadão organizado em partido, que
representa o Estado de hoje ou de amanhã; e, consequentemente, não dá azo a especulações grandiosas a
respeito do Poder e do Estado como se fossem algo fora do alcance humano, entidades metafísicas
independentes da vontade e da ação do cidadão.
O sistema partidário do continente pressupõe que cada partido se defina conscientemente como parte do
todo, e este "todo", por sua vez, é representado por um Estado acima dos partidos,[83] enquanto o governo
unipartidário só pode significar o domínio ditatorial de um partido sobre todos os outros. Já os governos
formados por alianças entre líderes partidários são apenas governos partidários, claramente distintos do
Estado, que permanece acima e além de todos eles. Uma das desvantagens desse sistema é que os
membros do gabinete não podem ser escolhidos segundo sua competência, pois, quando há muitos
partidos representados, os ministros são necessariamente escolhidos segundo as alianças partidárias;[84] o
sistema britânico, por outro lado, permite a escolha dos homens mais capazes dentre os vastos escalões de
um só partido. Muito mais importante, contudo, é o fato de que o sistema multipartidário nunca permite
que um só homem ou um só partido assuma inteira responsabilidade. Assim, é perfeitamente natural que
nenhum governo formado por alianças entre partidos se sinta inteiramente responsável. Mas, se acontecer
o improvável e a maioria absoluta de um partido dominar o Parlamento, e formar um governo
unipartidário, resultará em uma ditadura, pois o sistema não está preparado para esse tipo de governo, ou
em problemas para a liderança, que, ainda que democrata e acostumada a exercer o poder apenas em
parte, reluta em usá-lo plenamente. Essa consciência funcionou de modo quase exemplar quando, após a
Primeira Guerra Mundial, os partidos social-democratas da Alemanha e da Áustria foram guindados, por breve tempo, à posição de partidos de maioria absoluta e, no entanto,
repudiaram o poder que essa posição lhes dava.[85]
Desde o surgimento do sistema partidário, é corriqueiro identificar os partidos com interesses
particulares, econômicos ou de outra natureza;[86] todos os partidos continentais, e não apenas
grupos trabalhistas, admitiam-no com franqueza, seguros de que o Estado, acima dos partidos,
exerceria o seu poder mais ou menos no interesse de todos. O partido anglo-saxão, ao contrário,
baseado em "princípios" para servir ao "interesse nacional",[87] representa o atual ou futuro
Estado do país; os interesses particulares têm a sua representação dentro do próprio partido, sob
forma de ala direita ou esquerda, e são refreados pelas próprias necessidades do governo. E,
como no sistema bipartidário um partido não pode existir durante tempo algum se não tem força
suficiente para assumir o poder, não há necessidade de qualquer justificativa teórica, não se
criam ideologias e não existe o fanatismo peculiar à luta partidária do continente, que resulta
não tanto do conflito de interesses quanto de ideologias antagônicas.[88]
Separados do governo e do poder, os partidos continentais estavam presos à mesquinhez dos
interesses particulares; mais do que isso: envergonhavam-se desses interesses e, assim, criaram
justificativas que levariam cada um a uma ideologia que alegava que os seus interesses
particulares coincidiam com os interesses gerais da humanidade. O partido conservador não se
contentava em defender os interesses da propriedade rural; necessitava de uma filosofia segundo
a qual Deus havia criado o homem para trabalhar a terra com o suor do seu rosto. O mesmo se aplica à ideologia do progresso dos partidos da classe média e à asserção
dos partidos trabalhistas de que o proletariado é o líder da humanidade. Essa estranha
combinação de alta filosofia e comezinhos interesses só é paradoxal à primeira vista. Uma vez
que esses partidos não organizavam os seus adeptos (nem educavam os seus líderes) para o fim
de cuidarem dos negócios públicos, mas os representavam apenas como indivíduos privados
com interesses privados, tinham de atender a todas as necessidades privadas, tanto espirituais
como materiais. Em outras palavras, a principal diferença entre o partido anglo-saxônico e o
partido continental é que o primeiro é uma organização política de cidadãos que precisam agir
em conjunto para poderem agir com eficácia,[89] enquanto o segundo é a organização de
indivíduos privados que querem proteger os seus interesses contra a interferência dos negócios
públicos.
Coerente com esse sistema, a filosofia estatal do continente europeu reconhecia o homem como
cidadão somente enquanto ele não fosse membro de um partido, ou seja, em seu relacionamento
individual e não organizado com o Estado {Staatsbürger), ou em seu entusiasmo patriótico em
casos de emergência (citoyens).[90] Esse foi o infeliz resultado da transformação do citoyen da
Revolução Francesa no bourgeois do século XIX, e do antagonismo entre o Estado e a
sociedade. Os alemães tendiam a considerar o patriotismo como um obediente auto
esquecimento diante das autoridades, e os franceses, como uma entusiástica lealdade ao
fantasma da "França eterna". Em ambos os casos, o patriotismo consistia no abandono dos
interesses partidários e parciais do homem em favor dos interesses do governo e da nação. O
fato é que essa deformação nacionalista era quase inevitável num sistema que criava partidos
políticos a partir de interesses privados, de sorte que o bem público dependia da força que
emanava de cima e de um vago e generoso auto sacrifício vindo de baixo, o qual só podia ser
conseguido através da exaltação de paixões nacionalistas. Na Inglaterra, pelo contrário, o antagonismo entre os interesses privados e nacionais nunca teve papel
decisivo na política. Assim, quanto mais o sistema pluripartidário refletia os interesses de
classe, mais a nação necessitava do nacionalismo, de algum apoio por parte do povo aos
interesses nacionais, apoio do qual a Inglaterra, com seu governo direto baseado em partido e
oposição, nunca precisou muito.
Quando consideramos a diferença entre o sistema multipartidário do Continente e o sistema
bipartidário britânico no que tange à predisposição para a criação de movimentos, parece mais
fácil a uma ditadura unipartidária asse-nhorear-se da máquina estatal em países onde o Estado
está acima dos partidos, e, portanto, acima dos cidadãos, do que em países onde os cidadãos, por
agirem "em conjunto", isto é, através da organização de um partido, podem galgar legalmente o
poder e se sentem como donos do Estado, seja o de hoje, seja de amanhã. Mais plausível ainda é
que a mistificação do poder, inerente aos movimentos, cresça com facilidade diretamente
proporcional ao afastamento dos cidadãos das fontes do poder, ou seja, o misticismo do poder
ocorre mais facilmente nos países governados por burocracia, onde o poder positivamente
transcende a capacidade de compreensão do governado, do que nos países governados
constitucionalmente, onde a lei se coloca acima do poder, e o poder é apenas um meio de fazê-la
cumprir; e ainda mais facilmente nos países em que o poder estatal fica além do alcance dos
partidos, isto é, fora do alcance da ação do cidadão, mesmo que permaneça ao alcance de sua
inteligência.
A alienação das massas em relação ao governo, que originou o seu ódio ao Parlamento, foi
diferente na França e em outras democracias do Ocidente de um lado, e nos países da Europa
central, principalmente na Alemanha, de outro. Na Alemanha, onde o Estado se colocava, por
definição, acima dos partidos, os líderes partidários geralmente abandonavam sua fidelidade
partidária assim que se tornavam ministros e recebiam encargos oficiais. A deslealdade ao
próprio partido era o dever de quem quer que assumisse um cargo público.[91] Na França,
governada por coligações partidárias desde o estabelecimento da Terceira República, com seu
recorde fantástico de gabinetes, não foi possível formar um verdadeiro governo. A fraqueza da
França era o oposto da fraqueza alemã: os franceses haviam liquidado o Estado, que se colocava
acima dos partidos e acima do Parlamento, sem reorganizarem seu sistema partidário num corpo
capaz de governar. O governo tornou-se necessariamente um expoente ridículo das atitudes do
Parlamento e da opinião pública em constante mutação. Por outro lado, o sistema alemão transformou o Parlamento num campo de batalha mais
ou menos útil a interesses e opiniões em conflito, sendo sua principal função a de influenciar o
governo, embora sua utilidade prática na condução dos negócios estatais fosse discutível. Na
França, os partidos sufocaram o governo; na Alemanha, o governo emasculou os partidos.
Desde o fim do século XIX, a reputação desses parlamentos e partidos constitucionais declinara
constantemente; para o povo em geral, pareciam instituições caras e desnecessárias. Bastava
este motivo para que um grupo que alegasse apresentar alguma coisa acima dos interesses de
partidos e de classe, e que surgisse fora do Parlamento, tivesse muita chance de se tornar
popular. Esses grupos pareciam mais competentes, mais sinceros e mais interessados nos
negócios públicos do que os partidos. Mas isso era assim apenas na aparência, pois o verdadeiro
objetivo de todo "partido acima dos partidos" era promover um interesse particular até subjugar
todos os outros, e fazer com que um grupo particular se apossasse da máquina do Estado. Foi
isso o que finalmente ocorreu na Itália sob o fascismo de Mussolini, que até 1938 não era
totalitário, mas apenas uma ditadura nacionalista comum, que havia evoluído logicamente a
partir de uma democracia multipartidária. Porque, se há realmente um grão de verdade no velho
truísmo acerca da afinidade entre o governo majoritário e a ditadura, essa afinidade nada tem a
ver com o totalitarismo. É óbvio que, após muitas décadas de governo multipartidário
ineficiente e confuso, a tomada do poder por um só partido pode parecer um alívio, pois garante
pelo menos, se bem que por tempo limitado, certa coerência, certa permanência e um pouco
menos de contradição.
O fato de que a tomada do poder pelos nazistas foi tida geralmente como uma dessas ditaduras
unipartidárias demonstrou simplesmente até que ponto o pensamento político ainda estava
arraigado nos velhos padrões estabelecidos, e quão pouco estava o povo preparado para o que
realmente estava por vir. É verdade que também o partido fascista insistiu em que era um
movimento. Mas não o era; havia meramente usurpado a expressão "movimento" para atrair as
massas, como se evidenciou logo que se apossou da máquina do Estado sem mudar
drasticamente a estrutura de poder do país, contentando-se em preencher todas as posições
governamentais com os membros do partido. Exatamente por identificar-se com o Estado, o que
tanto os nazistas como os bolchevistas sempre evitaram cuidadosamente, o partido fascista
deixou de ser "movimento", já que os movimentos caracterizavam-se pela luta contra a estrutura
do Estado, enquanto o fascismo o aceitou na sua imobilidade estrutural.
Embora os movimentos totalitários e os seus predecessores, os movimentos de unificação, não
fossem "partidos acima de partidos" que aspirassem à tomada da máquina estatal, e sim
formações que visavam à destruição do Estado, os nazistas lucraram fingindo que constituíam
um partido, e que seguiriam fielmente o modelo italiano do fascismo. Puderam assim granjear o
apoio da elite da classe alta e do mundo dos negócios, que julgaram tratar-se de um daqueles
antigos grupos parapartidários que eles mesmos haviam fundado tantas vezes, e cuja única e
modesta pretensão era conquistar a máquina estatal para um só partido.[92] Os negociantes que ajudaram Hitler a galgar o poder acreditavam
ingenuamente estarem apenas apoiando um ditador, um ditador feito por eles mesmos e que
naturalmente governaria em proveito de sua própria classe e em detrimento de todas as outras.
Os "partidos acima de partidos", de inspiração imperialista, nunca souberam como capitalizar o
ódio popular ao sistema partidário em si; o frustrado imperialismo alemão de antes da Primeira
Guerra, a despeito dos seus sonhos de expansão continental e de sua violenta denúncia das
instituições democráticas do Estado-nação, jamais chegou a constituir movimento. Certamente
não bastava a arrogância de deixar de lado os interesses de classe, que eram a própria base do
sistema partidário da nação, pois isso os tornava ainda menos atraentes que os partidos comuns.
O que faltava aos imperialistas alemães, apesar do seu altissonante fraseado nacionalista, era
uma ideologia verdadeira, quer nacionalista, quer de outra natureza. Após a Primeira Guerra
Mundial, quando os pangermanistas alemães, especialmente Ludendorff, reconheceram esse
erro e tentaram corrigi-lo, fracassaram a despeito de sua notável capacidade de apelar às crenças
mais supersticiosas da massa, porque se apegavam a um culto estatal desatualizado e não
totalitário, e não compreendiam que o furioso interesse das massas pelos chamados "poderes supra estatais" {übers-taatliche Mâchté) — como jesuítas, judeus e maçons — não provinha do
apreço ao Estado ou à nação, mas, ao contrário, da inveja e do desejo de se tornarem também
uma "força supra estatal".[93]
Os únicos países onde, ao que tudo indicava, a idolatria do Estado e o culto da nação ainda estavam em moda, e onde os slogans nacionalistas contra as forças supra estatais ainda correspondiam ao interesse do povo, eram aquelas nações latino-europeias como a Itália e, em menor intensidade, a Espanha e Portugal, cujo desenvolvimento nacional havia sido seriamente prejudicado pelo poder da Igreja. Em parte devido a esse fator de atraso no desenvolvimento nacional, e em parte graças à sabedoria da Igreja (que sensatamente reconheceu não ser o fascismo nem anticristão nem totalitário em seus princípios, e apenas estabeleceu uma separação entre Igreja e Estado que já existia em outros países), a atitude inicialmente anticlerical do nacionalismo fascista rapidamente deu lugar a um modus vivendi, como na Itália, ou a uma aliança, como na Espanha e em Portugal.
Os únicos países onde, ao que tudo indicava, a idolatria do Estado e o culto da nação ainda estavam em moda, e onde os slogans nacionalistas contra as forças supra estatais ainda correspondiam ao interesse do povo, eram aquelas nações latino-europeias como a Itália e, em menor intensidade, a Espanha e Portugal, cujo desenvolvimento nacional havia sido seriamente prejudicado pelo poder da Igreja. Em parte devido a esse fator de atraso no desenvolvimento nacional, e em parte graças à sabedoria da Igreja (que sensatamente reconheceu não ser o fascismo nem anticristão nem totalitário em seus princípios, e apenas estabeleceu uma separação entre Igreja e Estado que já existia em outros países), a atitude inicialmente anticlerical do nacionalismo fascista rapidamente deu lugar a um modus vivendi, como na Itália, ou a uma aliança, como na Espanha e em Portugal.
A interpretação de Mussolini da ideia do Estado corporativo era uma tentativa de vencer os
notórios perigos nacionais de uma sociedade dominada por classes graças a uma nova organização social integrada,[94] para assim solucionar o antagonismo
entre o Estado e a sociedade, sobre a qual o Estado-nação se havia baseado, incorporando a
sociedade ao Estado.[95] O movimento fascista, que era um "partido acima de partidos" na medida
em que dizia representar o interesse da nação como um todo, apoderou-se da máquina estatal,
identificou-se com a mais alta autoridade nacional e tentou transformar todo o povo em "parte
do Estado". Não se considerava, contudo, "acima do Estado", e os seus líderes não se julgavam
"acima da nação.[96] No tocante aos fascistas, seu movimento havia terminado com a tomada do
poder pelo menos no que se referia à política doméstica; agora, só podiam manter o seu ímpeto
em assuntos de política externa, no sentido de expansão imperialista e aventuras tipicamente
imperialistas. Quanto aos nazistas, mesmo antes de tomarem o poder, mantiveram-se claramente
alheios a essa forma fascista de ditadura, na qual o "movimento" serve apenas para trazer o
partido ao poder, e conscientemente usaram o partido para "levar adiante o movimento", que, ao
contrário do partido, não deve ter quaisquer "objetivos definidos, rigorosamente
determinados".[97]
O melhor exemplo da diferença entre o movimento fascista e os movimentos totalitários é a sua
atitude em relação ao Exército, isto é, em relação à instituição nacional par excellence. Ao
contrário dos nazistas e dos bolchevistas, que destruíram o espírito do Exército, subordinando-o
aos comissários políticos ou às formações totalitárias de elite, os fascistas se utilizavam do
Exército, com o qual se identificavam, como se haviam identificado com o Estado. Queriam um
Estado fascista e um Exército fascista, mas que ainda fossem um Exército e um Estado; só na
Alemanha nazista e na Rússia soviética é que Exército e Estado se tornaram funções subordinadas ao movimento. O ditador fascista — mas não Hitler
nem Stálin — era, no sentido da teoria política clássica, o verdadeiro usurpador, e o seu governo
unipartidário era, em certo sentido, o único que ainda permanecia intimamente ligado ao sistema
multipartidário. Realizou aquilo que as ligas, sociedades e "partidos acima de partidos" de
orientação imperialista haviam almejado, de sorte que o fascismo italiano veio a ser,
particularmente, o único exemplo de uni' movimento de massa moderno organizado dentro da
estrutura de um Estado existente, inspirado exclusivamente pelo extremo nacionalismo, e que
transformou o povo permanentemente naqueles Staatsbürger oupatriotes que o, Estado-nação só
havia conseguido mobilizar em horas de emergência e de union sacrée.[98]
Não existem movimentos sem ódio ao Estado, e este ódio era virtualmente desconhecido dos
pangermanistas alemães na relativa estabilidade da Alemanha antes da Primeira Guerra. Os
movimentos partiram da Áustria-Hungria, onde o ódio ao Estado era uma expressão de
patriotismo das nacionalidades oprimidas, e onde os partidos — com a exceção do Partido
Social-Democrata (que, junto com o Partido Social-Cristão, era o único sinceramente leal à
Áustria) — tinham uma orientação nacional e não de classes. Isso havia sido possível porque, na
Áustria, os interesses econômicos e de nacionalidades eram quase idênticos, e porque a posição
econômica e social do indivíduo dependia grandemente da nacionalidade; o nacionalismo,
portanto, que havia sido uma força unificadora nos Estados-nações, tornou-se ali um elemento
de destruição interna, o que resultou numa diferença decisiva na estrutura dos partidos nos
Estados-nações em relação aos partidos na Ãustria-Hungria. O que unia os membros dos
partidos na Áustria-Hungria multinacional não era um interesse particular, como nos outros
sistemas partidários continentais, ou um princípio particular de ação organizada, como no
sistema anglo-saxão, mas principalmente, o sentimento de pertencer à mesma nacionalidade. A
rigor, isso deveria ter sido, e foi, uma grande fraqueza dos partidos austríacos, porque não é
possível deduzir objetivos ou programas definidos a partir do sentimento de se pertencer a uma
tribo. Os movimentos de unificação étnica fizeram dessa desvantagem uma virtude,
transformando os partidos em movimentos, e descobrindo aquela forma de organização que, em
contraste com todas as outras, nunca teria necessidade de um objetivo ou programa, podendo
mudar sua política de um dia para outro, sem com isso perder os seus membros. Muito antes que
o nazismo orgulhosamente anunciasse que, embora tivesse um programa, não precisava tê-lo, o
pangermanismo descobriu o quanto uma atitude geral era mais importante para a conquista das
massas do que plataformas ideológicas e programas escritos. Pois a única coisa que importa
num movimento é precisamente manter-se em constante movimento.[99] Assim, os nazistas costumavam referir-se aos
catorze anos da República de Weimar como a "era do Sistema" — Systemzeit —, querendo dizer
com isso que fora uma época estéril, sem dinamismo, que não se "movia" enquanto a deles seria
a "era do movimento".
O Estado, mesmo como ditadura unipartidária, era considerado um estorvo às necessidades em
contínua mutação de um movimento em constante crescimento. A diferença mais característica
entre o grupo imperialista "acima de partidos" da Liga Pangermânica, na própria Alemanha, e o
movimento pangermânico da Áustria estava exatamente nas suas atitudes em relação ao
Estado:[100] enquanto o "partido acima de partidos" queria apenas apoderar-se da máquina estatal,
o verdadeiro movimento visava a sua destruição; enquanto o primeiro ainda reconhecia no
Estado a sua mais alta autoridade quando a representação do Estado caía nas mãos dos membros
de um partido (como na Itália de Mussolini), o último via o movimento independente do Estado
e superior a ele em autoridade.
A hostilidade dos movimentos de unificação étnica contra o sistema partidário adquiriu
significado prático quando, depois da Primeira Guerra Mundial, o sistema partidário deixou de
ser um mecanismo operante e o sistema de classes da sociedade europeia entrou em colapso sob
o peso crescente das massas, inteiramente marginalizadas pelos acontecimentos. A essa altura, o
que veio à tona já não eram simples movimentos de unificação, mas os seus sucessores
totalitários, que, em poucos anos, determinaram a política dos demais partidos, a tal ponto que
todos se tornaram antifascistas, antibolchevistas ou ambos.[101] Com essa atitude negativa,
aparentemente imposta por forças externas, os partidos mais antigos demonstraram claramente
que também já não eram capazes de funcionar como representantes de interesses específicos de
classe, e que se haviam transformado em meros defensores do status quo. A rapidez com que os
pangermanistas alemães e austríacos aderiram ao nazismo tem um paralelo no modo, muito
menos rápido e mais complicado, pelo qual os pan-eslavistas descobriram, finalmente, que a
liquidação da Revolução Russa de Lênin havia sido suficientemente completa para que eles
pudessem dar a Stálin seu entusiástico apoio. Não foi culpa dos pangermanistas nem dos pan
eslavos — e mal serviu para refrear o seu entusiasmo — o fato de que o nazismo e o
bolchevismo, no auge do poder, superaram o mero nacionalismo tribal e pouco se interessaram por aqueles que
ainda acreditavam nele, em vez de o reconhecerem como mero instrumento de propaganda.
A decadência do sistema partidário continental acompanhou o declínio do prestígio do Estado
nação. A homogeneidade nacional foi severamente abalada por migrações, e a França, a nation
par excellence, tornou-se em poucos anos dependente da mão-de-obra estrangeira; a política
imigratória restritiva, inadequada às novas necessidades, por mais genuinamente "nacional" que
fosse, tornava óbvio o fato de que o Estado-nação não tinha mais condições de enfrentar as
principais questões políticas da época.[102] Mais grave ainda foi a malfadada tentativa dos tratados
de paz de 1919 de introduzir organizações estatais nacionais na Europa oriental e meridional,
onde o grupo nacional que formava o Estado dispunha, muitas vezes, apenas de maioria relativa
e era sobrepujado numericamente pelas "minorias" reunidas dentro das fronteiras do país. Essa
nova situação bastaria para solapar gravemente a base classista do sistema partidário; em toda
parte, organizavam-se partidos de orientação nacional, como se a liquidação da Monarquia Dual
tivesse servido apenas para desencadear experiências semelhantes, embora em escala
reduzida.[103] Em outros países, onde o Estado-nação e a base classista dos partidos não haviam
sido afetados pelas migrações e pela heterogeneidade da população, foram a inflação e o
desemprego que levaram ao colapso; e é evidente que, quanto mais rígido era o sistema de
classes de um país e quanto mais consciente de classes era o seu povo, tanto mais dramático e
mais perigoso era esse colapso.
Tal era a situação entre as duas guerras, quando cada movimento tinha mais oportunidade que
qualquer partido, porque o movimento atacava a instituição do Estado, desprezando os apelos de
classes. O fascismo e o nazismo sempre alardearam que o seu ódio não era dirigido contra
determinadas classes, mas contra o sistema de classes em si, o qual denunciavam como
invenção marxista. Mais significativo ainda foi que até os comunistas, a despeito de sua
ideologia marxista, tiveram de abandonar a rigidez dos seus apelos de classe quando, após 1935,
a pretexto de ampliarem sua base de massa, formaram Frentes Populares por toda parte e se
puseram a apelar às massas dos que não pertenciam a classe alguma e que até então haviam sido
presa natural dos movimentos fascistas. Nenhum dos partidos mais antigos estava preparado
para receber essas massas e não avaliou corretamente a crescente importância do seu número e a
crescente influência política dos seus líderes. Esse erro de julgamento dos partidos mais antigos
explica-se pelo fato de que sua posição segura no Parlamento e sua representação garantida nos cargos e instituições do Estado faziam com que se
sentissem muito mais próximos das fontes do poder do que das massas; julgavam que o Estado
permaneceria sempre senhor inconteste de todos os instrumentos de violência, e que o Exército,
a suprema instituição do Estado-nação, seria sempre o elemento decisivo em todas as crises
domésticas. Sentiam-se, portanto, perfeitamente à vontade para ridicularizar as numerosas
formações paramilitares que surgiam sem qualquer apoio oficial. Pois, quanto mais o sistema
partidário se enfraquecia sob a pressão dos movimentos alheios ao Parlamento e às classes, mais
depressa desaparecia todo o antigo antagonismo dos partidos em relação ao Estado. Os partidos,
em seu equívoco de um "Estado acima de partidos", interpretavam essa harmonia, erradamente,
como fonte de força, como portentoso relacionamento com algo que pertencia a uma ordem
superior. Mas a pressão dos movimentos revolucionários era uma ameaça para o Estado como o
era para o sistema partidário, e o Estado não podia dar-se ao luxo de manter uma posição
necessariamente impopular, acima das lutas domésticas internas. O Exército havia muito
deixara de ser baluarte seguro contra a agitação revolucionária, não porque simpatizasse com a
revolução, mas porque havia perdido a sua posição. Por duas vezes, em tempos recentes, e
ambas as vezes na França, o Exército havia demonstrado sua absoluta relutância ou
incapacidade de ajudar aos que estavam no poder ou de tomar o poder em suas mãos: em 1850,
quando havia permitido que a turba da "Sociedade 10 de Dezembro" levasse Napoleão III ao
poder;[104] e, novamente, no fim do século XIX, durante o Caso Dreyfus, quando nada teria sido
mais fácil que estabelecer uma ditadura militar. A neutralidade do Exército, sua disposição de
servir a qualquer senhor, deixou finalmente o Estado numa posição de "mediador entre
interesses partidários organizados. Já não estava acima, mas entre as classes da sociedade".[105] Em outras palavras, o Estado e os partidos, juntos, defendiam o status quo sem se aperceberem
de que nessa mesma aliança já estava o embrião da mudança do status quo.
O colapso do sistema partidário europeu ocorreu de modo espetacular com a subida de Hitler ao
poder. Hoje, muitas vezes esquece-se que, quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, a maioria
dos países europeus já havia adotado alguma forma de ditadura e se afastado do sistema
partidário, e que essa revolucionária mudança de governo ocorrera na maioria dos países sem
qualquer agitação revolucionária. A ação revolucionária na maioria das vezes não refletia
verdadeira luta pelo poder, mas era uma concessão teatral aos desejos das massas violentamente
descontentes. Afinal, não importava muito que alguns milhares de pessoas, sem armas,
marchassem sobre Roma e tomassem o governo da Itália, ou que, na Polônia (em 1934), um
chamado "bloco sem partido", com um programa de apoio a um governo semifascista e com a
participação de gente vinda da nobreza e das mais pobres massas camponesas, trabalhadores e
homens de negócios, católicos e judeus ortodoxos, conquistasse legalmente dois terços das
cadeiras do Parlamento.[106]
Na França, a subida de Hitler ao poder, acompanhada pelo crescimento do comunismo e do
fascismo, rapidamente anulou as antigas relações entre os partidos e alterou, da noite para o dia,
as antigas linhas partidárias. A direita francesa, até então fortemente antialemã e a favor da
guerra, tornou-se, após 1933, a vanguarda do pacifismo e do entendimento com a Alemanha.
Com a mesma rapidez, a esquerda abandonou o pacifismo a qualquer preço por uma firme
posição contra a Alemanha, e logo foi acusada de ser um partido de fomentadores de guerra
pelos mesmos partidos que, apenas alguns anos antes, haviam denunciado o seu pacifismo como
traição nacional.[107] Os anos que se seguiram à subida de Hitler ao poder foram ainda mais
desastrosos para a integridade do sistema partidário francês. Na crise de Munique, todos os
partidos, da direita à esquerda, dividiram-se internamente quanto à única questão política
relevante: quem era a favor e quem era contra a guerra com a Alemanha.[108] Cada partido tinha
uma ala da paz e uma ala da guerra; nenhum conseguia permanecer unido no tocante a decisões
políticas de importância, e nenhum resistiu ao teste do fascismo ou do nazismo sem se dividir
em antifascistas, de um lado, e simpatizantes do nazismo, de outro. Que Hitler tenha podido
escolher livremente em todos os partidos os elementos para a formação de regimes fantoches foi
consequência dessa situação anterior à guerra, e não de alguma manobra nazista particularmente
esperta. Não houve um único partido na Europa que não produzisse colaboracionistas.
Contra a desintegração dos partidos mais antigos destacava-se a clara unidade dos movimentos
fascistas e comunistas de toda parte — os primeiros, fora da Alemanha e da Itália, lealmente
advogando a paz, mesmo ao preço da dominação externa, e os últimos pregando a guerra,
mesmo ao preço da ruína nacional. Contudo, o que importa não é o fato de a extrema direita, em
toda a Europa, ter abandonado o seu tradicional nacionalismo em favor da submissão a Hitler,
enquanto a extrema esquerda esquecia o seu tradicional pacifismo em favor de velhos slogans
nacionalistas, mas, sim, que ambos os movimentos puderam contar com a lealdade de
associados e líderes que não se deixaram perturbar pelas súbitas mudanças políticas. Isso ficou
dramaticamente evidente no pacto de não-agressão germano-soviético, quando os nazistas
tiveram de abandonar o seu principal slogan contra o bolchevismo e os comunistas tiveram de
voltar a um pacifismo que sempre haviam denunciado como pequeno-burguês. Tais guinadas
não os afetaram de modo algum. Os comunistas permaneceram fortes, mesmo após sua segunda
volte-face, ocorrida menos de dois anos depois, quando a União Soviética foi atacada pela Alemanha nazista — e isso a despeito de ambas as
linhas políticas terem envolvido o povo em atividades políticas sérias e perigosas, que exigiam
reais sacrifícios e constante ação.
Diferente na aparência mas muito mais violento na realidade foi o colapso do sistema partidário
da Alemanha antes de Hitler. Isso ficou patente durante as últimas eleições presidenciais de
1932, quando todos os partidos adotaram formas complicadas e inteiramente novas de
propaganda de massa.
A própria escolha dos candidatos foi peculiar. Enquanto era natural que os dois movimentos,
situados fora do sistema parlamentar e combatendo-o de lados opostos, apresentassem
candidatos próprios (Hitler pelos nazistas, e Thãl-mann pelos comunistas), foi surpreendente ver
que todos os outros partidos subitamente concordavam em relação a um só candidato. E não
deixou de ser sério o fato de que esse candidato viesse a ser o velho Hindenburg, que gozava da
popularidade sem igual que, desde os tempos de MacMahon na França, parece aguardar um
general derrotado que volta ao seu país; esse fato demonstrava o quanto os velhos partidos
desejavam meramente identificar-se com o Estado dos velhos tempos, Estado acima dos
partidos, cujo símbolo mais forte havia sido o Exército nacional. Em outras palavras, os partidos
já haviam desistido do próprio sistema partidário. Pois, em presença dos movimentos, as
diferenças entre os partidos haviam realmente perdido todo o seu significado; a existência de
todos eles estava em jogo e, consequentemente, ajuntaram-se uns aos outros e esperavam
manter um status quo que garantisse a sua existência. Hindenburg tornava-se o símbolo do
Estado-nação e do sistema partidário, enquanto Hitler e Thãlmann disputavam a primazia de se
tornar, cada qual, o verdadeiro símbolo do povo.
Tão significativos quanto a escolha dos candidatos foram os cartazes eleitorais. Nenhum deles
louvava o candidato por méritos próprios; os cartazes a favor de Hindenburg proclamavam
simplesmente que "um voto para Thãlmann é um voto para Hitler", advertindo os trabalhadores
a não desperdiçarem o seu voto num candidato que certamente seria derrotado (Thãlmann),
desse modo levando Hitler ao poder. Foi assim que os social-democratas se reconciliaram com
Hindenburg, a quem nem ao menos mencionavam. Os partidos da direita jogavam o mesmo
jogo e acentuavam que "um voto para Hitler era um voto para Thãlmann". Além disso, ambos
os lados aludiam claramente às ocasiões em que nazistas e comunistas haviam lutado por uma
causa comum, de modo a convencer todos os membros leais dos partidos, da esquerda ou da
direita, de que a preservação do status quo exigia Hindenburg.
Em contraste com a propaganda a favor de Hindenburg, que apelava àqueles que desejavam o
status quo a qualquer preço — e, em 1932, esse preço era o desemprego de quase a metade do
povo alemão —, os candidatos dos movimentos tinham de levar em conta aqueles que
desejavam uma mudança a qualquer preço (mesmo ao preço da destruição de todas as
instituições legais), e estes eram pelo menos tão numerosos quanto os crescentes milhões de
desempregados e suas famílias. Os nazistas, portanto, não recuaram diante do absurdo de que
"um voto para Thãlmann é um voto para Hindenburg", e os comunistas não hesitaram em responder que "um voto para Hitler é um voto para Hindenburg", ambos
ameaçando os seus eleitores com a permanência do status quo, da mesma maneira como os seus
oponentes haviam ameaçado os seus seguidores com o espectro da revolução.
Por trás da curiosa uniformidade do método dos que apoiavam os candidatos, estava a tácita suposição de
que o eleitorado iria às urnas por estar amedrontado — com medo dos comunistas, com medo dos
nazistas, ou com medo do status quo. Nesse medo geral, todas as divisões de classe desapareciam do
cenário político: enquanto a aliança dos partidos para a defesa do status quo fazia esvaecer a estrutura de
classes mantida nos diferentes partidos, os escalões inferiores dos movimentos eram completamente
heterogêneos e tão dinâmicos e flutuantes como o próprio desemprego.[109] Enquanto, dentro da estrutura
das instituições nacionais, a esquerda parlamentar se havia unido à direita parlamentar, os dois
movimentos estavam ocupados em organizar, conjuntamente, a famosa greve dos transportes nas ruas de
Berlim em novembro de 1932.
Quando se considera o declínio extraordinariamente rápido do sistema partidário europeu, deve-se ter em
mente que essa instituição teve vida muito curta. Não existia em parte alguma antes do século XIX; na
maioria dos países europeus, a formação de partidos políticos ocorreu somente depois de 1848, de sorte
que o seu reinado como instituição inconteste em política nacional mal chegou a durar quarenta anos.
Durante as últimas duas décadas do século XIX, todos os acontecimentos políticos importantes na França,
como na Áustria-Hungria, ocorreram fora do âmbito dos partidos parlamentares e em oposição a eles;
enquanto, em toda parte, os "partidos acima de partidos", que eram menores e imperialistas, desafiavam o
sistema partidário em busca de apoio popular para uma política externa agressiva e expansionista.
Ao passo que as ligas imperialistas se colocavam acima dos partidos para se identificarem com o Estado
nação, os movimentos de unificação atacavam esses mesmos partidos como parte integrante de um
sistema geral que incluía o Estado-nação; não se colocavam tanto "acima de partidos" como "acima do
Estado", a fim de se identificarem diretamente com o povo. No fim, os movimentos totalitários foram
levados a se descartarem também do povo, ao qual, não obstante, usaram para fins de propaganda,
seguindo de perto o rastro dos movimentos de unificação. O "Estado totalitário" é Estado apenas na
aparência, e o movimento não mais se identifica verdadeiramente nem mesmo com as necessidades do
povo. O movimento, a essa altura, está acima do Estado e do povo, pronto a sacrificar a ambos por amor à
sua ideologia: "o Movimento (...) é o Estado, assim como é o Povo, e nem o atual Estado (...) nem o atual povo alemão pode ser concebido
sem o Movimento".[110]
Nada demonstra melhor o irreparável declínio do sistema partidário do que os esforços feitos após a
Segunda Guerra para ressuscitá-lo no continente europeu, os parcos resultados alcançados, a renovada
atração dos movimentos após a derrota do nazismo e a óbvia ameaça do bolchevismo às independências
nacionais. O resultado de todos os esforços para restaurar o status quo foi apenas a restauração de uma
situação política na qual os movimentos destrutivos tomaram a forma de "partidos" que funcionam
devidamente. Sua liderança vem mantendo a autoridade nas circunstâncias mais adversas, apesar de
mudarem constantemente as linhas partidárias. Para que possamos avaliar corretamente as probabilidades
de sobrevivência do Estado-nação europeu, não devemos prestar demasiada atenção aos slogans
nacionalistas que os movimentos ocasionalmente adotam com o fito de ocultar suas verdadeiras
intenções, mas sim considerar que, agora, todos sabem que eles são ramificações regionais de
organizações internacionais, que os seus escalões inferiores absolutamente não se perturbam quando se
evidencia que a sua política serve aos interesses da política externa de outra potência, mesmo que seja
hostil, e que o fato de os seus líderes serem denunciados como quinta-colunas, traidores do país etc. em
nada impressiona os seus membros. Em contraste com os antigos partidos, os movimentos sobreviveram à
última guerra e são hoje os únicos "partidos" que permanecem vivos e significativos para os seus
seguidores.
continua página 268...
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Parte II Imperialismo (4.3 - Partido e Movimento)
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[74] Como disse o presidente da Kolonialverein [Associação Colonial] alemã em 1884. Ver Mary E. Townsend,
Origin of modem German colonialism: 1871-1885, Nova York, 1921. A Liga Pangermânica sempre insistiu em que
estava "acima dos partidos; isto era e é uma condição vital para a Liga" (Otto Bonhard, op. cit.). O primeiro partido
verdadeiro que alegou ser mais de um partido, ou seja, um "partido imperial", foi o Partido Nacional Liberal da
Alemanha, sob a liderança de Ernest Bassermann(Frymann, op. cit.). Na Rússia, bastava que os pan-eslavos pretendessem ser apenas uma fonte do apoio popular ao governo para
deixarem de competir com os partidos; pois o governo como "o Supremo poder em ação (...) não pode ser concebido
como tendo relação com os partidos". Esta é a opinião de M. N. Katkov, íntimo colaborador jornalístico de
Pobiedonostzev. Ver Olgin, op. cit., p. 57.
[75] Evidentemente, esse era ainda o propósito dos primeiros grupos "acima de partidos", entre os quais, até 1918, a
Liga Pangermânica se deve ainda incluir. "Permanecendo fora de todos os partidos políticos organizados, podemos
agir à nossa maneira puramente nacional. Não perguntamos: você é conservador? Ê liberal? (...) A nação alemã é o
ponto de encontro onde todos os partidos podem ter causa comum". Lehr, Zwecke und Ziele des alldeutschen
Verbandes [Fins e alvos da Liga Pangermânica], Flugschriften [Folhas], n? 14. Tradução citada por Wertheimer, op.
cit.,p. 110.
[76] Carl Schmitt, Staat, Bewegung, Volk [Estado, movimento, povo] (1934), fala do "monopólio da política que o
Estado adquiriu durante os séculos XVII e XVIII".
[77] Wertheimer, op. cit., descreve bastante corretamente a situação quando diz: "Ê completamente absurdo que
tenha havido qualquer ligação vital antes da guerra entre a Liga Pangermânica e o governo imperial". Por outro lado,
era perfeitamente verdadeiro que a política alemã, durante a Primeira Guerra Mundial, era decisivamente influenciada
pelos pangermanistas, porque o corpo de oficiais superiores se haviam tornado pangermanista". Ver Hans DelbrUck,
Ludendorffs Selbstportrait [O auto-retrato de Ludendorff], Berlim, 1922. Compare também seu artigo anterior sobre o
assunto, "Die Alldeutschen" [Os pangermanistas], em Preussische Jahrbücher [Anais prussianos], 154, dezembro de
1913.
[78] Sigmund Neumann, Die deutschen Parteien [Os partidos alemães], 1932.
[79] Moeller van den Bruck, Das dritteReich [O Terceiro Reich], 1923, pp. VII-VIII, descreve a situação: "Quando a Guerra Mundial
terminou em derrota (...) encontrávamos alemães por toda parte que diziam estar fora de todos os partidos, que falavam de se
'libertarem dos partidos', que buscavam um ponto de vista 'acima de partidos'. (...) Uma completa falta de respeito pelos Parlamentos
(...) que nunca sabem o que realmente se passa no país (...) é muito comum entre o povo".
[80] A insatisfação inglesa com certos fenômenos parlamentares nada tem a ver com esse sentimento antiparlamentar; os ingleses
só se opõem ao que impede o Parlamento de funcionar devidamente.
[81] O sistema partidário inglês, que é o mais antigo de todos, "começou a tomar forma (...) somente quando os negócios do Estado
deixaram de ser a exclusiva prerrogativa da Coroa (...)", isto é, depois de 1688. "O papel do rei tem sido, historicamente, o de
representar a nação como unidade em contraposição com a luta faccional dos partidos." Ver o artigo "Political parties" 3, "Great Britain , de W. A. Rudin, na Encyclopedia of the social sciences.
[82] No livro que parece ser a primeira história do "partido", George W. Cooke, The history of party, Londres, 1836, define o
assunto, no prefácio, como um sistema pelo qual "duas classes de estadistas (...) governam alternadamente um poderoso império".
[83] A melhor descrição da essência do sistema partidário continental é dada pelo jurista suíço Johann Caspar Bluntschli, Charakter
und Geist der politischen Parteien [Caráter e espírito dos partidos políticos], 1869. Diz ele: "È verdade que um partido é apenas
parte de um todo maior, nunca o próprio todo. (...) Nunca deve identificar-se com o todo, o povo ou o Estado. (...) Portanto, um
partido pode lutar contra outros partidos, mas não deve nunca ignorá-los e geralmente não deve querer destruí-los. Nenhum partido
pode existir apenas por si mesmo" (p. 3). A mesma ideia é expressa por Karl Rosenkrantz, filósofo hegeliano alemão, cujo livro
sobre os partidos políticos surgiu antes que existissem partidos na Alemanha: Ueber den Begrieff der politischen Partei [Do alcance
dos partidos políticos] (1843): "O partido é a parcialidade consciente" (p. 9).
[84] Ver John Gilbert Heinberg, Comparative major European governments, Nova York, 1937, capítulo VII e VIII. "Na Inglaterra,
um dos partidos políticos geralmente tem uma maioria na Câmara dos Comuns, e os líderes dos partidos são membros do Gabinete.
(...) Na França, nenhum partido político ativo jamais chegou a alcançar a maioria da Câmara de Deputados e, consequentemente, o
Conselho de Ministros é formado de líderes de vários grupos partidários" (p. 158).
[85] Ver a introdução a Demokratie und Partei [Democracia e partido], editado por Peter R. Rohden, Viena, 1932: "Os partidos
alemães se caracterizam pelo fato de os grupos parlamentares não aceitarem a representação da volonté générale. (...) Por isso os
partidos ficaram tão embaraçados quando a Revolução de Novembro [de 1918] os trouxe ao poder. Cada um deles era organizado de
modo a só poder fazer uma reivindicação relativa, ou seja, reconhecia sempre a existência dos outros partidos, que representavam
outros interesses parciais e eram, assim, naturalmente limitados em suas próprias ambições" (pp. 13-4).
[86] O sistema partidário continental é muito recente. Com exceção dos partidos franceses, que datam da Revolução Francesa,
nenhum país europeu conhecia a representação partidária antes de 1848. Os partidos vieram a existir através da formação de facções
no Parlamento. Na Suécia, o Partido Social-Democrata foi o primeiro (em 1889) a ter um programa completamente formulado
(Encyclopedia of socialsciences, loc. cit.). Quanto à Alemanha, ver Ludwig Bergstraesser, Geschi-schte der politischen Parteien [A
história dos partidos políticos], 1921. Todos os partidos se baseavam abertamente na defesa de interesses; o Partido Conservador
Alemão, por exemplo, surgiu da "Associação para a defesa dos interesses dos proprietários de terra" fundada em 1848. Contudo, os
interesses não eram necessariamente econômicos. Os partidos holandeses, por exemplo, foram formados "em redor das duas
questões que tanto preocupam a política holandesa — a ampliação do direito de voto e o subsídio da educação privada
(principalmente confessional)" (Encyclopedia of thesocialscience, loc. cit.).
[87] Esta é a definição de partido de Edmund Burke: "O partido é um grupo de homens unidos para promoverem o interesse
nacional pelo trabalho conjunto, de acordo com algum princípio particular que todos [os seus membros] aceitam" (Uponparty, 2?
edição, Londres, 1850).
[88] Arthur N. Holcombe (Encyclopedia ofthe social sciences, loc. cit.) acentuou, com razão, que no sistema bipartidário os
princípios dos dois partidos "tem tido a tendência de serem idênticos. Se não fossem substancialmente os mesmos, a submissão ao
vencedor teria sido intolerável para o vencido".
[89] Burke, op. cit.: "Eles acreditavam que os homens não podem agir com eficácia se não agirem em concerto; que não podem agir
em concerto se não agirem com confiança; que não podem agir com confiança se não forem ligados por opiniões comuns, afeições
comuns e interesses comuns".
[90] Quanto ao conceito centro-europeu de cidadão (Staatsbürger) em contraposição ao membro do partido, ver Bluntschli, op. cit.:
"Os partidos não são instituições estatais, (...) não fazem parte de um organismo do Estado, mas são associações sociais livres, cuja
formação depende de um corpo de membros mutável, unido para a ação política comum por uma convicção definida". A diferença
entre o Estado e o partido é repetidamente acentuada: "O partido nunca deve colocar-se acima do Estado e nunca deve colocar o seu
interesse partidário acima do interesse do Estado" (pp. 9el0).
Burke, pelo contrário, argumenta contra o conceito segundo o qual os interesses partidários ou o fato de pertencer a um partido
fazem do homem um cidadão pior. "As comunidades são feitas de famílias, as comunidades livres são feitas de partidos; e afirmar
que nossas preocupações naturais e nossos laços de sangue tendem a transformar o homem em mau cidadão é como dizer que os
laços dos nossos partidos enfraquecem os laços que nos ligam à nação" (op. cit.). Lorde John Russel, Onparty (1850), vai um passo
adiante quando afirma que o melhor dos efeitos dos partidos é que "dão substância às vagas opiniões dos políticos e os prendem a
princípios constantes e duradouros".
[91] Compare-se com essa atitude o marcante fato de que, na Grã-Bretanha, Ramsay Mac Donald nunca conseguiu
que sua "traição" ao Partido Trabalhista fosse esquecida. Na Alemanha, o espírito do serviço público exigia que um
ocupante de cargo público estivesse "acima dos partidos". Contra esse espírito do velho serviço público prussiano os
nazistas afirmaram a prioridade do partido, porque almejavam a ditadura. Goebbels exigiu explicitamente: "Cada
membro do Partido que se tornar um funcionário do Estado tem de permanecer, em primeiro lugar, um nacional
socialista(...) e cooperar intimamente com a administração do Partido" (citado por Gottfried Nees-se, Partei und Staat
[Partido e Estado], 1939).
[92] Como o Kolonialverein, o Centralverein für Handelsgeographie, o Flottenverein [Liga Naval], ou mesmo a Liga
Pangermânica, que, embora anterior à Primeira Guerra Mundial, não tinha qualquer conexão com os grandes
negócios. Ver Wertheimer, op. cit., p. 73. Típicos desses "partidos acima dos partidos" da burguesia eram,
naturalmente, os Nationalliberalen [nacional-liberais]; ver nota 74.
[93] Erich Ludendorff, Die überstaatlichen Màchte im letzten Jahre des Weltkrieges [As forças supra estatais no
último ano da Guerra Mundial], Leipzig, 1927. Ver também Feldherm-worte, 1938, 2 vols.; 1,43,55; II, 80.
[94] A principal finalidade do Estado corporativo era "a de corrigir e neutralizar uma condição provocada pela
revolução industrial do século XIX, que desassociou o capital do trabalho, fazendo surgir, de um lado, uma classe
capitalista de empregadores de mão-de-obra e, de outro, uma grande classe sem propriedades, o proletariado
industrial. A justaposição dessas classes levava inevitavelmente ao choque dos seus interesses opostos" (A era
fascista, publicado pela Confederação Fascista das Indústrias, Roma, 1939, cap. III).
[95] "Se o Estado deve realmente representar a nação, então o povo que compõe a nação deve ser parte do Estado.
"Como conseguir isto?
"A resposta fascista é: organizando o povo em grupos segundo suas respectivas atividades, grupos que através dos
seus lideres (...) ascendem por estágios, como numa pirâmide, em cuja base estão as massas e em cujo vértice está o
Estado.
"Nenhum grupo fora do Estado, nenhum grupo contra o Estado, todos os grupos dentro do Estado, [que é] a nação
articulada." (Ibid.)
[96] Quanto à relação entre o partido e o Estado nos países totalitários, e especialmente a incorporação do partido
fascista pelo Estado italiano, ver Franz Neumann, Behemoth, 1942, capítulo 1.
[97] Ver a apresentação, extremamente interessante, da relação entre partido e movimento no "Dienstvorschrift für
die Parteiorganisation der NSDAP" [Normas de serviço para a organização partidária do NSDAP], 1932, pp. II ss, e a
apresentação de Werner Best em Die deutsche Polizei [A polícia alemã], 1941, p. 107, que tem a mesma orientação:
"E a tarefa do Partido (...) manter o movimento unido e dar-lhe apoio e direção".
[98] Mussolini, em seu discurso de 14 de novembro de 1933, defende o seu governo unipartidário com os mesmos argumentos
usados em todos os Estados-nações durante uma guerra: um único partido político é necessário para "que possa existir disciplina
política (...) e para que o laço de um destino comum possa unir a todos contra interesses conflitantes" (Benito Mussolini, Quatro
discursos sobre o Estado corporativo, Roma, 1935).
[99] É digna de nota a seguinte ocorrência registrada por Berdyaev: "Um jovem soviético foi à França (...) [e] lhe perguntaram que
impressão a França lhe havia deixado. Respondeu: 'Não há liberdade neste país'. (...) O jovem explicou sua idia de liberdade: (...) A
chamada liberdade (francesa) era do tipo que deixava tudo inalterado; cada dia era como os dias anteriores; (...) e assim o jovem que
viera da Rússia estava entediado na França" (op. cit., pp. 182-3)
[100] A hostilidade austríaca ao Estado às vezes aparecia também entre os pangermanistas alemães, especialmente se se tratasse
de AusIandsdeutsche [alemães no exterior], como Moeller van den Bruck.
[101] Hitler descreveu a situação corretamente quando disse durante as eleições de 1932: "Contra o nacional-socialismo só existem
na Alemanha as maiorias negativas" (citado por Konrad Heiden, DerFührer, 1944, p. 564).
[102] Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, pelo menos 10% da população da França era composta de
estrangeiros não-naturalizados. Nas minas do Norte trabalhavam principalmente poloneses e belgas, na agricultura do
Sul, espanhóis e italianos. Ver Carr-Saunders, World population, Oxford, 1936, pp. 145-58.
[103] "Desde 1918 nenhum dos [Estados sucessórios) produziu (...) um partido que pudesse abranger mais de uma
raça, uma religião, uma classe social ou uma região. A única exceção é o Partido Comunista da Tchecoslováquia"
(Encyclopedia of the socialsciences, loc. cit.).
[104] Ver Karl Marx, op. cit.
[105] Carl Schmitt, op. cit., p. 31.
[106] Vaclav Fiala, "Les partis politiques polonais", em Monde Slave, fevereiro de 1935.
[107] Ver a cuidadosa análise de Charles A. Micaud, The French Right and Nazi Germany, 1933-1939, 1943.
[108] O exemplo mais famoso foi a ruptura do Partido Socialista Francês em 1938, quando a facção de Blum ficou em
minoria contra o grupo pró-Munique de Déat durante o congresso do partido no Département de Ia Seine.
[109] O partido socialista alemão sofreu uma mudança típica desde o inicio do século XX até 1933. Antes da
Primeira Guerra Mundial, somente 10% dos seus membros pertenciam à classe trabalhadora, enquanto cerca de 25%
dos seus votos vinham das classes médias. Contudo, em 1930, apenas 60% dos seus membros eram trabalhadores e
pelo menos 40% dos seus votos eram votos da classe média. Ver Sigmund Neumann, op. cit., pp. 28 ss.
[110] Schmitt, op. cit.
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