domingo, 8 de novembro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (4)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Esperar pode ser uma alegria. Para quem espreita o bem--amado sabendo que acorre, que a ama, a espera é uma pro messa deslumbrante. Mas passada a embriaguez confiante do amor que muda a própria ausência em presença, misturam-se ao vazio da ausência os tormentos da inquietação: o homem também pode nunca mais voltar. Conheci uma mulher que a cada encontro acolhia o amante com espanto. "Pensava que não voltasses mais", dizia. E se ele perguntava por quê: "Poderias não voltar; quando te espero tenho sempre a impressão de que não te verei mais". Mas principalmente ele pode deixar de amar: pode amar outra mulher. Pois a violência com que a mulher procura iludir-se dizendo: Ele me ama loucamente e só a mim pode amar", não exclui as torturas do ciúme. Afirmações apaixonadas e contraditórias são peculiares à má-fé. Assim o louco, que obstinadamente se imagina Napoleão, não se embaraça em reconhecer que é também barbeiro. Raramente a mulher consente em indagar: gosta ele realmente de mim? Mas cem vezes ela se interroga: não gosta ele de outra? Não admite que o fervor do amante tenha podido diminuir pouco a pouco, nem que ele dê menos valor do que ela ao amor: logo inventa rivais. Ela considera o amor como um sentimento livre e como um encantamento mágico ao mesmo tempo; e estima que "seu" homem continua a amá-la em sua liberdade enquanto é "enleado", "pegado numa armadilha" por uma hábil intrigante. O homem possui a mulher enquanto assimilada a ele, em sua imanência. É por isso que desempenha tão facilmente o papel de um Boubouroche¹; tem dificuldade em imaginar que ela seja também uma outra que lhe escapa: o ciúme nele não passa em geral de uma crise passageira, como o próprio amor. A crise pode ser violenta e até assassina, mas é raro que a inquietação se instale duradouramente nele. O ciúme apresenta-se principalmente nele como um derivativo: quando seus negócios vão mal, quando se sente molestado pela vida, então é que se diz achincalhado pela mulher². Ao contrário, a mulher amando o homem em sua alreridade, em sua transcendência, sente-se a cada instante em perigo. Não há grande distância entre a traição da ausência e a infidelidade. Desde que se sente desarmada, ela torna-se ciumenta: dadas suas exigências, esse é sempre mais ou menos o caso: suas censuras, suas queixas traduzem-se por cenas de ciúme, quaisquer que sejam os pretextos; assim é que exprimirá a impaciência e o tédio da espera, o amargo sentimento de sua dependência, a tristeza de ter apenas uma existência mutilada. É todo o seu destino que está em jogo em cada olhar que o homem amado endereça a outra mulher, porquanto alienou nele todo seu ser. Por isso se irrita, se o olhar do amante se volta um instante para uma estranha. E se ele lhe observa que ela acaba de contemplar longamente um desconhecido, ela responde: "Não é a mesma coisa". E tem razão. Um homem olhado por uma mulher nada recebe desta: o dom só começa a partir do momento em que a carne feminina se faz presa. Ao passo que a mulher ambicionada é de imediato metamorfoseada em objeto desejável e desejado; e a amorosa desprezada "retorna ao barro vulgar". Por isso está ela sempre de atalaia. Que faz ele? Que olha ele? Com quem fala? O que um desejo deu a ela, um sorriso pode retomar-lhe. Basta um instante para precipitá-la "da luz nacarada da imortalidade" no crepúsculo quotidiano. Tudo recebeu do amor, pode tudo perder, ao perdê-lo. Impreciso ou definido, sem fundamento ou justificado, o ciúme é para a mulher uma tortura enlouquecedora porque é uma contestação radical do amor; é preciso, se a traição é certa, renunciar a fazer do amor uma religião, ou renunciar ao amor; é uma subversão tão radical que se compreende que a amorosa, ora duvidando, ora se iludindo, sinta-se obcecada pelo desejo e pelo temor de descobrir a verdade mortal.

[1] Personagem ridículo de Courteline. (N. do T.)
[2] É o que ressalta, entre outras coisas, da obra de Lagache, Nature et formes de la jalousie.

     Arrogante e ansiosa a um tempo, acontece amiúde que a mulher, estando sempre com ciúme, o esteja sempre sem razão: Juliette Drouet conheceu as angústias da suspeita em relação a todas as mulheres de quem Hugo se aproximava, esquecendo somente de temer Léonie Biard, que durante oito anos foi amante dele. Na incerteza, toda mulher é uma rival, um perigo. O amor mata a amizade porque a amorosa se encerra no universo do homem amado; o ciúme exaspera-lhe a solidão e, desse modo, torna a dependência dela mais estreita. Nisso ela encontra entretanto um recurso contra o tédio: conservar um marido é um trabalho; conservar um amante, uma espécie de sacerdócio. A mulher que se negligenciava, perdida numa adoração feliz, recomeça a cuidar de si logo que pressente uma ameaça. Toalete, arranjo do lar, exibições mundanas tornam-se os momentos de um combate. A luta é uma atividade tônica: enquanto tem quase certeza de vencer, a guerreira encontra nela um prazer pungente. Mas o temor angustiado da derrota transforma em humilhante servidão o dom generosamente consentido. O homem ataca para se defender. Uma mulher, ainda que orgulhosa, é forçada a fazer-se meiga e passiva; manobras, prudência, ardis, sorrisos, encantos, docilidade são suas melhores armas. Revejo essa jovem mulher a cuja porta bati de improviso uma noite; deixara-a duas horas antes mal pintada, negligentemente vestida, com um olhar morto; agora ela o esperava; quando deu comigo, retomou sua expressão habitual, mas durante um momento tive tempo de vê-la preparada para ele, crispada em seu medo e sua hipocrisia, já preparada para todos os sofrimentos por trás de seu sorriso jovial; estava penteada com cuidado, uma maquilagem insólita animava-lhe as faces e os lábios, fantasiara-se com uma blusa de renda de deslumbrante brancura. Vestido de festa, arma de combate. Os massagistas, os caracterizadores, os "estetas" sabem que seriedade trágica emprestam suas clientes a cuidados que parecem fúteis; é preciso inventar novas seduções para o amante, é preciso tornar-se a mulher que ele almeja encontrar e possuir. Mas todo esforço é vão; ela não ressuscitará em si essa imagem da Outra que de início o atraíra, que pode atraí-lo em uma outra. Há no amante a mesma dúplice e impossível exigência que há no marido: quer a amante absolutamente sua e no entanto estranha; ele a quer exatamente de acordo com seu sonho e diferente de tudo o que sua imaginação inventa, uma resposta à sua espera e uma surpresa imprevista. Essa contradição atormenta a mulher e a vota ao malogro. Ela tenta moldar-se em obediência ao desejo do amante; muitas mulheres que tinham desabrochado nos primeiros tempos de um amor que confirmava seu narcisismo, assustam, por um servilismo maníaco, quando se sentem menos amadas; obcecadas, empobrecidas, irritam o amante; dando-se a ele cegamente, a mulher perdeu essa dimensão de liberdade que a princípio a tornava fascinante. Ele buscava seu reflexo nela: mas, se o encontra demasiado fiel, aborrece-se. Uma das desgraças da amorosa está em que seu próprio amor a desfigura, a aniquila; fica sendo somente essa escrava, essa criada, esse espelho por demais dócil, esse eco por demais fiel. Quando o percebe, seu desespero diminui-lhe ainda o valor; em meio às lágrimas, às reivindicações, às cenas, acaba perdendo todo atrativo. Um existente é o que faz; para ser, ela confiou numa consciência estranha e renunciou a fazer qualquer coisa. "Só sei amar", escreve Julie de Lespinasse. Eu que sou tão somente amor: este título de romance¹ é a divisa da amorosa; ela é somente amor e, quando o amor se acha privado de seu objeto, ela não é mais nada.

[1] Dominique Rollin. 

     Muitas vezes compreende seu erro; tenta então reafirmar sua liberdade, reencontrar sua alteridade; torna-se coquete. Desejada por outros homens, interessa novamente o amante entediado: é o tema batido de muitos romances "perversos"; a separação basta por vezes para devolver-lhe o prestígio; Albertine parece insossa quando se acha presente e dócil; à distância volta a ser misteriosa e Proust ciumento valoriza-a novamente. Mas essas manobras são delicadas; se o homem as penetra, revelam apenas irrisoriamente a servidão de sua escrava. E seu próprio êxito não vai sem perigo: é porque é sua que o amante desdenha a amante, mas é porque é sua que a ela se prende; será o desdém ou o apego que uma infidelidade arruinará? Pode ser que, despeitado, o homem se afaste da indiferente: ele a quer livre, mas ele a quer dada. Ela conhece esse risco: seu coquetismo com isso se paralisa. É quase impossível a uma amorosa jogar habilmente o jogo; tem medo demais de cair na própria armadilha. E, na medida em que ainda ama o amante, repugna-lhe enganá-lo: como permaneceria ele um deus a seus olhos? Ganhando a partida, ela destrói o ídolo; perdendo-a, perde-se a si mesma. Não há salvação.
     Uma amorosa prudente — mas tais palavras não vão juntas — esforça-se por converter a paixão do amante em ternura, em amizade, em hábito; ou tenta segurá-lo por laços sólidos: filho, casamento. Esse desejo de casamento obsidia muitas ligações: é o da segurança. A amante hábil tira proveito da generosidade do jovem amor para obter um seguro contra o futuro. Mas, quando se entrega a essas especulações, não merece mais o nome de amorosa. Porque esta sonha loucamente com captar para sempre a liberdade do amante mas não com o aniquilar. É por isso que salvo o caso muito raro em que o livre e mútuo empenho se perpetua durante toda uma vida, o amor-religião conduz à catástrofe. Com Mora, Mlle de Lespinasse teve a sorte de se cansar em primeiro lugar; cansou-se porque encontrou Guibert que por sua vez não demorou em se cansar dela. O amor de Mme d'Agoult e Liszt morreu dessa dialética implacável: o arrebatamento, a vitalidade, a ambição que tornavam Liszt tão amável votavam-no a outros amores. A religiosa portuguesa tinha que ser abandonada. A chama que tornava d'Annunzio tão cativante¹ tinha por preço sua infidelidade. Uma ruptura pode marcar profundamente um homem, mas afinal ele tem sua vida de homem a viver. A mulher abandonada não é mais nada, não tem mais nada. Se lhe perguntam: "Como vivia, antes?", não se lembra sequer. Esse mundo que era seu, ela o deixou cair em cinzas para adotar uma nova pátria de que é bruscamente expulsa; renegou todos os valores em que acreditava, destruiu suas amizades; encontra-se sem teto sobre a cabeça e em derredor é o deserto. Como recomeçaria uma vida nova, se não há nada fora do amado? Refugia-se em delírios, como outrora no claustro; ou se é demasiado sensata, resta-lhe apenas morrer: muito rapidamente, como Mlle de Lespinasse ou pouco a pouco; a agonia pode durar muito tempo. Quando uma mulher, durante dez ou vinte anos, se dedicou a um homem de corpo e alma, quando ele se manteve firmemente sobre o pedestal em que o ergueu, o abandono em que ele a deixa pode ser uma catástrofe fulminante. "Que poderei fazer, indagava aquela mulher de 40 anos, se Jacques não me ama mais?" Vestia-se, pintava-se com cuidado, mas seu rosto endurecido, já gasto, não podia suscitar um novo amor; poderia ela própria amar outro depois de vinte anos à sombra de um homem? Restam ainda muitos anos de vida quando se tem 40 anos. Revejo outra mulher que conservava olhos belos, traços nobres, apesar de um rosto inchado pelo sofrimento e que deixava, sem o perceber sequer, as lágrimas escorrerem-lhe pelas faces, em público, cega e surda. Agora, o deus diz a outra as palavras inventadas para ela; rainha destronada, não sabe mais se jamais reinou sobre um verdadeiro reino. Se é inda moça, a mulher tem possibilidades de curar-se: um novo amor poderá curá-la. Por vezes, a este se entregará com um pouco mais de reserva, compreendendo que o que não é único não pode ser absoluto; mas muitas vezes ela se quebrará de encontro a esse novo amor, com muito mais violência ainda que da primeira vez, porque terá de resgatar também o malogro anterior. O malogro do amor absoluto só é uma experiência fecunda se a mulher é capaz de recuperar o domínio de si mesma: separada de Abelardo, Heloísa não se transformou num destroço porque, dirigindo uma abadia, construiu uma existência autônoma. As heroínas de Colette têm demasiado orgulho e recursos para se demolirem com uma decepção amorosa: Renée Méré salva-se pelo trabalho. E "Sido" dizia à filha que não se inquietasse demais com seu destino sentimental, porque sabia que Colette não era apenas uma amorosa. Mas há poucos crimes que acarretem pior castigo do que esse erro generoso: entregar-se por inteiro a outras mãos.

[1] No dizer de Isadora Duncan.

     O amor autêntico deveria assentar no reconhecimento recíproco de duas liberdades; cada um dos amantes se sentiria então como si mesmo e como o outro: nenhum abdicaria sua transcendência, nenhum se mutilaria; ambos desvendariam juntos, no mundo, valores e fins. Para um e para outro, o amor seria uma revelação de si mesmo pelo dom de si e o enriquecimento do universo. Em sua obra Connaissance de soi, Georges Gusdorf resume muito exatamente o que o homem pede ao amor.

   O amor revela-nos a nós mesmos, fazendo-nos sair de nós mesmos. Nós nos afirmamos ao contato do que nos é estranho e complementar. O amor, como forma do conhecimento, descobre novos céus e novas terras na própria paisagem em que sempre vivemos. Eis o grande segredo: o mundo é outro, eu sou outro. E não sou mais o único a sabê-lo. Melhor até: foi alguém que me ensinou. A mulher desempenha, pois, um papel indispensável e capital na consciência que ele assume de si mesmo.

     Daí a importância de que o aprendizado amoroso se reveste para o jovem¹; vimos como Stendhal e Malraux se maravilham com o milagre que fez que "eu mesmo seja outro . Mas Gusdorf erra ao escrever: "E do mesmo modo o homem representa para a mulher um intermediário indispensável de si mesma a si mesma", porquanto hoje a situação dela não é igual; o homem é revelado sob outra forma, mas permanece ele mesmo e sua nova fisionomia integra-se no conjunto de sua personalidade. Só ocorreria o mesmo com a mulher se ela também existisse essencialmente como para si; o que implicaria a posse de uma independência econômica, sua possibilidade de projetar-se para fins próprios e superar-se sem intermediários para a coletividade. Então são possíveis os amores em termos de igualdade, como o que Malraux descreve entre Kyo e May. Pode mesmo acontecer que a mulher desempenhe o papel viril e do minador como Mme de Warens em face de Rousseau, Léa em face de Chéri. Mas, na maioria dos casos, a mulher só se conhece como outro; seu para outrem confunde-se com seu próprio ser; o amor não é para ela um intermediário de si a si, porque ela não se reencontra em sua existência subjetiva; permanece abismada nessa amante que o homem não somente revelou como criou; sua salvação depende dessa liberdade despótica que a fundou e pode em um instante aniquilá-la. Ela vive a tremer diante daquele que tem seu destino nas mãos, sem o saber e sem o querer; ela está em perigo em outro, testemunha angustiada e impotente de seu próprio destino. Tirano sem o querer, sem o querer carrasco, esse outro, a despeito de ambos, tem uma feição inimiga; em lugar da união procurada, a amorosa conhece a mais amarga das solidões, em lugar da cumplicidade, a luta e amiúde o ódio. O amor na mulher é uma tentativa suprema de superar, assumindo-a, a dependência a que se acha condenada; mas, mesmo consentida, essa dependência não se pode viver senão no medo e no servilismo.

[1] Ver vol I.

     Os homens não cessaram de proclamar que o amor é para a mulher sua suprema realização. "Uma mulher que ama como mulher, ainda se torna mais profundamente mulher", diz Nietzsche; e Balzac: "Em um plano elevado, a vida do homem está na glória, a da mulher no amor. A mulher só se iguala ao homem fazendo de sua vida uma perpétua oferenda, como a do homem é uma perpétua ação". Mas trata-se ainda aqui de uma mistificação cruel, pois o que ela oferece eles não se esforçam em absoluto por aceitar. O homem não precisa da dedicação incondicional que reclama, nem do amor idólatra que lhe acaricia a vaidade; só os acolhe com a condição de não satisfazer as exigências que tais atitudes reciprocamente implicam. Ele recomenda à mulher que dê: e os dons dela o apoquentam; ela vê-se embaraçada com seus inúteis presentes, com sua existência vã. No dia em que for possível à mulher amar em sua força, não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma mas para se encontrar, não para se demitir mas para se afirmar, nesse dia o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal. Enquanto isso não acontece, ele resume sob sua forma mais patética a maldição que pesa sobre a mulher encerrada no universo feminino, a mulher mutilada, incapaz de se bastar a si mesma. As numerosas mártires do amor testemunharam contra a injustiça de um destino que lhes propõe, como derradeira salvação, um inferno estéril.
continua página 438...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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