Edgar Allan Poe - Contos
O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug
Título original: The Gold-Bug
Publicado em 1842
continuando...
Quando nova, a tulipeira, ou liriodendron tulipiperum, a mais magnífica espécie das florestas americanas, tem um tronco singularmente liso e muitas vezes de uma grande altura, sem deitar ramos laterais; mas quando chega à maturidade, a casca torna-se rugosa e desigual e aparecem imensos rebentos de ramos. Por isso a escalada, no caso atual, era muito mais difícil na aparência do que na realidade. Enlaçando o melhor possível o enorme cilindro com os braços e os joelhos, e segurando com as mãos alguns dos rebentos, apoiando os pés descalços nos outros, Júpiter depois de ter escorregado uma ou duas vezes, içou se a custo até ao primeiro ramo e pareceu daí em diante encarar a tarefa como eficazmente realizada. Com efeito, o risco principal da empresa desapareceu, se bem que o valente negro se encontrasse a setenta pés do solo.
— Para que lado é preciso que eu vá agora, massa Will? — perguntou-lhe.
— Segue sempre o ramo mais grosso, o deste lado — disse Legrand.
O negro obedeceu-lhe prontamente, e, sem mostrar demasiada
dificuldade, subiu, subiu sempre mais alto até que por fim o vulto forte que
trepava desapareceu na espessura da folhagem e ficou por completo invisível.
Então, a sua voz ouviu-se ao longe. Ele gritava:
— Até onde é preciso subir ainda?
— A que altura estás? — perguntou Legrand.
— Tão alto, tão alto — respondeu o negro — que posso ver o céu através
do cimo da árvore.
— Não te importes com o céu, presta atenção ao que te digo. Vê o tronco e
conta os ramos abaixo de ti, desse lado. Quantos ramos passaste?
— Um, dois, três, quatro, cinco. Passei cinco ramos grossos, massa, deste
lado daqui.
— Então sobe mais um ramo.
Passados alguns minutos, ouviu-se de novo a sua voz. Ele informava-o que
havia atingido o sétimo ramo.
— Agora, Júpiter — gritou Legrand, num estado evidente de agitação — é
preciso que encontres o meio de avançares por cima desse ramo, tão longe
quanto puderes. Se vires qualquer coisa de extraordinário nesse ramo, dir-me-ás.
Desde então, algumas dúvidas que tinha tentado manter a respeito da
demência do meu pobre amigo desapareceram completamente. Não podia já
considerá-lo como tido por alienado mental e comecei a inquietar-me
seriamente com a maneira de o levar para casa.
Enquanto meditava sobre o que seria melhor, de novo se ouviu a voz de
Júpiter:
— Tenho medo de me encontrar um pouco mais longe neste ramo; é um
ramo seco a quase todo o comprimento.
— Júpiter, dizes que é um ramo morto? — gritou Legrand com uma voz
trémula pela emoção.
— Sim, massa, morto como o meu avô. Está completamente seco.
— Valha-me Deus, que hei de fazer? — perguntou Legrand, que parecia
verdadeiramente desesperado.
— O que fazer? — disse-lhe, satisfeito por ter ocasião para dizer uma
palavra razoável. — Volte para casa e vamo-nos deitar. Vamos, venha! Seja
gentil, meu amigo. Faz-se tarde e, depois, recorde-se da sua promessa.
— Júpiter — gritou Legrand, sem me ouvir sequer — ouves-me?
— Sim, massa Will, ouço-o perfeitamente.
— Corta, portanto, a madeira com a tua faca e diz-me se a encontras muito
apodrecida.
— Apodrecida, massa, bastante apodrecida — respondeu em seguida —
mas não tão apodrecida como o meu avô. Poderia aventurar-me um pouco mais
pelo ramo, mas sozinho.
— Sozinho! O que queres dizer?
— Quero falar do escaravelho. É bastante pesado. Se eu o deixasse
primeiro, o ramo aguentaria bem, sem partir, só o peso de um negro.
— Grande patife! — gritou Legrand que tinha um aspecto bastante aliviado.
— Que tolices dizes dai? Se deixas cair o inseto, torço-te o pescoço. Presta
atenção a isto, Júpiter. Ouves-me, não é verdade?
— Sim, massa, não vale tratar assim um pobre negro.
— Pois bem, escuta-me! Se te aventurares sobre o ramo tão longe que
possas fazê-lo sem perigo e sem deixares cair o escaravelho, dar-te-ei de
presente um dólar de prata, logo que desças.
— Eu vou lá, massa Will. Já cá estou — respondeu o negro — estou quase
na ponta.
— Na ponta! — gritou Legrand, mais serenamente. — Queres dizer que
estás na ponta do ramo?
— Estarei em breve na ponta, massa; oh!, oh!, oh! Senhor Deus!
Misericórdia! O que é que há em cima da árvore?
— Pois bem — gritou Legrand no auge da alegria — o que é que há?
— Eh! Apenas uma caveira; alguém que deixou a cabeça em cima da
árvore e os corvos debicaram a carne toda.
— Um crânio, dizes? Muito bem! Como está agarrado ao ramo? O que é
que o segura?
— Oh!, está bem preso. Mas é preciso ver... Ah!, é uma coisa curiosa,
palavra! A caveira tem um prego grosso que a segura à árvore.
— Bem!, agora, Júpiter, faz exatamente o que vou dizer-te. Ouves-me?
— Sim, massa.
— Presta muita atenção! Procura o olho esquerdo da caveira.
— Oh!, oh! Vejam que estranho! Não tem vestígios do olho esquerdo.
— Maldita estupidez! Sabes distinguir a tua mão direita da tua mão
esquerda?
— Sim, sei, eu sei tudo isso, mas a mão esquerda é aquela com que racho a
lenha.
— Sem dúvida, tu és canhoto; e o teu olho esquerdo está no mesmo lado
que a tua mão esquerda. Agora, suponho que poderás encontrar o olho esquerdo
da caveira, ou o lugar onde estava o olho esquerdo. Encontraste?
Seguiu-se um longo silêncio; por fim o negro perguntou:
— O olho esquerdo da caveira está do mesmo lado que a mão esquerda da
caveira? Mas a caveira não tem mãos! Isso não interessa nada! Já encontrei o
olho esquerdo, está aqui o olho esquerdo! O que é preciso fazer agora?
— Deixa passar o escaravelho através dele, tão longe quanto possa ir o
cordel. Mas toma bem nota de soltar a ponta do cordel quando chegar ao fim.
— Já fiz isso, massa Will. É fácil fazer passar o escaravelho pelo buraco.
Olhe, veja-o descer.
Enquanto durou este diálogo, o corpo de Júpiter ficou invisível, mas o inseto
que ele deixou passar aparecia agora na ponta do cordel e brilhava como uma
bola de ouro polido pelos últimos raios do Sol poente, dos quais alguns
iluminavam fracamente o ponto elevado em que estávamos colocados. O
escaravelho, ao descer, emergia dos ramos, e se Júpiter o tivesse soltado
imediatamente, teria caído aos nossos pés. Legrand pegou prontamente na foice,
abriu um espaço circular de três ou quatro jardas de diâmetro, precisamente por
baixo do inseto e, ao acabar esta tarefa, ordenou a Júpiter que soltasse o cordel e
descesse da árvore.
Com um escrupuloso cuidado, o meu amigo enterrou na terra uma cavilha,
no sítio preciso onde o escaravelho caíra, e tirou do seu bolso uma fita métrica.
Atou-a por uma ponta no sítio do tronco da árvore que estava mais perto da
cavilha, desenrolou-a até à cavilha, e continuou assim a desenrolar na direção
dada pelos dois pontos — a cavilha e o tronco — até à distância de cinquenta pés.
Entretanto, Júpiter cortava com a foice as silvas em redor. No ponto assim
achado, Legrand enterrou uma segunda cavilha, que tomou como centro, e em
volta da qual descreveu grosseiramente um círculo de cerca de quatro pés de
diâmetro.
Pegou então numa pá, deu uma a Júpiter e outra a mim, e pediu-nos para
cavar tão depressa quanto possível. Para falar francamente, nunca tivera muito
gosto por semelhante distração, e no caso presente passaria bem sem isso porque
a noite avançava e sentia-me razoavelmente fatigado pelo exercício que já
fizera. Mas não via forma alguma de me esquivar e temia perturbar com a
minha recusa a prodigiosa serenidade do meu pobre amigo. Se pudesse contar
com a ajuda de Júpiter, não teria hesitado em levar à força o nosso doido para
casa dele, mas eu conhecia muitíssimo bem o caráter do velho negro para
esperar o seu auxílio no caso de uma luta corpo a corpo com o patrão e não
importa em que circunstâncias. Não duvidava que Legrand tivesse o cérebro
sugestionado por alguma das inumeráveis superstições do Sul, relativas aos
tesouros escondidos e que esta ideia fosse confirmada pelo achado do
escaravelho, ou talvez mesmo pela obstinação de Júpiter em afirmar que era um
escaravelho de ouro autêntico. Um espírito desequilibrado podia muito bem
deixar-se arrastar por semelhantes sugestões, sobretudo quando elas concordam
com as suas ideias favoritas preconcebidas; depois recordava-me do discurso do
pobre rapaz relativo ao escaravelho, indício da sua fortuna! Acima de tudo,
estava cruelmente atormentado e embaraçado; mas, enfim, resolvi fazer das
tripas coração e cavar de boa vontade, o mais depressa possível, para convencer
o meu visionário o mais depressa possível, de uma maneira palpável, da
inutilidade dos seus sonhos.
Acendemos lanternas e cumprimos a nossa tarefa com um zelo digno de
uma causa mais louvável e, enquanto a luz incidia sobre as nossas pessoas e a
ferramenta, não pude deixar de pensar que compúnhamos um grupo
verdadeiramente pitoresco, e que se algum intruso fosse parar por acaso junto de
nós, julgaria que estávamos a fazer um trabalho bem estranho e suspeito. Nós cavámos sem descanso durante duas horas. Falávamos pouco. O nosso
principal embaraço era causado pelos uivos do cão que tomava um interesse
cada vez maior pelos nossos trabalhos. Com o decorrer do tempo, tornou-se de tal
forma turbulento que receámos que ele alertasse alguns malfeitores — ou antes,
era a grande preocupação de Legrand — porque no que me dizia respeito, eu
ficaria regozijado com qualquer interrupção que me teria permitido levar o meu
amigo para casa.
Por fim, o estrondo foi sufocado, graças a Júpiter que se lançou para fora
do buraco com um ar furioso; decidido, apertou as mandíbulas do animal com
um dos seus suspensórios e depois voltou ao trabalho com um risinho de triunfo.
continua na página 424...
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Leia também:
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
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Uma Descida ao Maelstrom (01) / A Ilha da Fada / A Máscara da Morte Vermelha / A Quinta de Arnheim (1) /
O coração delator / O Escaravelho de Ouro(a) / O Escaravelho de Ouro(b) / O Escaravelho de Ouro(c) /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
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