quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Hannah Arendt - Origens do Totalitarismo: Parte II Imperialismo (4.3 - Partido e Movimento)

Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt

Parte II 
IMPERIALISMO

Se eu pudesse, anexaria os planetas. 
Cecil Rhodes 

4. O Imperialismo Continental: Os Movimentos de Unificação
     4.3 - Partido e Movimento
          A principal diferença entre o imperialismo continental e o ultramarino é que os sucessos e os fracassos iniciais dos dois foram exatamente opostos. Enquanto o imperialismo continental, mesmo em seu começo, conseguiu realizar sua hostilidade contra o Estado-nação, organizando vastas camadas do povo fora do sistema partidário, mas sem jamais obter resultados em termos de expansão perceptível, o imperialismo ultramarino, em sua louca e bem-sucedida carreira para a anexação de um número crescente de territórios extensos, nunca teve muito sucesso em mudar a estrutura política do seu país de origem. A ruína do sistema de Estados-nações, preparada por seu próprio imperialismo de ultramar, foi finalmente levada a cabo por aqueles movimentos que se haviam originado fora do seu próprio âmbito. E, quando os movimentos começaram a competir vitoriosamente com o sistema partidário do Estado-nação, verificou-se também que eles só podiam debilitar países que tivessem um sistema multipartidário e que a mera tradição imperialista não era suficiente para lhes dar "apelo de massa". A Grã-Bretanha, o clássico país do governo bipartidário, não chegou a produzir um movimento de orientação fascista ou comunista de qualquer importância fora do seu sistema de partidos. 
     O slogan "acima dos partidos", o apelo a "homens de todos os partidos" e a bazófia de se manterem "bem longe de lutas partidárias" e de representarem "somente um objetivo nacional" eram característicos de todos os grupos imperialistas,[74] parecendo consequência natural do seu interesse exclusivo em política externa, esfera em que a nação, de qualquer modo, devia agir como um todo, independente de classes e de partidos.[75] Além disso, como nos sistemas continentais essa representação da nação como um todo havia sido o monopólio do Estado,[76] poderia até parecer que os imperialistas colocavam os interesses do Estado acima de tudo, ou que o interesse da nação como um todo finalmente encontrara neles o apoio popular que buscava havia tanto tempo. Contudo, a despeito de todas essas pretensões de verdadeira popularidade, os "partidos acima de partidos" não passavam de pequenas sociedades de intelectuais que, como a Liga Pangermânica, só encontravam maior apoio em horas de emergência nacional.[77]
     A invenção decisiva dos movimentos de unificação, portanto, não foi o alegarem estar fora e acima do sistema partidário, mas sim o fato de se chamarem de "movimentos", sua própria denominação refletindo a profunda desconfiança nos partidos, tão corrente na Europa desde o fim do século XIX que, nos dias da República de Weimar, "cada novo grupo achava que a melhor maneira de se legitimizar e apelar às massas era insistir em que não era um 'partido', e sim um 'movimento' ",[78]
     Na verdade, a real desintegração do sistema partidário europeu não foi provocada pelos movimentos de unificação, mas pelos movimentos totalitários. Os movimentos de unificação, porém, que se situavam entre as pequenas e relativamente inofensivas sociedades imperialistas e os movimentos totalitários, foram precursores destes últimos, no sentido de já terem abandonado o elemento de esnobismo tão marcante de todas as ligas imperialistas — fosse o esnobismo da riqueza e da linhagem dos ingleses, ou da educação na Alemanha —, podendo portanto tirar partido do profundo ódio do povo contra essas instituições, que supostamente o representavam.[79] Não é surpreendente que a atração dos movimentos na Europa pouco tenha diminuído com a derrota do nazismo e com o crescente medo do bolchevismo. Atualmente, a Grã-Bretanha é o único país da Europa em que o Parlamento não é desprezado e onde o sistema partidário não desperta a animosidade do povo.[80]
     Diante da estabilidade das instituições políticas nas Ilhas Britânicas e o simultâneo declínio de todos os Estados-nações do continente europeu, é preciso concluir que a diferença entre o sistema partidário anglo saxão e o continental deve ter sido fator importante. Porque não era tão grande a diferença meramente material entre uma Inglaterra fortemente empobrecida e uma França não-destruída após a Segunda Guerra Mundial; o desemprego, importante fator gerador de revoluções na Europa antes da guerra, havia atingido a Inglaterra com maior gravidade que a muitos países continentais; e os choques aos quais foi submetida a estabilidade política da Inglaterra, logo depois da guerra, quando o governo trabalhista liquidava a presença imperialista na índia, tentando construir uma política externa em bases não-imperialistas, devem ter sido tremendos. Nem a simples diferença de estrutura social explica a relativa força da Grã-Bretanha, pois a base econômica do seu sistema foi profundamente alterada pelo governo socialista, sem que surgisse qualquer mudança decisiva nas instituições políticas.
     Por trás da diferença externa entre o sistema bipartidário anglo-saxônico e o sistema multipartidário da Europa continental, existe uma distinção fundamental, e de profundas consequências para a atitude do partido em relação ao poder, entre a função do partido dentro do corpo político e a posição do cidadão dentro do Estado. No sistema bipartidário, um partido sempre representa o governo e realmente governa o país, de sorte que, temporariamente, o partido no poder identifica-se com o Estado. O Estado, como garantia permanente da unidade do país, é representado apenas pela permanência da função do rei.[81]  Como ambos os partidos são planejados e organizados para governarem alternadamente,[82] todos os setores da administração são planejados e organizados para essa alternação. E, como o governo de cada partido é limitado no tempo, o partido da oposição exerce um controle cuja eficiência é fortalecida pela certeza de que governará amanhã. De fato, é a oposição, e não a posição simbólica do rei, que garante a integridade do todo contra a ditadura unipartidária. As vantagens desse sistema são óbvias: elimina as diferenças essenciais entre o governo e o Estado; mantém tanto o poder como o Estado ao alcance do cidadão organizado em partido, que representa o Estado de hoje ou de amanhã; e, consequentemente, não dá azo a especulações grandiosas a respeito do Poder e do Estado como se fossem algo fora do alcance humano, entidades metafísicas independentes da vontade e da ação do cidadão.
     O sistema partidário do continente pressupõe que cada partido se defina conscientemente como parte do todo, e este "todo", por sua vez, é representado por um Estado acima dos partidos,[83] enquanto o governo unipartidário só pode significar o domínio ditatorial de um partido sobre todos os outros. Já os governos formados por alianças entre líderes partidários são apenas governos partidários, claramente distintos do Estado, que permanece acima e além de todos eles. Uma das desvantagens desse sistema é que os membros do gabinete não podem ser escolhidos segundo sua competência, pois, quando há muitos partidos representados, os ministros são necessariamente escolhidos segundo as alianças partidárias;[84] o sistema britânico, por outro lado, permite a escolha dos homens mais capazes dentre os vastos escalões de um só partido. Muito mais importante, contudo, é o fato de que o sistema multipartidário nunca permite que um só homem ou um só partido assuma inteira responsabilidade. Assim, é perfeitamente natural que nenhum governo formado por alianças entre partidos se sinta inteiramente responsável. Mas, se acontecer o improvável e a maioria absoluta de um partido dominar o Parlamento, e formar um governo unipartidário, resultará em uma ditadura, pois o sistema não está preparado para esse tipo de governo, ou em problemas para a liderança, que, ainda que democrata e acostumada a exercer o poder apenas em parte, reluta em usá-lo plenamente. Essa consciência funcionou de modo quase exemplar quando, após a Primeira Guerra Mundial, os partidos social-democratas da Alemanha e da Áustria foram guindados, por breve tempo, à posição de partidos de maioria absoluta e, no entanto, repudiaram o poder que essa posição lhes dava.[85]
     Desde o surgimento do sistema partidário, é corriqueiro identificar os partidos com interesses particulares, econômicos ou de outra natureza;[86] todos os partidos continentais, e não apenas grupos trabalhistas, admitiam-no com franqueza, seguros de que o Estado, acima dos partidos, exerceria o seu poder mais ou menos no interesse de todos. O partido anglo-saxão, ao contrário, baseado em "princípios" para servir ao "interesse nacional",[87] representa o atual ou futuro Estado do país; os interesses particulares têm a sua representação dentro do próprio partido, sob forma de ala direita ou esquerda, e são refreados pelas próprias necessidades do governo. E, como no sistema bipartidário um partido não pode existir durante tempo algum se não tem força suficiente para assumir o poder, não há necessidade de qualquer justificativa teórica, não se criam ideologias e não existe o fanatismo peculiar à luta partidária do continente, que resulta não tanto do conflito de interesses quanto de ideologias antagônicas.[88]
     Separados do governo e do poder, os partidos continentais estavam presos à mesquinhez dos interesses particulares; mais do que isso: envergonhavam-se desses interesses e, assim, criaram justificativas que levariam cada um a uma ideologia que alegava que os seus interesses particulares coincidiam com os interesses gerais da humanidade. O partido conservador não se contentava em defender os interesses da propriedade rural; necessitava de uma filosofia segundo a qual Deus havia criado o homem para trabalhar a terra com o suor do seu rosto. O mesmo se aplica à ideologia do progresso dos partidos da classe média e à asserção dos partidos trabalhistas de que o proletariado é o líder da humanidade. Essa estranha combinação de alta filosofia e comezinhos interesses só é paradoxal à primeira vista. Uma vez que esses partidos não organizavam os seus adeptos (nem educavam os seus líderes) para o fim de cuidarem dos negócios públicos, mas os representavam apenas como indivíduos privados com interesses privados, tinham de atender a todas as necessidades privadas, tanto espirituais como materiais. Em outras palavras, a principal diferença entre o partido anglo-saxônico e o partido continental é que o primeiro é uma organização política de cidadãos que precisam agir em conjunto para poderem agir com eficácia,[89] enquanto o segundo é a organização de indivíduos privados que querem proteger os seus interesses contra a interferência dos negócios públicos.
     Coerente com esse sistema, a filosofia estatal do continente europeu reconhecia o homem como cidadão somente enquanto ele não fosse membro de um partido, ou seja, em seu relacionamento individual e não organizado com o Estado {Staatsbürger), ou em seu entusiasmo patriótico em casos de emergência (citoyens).[90] Esse foi o infeliz resultado da transformação do citoyen da Revolução Francesa no bourgeois do século XIX, e do antagonismo entre o Estado e a sociedade. Os alemães tendiam a considerar o patriotismo como um obediente auto esquecimento diante das autoridades, e os franceses, como uma entusiástica lealdade ao fantasma da "França eterna". Em ambos os casos, o patriotismo consistia no abandono dos interesses partidários e parciais do homem em favor dos interesses do governo e da nação. O fato é que essa deformação nacionalista era quase inevitável num sistema que criava partidos políticos a partir de interesses privados, de sorte que o bem público dependia da força que emanava de cima e de um vago e generoso auto sacrifício vindo de baixo, o qual só podia ser conseguido através da exaltação de paixões nacionalistas. Na Inglaterra, pelo contrário, o antagonismo entre os interesses privados e nacionais nunca teve papel decisivo na política. Assim, quanto mais o sistema pluripartidário refletia os interesses de classe, mais a nação necessitava do nacionalismo, de algum apoio por parte do povo aos interesses nacionais, apoio do qual a Inglaterra, com seu governo direto baseado em partido e oposição, nunca precisou muito.
     Quando consideramos a diferença entre o sistema multipartidário do Continente e o sistema bipartidário britânico no que tange à predisposição para a criação de movimentos, parece mais fácil a uma ditadura unipartidária asse-nhorear-se da máquina estatal em países onde o Estado está acima dos partidos, e, portanto, acima dos cidadãos, do que em países onde os cidadãos, por agirem "em conjunto", isto é, através da organização de um partido, podem galgar legalmente o poder e se sentem como donos do Estado, seja o de hoje, seja de amanhã. Mais plausível ainda é que a mistificação do poder, inerente aos movimentos, cresça com facilidade diretamente proporcional ao afastamento dos cidadãos das fontes do poder, ou seja, o misticismo do poder ocorre mais facilmente nos países governados por burocracia, onde o poder positivamente transcende a capacidade de compreensão do governado, do que nos países governados constitucionalmente, onde a lei se coloca acima do poder, e o poder é apenas um meio de fazê-la cumprir; e ainda mais facilmente nos países em que o poder estatal fica além do alcance dos partidos, isto é, fora do alcance da ação do cidadão, mesmo que permaneça ao alcance de sua inteligência.
     A alienação das massas em relação ao governo, que originou o seu ódio ao Parlamento, foi diferente na França e em outras democracias do Ocidente de um lado, e nos países da Europa central, principalmente na Alemanha, de outro. Na Alemanha, onde o Estado se colocava, por definição, acima dos partidos, os líderes partidários geralmente abandonavam sua fidelidade partidária assim que se tornavam ministros e recebiam encargos oficiais. A deslealdade ao próprio partido era o dever de quem quer que assumisse um cargo público.[91] Na França, governada por coligações partidárias desde o estabelecimento da Terceira República, com seu recorde fantástico de gabinetes, não foi possível formar um verdadeiro governo. A fraqueza da França era o oposto da fraqueza alemã: os franceses haviam liquidado o Estado, que se colocava acima dos partidos e acima do Parlamento, sem reorganizarem seu sistema partidário num corpo capaz de governar. O governo tornou-se necessariamente um expoente ridículo das atitudes do Parlamento e da opinião pública em constante mutação. Por outro lado, o sistema alemão transformou o Parlamento num campo de batalha mais ou menos útil a interesses e opiniões em conflito, sendo sua principal função a de influenciar o governo, embora sua utilidade prática na condução dos negócios estatais fosse discutível. Na França, os partidos sufocaram o governo; na Alemanha, o governo emasculou os partidos.
     Desde o fim do século XIX, a reputação desses parlamentos e partidos constitucionais declinara constantemente; para o povo em geral, pareciam instituições caras e desnecessárias. Bastava este motivo para que um grupo que alegasse apresentar alguma coisa acima dos interesses de partidos e de classe, e que surgisse fora do Parlamento, tivesse muita chance de se tornar popular. Esses grupos pareciam mais competentes, mais sinceros e mais interessados nos negócios públicos do que os partidos. Mas isso era assim apenas na aparência, pois o verdadeiro objetivo de todo "partido acima dos partidos" era promover um interesse particular até subjugar todos os outros, e fazer com que um grupo particular se apossasse da máquina do Estado. Foi isso o que finalmente ocorreu na Itália sob o fascismo de Mussolini, que até 1938 não era totalitário, mas apenas uma ditadura nacionalista comum, que havia evoluído logicamente a partir de uma democracia multipartidária. Porque, se há realmente um grão de verdade no velho truísmo acerca da afinidade entre o governo majoritário e a ditadura, essa afinidade nada tem a ver com o totalitarismo. É óbvio que, após muitas décadas de governo multipartidário ineficiente e confuso, a tomada do poder por um só partido pode parecer um alívio, pois garante pelo menos, se bem que por tempo limitado, certa coerência, certa permanência e um pouco menos de contradição.
     O fato de que a tomada do poder pelos nazistas foi tida geralmente como uma dessas ditaduras unipartidárias demonstrou simplesmente até que ponto o pensamento político ainda estava arraigado nos velhos padrões estabelecidos, e quão pouco estava o povo preparado para o que realmente estava por vir. É verdade que também o partido fascista insistiu em que era um movimento. Mas não o era; havia meramente usurpado a expressão "movimento" para atrair as massas, como se evidenciou logo que se apossou da máquina do Estado sem mudar drasticamente a estrutura de poder do país, contentando-se em preencher todas as posições governamentais com os membros do partido. Exatamente por identificar-se com o Estado, o que tanto os nazistas como os bolchevistas sempre evitaram cuidadosamente, o partido fascista deixou de ser "movimento", já que os movimentos caracterizavam-se pela luta contra a estrutura do Estado, enquanto o fascismo o aceitou na sua imobilidade estrutural.
     Embora os movimentos totalitários e os seus predecessores, os movimentos de unificação, não fossem "partidos acima de partidos" que aspirassem à tomada da máquina estatal, e sim formações que visavam à destruição do Estado, os nazistas lucraram fingindo que constituíam um partido, e que seguiriam fielmente o modelo italiano do fascismo. Puderam assim granjear o apoio da elite da classe alta e do mundo dos negócios, que julgaram tratar-se de um daqueles antigos grupos parapartidários que eles mesmos haviam fundado tantas vezes, e cuja única e modesta pretensão era conquistar a máquina estatal para um só partido.[92] Os negociantes que ajudaram Hitler a galgar o poder acreditavam ingenuamente estarem apenas apoiando um ditador, um ditador feito por eles mesmos e que naturalmente governaria em proveito de sua própria classe e em detrimento de todas as outras. Os "partidos acima de partidos", de inspiração imperialista, nunca souberam como capitalizar o ódio popular ao sistema partidário em si; o frustrado imperialismo alemão de antes da Primeira Guerra, a despeito dos seus sonhos de expansão continental e de sua violenta denúncia das instituições democráticas do Estado-nação, jamais chegou a constituir movimento. Certamente não bastava a arrogância de deixar de lado os interesses de classe, que eram a própria base do sistema partidário da nação, pois isso os tornava ainda menos atraentes que os partidos comuns. O que faltava aos imperialistas alemães, apesar do seu altissonante fraseado nacionalista, era uma ideologia verdadeira, quer nacionalista, quer de outra natureza. Após a Primeira Guerra Mundial, quando os pangermanistas alemães, especialmente Ludendorff, reconheceram esse erro e tentaram corrigi-lo, fracassaram a despeito de sua notável capacidade de apelar às crenças mais supersticiosas da massa, porque se apegavam a um culto estatal desatualizado e não totalitário, e não compreendiam que o furioso interesse das massas pelos chamados "poderes supra estatais" {übers-taatliche Mâchté) — como jesuítas, judeus e maçons — não provinha do apreço ao Estado ou à nação, mas, ao contrário, da inveja e do desejo de se tornarem também uma "força supra estatal".[93]
     Os únicos países onde, ao que tudo indicava, a idolatria do Estado e o culto da nação ainda estavam em moda, e onde os slogans nacionalistas contra as forças supra estatais ainda correspondiam ao interesse do povo, eram aquelas nações latino-europeias como a Itália e, em menor intensidade, a Espanha e Portugal, cujo desenvolvimento nacional havia sido seriamente prejudicado pelo poder da Igreja. Em parte devido a esse fator de atraso no desenvolvimento nacional, e em parte graças à sabedoria da Igreja (que sensatamente reconheceu não ser o fascismo nem anticristão nem totalitário em seus princípios, e apenas estabeleceu uma separação entre Igreja e Estado que já existia em outros países), a atitude inicialmente anticlerical do nacionalismo fascista rapidamente deu lugar a um modus vivendi, como na Itália, ou a uma aliança, como na Espanha e em Portugal.
     A interpretação de Mussolini da ideia do Estado corporativo era uma tentativa de vencer os notórios perigos nacionais de uma sociedade dominada por classes graças a uma nova organização social integrada,[94] para assim solucionar o antagonismo entre o Estado e a sociedade, sobre a qual o Estado-nação se havia baseado, incorporando a sociedade ao Estado.[95] O movimento fascista, que era um "partido acima de partidos" na medida em que dizia representar o interesse da nação como um todo, apoderou-se da máquina estatal, identificou-se com a mais alta autoridade nacional e tentou transformar todo o povo em "parte do Estado". Não se considerava, contudo, "acima do Estado", e os seus líderes não se julgavam "acima da nação.[96] No tocante aos fascistas, seu movimento havia terminado com a tomada do poder pelo menos no que se referia à política doméstica; agora, só podiam manter o seu ímpeto em assuntos de política externa, no sentido de expansão imperialista e aventuras tipicamente imperialistas. Quanto aos nazistas, mesmo antes de tomarem o poder, mantiveram-se claramente alheios a essa forma fascista de ditadura, na qual o "movimento" serve apenas para trazer o partido ao poder, e conscientemente usaram o partido para "levar adiante o movimento", que, ao contrário do partido, não deve ter quaisquer "objetivos definidos, rigorosamente determinados".[97]
     O melhor exemplo da diferença entre o movimento fascista e os movimentos totalitários é a sua atitude em relação ao Exército, isto é, em relação à instituição nacional par excellence. Ao contrário dos nazistas e dos bolchevistas, que destruíram o espírito do Exército, subordinando-o aos comissários políticos ou às formações totalitárias de elite, os fascistas se utilizavam do Exército, com o qual se identificavam, como se haviam identificado com o Estado. Queriam um Estado fascista e um Exército fascista, mas que ainda fossem um Exército e um Estado; só na Alemanha nazista e na Rússia soviética é que Exército e Estado se tornaram funções subordinadas ao movimento. O ditador fascista — mas não Hitler nem Stálin — era, no sentido da teoria política clássica, o verdadeiro usurpador, e o seu governo unipartidário era, em certo sentido, o único que ainda permanecia intimamente ligado ao sistema multipartidário. Realizou aquilo que as ligas, sociedades e "partidos acima de partidos" de orientação imperialista haviam almejado, de sorte que o fascismo italiano veio a ser, particularmente, o único exemplo de uni' movimento de massa moderno organizado dentro da estrutura de um Estado existente, inspirado exclusivamente pelo extremo nacionalismo, e que transformou o povo permanentemente naqueles Staatsbürger oupatriotes que o, Estado-nação só havia conseguido mobilizar em horas de emergência e de union sacrée.[98]
     Não existem movimentos sem ódio ao Estado, e este ódio era virtualmente desconhecido dos pangermanistas alemães na relativa estabilidade da Alemanha antes da Primeira Guerra. Os movimentos partiram da Áustria-Hungria, onde o ódio ao Estado era uma expressão de patriotismo das nacionalidades oprimidas, e onde os partidos — com a exceção do Partido Social-Democrata (que, junto com o Partido Social-Cristão, era o único sinceramente leal à Áustria) — tinham uma orientação nacional e não de classes. Isso havia sido possível porque, na Áustria, os interesses econômicos e de nacionalidades eram quase idênticos, e porque a posição econômica e social do indivíduo dependia grandemente da nacionalidade; o nacionalismo, portanto, que havia sido uma força unificadora nos Estados-nações, tornou-se ali um elemento de destruição interna, o que resultou numa diferença decisiva na estrutura dos partidos nos Estados-nações em relação aos partidos na Ãustria-Hungria. O que unia os membros dos partidos na Áustria-Hungria multinacional não era um interesse particular, como nos outros sistemas partidários continentais, ou um princípio particular de ação organizada, como no sistema anglo-saxão, mas principalmente, o sentimento de pertencer à mesma nacionalidade. A rigor, isso deveria ter sido, e foi, uma grande fraqueza dos partidos austríacos, porque não é possível deduzir objetivos ou programas definidos a partir do sentimento de se pertencer a uma tribo. Os movimentos de unificação étnica fizeram dessa desvantagem uma virtude, transformando os partidos em movimentos, e descobrindo aquela forma de organização que, em contraste com todas as outras, nunca teria necessidade de um objetivo ou programa, podendo mudar sua política de um dia para outro, sem com isso perder os seus membros. Muito antes que o nazismo orgulhosamente anunciasse que, embora tivesse um programa, não precisava tê-lo, o pangermanismo descobriu o quanto uma atitude geral era mais importante para a conquista das massas do que plataformas ideológicas e programas escritos. Pois a única coisa que importa num movimento é precisamente manter-se em constante movimento.[99] Assim, os nazistas costumavam referir-se aos catorze anos da República de Weimar como a "era do Sistema" — Systemzeit —, querendo dizer com isso que fora uma época estéril, sem dinamismo, que não se "movia" enquanto a deles seria a "era do movimento".
     O Estado, mesmo como ditadura unipartidária, era considerado um estorvo às necessidades em contínua mutação de um movimento em constante crescimento. A diferença mais característica entre o grupo imperialista "acima de partidos" da Liga Pangermânica, na própria Alemanha, e o movimento pangermânico da Áustria estava exatamente nas suas atitudes em relação ao Estado:[100] enquanto o "partido acima de partidos" queria apenas apoderar-se da máquina estatal, o verdadeiro movimento visava a sua destruição; enquanto o primeiro ainda reconhecia no Estado a sua mais alta autoridade quando a representação do Estado caía nas mãos dos membros de um partido (como na Itália de Mussolini), o último via o movimento independente do Estado e superior a ele em autoridade.
     A hostilidade dos movimentos de unificação étnica contra o sistema partidário adquiriu significado prático quando, depois da Primeira Guerra Mundial, o sistema partidário deixou de ser um mecanismo operante e o sistema de classes da sociedade europeia entrou em colapso sob o peso crescente das massas, inteiramente marginalizadas pelos acontecimentos. A essa altura, o que veio à tona já não eram simples movimentos de unificação, mas os seus sucessores totalitários, que, em poucos anos, determinaram a política dos demais partidos, a tal ponto que todos se tornaram antifascistas, antibolchevistas ou ambos.[101] Com essa atitude negativa, aparentemente imposta por forças externas, os partidos mais antigos demonstraram claramente que também já não eram capazes de funcionar como representantes de interesses específicos de classe, e que se haviam transformado em meros defensores do status quo. A rapidez com que os pangermanistas alemães e austríacos aderiram ao nazismo tem um paralelo no modo, muito menos rápido e mais complicado, pelo qual os pan-eslavistas descobriram, finalmente, que a liquidação da Revolução Russa de Lênin havia sido suficientemente completa para que eles pudessem dar a Stálin seu entusiástico apoio. Não foi culpa dos pangermanistas nem dos pan eslavos — e mal serviu para refrear o seu entusiasmo — o fato de que o nazismo e o bolchevismo, no auge do poder, superaram o mero nacionalismo tribal e pouco se interessaram por aqueles que ainda acreditavam nele, em vez de o reconhecerem como mero instrumento de propaganda. A decadência do sistema partidário continental acompanhou o declínio do prestígio do Estado nação. A homogeneidade nacional foi severamente abalada por migrações, e a França, a nation par excellence, tornou-se em poucos anos dependente da mão-de-obra estrangeira; a política imigratória restritiva, inadequada às novas necessidades, por mais genuinamente "nacional" que fosse, tornava óbvio o fato de que o Estado-nação não tinha mais condições de enfrentar as principais questões políticas da época.[102] Mais grave ainda foi a malfadada tentativa dos tratados de paz de 1919 de introduzir organizações estatais nacionais na Europa oriental e meridional, onde o grupo nacional que formava o Estado dispunha, muitas vezes, apenas de maioria relativa e era sobrepujado numericamente pelas "minorias" reunidas dentro das fronteiras do país. Essa nova situação bastaria para solapar gravemente a base classista do sistema partidário; em toda parte, organizavam-se partidos de orientação nacional, como se a liquidação da Monarquia Dual tivesse servido apenas para desencadear experiências semelhantes, embora em escala reduzida.[103] Em outros países, onde o Estado-nação e a base classista dos partidos não haviam sido afetados pelas migrações e pela heterogeneidade da população, foram a inflação e o desemprego que levaram ao colapso; e é evidente que, quanto mais rígido era o sistema de classes de um país e quanto mais consciente de classes era o seu povo, tanto mais dramático e mais perigoso era esse colapso.
     Tal era a situação entre as duas guerras, quando cada movimento tinha mais oportunidade que qualquer partido, porque o movimento atacava a instituição do Estado, desprezando os apelos de classes. O fascismo e o nazismo sempre alardearam que o seu ódio não era dirigido contra determinadas classes, mas contra o sistema de classes em si, o qual denunciavam como invenção marxista. Mais significativo ainda foi que até os comunistas, a despeito de sua ideologia marxista, tiveram de abandonar a rigidez dos seus apelos de classe quando, após 1935, a pretexto de ampliarem sua base de massa, formaram Frentes Populares por toda parte e se puseram a apelar às massas dos que não pertenciam a classe alguma e que até então haviam sido presa natural dos movimentos fascistas. Nenhum dos partidos mais antigos estava preparado para receber essas massas e não avaliou corretamente a crescente importância do seu número e a crescente influência política dos seus líderes. Esse erro de julgamento dos partidos mais antigos explica-se pelo fato de que sua posição segura no Parlamento e sua representação garantida nos cargos e instituições do Estado faziam com que se sentissem muito mais próximos das fontes do poder do que das massas; julgavam que o Estado permaneceria sempre senhor inconteste de todos os instrumentos de violência, e que o Exército, a suprema instituição do Estado-nação, seria sempre o elemento decisivo em todas as crises domésticas. Sentiam-se, portanto, perfeitamente à vontade para ridicularizar as numerosas formações paramilitares que surgiam sem qualquer apoio oficial. Pois, quanto mais o sistema partidário se enfraquecia sob a pressão dos movimentos alheios ao Parlamento e às classes, mais depressa desaparecia todo o antigo antagonismo dos partidos em relação ao Estado. Os partidos, em seu equívoco de um "Estado acima de partidos", interpretavam essa harmonia, erradamente, como fonte de força, como portentoso relacionamento com algo que pertencia a uma ordem superior. Mas a pressão dos movimentos revolucionários era uma ameaça para o Estado como o era para o sistema partidário, e o Estado não podia dar-se ao luxo de manter uma posição necessariamente impopular, acima das lutas domésticas internas. O Exército havia muito deixara de ser baluarte seguro contra a agitação revolucionária, não porque simpatizasse com a revolução, mas porque havia perdido a sua posição. Por duas vezes, em tempos recentes, e ambas as vezes na França, o Exército havia demonstrado sua absoluta relutância ou incapacidade de ajudar aos que estavam no poder ou de tomar o poder em suas mãos: em 1850, quando havia permitido que a turba da "Sociedade 10 de Dezembro" levasse Napoleão III ao poder;[104] e, novamente, no fim do século XIX, durante o Caso Dreyfus, quando nada teria sido mais fácil que estabelecer uma ditadura militar. A neutralidade do Exército, sua disposição de servir a qualquer senhor, deixou finalmente o Estado numa posição de "mediador entre interesses partidários organizados. Já não estava acima, mas entre as classes da sociedade".[105]  Em outras palavras, o Estado e os partidos, juntos, defendiam o status quo sem se aperceberem de que nessa mesma aliança já estava o embrião da mudança do status quo.
     O colapso do sistema partidário europeu ocorreu de modo espetacular com a subida de Hitler ao poder. Hoje, muitas vezes esquece-se que, quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos países europeus já havia adotado alguma forma de ditadura e se afastado do sistema partidário, e que essa revolucionária mudança de governo ocorrera na maioria dos países sem qualquer agitação revolucionária. A ação revolucionária na maioria das vezes não refletia verdadeira luta pelo poder, mas era uma concessão teatral aos desejos das massas violentamente descontentes. Afinal, não importava muito que alguns milhares de pessoas, sem armas, marchassem sobre Roma e tomassem o governo da Itália, ou que, na Polônia (em 1934), um chamado "bloco sem partido", com um programa de apoio a um governo semifascista e com a participação de gente vinda da nobreza e das mais pobres massas camponesas, trabalhadores e homens de negócios, católicos e judeus ortodoxos, conquistasse legalmente dois terços das cadeiras do Parlamento.[106]
     Na França, a subida de Hitler ao poder, acompanhada pelo crescimento do comunismo e do fascismo, rapidamente anulou as antigas relações entre os partidos e alterou, da noite para o dia, as antigas linhas partidárias. A direita francesa, até então fortemente antialemã e a favor da guerra, tornou-se, após 1933, a vanguarda do pacifismo e do entendimento com a Alemanha. Com a mesma rapidez, a esquerda abandonou o pacifismo a qualquer preço por uma firme posição contra a Alemanha, e logo foi acusada de ser um partido de fomentadores de guerra pelos mesmos partidos que, apenas alguns anos antes, haviam denunciado o seu pacifismo como traição nacional.[107] Os anos que se seguiram à subida de Hitler ao poder foram ainda mais desastrosos para a integridade do sistema partidário francês. Na crise de Munique, todos os partidos, da direita à esquerda, dividiram-se internamente quanto à única questão política relevante: quem era a favor e quem era contra a guerra com a Alemanha.[108] Cada partido tinha uma ala da paz e uma ala da guerra; nenhum conseguia permanecer unido no tocante a decisões políticas de importância, e nenhum resistiu ao teste do fascismo ou do nazismo sem se dividir em antifascistas, de um lado, e simpatizantes do nazismo, de outro. Que Hitler tenha podido escolher livremente em todos os partidos os elementos para a formação de regimes fantoches foi consequência dessa situação anterior à guerra, e não de alguma manobra nazista particularmente esperta. Não houve um único partido na Europa que não produzisse colaboracionistas.
     Contra a desintegração dos partidos mais antigos destacava-se a clara unidade dos movimentos fascistas e comunistas de toda parte — os primeiros, fora da Alemanha e da Itália, lealmente advogando a paz, mesmo ao preço da dominação externa, e os últimos pregando a guerra, mesmo ao preço da ruína nacional. Contudo, o que importa não é o fato de a extrema direita, em toda a Europa, ter abandonado o seu tradicional nacionalismo em favor da submissão a Hitler, enquanto a extrema esquerda esquecia o seu tradicional pacifismo em favor de velhos slogans nacionalistas, mas, sim, que ambos os movimentos puderam contar com a lealdade de associados e líderes que não se deixaram perturbar pelas súbitas mudanças políticas. Isso ficou dramaticamente evidente no pacto de não-agressão germano-soviético, quando os nazistas tiveram de abandonar o seu principal slogan contra o bolchevismo e os comunistas tiveram de voltar a um pacifismo que sempre haviam denunciado como pequeno-burguês. Tais guinadas não os afetaram de modo algum. Os comunistas permaneceram fortes, mesmo após sua segunda volte-face, ocorrida menos de dois anos depois, quando a União Soviética foi atacada pela Alemanha nazista — e isso a despeito de ambas as linhas políticas terem envolvido o povo em atividades políticas sérias e perigosas, que exigiam reais sacrifícios e constante ação.
     Diferente na aparência mas muito mais violento na realidade foi o colapso do sistema partidário da Alemanha antes de Hitler. Isso ficou patente durante as últimas eleições presidenciais de 1932, quando todos os partidos adotaram formas complicadas e inteiramente novas de propaganda de massa.
     A própria escolha dos candidatos foi peculiar. Enquanto era natural que os dois movimentos, situados fora do sistema parlamentar e combatendo-o de lados opostos, apresentassem candidatos próprios (Hitler pelos nazistas, e Thãl-mann pelos comunistas), foi surpreendente ver que todos os outros partidos subitamente concordavam em relação a um só candidato. E não deixou de ser sério o fato de que esse candidato viesse a ser o velho Hindenburg, que gozava da popularidade sem igual que, desde os tempos de MacMahon na França, parece aguardar um general derrotado que volta ao seu país; esse fato demonstrava o quanto os velhos partidos desejavam meramente identificar-se com o Estado dos velhos tempos, Estado acima dos partidos, cujo símbolo mais forte havia sido o Exército nacional. Em outras palavras, os partidos já haviam desistido do próprio sistema partidário. Pois, em presença dos movimentos, as diferenças entre os partidos haviam realmente perdido todo o seu significado; a existência de todos eles estava em jogo e, consequentemente, ajuntaram-se uns aos outros e esperavam manter um status quo que garantisse a sua existência. Hindenburg tornava-se o símbolo do Estado-nação e do sistema partidário, enquanto Hitler e Thãlmann disputavam a primazia de se tornar, cada qual, o verdadeiro símbolo do povo.
     Tão significativos quanto a escolha dos candidatos foram os cartazes eleitorais. Nenhum deles louvava o candidato por méritos próprios; os cartazes a favor de Hindenburg proclamavam simplesmente que "um voto para Thãlmann é um voto para Hitler", advertindo os trabalhadores a não desperdiçarem o seu voto num candidato que certamente seria derrotado (Thãlmann), desse modo levando Hitler ao poder. Foi assim que os social-democratas se reconciliaram com Hindenburg, a quem nem ao menos mencionavam. Os partidos da direita jogavam o mesmo jogo e acentuavam que "um voto para Hitler era um voto para Thãlmann". Além disso, ambos os lados aludiam claramente às ocasiões em que nazistas e comunistas haviam lutado por uma causa comum, de modo a convencer todos os membros leais dos partidos, da esquerda ou da direita, de que a preservação do status quo exigia Hindenburg.
     Em contraste com a propaganda a favor de Hindenburg, que apelava àqueles que desejavam o status quo a qualquer preço — e, em 1932, esse preço era o desemprego de quase a metade do povo alemão —, os candidatos dos movimentos tinham de levar em conta aqueles que desejavam uma mudança a qualquer preço (mesmo ao preço da destruição de todas as instituições legais), e estes eram pelo menos tão numerosos quanto os crescentes milhões de desempregados e suas famílias. Os nazistas, portanto, não recuaram diante do absurdo de que "um voto para Thãlmann é um voto para Hindenburg", e os comunistas não hesitaram em responder que "um voto para Hitler é um voto para Hindenburg", ambos ameaçando os seus eleitores com a permanência do status quo, da mesma maneira como os seus oponentes haviam ameaçado os seus seguidores com o espectro da revolução.
     Por trás da curiosa uniformidade do método dos que apoiavam os candidatos, estava a tácita suposição de que o eleitorado iria às urnas por estar amedrontado — com medo dos comunistas, com medo dos nazistas, ou com medo do status quo. Nesse medo geral, todas as divisões de classe desapareciam do cenário político: enquanto a aliança dos partidos para a defesa do status quo fazia esvaecer a estrutura de classes mantida nos diferentes partidos, os escalões inferiores dos movimentos eram completamente heterogêneos e tão dinâmicos e flutuantes como o próprio desemprego.[109]  Enquanto, dentro da estrutura das instituições nacionais, a esquerda parlamentar se havia unido à direita parlamentar, os dois movimentos estavam ocupados em organizar, conjuntamente, a famosa greve dos transportes nas ruas de Berlim em novembro de 1932.
     Quando se considera o declínio extraordinariamente rápido do sistema partidário europeu, deve-se ter em mente que essa instituição teve vida muito curta. Não existia em parte alguma antes do século XIX; na maioria dos países europeus, a formação de partidos políticos ocorreu somente depois de 1848, de sorte que o seu reinado como instituição inconteste em política nacional mal chegou a durar quarenta anos. Durante as últimas duas décadas do século XIX, todos os acontecimentos políticos importantes na França, como na Áustria-Hungria, ocorreram fora do âmbito dos partidos parlamentares e em oposição a eles; enquanto, em toda parte, os "partidos acima de partidos", que eram menores e imperialistas, desafiavam o sistema partidário em busca de apoio popular para uma política externa agressiva e expansionista. Ao passo que as ligas imperialistas se colocavam acima dos partidos para se identificarem com o Estado nação, os movimentos de unificação atacavam esses mesmos partidos como parte integrante de um sistema geral que incluía o Estado-nação; não se colocavam tanto "acima de partidos" como "acima do Estado", a fim de se identificarem diretamente com o povo. No fim, os movimentos totalitários foram levados a se descartarem também do povo, ao qual, não obstante, usaram para fins de propaganda, seguindo de perto o rastro dos movimentos de unificação. O "Estado totalitário" é Estado apenas na aparência, e o movimento não mais se identifica verdadeiramente nem mesmo com as necessidades do povo. O movimento, a essa altura, está acima do Estado e do povo, pronto a sacrificar a ambos por amor à sua ideologia: "o Movimento (...) é o Estado, assim como é o Povo, e nem o atual Estado (...) nem o atual povo alemão pode ser concebido sem o Movimento".[110]
     Nada demonstra melhor o irreparável declínio do sistema partidário do que os esforços feitos após a Segunda Guerra para ressuscitá-lo no continente europeu, os parcos resultados alcançados, a renovada atração dos movimentos após a derrota do nazismo e a óbvia ameaça do bolchevismo às independências nacionais. O resultado de todos os esforços para restaurar o status quo foi apenas a restauração de uma situação política na qual os movimentos destrutivos tomaram a forma de "partidos" que funcionam devidamente. Sua liderança vem mantendo a autoridade nas circunstâncias mais adversas, apesar de mudarem constantemente as linhas partidárias. Para que possamos avaliar corretamente as probabilidades de sobrevivência do Estado-nação europeu, não devemos prestar demasiada atenção aos slogans nacionalistas que os movimentos ocasionalmente adotam com o fito de ocultar suas verdadeiras intenções, mas sim considerar que, agora, todos sabem que eles são ramificações regionais de organizações internacionais, que os seus escalões inferiores absolutamente não se perturbam quando se evidencia que a sua política serve aos interesses da política externa de outra potência, mesmo que seja hostil, e que o fato de os seus líderes serem denunciados como quinta-colunas, traidores do país etc. em nada impressiona os seus membros. Em contraste com os antigos partidos, os movimentos sobreviveram à última guerra e são hoje os únicos "partidos" que permanecem vivos e significativos para os seus seguidores.

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[74] Como disse o presidente da Kolonialverein [Associação Colonial] alemã em 1884. Ver Mary E. Townsend, Origin of modem German colonialism: 1871-1885, Nova York, 1921. A Liga Pangermânica sempre insistiu em que estava "acima dos partidos; isto era e é uma condição vital para a Liga" (Otto Bonhard, op. cit.). O primeiro partido verdadeiro que alegou ser mais de um partido, ou seja, um "partido imperial", foi o Partido Nacional Liberal da Alemanha, sob a liderança de Ernest Bassermann(Frymann, op. cit.). Na Rússia, bastava que os pan-eslavos pretendessem ser apenas uma fonte do apoio popular ao governo para deixarem de competir com os partidos; pois o governo como "o Supremo poder em ação (...) não pode ser concebido como tendo relação com os partidos". Esta é a opinião de M. N. Katkov, íntimo colaborador jornalístico de Pobiedonostzev. Ver Olgin, op. cit., p. 57.
[75] Evidentemente, esse era ainda o propósito dos primeiros grupos "acima de partidos", entre os quais, até 1918, a Liga Pangermânica se deve ainda incluir. "Permanecendo fora de todos os partidos políticos organizados, podemos agir à nossa maneira puramente nacional. Não perguntamos: você é conservador? Ê liberal? (...) A nação alemã é o ponto de encontro onde todos os partidos podem ter causa comum". Lehr, Zwecke und Ziele des alldeutschen Verbandes [Fins e alvos da Liga Pangermânica], Flugschriften [Folhas], n? 14. Tradução citada por Wertheimer, op. cit.,p. 110.
[76]  Carl Schmitt, Staat, Bewegung, Volk [Estado, movimento, povo] (1934), fala do "monopólio da política que o Estado adquiriu durante os séculos XVII e XVIII".
[77] Wertheimer, op. cit., descreve bastante corretamente a situação quando diz: "Ê completamente absurdo que tenha havido qualquer ligação vital antes da guerra entre a Liga Pangermânica e o governo imperial". Por outro lado, era perfeitamente verdadeiro que a política alemã, durante a Primeira Guerra Mundial, era decisivamente influenciada pelos pangermanistas, porque o corpo de oficiais superiores se haviam tornado pangermanista". Ver Hans DelbrUck, Ludendorffs Selbstportrait [O auto-retrato de Ludendorff], Berlim, 1922. Compare também seu artigo anterior sobre o assunto, "Die Alldeutschen" [Os pangermanistas], em Preussische Jahrbücher [Anais prussianos], 154, dezembro de 1913.
[78] Sigmund Neumann, Die deutschen Parteien [Os partidos alemães], 1932.
[79] Moeller van den Bruck, Das dritteReich [O Terceiro Reich], 1923, pp. VII-VIII, descreve a situação: "Quando a Guerra Mundial terminou em derrota (...) encontrávamos alemães por toda parte que diziam estar fora de todos os partidos, que falavam de se 'libertarem dos partidos', que buscavam um ponto de vista 'acima de partidos'. (...) Uma completa falta de respeito pelos Parlamentos (...) que nunca sabem o que realmente se passa no país (...) é muito comum entre o povo".
[80] A insatisfação inglesa com certos fenômenos parlamentares nada tem a ver com esse sentimento antiparlamentar; os ingleses só se opõem ao que impede o Parlamento de funcionar devidamente.
[81] O sistema partidário inglês, que é o mais antigo de todos, "começou a tomar forma (...) somente quando os negócios do Estado deixaram de ser a exclusiva prerrogativa da Coroa (...)", isto é, depois de 1688. "O papel do rei tem sido, historicamente, o de representar a nação como unidade em contraposição com a luta faccional dos partidos." Ver o artigo "Political parties" 3, "Great Britain , de W. A. Rudin, na Encyclopedia of the social sciences.
[82] No livro que parece ser a primeira história do "partido", George W. Cooke, The history of party, Londres, 1836, define o assunto, no prefácio, como um sistema pelo qual "duas classes de estadistas (...) governam alternadamente um poderoso império".
[83]  A melhor descrição da essência do sistema partidário continental é dada pelo jurista suíço Johann Caspar Bluntschli, Charakter und Geist der politischen Parteien [Caráter e espírito dos partidos políticos], 1869. Diz ele: "È verdade que um partido é apenas parte de um todo maior, nunca o próprio todo. (...) Nunca deve identificar-se com o todo, o povo ou o Estado. (...) Portanto, um partido pode lutar contra outros partidos, mas não deve nunca ignorá-los e geralmente não deve querer destruí-los. Nenhum partido pode existir apenas por si mesmo" (p. 3). A mesma ideia é expressa por Karl Rosenkrantz, filósofo hegeliano alemão, cujo livro sobre os partidos políticos surgiu antes que existissem partidos na Alemanha: Ueber den Begrieff der politischen Partei [Do alcance dos partidos políticos] (1843): "O partido é a parcialidade consciente" (p. 9).
[84] Ver John Gilbert Heinberg, Comparative major European governments, Nova York, 1937, capítulo VII e VIII. "Na Inglaterra, um dos partidos políticos geralmente tem uma maioria na Câmara dos Comuns, e os líderes dos partidos são membros do Gabinete. (...) Na França, nenhum partido político ativo jamais chegou a alcançar a maioria da Câmara de Deputados e, consequentemente, o Conselho de Ministros é formado de líderes de vários grupos partidários" (p. 158).
[85]  Ver a introdução a Demokratie und Partei [Democracia e partido], editado por Peter R. Rohden, Viena, 1932: "Os partidos alemães se caracterizam pelo fato de os grupos parlamentares não aceitarem a representação da volonté générale. (...) Por isso os partidos ficaram tão embaraçados quando a Revolução de Novembro [de 1918] os trouxe ao poder. Cada um deles era organizado de modo a só poder fazer uma reivindicação relativa, ou seja, reconhecia sempre a existência dos outros partidos, que representavam outros interesses parciais e eram, assim, naturalmente limitados em suas próprias ambições" (pp. 13-4).
[86] O sistema partidário continental é muito recente. Com exceção dos partidos franceses, que datam da Revolução Francesa, nenhum país europeu conhecia a representação partidária antes de 1848. Os partidos vieram a existir através da formação de facções no Parlamento. Na Suécia, o Partido Social-Democrata foi o primeiro (em 1889) a ter um programa completamente formulado (Encyclopedia of socialsciences, loc. cit.). Quanto à Alemanha, ver Ludwig Bergstraesser, Geschi-schte der politischen Parteien [A história dos partidos políticos], 1921. Todos os partidos se baseavam abertamente na defesa de interesses; o Partido Conservador Alemão, por exemplo, surgiu da "Associação para a defesa dos interesses dos proprietários de terra" fundada em 1848. Contudo, os interesses não eram necessariamente econômicos. Os partidos holandeses, por exemplo, foram formados "em redor das duas questões que tanto preocupam a política holandesa — a ampliação do direito de voto e o subsídio da educação privada (principalmente confessional)" (Encyclopedia of thesocialscience, loc. cit.).
[87]  Esta é a definição de partido de Edmund Burke: "O partido é um grupo de homens unidos para promoverem o interesse nacional pelo trabalho conjunto, de acordo com algum princípio particular que todos [os seus membros] aceitam" (Uponparty, 2? edição, Londres, 1850).
[88] Arthur N. Holcombe (Encyclopedia ofthe social sciences, loc. cit.) acentuou, com razão, que no sistema bipartidário os princípios dos dois partidos "tem tido a tendência de serem idênticos. Se não fossem substancialmente os mesmos, a submissão ao vencedor teria sido intolerável para o vencido".
[89] Burke, op. cit.: "Eles acreditavam que os homens não podem agir com eficácia se não agirem em concerto; que não podem agir em concerto se não agirem com confiança; que não podem agir com confiança se não forem ligados por opiniões comuns, afeições comuns e interesses comuns".
[90] Quanto ao conceito centro-europeu de cidadão (Staatsbürger) em contraposição ao membro do partido, ver Bluntschli, op. cit.: "Os partidos não são instituições estatais, (...) não fazem parte de um organismo do Estado, mas são associações sociais livres, cuja formação depende de um corpo de membros mutável, unido para a ação política comum por uma convicção definida". A diferença entre o Estado e o partido é repetidamente acentuada: "O partido nunca deve colocar-se acima do Estado e nunca deve colocar o seu interesse partidário acima do interesse do Estado" (pp. 9el0). Burke, pelo contrário, argumenta contra o conceito segundo o qual os interesses partidários ou o fato de pertencer a um partido fazem do homem um cidadão pior. "As comunidades são feitas de famílias, as comunidades livres são feitas de partidos; e afirmar que nossas preocupações naturais e nossos laços de sangue tendem a transformar o homem em mau cidadão é como dizer que os laços dos nossos partidos enfraquecem os laços que nos ligam à nação" (op. cit.). Lorde John Russel, Onparty (1850), vai um passo adiante quando afirma que o melhor dos efeitos dos partidos é que "dão substância às vagas opiniões dos políticos e os prendem a princípios constantes e duradouros".
[91] Compare-se com essa atitude o marcante fato de que, na Grã-Bretanha, Ramsay Mac Donald nunca conseguiu que sua "traição" ao Partido Trabalhista fosse esquecida. Na Alemanha, o espírito do serviço público exigia que um ocupante de cargo público estivesse "acima dos partidos". Contra esse espírito do velho serviço público prussiano os nazistas afirmaram a prioridade do partido, porque almejavam a ditadura. Goebbels exigiu explicitamente: "Cada membro do Partido que se tornar um funcionário do Estado tem de permanecer, em primeiro lugar, um nacional socialista(...) e cooperar intimamente com a administração do Partido" (citado por Gottfried Nees-se, Partei und Staat [Partido e Estado], 1939).
[92] Como o Kolonialverein, o Centralverein für Handelsgeographie, o Flottenverein [Liga Naval], ou mesmo a Liga Pangermânica, que, embora anterior à Primeira Guerra Mundial, não tinha qualquer conexão com os grandes negócios. Ver Wertheimer, op. cit., p. 73. Típicos desses "partidos acima dos partidos" da burguesia eram, naturalmente, os Nationalliberalen [nacional-liberais]; ver nota 74.
[93] Erich Ludendorff, Die überstaatlichen Màchte im letzten Jahre des Weltkrieges [As forças supra estatais no último ano da Guerra Mundial], Leipzig, 1927. Ver também Feldherm-worte, 1938, 2 vols.; 1,43,55; II, 80.
[94] A principal finalidade do Estado corporativo era "a de corrigir e neutralizar uma condição provocada pela revolução industrial do século XIX, que desassociou o capital do trabalho, fazendo surgir, de um lado, uma classe capitalista de empregadores de mão-de-obra e, de outro, uma grande classe sem propriedades, o proletariado industrial. A justaposição dessas classes levava inevitavelmente ao choque dos seus interesses opostos" (A era fascista, publicado pela Confederação Fascista das Indústrias, Roma, 1939, cap. III).
[95] "Se o Estado deve realmente representar a nação, então o povo que compõe a nação deve ser parte do Estado. "Como conseguir isto?
"A resposta fascista é: organizando o povo em grupos segundo suas respectivas atividades, grupos que através dos seus lideres (...) ascendem por estágios, como numa pirâmide, em cuja base estão as massas e em cujo vértice está o Estado.
"Nenhum grupo fora do Estado, nenhum grupo contra o Estado, todos os grupos dentro do Estado, [que é] a nação articulada." (Ibid.) 
[96] Quanto à relação entre o partido e o Estado nos países totalitários, e especialmente a incorporação do partido fascista pelo Estado italiano, ver Franz Neumann, Behemoth, 1942, capítulo 1.
[97] Ver a apresentação, extremamente interessante, da relação entre partido e movimento no "Dienstvorschrift für die Parteiorganisation der NSDAP" [Normas de serviço para a organização partidária do NSDAP], 1932, pp. II ss, e a apresentação de Werner Best em Die deutsche Polizei [A polícia alemã], 1941, p. 107, que tem a mesma orientação: "E a tarefa do Partido (...) manter o movimento unido e dar-lhe apoio e direção".
[98] Mussolini, em seu discurso de 14 de novembro de 1933, defende o seu governo unipartidário com os mesmos argumentos usados em todos os Estados-nações durante uma guerra: um único partido político é necessário para "que possa existir disciplina política (...) e para que o laço de um destino comum possa unir a todos contra interesses conflitantes" (Benito Mussolini, Quatro discursos sobre o Estado corporativo, Roma, 1935).
[99]  É digna de nota a seguinte ocorrência registrada por Berdyaev: "Um jovem soviético foi à França (...) [e] lhe perguntaram que impressão a França lhe havia deixado. Respondeu: 'Não há liberdade neste país'. (...) O jovem explicou sua idia de liberdade: (...) A chamada liberdade (francesa) era do tipo que deixava tudo inalterado; cada dia era como os dias anteriores; (...) e assim o jovem que viera da Rússia estava entediado na França" (op. cit., pp. 182-3)
[100] A hostilidade austríaca ao Estado às vezes aparecia também entre os pangermanistas alemães, especialmente se se tratasse de AusIandsdeutsche [alemães no exterior], como Moeller van den Bruck.
[101] Hitler descreveu a situação corretamente quando disse durante as eleições de 1932: "Contra o nacional-socialismo só existem na Alemanha as maiorias negativas" (citado por Konrad Heiden, DerFührer, 1944, p. 564).
[102] Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, pelo menos 10% da população da França era composta de estrangeiros não-naturalizados. Nas minas do Norte trabalhavam principalmente poloneses e belgas, na agricultura do Sul, espanhóis e italianos. Ver Carr-Saunders, World population, Oxford, 1936, pp. 145-58.
[103] "Desde 1918 nenhum dos [Estados sucessórios) produziu (...) um partido que pudesse abranger mais de uma raça, uma religião, uma classe social ou uma região. A única exceção é o Partido Comunista da Tchecoslováquia" (Encyclopedia of the socialsciences, loc. cit.).
[104] Ver Karl Marx, op. cit
[105] Carl Schmitt, op. cit., p. 31.
[106] Vaclav Fiala, "Les partis politiques polonais", em Monde Slave, fevereiro de 1935.
[107] Ver a cuidadosa análise de Charles A. Micaud, The French Right and Nazi Germany, 1933-1939, 1943.
[108]  O exemplo mais famoso foi a ruptura do Partido Socialista Francês em 1938, quando a facção de Blum ficou em minoria contra o grupo pró-Munique de Déat durante o congresso do partido no Département de Ia Seine.
[109] O partido socialista alemão sofreu uma mudança típica desde o inicio do século XX até 1933. Antes da Primeira Guerra Mundial, somente 10% dos seus membros pertenciam à classe trabalhadora, enquanto cerca de 25% dos seus votos vinham das classes médias. Contudo, em 1930, apenas 60% dos seus membros eram trabalhadores e pelo menos 40% dos seus votos eram votos da classe média. Ver Sigmund Neumann, op. cit., pp. 28 ss.
[110] Schmitt, op. cit.

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