terça-feira, 30 de junho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (3b: Quando nos encontrámos de novo junto de Macha)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

3

continuando...

     Quando nos encontrámos de novo junto de Macha, que nos jurou que não tinha dormido e que tudo ouvira, tranquilizei-me e ele tentou retomar o seu tom de paternal proteção. Mas este ensaio não lhe surtiu efeito e não me enganou; tinha ainda viva na lembrança uma certa conversação que dois dias antes houvera entre ambos.
     Macha emitira a opinião de que um homem ama mais facilmente do que uma mulher e de que sabe também mais facilmente exprimir o seu amor. Resumira a sua ideia nestas palavras: 

— Um homem pode dizer que ama e uma mulher não. 
— E a mim parece-me que um homem não pode nem deve dizer que ama — replicara ele.

     Perguntei-lhe o motivo. 

— Porque isso será sempre uma mentira. Que significa a descoberta de que um homem ama? Como se lhe bastasse pronunciar esta palavra para que daí surgisse um não sei quê de extraordinário, um fenómeno qualquer, fazendo súbita explosão! Parece-me que essas pessoas que dizem solenemente: «Amo-a», ou eles próprios se enganam ou, pior ainda, enganam os outros. 
— Nesse caso, segundo a sua opinião, uma mulher saberá que a amam sem que lhe digam? — perguntou Macha. 
— Isso não sei; cada homem tem a sua maneira de falar. Mas há um sentimento que sabe fazer-se compreender. Quando leio romances, procuro sempre fantasiar com o aspecto embaraçado do tenente Crelski ou de Alfredo, quando dizem: «Leonor, amo-te!» e que pensam que, de súbito, se produzirá alguma coisa extraordinária, quando nenhuma alteração se nota em qualquer deles: rosto, olhar e o resto ficam na mesma.

     Neste gracejo, julguei discernir um sentido sério que podia referir-se a mim, mas Macha não permitia de bom grado que se profundassem os heróis de romance. 

— Sempre paradoxos! — exclamou. — Vamos, seja franco, nunca declarou o seu o seu amor a mulher alguma? 
— Nunca o fiz, nunca dobrei um joelho — respondera ele rindo — e nunca o farei.

«Sim, não precisa dizer que me ama», pensava eu, lembrando-me agora tão vivamente daquela conversação. «Ama-me e eu sei-o.» E todos os seus esforços para parecer indiferente não poderiam arrancar-me esta convicção.

     Durante toda a noite falou-me muito pouco; mas em cada uma das suas palavras, em cada um dos seus movimentos e dos seus olhares eu sentia o amor e não conservava dúvida alguma. A única coisa que me causava despeito e pesar era ver que ele julgava necessário ainda ocultar e fingir frieza, quando já tudo estava tão claro e quando poderíamos tão facilmente e tão simplesmente ser felizes, além mesmo do possível. Mas, por outro lado, atormentava-me como se fora um crime o ter saltado ao ginjal para me juntar a ele e parecia-me sempre que Sérgio deveria deixar de me estimar e mostrar algum ressentimento contra mim.
     Depois do chá, fui para o piano e ele seguiu-me. 

— Toque alguma coisa, Katia; há muito tempo que não a ouço — disse-me ao chegarmos ao salão. 
— Pois sim... Sérgio Mikailovitch!

     E de repente fitei-o, mergulhando os meus olhos nos dele. 

— Não está zangado comigo? 
— E porquê? 
— Por lhe não ter obedecido esta tarde — disse corando.

     Compreendeu-me, abanou a cabeça e sorriu. E este sorriso significava que desejaria ter-me repreendido, com efeito, mas que se não sentiria com forças. 

— Está acabado, não é assim? E estamos outra vez bons amigos? — disse eu sentando-me ao piano. 
— Assim o creio.

     Nesta grande sala, de teto muito alto, não havia senão duas velas no piano e o resto da casa ficava mergulhado numa meia obscuridade. Pelas janelas abertas descortinavam-se os aspetos luminosos de uma noite de verão. Por toda a parte reinava o mais perfeito sossego, que só era perturbado de vez em quando pelo ruído dos passos de Macha na sala contígua e pelo cavalo de Sérgio Mikailovitch que, preso por baixo de uma das janelas, rinchava e destruía as plantas com os cascos. Sentou-se atrás de mim, de modo que não o podia ver; mas no seio das trevas incompletas daquela sala, nos sons que a enchiam, no meu íntimo eu sentia a sua presença. Cada um dos seus olhares, dos seus movimentos, que entretanto não podia distinguir, penetrava e ressoava no meu coração. Toquei a sonata fantasia de Mozart, que Sérgio me trouxera e que tinha aprendido diante dele e para ele. Não pensava absolutamente no que tocava, mas parecia-me que o fazia bem e a seu contento. Compartilhava a alegria que ele sentia e, sem o ver, compreendia que os seus olhares estavam fitos em mim. Por um movimento completamente involuntário, enquanto os meus dedos continuavam a percorrer o teclado sem consciência do que faziam, olhei para ele; a sua cabeça destacava-se sobre o fundo luminoso da noite. Estava sentado, a fronte encostada à mão e contemplava-me atentamente com os seus olhos radiantes. Sorri surpreendendo este olhar e deixei de tocar. Sérgio sorriu também, inclinou a cabeça sobre as notas com ar de censura, como para me pedir que continuasse. Quando acabei, a lua, no ponto culminante da sua carreira, despedia vivos clarões e, a par da débil luz das velas, espalhava na sala, pelas janelas, jorros de uma outra claridade toda argentina que inundava o chão com os seus reflexos. Macha disse que ficara no mais belo trecho e que tinha tocado mal; Sérgio protestou que jamais o fizera tão bem como naquele dia, pondo-se em seguida a passear da sala para o salão, que estava às escuras, e de novo do salão para a sala e de cada vez contemplava-me sorrindo. Eu sorria também e mesmo sem motivo algum; tinha desejos de rir, tão feliz eu me sentia pelo que se havia passado nesse dia e mesmo naquele momento. Enquanto a porta me ocultava um instante, saltei ao pescoço de Macha e comecei a beijá-la no meu lugar predileto, no rechonchudo pescoço e por baixo do queixo; depois, desde que Sérgio reapareceu, retomei um aspetco sério e sustive a custo uma gargalhada. 

— O que sucedeu hoje à Katia? — perguntou-lhe Macha.

     Mas ele não respondeu e limitou-se a gracejar a meu respeito. Sabia bem o que me acontecia.

— Veja um pouco, que linda noite! — disse Sérgio do salão onde estava de pé, diante da janela que dava para o jardim.

     Fomos ter com ele e, efetivamente, era uma noite como não tornei a ver outra semelhante. A lua cheia brilhava por detrás de nós, por cima da casa, com um fulgor que nunca mais lhe encontrei; metade das sombras projetadas pelos telhados, pelos pilares e pelo toldo do terraço estendiam-se obliquamente sobre a areia das ruas e o grande oval de relva. Tudo o mais resplandecia de luz e estava coberto de um orvalho que prateava os reflexos da lua. Um largo caminho, todo orlado de flores, que atravessava, sobre uma das bordas, a sombra das dálias, verdadeira vereda luminosa e fresca onde cintilavam pedras angulosas, alongava-se pela atmosfera. Por detrás das árvores via-se brilhar os telhados da estufa das laranjeiras e do fundo do barranco elevava-se um nevoeiro que a cada instante se tornava mais ténue. Os maciços de lilás, já um pouco desguarnecidos, estavam iluminados até aos pés das hastes. Refrescados pelo orvalho, as flores podiam-se agora distinguir umas das outras. Nas alamedas, a sombra e a luz confundiam-se de tal maneira que não se imaginaria serem árvores e ruas, mas edifícios transparentes e agitados por brandas virações.
     À direita, na sombra da casa, tudo era negro, indistinto, quase medonho. Mas um pouco além sobressaía, mais resplandecente ainda sobre esta zona obscura, a coma fantástica de um choupo que, não sei por que estranho efeito, ficava muito perto e por cima da casa numa auréola de luz viva, em lugar de acabar nas profundidades longínquas daquele céu de um azul sombrio. 

— Vamos passear — disse eu.

     Macha consentiu, mas acrescentou que eu devia calçar galochas. 
     
— Não é necessário — respondi. — O Sérgio Mikailovitch dar-me-á o braço.

     Como se isto pudesse impedir-me de molhar os pés! Mas naquele momento, para cada um de nós três era admissível semelhante loucura e nada tinha de extraordinário. Nunca me tinha dado o braço e agora eu mesmo lhe tomei e ele não pareceu surpreendido. Descemos, os três, ao terraço. Todo aquele universo, aquele céu, aquele jardim, aquele ar que respirávamos não me pareciam os que eu havia sempre conhecido.
     Quando olhava na minha frente, na alameda onde entravamos, pareceu-me que não podia ir mais longe, que acabava ali o mundo possível e que tudo devia ali ficar fixado para sempre na sua beleza presente!
     Contudo, à medida que avançávamos, aquela muralha encantada, feita de pura beleza, afastava-se diante de nós, dava-nos passagem e tornava-me a encontrar então no meio de objetos familiares, jardim, árvores, caminhos, folhas secas. E era exatamente nestas ruas onde passeávamos e nos círculos luminosos alternados com outras esferas de trevas que atravessávamos que as folhas secas estalavam com ruído sob os nossos pés e que tenros raminhos me vinham afagar o rosto. Era realmente ele que, caminhando junto de mim com passos lentos e iguais, deixava apoiar no seu o meu braço com reserva e circunspeção. Era na verdade a lua no alto dos céus que nos iluminava por entre os ramos imóveis.
     Contemplei-o um momento. Não havia uma única tília que se elevasse na parte da alameda que atravessávamos e o seu rosto aparecia-me em plena claridade. Estava tão belo e parecia tão feliz...
     Sérgio pergunta-me: «Não tem medo?» e eu ouvia-o dizer: «Amo-te, querida Katia! Amo-te! Amo-te!» O seu olhar repetia-o e o seu braço também; e a luz e a sombra, e o ar e todas as coisas repetiam-no igualmente.
     Percorremos assim todo o jardim. Macha caminhava perto de nós, com passinho curto e respirando a custo, de tal modo se sentia fatigada. Disse que era tempo de voltar e fazia-me pena, grande pena, a pobre criatura. «Porque não sente ela o mesmo que nós?», pensei eu. «Porque não é toda a gente jovem, feliz? Como esta noite respira mocidade e ventura e nós também!»
     Voltamos para casa, mas Sérgio não nos deixou por muito tempo ainda. Macha esquecia-se de nos lembrar que era tarde; falávamos de tantas coisas diferentes, muito fúteis, é verdade, ficando sentados juntos uns dos outros, sem pensarmos sequer que fossem três horas da manhã. Os galos tinham soltado o seu terceiro canto quando ele partiu. Despediu-se de nós exatamente como de ordinário e sem nada dizer de particular. Mas eu sabia sem me restar dúvida que a partir daquele dia era meu e que não o podia mais perder. Desde que reconheci bem que o amava, contei tudo a Macha. Ficou alegre e comovida, mas a pobre mulher não pôde dormir aquela noite e eu fiquei bastante tempo, muito tempo ainda, a passear no terraço, a percorrer o jardim, procurando recordar-me de cada palavra, de cada facto, tornando a passar pelas alamedas onde junto havíamos passado. Não me deitei em toda a noite e, pela primeira vez na minha vida, vi nascer o sol e soube o que era a madrugada. Nunca mais tornei a ver uma noite semelhante nem manhã igual. Só perguntava a mim mesma porque não me dizia muito simplesmente que me amava. Porque, pensei eu, inventa ele tal ou qual dificuldade, porque se chama velho quando tudo é tão simples e tão belo? Porque perder assim um tempo precioso que talvez jamais voltará? Que diga pois que ama, que o diga em termos próprios, que aperte a minha mão na sua, que incline a cabeça e que diga: amo-te! Que todo ruborizado baixe os olhos diante de mim e então eu lhe direi tudo. Ou antes, nada lhe direi, estreitá-lo-ei nos meus braços e chorarei. Mas se me enganasse, se me não amasse? Este pensamento atravessou-me de repente o espírito.
     Receei o meu próprio sentimento. Deus sabe onde Sérgio me teria podido conduzir e já a recordação da sua confusão e da minha no ginjal¹ quando corri para junto dele me pesava, me oprimia o coração. Os olhos umedeceram-se de lágrimas e rezei. Perpassou-me pela mente, então, um estranho pensamento que me causou um grande alívio e fez renascer em mim a esperança. Resolvi começar as minhas devoções e escolher o dia do meu nascimento para me tornar sua noiva.

[1] A história do Ginjal perde-se na noite dos tempos… Foi, sem dúvida, um dos principais pontos estratégicos do concelho, de forte actividade industrial e comercial. Desde os princípios da segunda metade do século XIX, o Ginjal era já um importante aglomerado operário e industrial, com estaleiros navais de Hugo Parry; armazéns de vinhos, vinagres, aguardentes e azeite da Família Teotónio Pereira; oficinas de tanoaria; fábricas de conserva de peixe; empresa de recuperação de estanho; armazéns de isco e frigoríficos para apoio dos navios de pesca alto, o Grémio do Bacalhau; fábrica de cal; fábrica de manipulação de cortiça, entre outros estabelecimentos. Um cais de lenços brancos e até de lágrimas, quando os navios de pesca do bacalhau no Grémio partiam para mares distantes, de águas gélidas.

     Como e porquê? Como podia isso acontecer? Não sabia. Mas neste mesmo momento acreditei que seria assim. Entretanto já o dia ia alto e todos se levantavam quando recolhi ao meu quarto.

continua na página 31...
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Leia também...
3b: Quando nos encontrámos de novo junto de Mach /       
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

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