Liev Tolstói
3
Um dia, no tempo da entrada dos trigos, depois do jantar, fomos para o jardim, Macha, Sónia e eu, sentarmo-nos no nosso banco predileto, à sombra das tílias, numa elevação de onde se descortinavam os campos e os bosques. Havia já três dias que Sérgio Mikailovitch não nos vinha ver e esperávamo-lo tanto mais que nesse dia tinha prometido ao nosso intendente examinar as colheitas.
Pelas duas horas, com efeito, enxergámo-lo ao passar num monte pelo meio de
um campo de centeio. Macha, lançando-me um sorriso, ordenou que trouxessem
pêssegos e ginjas de que ele muito gostava e em seguida estendeu-se no banco e
adormeceu. Arranquei um ramo de tília, cujas folhas e a casca escorriam seiva, e
abanando Macha continuei a minha leitura, não sem me voltar a todos os
instantes para espreitar o caminho dos campos por onde Sérgio devia chegar.
Sónia, sentada sobre uma velha raiz de tília, construía um berço de verdura para
a boneca.
O dia estava muito quente, sem vento; estava-se como numa estufa; as nuvens,
formando um vasto círculo no horizonte, tinham escurecido durante a manhã e
havia uma ameaça de temporal que me agitara fortemente, como sempre em
casos semelhantes. Mas depois do meio dia aquelas nuvens dispersaram-se, o sol
desprendia-se no seio de um céu purificado, o trovão ribombava sobre um único
ponto, rolando os seus roncos nas profundidades de uma pesada nuvem que,
mesmo no limite dos céus e da terra, se confundia com a poeira dos campos e era
sulcada pelos pálidos ziguezagues de um relâmpago longínquo. Tornava-se
evidente que, nós, pelo menos, nada mas tínhamos a recear nesse dia. Por esse
motivo, na parte da estrada que se avistava por detrás do jardim, não cessava de
se ouvir ora o lento e prolongado chiar de um carro cheio de feixes de trigo, ora
os rápidos solavancos das carroças vazias que se cruzavam, ou os passos
apressados dos seus condutores, cujas camisas se viam flutuar com o vento. A
espessa poeira não se dissipava nem caía no solo; ficava suspensa por cima das
sebes através da folhagem transparente das árvores do jardim. Mais distante,
para os lados da granja, elevava-se o sussurro de outras vozes, o chiar de outras
rodas; os montes de trigo dourado, lentamente transportado para junto do
cercado, voavam pelo ar, acumulavam-se em medas e pouco depois os meus
olhos distinguiam uma espécie de edifícios de forma oval, que se destacavam
como outros tantos telhados agudos, e as figuras dos camponeses que
formigavam em redor. Depois, no meio dos campos poeirentos circulavam novos
carros, desfilavam outros feixes amarelados e, ao longe, o barulho das rodas, das
vozes e dos cantos continuava a chegar até onde me encontrava.
A poeira e o calor invadiam tudo, excetuando o nosso predileto cantinho do
jardim. Apesar disso, de todos os lados, no seio daquele calor e daquela poeira, à
luz daquele sol ardente, uma imensidade de trabalhadores tagarelava, gracejava e
movia-se. Eu contemplava Macha, que dormia serenamente no nosso banco tão
fresco, tapada com o seu lenço de cambraia, as ginjas bem pretas e sumarentas,
os nossos vestidos leves e deslumbrantes de alvura, na garrafa a água límpida
onde brincavam os raios iriados do sol e experimentava um singular bem-estar.
«Que hei de fazer?», pensava; «sou por acaso culpada por me sentir tão feliz?
Mas como espalhar em volta de mim esta felicidade? Como e a quem hei de
consagrar completamente a minha pessoa e a minha felicidade?»
O sol já havia desaparecido por detrás dos grandes vidoeiros da alameda, a
poeira caíra no solo, descobria-se ao longe a paisagem, mais límpida e luminosa,
sob a ação dos raios oblíquos; as nuvens haviam-se dissipado completamente;
via do outro lado das árvores, nas proximidades da granja, as pontas das três
novas medas de trigo, de onde os camponeses desciam; enfim, pela última vez
nesse dia, os carros passavam rapidamente, fazendo ressoar as suas ruidosas
harmonias; as mulheres, misturando-lhes os seus cantos, voltavam para casa com
o ancinho ao ombro, cordas na cintura, e Sérgio Mikailovitch não aparecia,
apesar de o ter visto há tempo novamente nas faldas da montanha. Nesse mesmo
momento vi-o no fim da alameda, do lado por onde menos o esperava, pois
tornejara o barranco. Cumprimentava, mostrando-me o rosto alegre e,
verdadeiramente radiante, dirigia-se para mim. Vendo Macha ainda adormecida,
mordeu os lábios, piscou os olhos e aproximou-se nos bicos dos pés; notei logo
que se achava numa daquelas disposições muito particulares de alegria, sem
causa precisa, que eu tanto apreciava nele e a que poderíamos chamar uma
alegria louca. Parecia então um estudante fugido da aula; todo o seu ser, da
cabeça aos pés, respirava contentamento e felicidade.
— Boas tardes, linda violeta, como está? Bem? — disse em voz baixa,
aproximando-se e apertando-me a mão. — E eu, também estou perfeitamente —
respondeu a uma pergunta semelhante que lhe fiz. — Hoje, na verdade, não me
sinto com mais de treze anos, tenho vontade de brincar com um cavalo de pau e
de trepar às árvores!
— Mas que doidinho! — repliquei, fitando os seus olhos risonhos e sentindo que
aquele arrebatamento também me invadia.
— Sim — murmurou, e ao mesmo tempo, com os olhos, fazia-me um sinal,
contendo a custo o riso. — Mas que mal lhe fez essa pobre Macha Karlovna?
Com efeito, não reparava que, fitando-o, continuava a agitar o raminho que tinha
na mão e cujas folhas batiam no lenço da preceptora e lhe tocavam no rosto. Pus
me a rir.
— Ainda há de dizer que não dormiu — prossegui em voz muito baixa, como se
deste modo procurasse não acordar Macha. Mas não o fazia bem com esse fim;
achava apenas muito agradável falar assim com Sérgio.
Ele também movia os lábios, imitando-me como se quisesse igualmente dizer
me em voz baixa alguma coisa que não devia ser ouvida. Depois, vendo o prato
das ginjas, fingiu que se apoderava dele às escondidas, correu para Sónia e foi
sentar-se sob a tília no lugar da boneca. Sónia estava quase a zangar-se, mas
Sérgio fez bem depressa as pazes com ela, organizando um jogo em que deviam,
à porfia, ver qual dos dois comia mais ginjas.
— Quer que mande vir mais — disse eu — ou então vamos nós mesmo apanhá-las?
Sérgio pegou no prato, pôs as bonecas em cima e encaminhámo-nos os três para
o ginjal. Sónia, rindo, corria atrás dele, puxando-lhe pelo casaco para que lhe
restituísse as bonecas. Deu-as e, voltando-se muito seriamente para mim,
disse:
— Como é que não hei de imaginar que tenho junto a mim uma violeta, Katia?
— atirou ele em voz baixa ainda, apesar de não haver pessoa alguma a quem se
receasse despertar. — Desde que me aproximei de si, depois de ter afrontado
tanta poeira, calor e fadiga, julguei sentir a violeta, não aquela violeta de
perfumes ativos e fortes, mas a que desponta, pela primeira vez, modesta ainda,
e que respira ao mesmo tempo a neve que se desfaz e a erva da primavera...
— Mas, diga-me, a colheita caminha bem? — perguntei-lhe logo para ocultar a
alegre confusão que as suas palavras me faziam experimentar.
— Maravilhosamente! Esta gente é excelente e quanto mais se conhece, mais se
estima.
— Oh, sim! Há pouco, antes de chegar, do lugar onde estava, seguia com a vista
os trabalhos e doía-me a consciência de os ver empregar tanto esforço enquanto
eu estava tão descuidada que...
— Não brinque com esses sentimentos, Katia — interrompeu Sérgio com um
aspecto severo, lançando-me ao mesmo tempo um olhar acariciador —; está ali
uma obra santa. Que Deus a defenda de discutir semelhante assunto!
— É unicamente a si que eu digo isto.
— Bem o sei. Então as ginjas?
O recinto onde estavam as ginjeiras achava-se fechado e não havia ali um único
jardineiro (todos tinham sido mandados por Sérgio às suas ocupações). Sónia
correu a buscar a chave; mas ele, sem esperar que minha irmã voltasse, trepou a
um dos ângulos e saltou para o outro lado.
— Dá-me o prato? — disse-me.
— Não, desejaria colhê-las eu mesma; vou procurar a chave. Sónia com certeza
não a encontra.
Mas, ao mesmo tempo, tive a fantasia de surpreender o que ele fazia ali, o que
contemplava, a sua maneira de estar, quando supusesse que ninguém o via. Ou
ainda, muito simplesmente, talvez não tivesse desejo, neste momento, de o
perder um só minuto de vista. Em bicos de pés e através as urtigas, dei a volta ao
ginjal até ao lado oposto, onde o cercado era mais baixo; subindo então a uma
cuba vazia, de modo que o muro me chegava só ao peito, inclinei-me sobre o
cercado. Percorri com os olhos tudo que ali estava, as velhas árvores todas
curvas com largas folhas dentadas, de onde pendiam verticalmente cachos de
frutos escuros e sumarentos, e metendo a cabeça por entre os troncos vi Sérgio
Mikailovitch por entre os ramos contorcidos de uma velha ginjeira. Pensava
certamente que me tinha ido embora e que ninguém o podia ver.
Com a cabeça descoberta e os olhos fechados, estava sentado sobre os restos de
uma velha árvore e rolava negligentemente por entre os dedos um fragmento de
resina de ginjeira. Subitamente reabriu os olhos e murmurou alguma coisa
sorrindo. Aquela palavra e aquele sorriso pareciam-se tão pouco com o que
conhecia dele que tive vergonha de o estar espiando. Tinha-me efetivamente
parecido que aquela palavra era: Katia! Não podia ser isso, pensei. «Querida
Katia!», repetiu mais baixo e ainda mais ternamente. Mas, desta vez, ouvi muito
distintamente estas palavras. O coração batia-me tão forte, senti-me penetrada de
uma tão alegre comoção, experimentei-a a tal ponto que tive de me agarrar ao
muro para não cair e me não trair. Sérgio ouviu o meu movimento e voltou-se
com algum medo para trás; depois, baixando repentinamente os olhos, corou e
tornou-se vermelho como uma criança. Quis-me dizer alguma coisa, mas não
pôde e o seu rosto tornou-se cada vez mais escarlate. Contudo sorriu ao ver-me.
Sorri-lhe também. Toda a sua fisionomia respirava felicidade. Então já não era
um velho tio prodigalizando-me carícias e conselhos: tinha diante de meus olhos
um homem do meu próprio nível, amando-me, receando-me; um homem que eu
mesmo receava e amava. Nada dizíamos, limitando-nos a contemplarmo-nos um
ao outro. Mas de repente franziu as sobrancelhas; sorriso e brilho nos olhos
apagaram-se ao mesmo tempo e retomou comigo a sua atitude fria e paternal,
como se tivéssemos feito alguma coisa má, ele tivesse voltado à sua habitual
serenidade e me houvesse aconselhado a fazer outro tanto.
— Desça daí, pode-se magoar — disse ele. — E arranje os cabelos; não sei o que
me parece.
«Porque dissimula ele ainda? Por que motivo me quer desgostar?», pensei um
tanto despeitada. E neste momento despertou-me um irresistível desejo de o
perturbar ainda e de experimentar o meu poder sobre ele.
— Não, eu mesmo quero fazer a colheita — disse-lhe, e segurando-me a um
ramo próximo, saltei para cima do muro. Ainda Sérgio não tinha tempo de me
agarrar, já eu tinha descido para o chão e corrido para o meio do ginjal.
— Que loucura é essa? — exclamou ele ruborizando-se de novo e esforçando-se
por ocultar a sua perturbação sob uma aparência de despeito. — Podia magoar-se. E como há de sair daqui?
Estava bem mais perturbado do que momentos antes; mas este alvoroço não me
regozijava e pelo contrário assustava-me. Chegava a minha vez; corei, afastei
me dele, não sabendo o que lhe dizer, e pus-me a colher os frutos que eu não
sabia onde meter. Censurava-me, arrependia-me, tinha medo e parecia-me estar,
por esse facto, para sempre perdida a seus olhos. Ficámos assim ambos sem falar
e aos dois pesava este silêncio. Sónia, correndo com a chave, tirou-nos desta
embaraçosa situação. Persistimos contudo em não falarmos e de preferência
dirigimo-nos um e outro a Sónia.
continua na página 20...
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Leia também...
1. Estávamos de luto por nossa mãe / 2. Chegara a primavera / 3a: Um dia, no tempo da entrada dos trigos /
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Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com
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