Terceira Parte - Mário
Viu-se há pouco no livro quarto, um dos compartimentos da mina superior, da grande
cova política, revolucionária e filosófica, onde, como acabou de ver, é tudo nobre, puro,
digno, honesto; onde, sem dúvida, é possível um engano, e efetivamente se dão; mas
onde o erro se torna digno de respeito, tão grande é o heroísmo a que anda anexo. O
complexo do trabalho que aí se opera chama-se Progresso.Livro Sétimo — Patron-Minette
II — O «Bas-fond»
Aí desaparece o desinteresse e divisa-se o vago esboço do demônio; içada qual para
si. O eu sem olhos uiva, procura, apalpa e rói. Existe nesse pego o Ugolino social.
As figuras ferozes que giram nessa cova, quase animais, quase fantasmas, não se
ocupam do progresso universal, cuja ideia ignoram; só cuidara de saciar-se cada uma a si
mesma Quase lhes falta a consciência, e parece haver uma espécie de amputação terrível
dentro delas. São duas as suas mães, ambas madrastas: a ignorância e a miséria. O seu
guia é a necessidade; e para todas as formas da satisfação, o apetite. São brutalmente
vorazes, quer dizer, ferozes; não à maneira de tirano, mais a maneira do tigre. Do
sofrimento passam estas larvas ao crime; filiação fatal, geração aterradora, lógica das
trevas. O que roja pelo entresolo social não é a reclamação sufocada do absoluto; é o
protesto da matéria. Torna-se aí dragão o homem. Ter fome e sede, é o ponto de
partida; ser Satanás, é o ponto de chegada. Esta cova produz Lacenaine.
Chegou porém o momento de se entrever outras profundidades, as profundidades
hediondas.
Por baixo da saciedade, insistamos neste ponto, existirá sempre a grande caverna do
mal, enquanto não chegar o dia da dissipação da ignorância.
Esta cova fica por baixo de todas e é a inimiga de todas. É o ódio sem excepção. Esta
não conhece filósofos; o seu punhal nunca aparou penas. A sua negrura não tem
nenhuma relação com a sublime negrura da escrita. Nunca os negros dedos que se
crispam debaixo desse teto asfixiante folhearam um livro ou abriram um jornal. Para
Cartucho, Babeuf é um especulador para Schinderhannes, Marat é um aristocrata. O alvo
desta cova é abismar tudo.
Tudo. Inclusive as covas superiores que esta aborrece de morte. No seu medonho
formigar, não mina somente a ordem social: mina a filosofia, mina a ciência, mina o
direito, mina o pensamento humano, mina a civilização, a revolução, o progresso. Tem
simplesmente o nome de roubo, prostituição, homicídio e assassínio. É trevas, quer o
caos. A sua abóbada é formada da ignorância.
Todas as outras, as de cima, têm por único alvo suprimi-la, alvo para o qual tendem a
filosofia e o progresso, por todos os seus órgãos, juntamente, tanto pelo melhoramento
do real, como pela contemplação do absoluto. Destruí a cova Ignorância, e tereis
destruído a toupeira do Crime.
Condensemos em poucas palavras uma parte do que acabamos de escrever. O único
perigo social é a Treva.
Humanidade, quer dizer identidade. Os homens são todos do mesmo barro. Na
predestinação não há diferença nenhuma, ao menos neste mundo. A mesma sombra
antes, a mesma carne agora, a mesma cinza depois. Mas a ignorância misturada com a
massa humana enegrece-a. Essa negrura comunica-se ao interior do homem e converte
se no Mal.
continua na página 541...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - II — O «Bas-fond»
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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