Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 1
7.
.
Se é que há esperança, escreveu Winston, a esperança está nos proletas.
Se é que havia esperança, a esperança só podia estar nos proletas,
porque só ali, naquelas massas desatendidas, naquele enxame de gente,
oitenta e cinco por cento da população da Oceania, havia possibilidade de que
se gerasse a força capaz de destruir o Partido. Impossível derrubar o Partido
de dentro para fora. Seus inimigos, se é que o Partido possuía algum, não
tinham como agrupar-se ou mesmo como identificar-se uns aos outros.
Mesmo que a legendária Confraria existisse, algo possível — mas não
provável —, era inconcebível que seus membros algum dia pudessem reunir
se em grupos maiores que duas ou três pessoas. O estado de rebelião
significava um certo olhar, uma certa inflexão de voz; no máximo uma ou
outra palavra cochichada. Os proletas, porém, se de algum modo acontecesse
o milagre de que se conscientizassem da força que possuíam, não teriam
necessidade de conspirar. Bastava que se sublevassem e se sacudissem,
como um cavalo se sacode para expulsar as moscas. Se quisessem, podiam
acabar com o Partido na manhã seguinte. Mais cedo ou mais tarde eles
teriam a ideia de acabar com o Partido, não teriam? E apesar de tudo...!
Lembrou-se de uma vez em que ia andando por uma rua apinhada
quando um brado imenso formado por centenas de vozes — vozes femininas
— se elevara de uma rua lateral um pouco à frente. Era um grito enorme,
formidável, de ira e desespero, um “Oh-o-o-o-oh!” profundo e clamoroso que
ecoava como a reverberação de um sino. O coração de Winston dera um
salto. Começou!, pensara. Uma revolta! Os proletas estão se libertando,
finalmente! Quando chegou ao ponto onde ocorria o tumulto, viu uma
multidão formada por duzentas ou trezentas mulheres reunidas em torno
das barracas de uma feira com uma expressão trágica no rosto, como se
fossem os passageiros condenados de um navio que estivesse naufragando.
Mas justo naquele momento o desespero generalizado se fragmentou,
formando uma infinitude de confrontos individuais. Aparentemente, até
pouco antes uma das barracas comercializava panelas de lata. Eram umas
porcarias de umas panelas frágeis, de péssima qualidade, mas panela era
coisa difícil de encontrar. De repente o estoque disponível se esgotara. As
mulheres que haviam conseguido comprar as suas, empurradas e golpeadas
pelas restantes, tentavam se afastar dali com seus troféus, enquanto
dezenas de outras reclamavam em torno da barraca, acusando o feirante de
favoritismo e de ter um estoque de panelas escondido em algum lugar. Gritos
irromperam em outro ponto. Duas mulheres gordas, uma delas de cabelo
longo e escorrido, haviam agarrado a mesma panela e cada uma tentava com
todas as suas forças obrigar a outra a largá-la. As duas ficaram puxando a
panela para lá e para cá até que o cabo se soltou. Winston observou a cena
com repulsa. Por outro lado, pensou, por um momento passageiro, que força
quase aterrorizante se manifestara naquele grito de não mais que umas
poucas centenas de gargantas! Por que razão aquelas gargantas não
poderiam ser capazes de gritar daquele jeito em relação a alguma coisa
realmente importante? Escreveu:
Enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes
autênticos e, enquanto não se rebelarem, não têm como se conscientizar.
A frase, pensou, quase poderia ter sido copiada de um dos manuais do
Partido. É claro que o Partido se vangloriava de ter libertado os proletas da
escravidão. Antes da Revolução eles eram oprimidos de maneira revoltante
pelos capitalistas. Passavam fome, eram açoitados, as mulheres eram
obrigadas a trabalhar nas minas de carvão (para falar a verdade, as mulheres
continuavam trabalhando nas minas de carvão), as crianças eram vendidas
para as fábricas a partir dos seis anos de idade. Mas, ao mesmo tempo, fiel
aos princípios do duplipensamento, o Partido ensinava que os proletas eram
inferiores naturais que deviam ser mantidos dominados, como os animais,
mediante a aplicação de umas poucas regras simples. Na realidade pouco se
sabia sobre os proletas. Não era necessário saber grande coisa. Desde que
continuassem trabalhando e procriando, suas outras atividades careciam de
importância. Abandonados a si mesmos, tal como o gado solto nos pampas
argentinos, haviam regredido ao estilo de vida que lhes parecia natural —
uma espécie de modelo ancestral. Nasciam, cresciam pelas sarjetas,
começavam a trabalhar aos doze anos, aos trinta chegavam à meia-idade, em
geral morriam aos sessenta. Trabalho físico pesado, cuidados com a casa e
os filhos, disputas menores com os vizinhos, filmes, futebol, cerveja e, antes
de mais nada, jogos de azar, preenchiam o horizonte de suas mentes. Não
era difícil mantê-los sob controle. Alguns representantes da Polícia das Ideias
circulavam entre eles, espalhando boatos falsos e identificando e eliminando
os raros indivíduos considerados capazes de vir a ser perigosos; mas não era
feita nenhuma tentativa no sentido de doutriná-los com a ideologia do
Partido. Não era desejável que os proletas tivessem ideias políticas sólidas.
Deles só se exigia um patriotismo primitivo, que podia ser invocado sempre
que fosse necessário fazê-los aceitar horários de trabalho mais longos ou
rações mais reduzidas. E mesmo quando eles ficavam insatisfeitos, como às
vezes acontecia, sua insatisfação não levava a lugar nenhum, porque,
desprovidos de ideias gerais como eram, só conseguiam fixar-se em queixas
específicas e menores. Os grandes males invariavelmente escapavam a sua
atenção. A vasta maioria dos proletas não tinha nem sequer uma teletela em
casa. Até mesmo a polícia civil pouco se interessava por eles. Londres era
assolada pela criminalidade, um verdadeiro mundo paralelo de ladrões,
bandidos, prostitutas, traficantes de drogas e trambiqueiros de todos os
tipos; mas como tudo isso acontecia entre os próprios proletas, não fazia a
menor diferença. Em todas as questões morais, nada os impedia de adotar
seu código ancestral. O puritanismo sexual do Partido não lhes era imposto.
A promiscuidade não era passível de punição, o divórcio era permitido. Aliás,
até mesmo a prática religiosa seria permitida caso os proletas mostrassem
algum indício de sentir necessidade ou desejo de religião. Eles estavam
abaixo de qualquer suspeita. Como afirmava o slogan do Partido: “Proletas e
animais são livres”.
Winston estendeu a mão e coçou com cuidado sua úlcera varicosa. A
comichão havia recomeçado. Você sempre acabava voltando para o mesmo
ponto: de que modo o sujeito ia saber como era realmente a vida antes da
Revolução? Tirou da gaveta um livro de história para crianças que a sra.
Parsons havia lhe emprestado e começou a copiar um trecho no diário:
Antigamente [estava escrito], antes da gloriosa Revolução, Londres não era a bela cidade que conhecemos hoje. Era um lugar escuro, sujo, miserável, onde quase ninguém possuía o suficiente para comer e onde centenas de milhares de pobres não tinham botinas nos pés ou sequer um teto para abrigar seu sono. As crianças da sua idade, leitor, precisavam trabalhar doze horas por dia para patrões desumanos, que as cobriam de chicotadas se trabalhassem muito devagar e só as alimentavam com casca de pão velho e água. Mas no meio de toda essa terrível pobreza havia uns poucos casarões bonitos onde viviam pessoas ricas servidas por até trinta empregados. Essas pessoas ricas eram os capitalistas. Os capitalistas eram gordos e feios e tinham cara de ruins, como o da ilustração da página ao lado. Você pode notar que ele veste um casaco preto comprido que se chamava sobrecasaca, e um chapéu esquisito, brilhante, em forma de chaminé, e que tinha o nome de cartola. Esse era o uniforme dos capitalistas, e ninguém mais estava autorizado a usá-lo. Os capitalistas eram donos de tudo o que havia no mundo e todos os outros homens eram seus escravos. Eles eram donos de todas as terras, de todas as casas, de todas as fábricas e de todo o dinheiro. Se alguém lhes desobedecesse, os capitalistas podiam jogar a pessoa numa prisão, ou então mandá-la embora do emprego e obrigá-la a morrer de fome. Quando uma pessoa comum dirigia a palavra a um capitalista, tinha de curvar-se e fazer reverências, além de tirar o boné e chamar o capitalista de “Senhor”. O chefe de todos os capitalistas era chamado de Rei e...
Antigamente [estava escrito], antes da gloriosa Revolução, Londres não era a bela cidade que conhecemos hoje. Era um lugar escuro, sujo, miserável, onde quase ninguém possuía o suficiente para comer e onde centenas de milhares de pobres não tinham botinas nos pés ou sequer um teto para abrigar seu sono. As crianças da sua idade, leitor, precisavam trabalhar doze horas por dia para patrões desumanos, que as cobriam de chicotadas se trabalhassem muito devagar e só as alimentavam com casca de pão velho e água. Mas no meio de toda essa terrível pobreza havia uns poucos casarões bonitos onde viviam pessoas ricas servidas por até trinta empregados. Essas pessoas ricas eram os capitalistas. Os capitalistas eram gordos e feios e tinham cara de ruins, como o da ilustração da página ao lado. Você pode notar que ele veste um casaco preto comprido que se chamava sobrecasaca, e um chapéu esquisito, brilhante, em forma de chaminé, e que tinha o nome de cartola. Esse era o uniforme dos capitalistas, e ninguém mais estava autorizado a usá-lo. Os capitalistas eram donos de tudo o que havia no mundo e todos os outros homens eram seus escravos. Eles eram donos de todas as terras, de todas as casas, de todas as fábricas e de todo o dinheiro. Se alguém lhes desobedecesse, os capitalistas podiam jogar a pessoa numa prisão, ou então mandá-la embora do emprego e obrigá-la a morrer de fome. Quando uma pessoa comum dirigia a palavra a um capitalista, tinha de curvar-se e fazer reverências, além de tirar o boné e chamar o capitalista de “Senhor”. O chefe de todos os capitalistas era chamado de Rei e...
Mas Winston conhecia o resto da lenga-lenga. Haveria menção sobre
bispos com suas camisas de cambraia, juízes com seus mantos de arminho,
o pelourinho, o cepo, a roda, o chicote, o Banquete do Prefeito de Londres e a
prática de beijar o pé do papa. Também havia uma coisa chamada jus primae
noctis, que provavelmente não seria citada num livro para crianças. Era a lei
que determinava que todo capitalista tinha o direito de ir para a cama com
toda e qualquer mulher que trabalhasse em uma de suas fábricas.
Como saber quais daquelas coisas eram mentiras? Talvez fosse verdade que as condições de vida do ser humano médio fossem melhores hoje do que eram antes da Revolução. Os únicos indícios em contrário eram o protesto mudo que você sentia nos ossos, a percepção instintiva de que suas condições de vida eram intoleráveis e de que era impossível que em outros tempos elas não tivessem sido diferentes. Pensou que as únicas características indiscutíveis da vida moderna não eram sua crueldade e falta de segurança, mas simplesmente sua precariedade, sua indignidade, sua indiferença. A vida — era só olhar em torno para constatar — não tinha nada a ver com as mentiras que manavam das teletelas, tampouco com os ideais que o Partido tentava atingir. Porções consideráveis dela, mesmo da vida de um membro do Partido, eram neutras e apolíticas, simplesmente questão de suar a camisa realizando trabalhos horrorosos, de lutar para conseguir um lugar no metrô, de cerzir uma meia velha, de arrumar um saquinho de sacarina, de economizar uma bagana. O ideal definido pelo Partido era uma coisa imensa, terrível e luminosa — um mundo de aço e concreto cheio de máquinas monstruosas e armas aterrorizantes —, uma nação de guerreiros e fanáticos avançando em perfeita sincronia, todos pensando os mesmos pensamentos e bradando os mesmos slogans, perpetuamente trabalhando, lutando, triunfando, perseguindo — trezentos milhões de pessoas de rostos iguais. A realidade eram cidades precárias se decompondo, nas quais pessoas subalimentadas se arrastavam de um lado para o outro em seus sapatos furados no interior de casas do século XIX com reformas improvisadas, sempre cheirando a repolho e a banheiros degradados. Winston tinha a sensação de ter uma visão de Londres, imensa e semidestruída, cidade com um milhão de latas de lixo, e fundida a essa visão estava a imagem da sra. Parsons, aquela mulher com vincos no rosto e cabelo espigado, lidando desamparada com um encanamento entupido.
Como saber quais daquelas coisas eram mentiras? Talvez fosse verdade que as condições de vida do ser humano médio fossem melhores hoje do que eram antes da Revolução. Os únicos indícios em contrário eram o protesto mudo que você sentia nos ossos, a percepção instintiva de que suas condições de vida eram intoleráveis e de que era impossível que em outros tempos elas não tivessem sido diferentes. Pensou que as únicas características indiscutíveis da vida moderna não eram sua crueldade e falta de segurança, mas simplesmente sua precariedade, sua indignidade, sua indiferença. A vida — era só olhar em torno para constatar — não tinha nada a ver com as mentiras que manavam das teletelas, tampouco com os ideais que o Partido tentava atingir. Porções consideráveis dela, mesmo da vida de um membro do Partido, eram neutras e apolíticas, simplesmente questão de suar a camisa realizando trabalhos horrorosos, de lutar para conseguir um lugar no metrô, de cerzir uma meia velha, de arrumar um saquinho de sacarina, de economizar uma bagana. O ideal definido pelo Partido era uma coisa imensa, terrível e luminosa — um mundo de aço e concreto cheio de máquinas monstruosas e armas aterrorizantes —, uma nação de guerreiros e fanáticos avançando em perfeita sincronia, todos pensando os mesmos pensamentos e bradando os mesmos slogans, perpetuamente trabalhando, lutando, triunfando, perseguindo — trezentos milhões de pessoas de rostos iguais. A realidade eram cidades precárias se decompondo, nas quais pessoas subalimentadas se arrastavam de um lado para o outro em seus sapatos furados no interior de casas do século XIX com reformas improvisadas, sempre cheirando a repolho e a banheiros degradados. Winston tinha a sensação de ter uma visão de Londres, imensa e semidestruída, cidade com um milhão de latas de lixo, e fundida a essa visão estava a imagem da sra. Parsons, aquela mulher com vincos no rosto e cabelo espigado, lidando desamparada com um encanamento entupido.
Estendeu a mão e voltou a coçar o tornozelo. Noite e dia as teletelas
massacravam os ouvidos das pessoas com estatísticas que provavam que
hoje a população tinha mais comida, mais roupa, melhores casas, melhores
opções de lazer — que vivia mais, trabalhava menos, era mais alta, mais
saudável, mais forte, mais feliz, mais inteligente, mais culta do que as
pessoas de cinquenta anos antes. Não havia como provar ou deixar de provar
uma só dessas afirmações. O Partido insistia, por exemplo, que atualmente
quarenta por cento dos proletas adultos eram alfabetizados: antes da
Revolução, segundo diziam, o total era de apenas quinze por cento. O Partido
insistia que hoje o índice de mortalidade infantil era de apenas cento e
sessenta a cada mil habitantes — e assim por diante. Era como uma equação
simples com duas incógnitas. Podia muito bem ser que literalmente todas as
palavras contidas nos livros de história, inclusive aquelas aceitas sem o
menor questionamento, fossem pura fantasia. Até onde ele sabia, talvez
jamais tivesse existido uma lei de jus primae noctis, ou uma criatura
conhecida como capitalista, ou um acessório com as características de uma
cartola.
continua na página 79...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério) /
Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) / Parte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz) /
Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) / Parte 1.7a (Winston escrevia em seu diário:) /
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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