quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2: Chegara a primavera)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

2

     Chegara a primavera. Os meus aborrecimentos de outrora haviam-se dissipado e tinha-os trocado por aquelas tristezas sonhadoras próprias dos poucos anos, tecidas de esperanças desconhecidas e insaciáveis desejos. E entretanto a minha vida não era já a que levava no princípio do inverno; ocupava-me de Sónia, de música, dos estudos e frequentes vezes ia ao jardim onde passeava bastante tempo sozinha através das alamedas, onde me sentava então em qualquer banco. Sabe Deus com que sonhava, o que ambicionava, o que esperava! Algumas vezes encostava-me noites inteiras, sobretudo no tempo de luar, à janela do meu quarto; outras vezes, às escondidas de Macha e em simples trajo de noite, descia ainda ao jardim e refugiava-me junto do lago, no meio do orvalho; adiantei-me mesmo uma vez até aos campos ou então passava a noite a fazer completamente só a volta do parque.
     É difícil recordar agora, menos ainda compreender, os sonhos que nessa época povoavam a minha imaginação. Se por acaso chego a lembrar-me, custa-me a crer que esses sonhos fossem bem meus, de tal modo eram estranhos e fora da vida real.
     Nos fins de maio, Sérgio Mikailovitch voltou, como tinha prometido.
     A primeira vez que nos veio ver foi uma tarde em que não o esperávamos. Estávamos sentadas no terraço e íamos tomar chá. O jardim estava já todo verdejante e por todos os lados, em Pokrovski, os rouxinóis tinham estabelecido o seu domicílio no meio dos maciços em plena vegetação. Aqui e ali, espessos tufos de lilás elevavam às suas comas esmaltados de tintas brancas ou violáceas e as suas flores estavam prestes a desabrochar. As folhas, nas alamedas de vidoeiros, pareciam transparentes aos raios do sol poente. Sobre o terraço espalhava-se uma sombra refrigerante, enquanto o abundante orvalho da noite inundava a relva. No pátio, atrás do jardim, ouviam-se os últimos murmúrios do dia e os balidos dos rebanhos que voltavam ao aprisco; o pobre doido Nikone passava junto do terraço com um barril, e bem depressa torrentes de água fria, escapando-se de uma bomba de regar, iam traçar círculos escuros sobre a terra recentemente revolvida, em torno das hastes de dálias. Diante de nós, sobre o terraço, em cima de uma toalha branca, reluzia e fervia um samovar com reflexos brilhantes, rodeado de vidros com creme, massa frita e pastéis. Macha, com as suas mãozinhas roliças, lavava as chávenas como boa dona de casa. Eu, sem esperar pelo chá e com o apetite aguçado por um banho de onde saíra, comia um pão molhado no creme fresco e bastante espesso. Tinha vestida uma blusa de linho com as mangas entreabertas e a cabeça envolta num lenço atado sobre os meus cabelos húmidos.
     Macha foi a primeira que o viu, pela janela. 

— Ah! Sérgio Mikailovitch — exclamou ela. — Falávamos justamente a seu respeito. 

     Levantei-me e quis ir mudar de vestuário, mas ele surpreendeu-me mesmo no momento em que chegava à porta. 

— Então, Katia, nada de cerimônias no campo — disse olhando para a minha cabeça e para o lenço e sorrindo. — Não tem tantos escrúpulos diante de Gregório… Faça de conta que é ele que está aqui.

     Mas, ao mesmo tempo, parecia-me precisamente que Sérgio não me contemplava como o poderia fazer Gregório e isso embaraçou-me. 

— Volto imediatamente — respondi afastando-me. 
— Que mal pode haver? — exclamou seguindo-me os passos. — Tomá-la-ão assim por uma camponesa.

«Como me fitou de um modo estranho!», pensei eu enquanto à pressa subia a escada para mudar de fato. «Enfim, graças a Deus, chegou, vamos estar mais alegres!» E depois de ter lançado uma vista de olhos ao espelho, desci muito contente, e sem dissimular o meu entusiasmo, cheguei ao terraço respirando a custo. Sérgio estava sentado junto da mesa e falava com Macha acerca dos nossos interesses. Tendo-me visto, dirigiu-me um sorriso e continuou a conversar. Os nossos negócios, segundo ele dizia, caminhavam o mais satisfatoriamente possível. Só tínhamos agora que acabar o verão no campo e poderíamos ir em seguida ou para São Petersburgo por causa da educação de Sónia ou para o estrangeiro.

— Seria muito bom se viesse conosco ao estrangeiro — disse Macha —, pois sozinhas estaremos lá como num bosque. 
— Ah, prouvera a Deus que me fosse possível acompanhá-las a dar a volta ao mundo — retorquiu Sérgio, meio alegre, meio sério. 
— Está dito — repliquei —, vamos fazer a volta ao mundo!

     Mikailovitch sorriu e meneou a cabeça. 

— E minha mãe? E os meus negócios? Ora, deixemos isso e conte-me como tem passado o tempo. Ainda tem spleen?

     Quando lhe disse que sem ele soubera entreter-me e não me enfadar, o que Macha confirmara, elogiou-me, dirigindo-me palavras e olhares de animação como a uma criança e como se tivesse verdadeiramente direito para isso. Pareceu-me conveniente narrar-lhe minuciosamente e sobretudo com sinceridade o que tinha feito de bom e confessar-lhe, como a um padre, o que, pelo contrário, podia merecer a sua censura. A noite estava tão bela que, acabado o chá, ficamos no terraço, e achei a conversação tão interessante que não reparei em que insensivelmente todos os rumores da casa se tinham dissipado em torno de mim. De toda a parte desprendiam-se os perfumes penetrantes das flores, o orvalho mais abundante banhava a relva, o rouxinol executava os seus trinados muito perto de nós ao abrigo das moitas de lilás, depois calava-se ao ruído das nossas vozes. O céu estrelado parecia baixar-se sobre as nossas cabeças.
     O que me advertiu que a noite chegara foi ouvir de repente, sob o toldo do terraço, o voo surdo de um morcego que se debatia, assustado, à roda do meu vestido branco. Encostei-me à parede e quase gritei; mas o morcego, sem fazer barulho, escapou-se de debaixo do nosso abrigo e foi perder-se nas sombras da noite. 

— Como eu gosto do seu Pokrovski — disse Sérgio Mikailovitch interrompendo a conversação. — Quereria ficar toda a vida neste terraço! 
— Então — replicou Macha — deixe-se ficar. 
— Ah, sim, ficar… e a vida... essa não estaciona... não para! 
— Por que se não casa? — continuou Macha. — Daria um excelente marido! 

— Para quê? — disse ele sorrindo. — Há muito tempo que deixaram de contar comigo para mudar de estado.
— O quê? — retrucou Macha. — Com trinta e seis anos pretende estar já fatigado da vida? 
— Sim, com certeza, e de tal modo fatigado que não desejo senão descansar. Para a gente se casar é preciso ter outra coisa para oferecer. Olhe, pergunte à Katia — acrescentou apontando-me com a cabeça. — Aí tem quem é preciso casar. Quanto a nós, o nosso papel é gozar com a sua felicidade.

     No tom da sua voz percebia-se uma secreta melancolia e uma certa tensão que não me escaparam. Guardou silêncio por um momento; nem eu nem Macha falámos. 

— Imaginem — começou Sérgio chegando-se para a mesa — que de repente, por não sei que deplorável acidente, me casava com uma rapariga de dezessete anos, como Katia Alexandrovna! Eis um belo exemplo, e estou contente que se aplique tão bem às circunstâncias... não podia encontrar outro melhor.

     Pus-me a rir, mas não podia compreender porque se mostrava tão contente, nem o que tão bem se aplicava. 

— Diga-me a verdade, com o coração nas mãos — prosseguiu ele voltando-se para mim jovialmente —, não seria para si uma grande desgraça unir a sua vida a um homem já velho, tendo passado já a sua mocidade, que só quer ficar onde está, quando a menina, Deus sabe onde quereria ir atrás da sua fantasia?

     Não me sentia à vontade e calei-me, não sabendo que responder. 

— Não venho pedir-lhe a sua mão — disse Sérgio rindo —, mas, na verdade, confesse se é um tal marido que sonhava quando à tarde passeava pelas alamedas, e se não seria isto uma grande desgraça? 
— Nem por isso... — comecei. 
— Não seria também um grande bem — concluiu ele. 
— Sim, mas posso-me enganar...

     Mikailovitch interrompeu-me ainda. 

— Vê, Katia tem perfeitamente razão, e estou-lhe agradecido pela sua franqueza e encantado que este assunto se discutisse entre nós. Acrescentarei que seria para mim a maior das desgraças. 
— Sempre é bem original! Não tem mudado nada — disse Macha deixando o terraço a fim de dar as suas ordens para ser servida a ceia.

     Ficámos silenciosos depois da saída de Macha e tudo ficou mudo em torno de nós. Só o rouxinol recomeçara, não aqueles cantos do entardecer, sacudidos e indecisos, mas o da noite, lento e tranquilo, cujos trinados enchiam todo o jardim, e no fundo do barranco havia um outro rouxinol que, pela primeira vez, lhe respondia ao longe. O mais próximo calava-se então, como se estivesse escutando um instante; depois desprendia de novo os seus trilos ainda mais brilhantes e mais levantados. E as suas vozes ressoavam com uma suprema calma no seio deste mundo noturno que é deles e onde nós vivemos como estranhos. O jardineiro encaminhava-se para a estufa das laranjeiras para se deitar e as suas botas grossas ressoavam sobre o caminho, afastando-se cada vez mais. Alguém na montanha soltou dois assobios e em seguida tudo caiu em silêncio. Ouvia-se apenas mover uma folha; contudo o toldo do terraço enfunou se de repente, agitado por uma aragem, e um perfume mais penetrante chegou até nós. Este silêncio embaraçava-me, mas não sabia o que dizer. Contemplei-o. Os seus olhos que brilhavam na sombra estavam fitos em mim. 

— É bom viver neste mundo — murmurou Sérgio.

     Não sei porquê, mas ao ouvir estas palavras suspirei. 

— O que tem? — perguntou-me. 
— Sim, é bom viver neste mundo! — repeti eu.

     E ficámos calados outra vez, e de novo me senti pouco à vontade. Passava-me sempre pela ideia que o havia desgostado, concordando em que ele estava velho; queria-o consolar e não sabia como o fazer. 

— Adeus! — disse-me Mikailovitch levantando-se. — Minha mãe espera-me para a ceia. Mal a vi hoje. 
— Desejaria bem que ouvisse uma nova sonata. 
— Para a próxima vez — respondeu-me friamente, ou pelo menos assim me pareceu.

     Depois dando um passo repetiu-me simplesmente: 

— Adeus!

     Nesta ocasião pareceu-me ainda mais que lhe havia causado algum pesar e fiquei muito triste. Acompanhámo-lo, Macha e eu, até ao vestíbulo e ficámos no pátio, olhando o caminho por onde ele tinha desaparecido. Quando se deixou de ouvir o último galopar do seu cavalo, pus-me a passear pelo terraço, a contemplar o jardim e, através do nevoeiro húmido no seio do qual nadavam todos os rumores noturnos, fiquei por muito tempo ainda a ver e a escutar tudo o que se apresentava à minha fantasia.
     Sérgio voltou uma segunda e uma terceira vez, e o embaraço que a estranha conversação havida entre ambos me fizera experimentar não tardou a desaparecer para nunca mais voltar.
     No decorrer do verão, veio visitar-nos duas ou três vezes por semana; habituei me tanto a ele que, quando se demorava alguns dias mais sem nos ver, parecia me penoso viver assim isolada; zangava-me intimamente com ele e achava que procedia mal abandonando-me. Transformou-se junto de mim numa espécie de camarada amigo, enchendo-me de perguntas, provocando da minha parte a mais sincera franqueza, dando-me conselhos, animando-me, ralhando-me às vezes. Mas apesar dos seus esforços para ficar sempre ao meu nível, compreendia que a par de tudo o que nele conhecia existia um mundo inteiro ao qual eu permanecia estranha e onde Sérgio não julgava necessário admitir-me, e isso, mais que tudo, conservava em mim a deferência que lhe dispensava e ao mesmo tempo me atraía para ele. Sabia por Macha e pelos vizinhos que além dos seus cuidados pela sua velha mãe, com a qual vivia, além dos seus trabalhos agrícolas e da nossa tutela, tinha ainda a seu cargo certos negócios que interessavam a nobreza e que lhe causavam bastantes desgostos; mas de que maneira encarava esta situação, quais eram os seus pensamentos, os seus planos, as suas esperanças, é o que nunca pude averiguar. Se tentava levar a conversa para os seus negócios, a sua fronte enrugava-se de uma certa maneira, como se ele dissesse: «Fiquemos por aqui, não seja curiosa; o que ganhava com isso?» E mudava de assunto. Ofendi-me ao princípio, depois acostumei-me de tal modo que só falávamos do que me dizia respeito e acabava por achar isto muito natural.
     Ao princípio experimentei alguma contrariedade, ao passo que em seguida achei, pelo contrário, um certo encanto em ver a perfeita indiferença, direi quase desprezo, que Mikailovitch testemunhava por mim. Nunca, nem pelos seus olhares nem pelas suas palavras, me deixava compreender sequer se me achava bonita; longe disso, franzia as sobrancelhas e punha-se a rir quando alguém dizia diante dele que não era feia. Comprazia-se mesmo em notar em mim defeitos no rosto e a impacientar-me a propósito disso. Os vestidos à moda, os penteados com que Macha gostava de me enfeitar nos dias de festa não faziam senão excitar os seus gracejos, o que causava grande desgosto àquela boa amiga e nos primeiros tempos me desconcertava a mim própria com alguma razão. Macha, que decidira no seu pensamento que eu agradava a Sérgio Mikailovitch, não podia compreender como não preferisse que aquela mulher, de quem ele gostava, se mostrasse bela. Mas bem depressa compreendi o que era preciso fazer para com ele. Sérgio queria julgar que eu me não enlevava com a toilette. E quando conheci bem isto, não houve mais em mim a menor sombra de garridice; adotei uma simplicidade no vestuário que lhe devia agradar. Via que ele me amava: era como criança ou como mulher? Não lhe perguntei; este amor era-me querido, e sentindo que Mikailovitch me considerava a melhor rapariga do mundo, não podia desejar que aquela fraude continuasse a cegá-lo. E, com efeito, enganava-o quase involuntariamente. Mas, fazendo-o, tornava-me melhor. Parecia-me mais digno descobrir-lhe os sentimentos bons da minha alma do que os atrativos da minha pessoa. Os meus cabelos, as mãos, o porte, o andar, quaisquer que fossem, bons ou maus, entendia que num golpe de vista ele poderia tê-los apreciado e que sabia muito bem que, se eu o tivesse querido enganar, nada podia acrescentar ao meu exterior. Pelo contrário, Sérgio não conhecia a minha alma; porque a amava, porque precisamente se estava engrandecendo e desenvolvendo, porque, enfim, em matéria semelhante era-me fácil enganá-lo, e efetivamente assim o fazia. Esse alívio experimentei junto dele quando uma vez compreendi tudo isso. Estas agitações sem motivo, esta necessidade de movimento que de algum modo me oprimia desapareceram completamente. Pareceu-me desde então que, de frente, de lado, sentada ou em pé, quer tivesse os cabelos lisos ou levantados, Mikailovitch me fitava sempre com prazer, que me conhecia agora inteiramente, e imaginei que ele estava tão satisfeito comigo como eu própria. Creio verdadeiramente que se, contra o seu costume, ele me tivesse dito subitamente, como os outros, que era bonita, me teria zangado um pouco. Mas, em compensação, que alegria, que serenidade experimentava no fundo da alma quando, na ocasião em que os meus lábios proferiram algumas palavras, me olhava com atenção e me dizia num tom comovido, que se esforçava por tornar agradável:

— Sim, sim, parece-se com seu pai! É uma boa menina e devo dizer-lhe.

    E porque aceitava eu estas recompensas que vinham encher de alegria e de orgulho o meu coração? Por ter dito que simpatizava com o amor do velho Gregório pela neta, por me ter comovido até às lágrimas ao ler poesias ou um romance, por ter preferido Mozart a Schuloff. Era para mim objeto de espanto a desacostumada intuição que me fazia adivinhar o que era bom e o que se devia amar, quando não sabia ainda positivamente o que era bom e o que era preciso amar. A maior parte dos meus passados hábitos e os meus gostos desagradavam lhe e bastava um imperceptível movimento das suas sobrancelhas, um olhar para me fazer compreender que desaprovava o que eu queria fazer, ou certo ar de compaixão um pouco desdenhoso que lhe era peculiar para que eu bem depressa julgasse não amar já o que tinha amado. Se imaginava dar-me um conselho sobre qualquer coisa, sabia antecipadamente o que ia dizer-me. Interrogava-me com o olhar e já este olhar me havia arrancado a ideia que ele queria conhecer. Todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos desse tempo não existiam já em mim, e eram o seu pensamento, o seu sentimento que se tornavam de súbito meus, que penetravam na minha vida e a vinham de certa maneira iluminar. De um modo completamente insensível para mim, comecei a ver todas as coisas com outros olhos: Macha, Sónia, os criados, a mim mesmo e as minhas próprias ocupações. Os livros, que dantes lia unicamente para combater o tédio, apareceram-me de repente como um dos maiores encantos da vida; e isto sempre pela única razão de que nos entretínhamos, Sérgio e eu, com livros, que líamos juntos e que ele me trazia. Outrora considerava como uma penosa obrigação, que me esforçava em desempenhar só por espírito de dever, o meu trabalho para com Sónia, as lições que lhe dava; agora que Mikailovitch vinha assistir algumas vezes a elas, uma das minhas alegrias era observar os progressos de Sónia. Aprender inteiro um trecho de música tinha-me sempre parecido impossível, e presentemente, sabendo que Sérgio o escutaria e que talvez o aplaudisse, não hesitava em tocar quarenta vezes seguidas a mesma passagem, tantas que a pobre Macha acabara por tapar os ouvidos com algodão em rama, enquanto eu não encontrava aborrecimento algum. Estas antigas sonatas fraseavam-se hoje sob os meus dedos de maneira diferente e muito superior. Até a própria Macha, que eu conhecia e amava como a mim mesmo, estava a meu ver completamente mudada. Compreendia só então que coisa alguma a obrigara a ser o que era para nós, uma mãe, uma amiga, como uma escrava das nossas fantasias. Compreendia toda a abnegação, toda a dedicação desta criatura tão afetuosa, compreendia a grandeza das minhas obrigações para com ela e estimava-a ainda mais. Também me ensinara a considerar os nossos criados, os nossos camponeses e os nossos droroviés¹ de um modo muito diferente do que até ali eu fizera. Chega a ser cómico dizê-lo, mas é certo que aos dezessete anos vivia entre eles tão estranha como aconteceria entre gente que eu nunca tivesse visto; nem uma só vez me passara pela mente que também eles eram seres suscetíveis de amor, de desejos, de pesares, como eu. O jardim, os bosques, os campos, que desde criança conhecera, tornaram-se-me subitamente objetos novos cuja beleza só então admirei. Não era sem razão que Sérgio muitas vezes dizia que, na vida, há só uma felicidade certa: viver para os outros. Parecia-me estranho e não o compreendia; mas essa convicção, mesmo sem o meu espírito dar por isso, penetrava-me pouco a pouco no íntimo do coração. Numa palavra, abrira diante de mim uma vida nova, cheia de gozos no presente, sem ter feito a mínima alteração na minha existência passada e sem nada lhe ter ajuntado, desenvolvendo apenas em mim cada uma das minhas sensações. Tudo, desde a minha infância, ficara sepultado em volta de mim numa espécie de silêncio e só esperara a sua presença para elevar a voz, falar à minha alma e enchê-la de felicidade.
     Muitas vezes, durante este verão, subia ao meu quarto, deitava-me sobre o leito e, ali, pensando nas minhas antigas angústias da primavera, transbordando de desejos e de esperanças no futuro, sentia-me presa numa outra perturbação: a da felicidade presente. Não podia conciliar o sono, levantava-me, sentava-me no leito de Macha e dizia-lhe que era completamente feliz, o que, quando hoje me recordo, era perfeitamente inútil confessar-lhe: ela bem o via. Respondia-me que também nada tinha a desejar, que era muito feliz e abraçava-me.
     Eu acreditava nela, de tal modo me parecia justo e necessário que todos fossem felizes. Mas Macha queria dormir e, fingindo-se zangada, fazia-me dali sair e adormecia; eu, pelo contrário, refletia ainda em todas as razões que tinha para ser feliz. Algumas vezes levantava-me e tornava a começar as minhas orações, rezando com todo o fervor do meu coração para melhor agradecer a Deus toda a ventura que me concedia.
     No meu quarto tudo estava em sossego; ouvia-se apenas a respiração regular de Macha enquanto dormia e o tique-taque do relógio que lhe ficava à cabeceira; voltava-me, murmurava algumas palavras, benzia-me ou beijava a cruz que trazia ao pescoço. As portas estavam fechadas; as janelas também; não sei que zumbido de mosca debatendo-se num canto chegava aos meus ouvidos; desejaria nunca abandonar aquele quarto, que a manhã não viesse dissipar aquela atmosfera toda impregnada da minha alma e de que me sentia rodeada. Parecia me que os meus sonhos, os meus pensamentos, as minhas orações eram tantas outras essências animadas que, naquelas trevas, viviam comigo, volteavam em torno da minha cama, pairavam sobre a minha cabeça. E cada pensamento era o seu pensamento, cada sentimento o seu sentimento. Ainda não sabia o que era o amor, imaginava que podia ser sempre assim e que um tal sentimento se dedica sem nada pedir em troca.

continua na página 20...
___________________

Leia também...
1. Estávamos de luto por nossa mãe / 2. Chegara a primavera /   
___________________

Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

________________________

Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário