sábado, 13 de dezembro de 2025

Moby Dick: 43 - Escute!

Moby Dick

Herman Melville

43 -  Escute!
      
“Psiu! Você ouviu esse barulho, Cabaco?”

     Foi durante o turno da meia-noite: uma lua bonita; os marujos em pé, num cordão que se estendia de uma das pipas de água fresca no poço até a pipa da escotilha, próxima à grinalda. Desse modo, passavam os baldes para encher a pipa da escotilha. De pé, em sua maior parte, nos limites sagrados do convés, tomavam cuidado para não falar e nem arrastar os pés. Os baldes eram transportados de mão em mão no mais profundo silêncio, quebrado apenas por uma fortuita agitação da vela ou pelo zumbido contínuo da quilha que incessantemente avançava.
     Foi em meio a essa tranquilidade que Archy, um dos que estava no cordão, cujo lugar era perto da escotilha da popa, sussurrou para o seu vizinho, um Cholo, aquelas palavras. 

“Psiu! Você escutou esse barulho, Cabaco?” 
“Pegue o balde, Archy. Que barulho?” 
“De novo – aí embaixo da escotilha –, não está ouvindo? – uma tosse – parece uma tosse.” 
“Dane-se a tosse! Passe logo o balde vazio.” 
“De novo – ouviu? –. Parecem duas ou três pessoas se virando enquanto dormem!” 
“Caramba! Pare com isso, companheiro, certo? São os três biscoitos encharcados que você comeu no jantar que estão se revirando dentro de você nada mais. Preste atenção no balde!” 
“Diga o que quiser, companheiro; eu tenho bom ouvido.” 
“É isso mesmo, não foi você que escutou aquelas senhoras Quacres fazendo tricô a cinquenta milhas de Nantucket? Foi, não foi?”
“Pode rir à vontade; veremos o que vai acontecer. Escute aqui, Cabaco, tem alguém aí embaixo no porão que ainda não apareceu no convés; e suspeito que nosso velho Grão-Mogol está sabendo. Escutei Stubb dizer a Flask, numa ronda de manhã, que tinha alguma coisa assim no ar.” 
“Ei! O balde!”

Continua na página 192...
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851,
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

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