Hannah Arendt
Parte II
IMPERIALISMO
Se eu pudesse, anexaria os planetas.
Cecil Rhodes
Três décadas — de 1884 a 1914 — separam o século XIX — que terminou com a corrida dos
países europeus para a África e com o surgimento dos movimentos de unificação nacional na
Europa — do século XX, que começou com a Primeira Guerra Mundial. É o período do
Imperialismo, da quietude estagnante na Europa e dos acontecimentos empolgantes na Ásia e
na África.[1] Certos aspectos fundamentais dessa época assemelham-se tanto aos fenômenos
totalitários do século XX que se poderia considerar esse período como estágio preparatório
para as catástrofes vindouras. Por outro lado, sua calmaria faz com que pareça ainda parte
integrante do século XIX. Não podemos deixar de ver esse passado — tão próximo e, contudo,
tão remoto — com os olhos demasiado bem informados de quem conhece o fim da estória e
sabe que ele levou a uma interrupção quase completa do fluxo da história, pelo menos no que
diz respeito ao Ocidente, como a conhecíamos havia mais de 2 mil anos. No entanto, devemos
também confessar uma certa nostalgia pelo que ainda se pode chamar "idade de ouro da
segurança", ou seja, por uma época em que mesmo os horrores eram ainda caracterizados por
certa moderação e controlados por certa respeitabilidade e podiam, portanto, conservar alguma
relação com a aparência geral de sanidade social. Em outras palavras, por mais historicamente
próximo que esteja esse passado, a experiência ulterior de campos de concentração e fábricas de
morte é tão alheia à sua atmosfera quanto o é de qualquer outro período anterior da história do
Ocidente.
O principal evento intra-europeu do período imperialista foi a emancipação política da
burguesia, a primeira classe na história a ganhar a proeminência econômica sem aspirar ao
domínio político. A burguesia havia crescido dentro, e junto, do Estado-nação, que, quase por
definição, governava uma sociedade dividida em classes, colocando-se acima e além delas.
Mesmo quando a burguesia já se havia estabelecido como classe dominante, delegara ao Estado todas as decisões
políticas. Só quando ficou patente que o Estado-nação-não se prestava como estrutura para maior
crescimento da economia capitalista, a luta latente entre o Estado e a burguesia se transformou em luta
aberta pelo poder. Durante o período imperialista, nem o Estado nem a burguesia conquistaram uma
vitória definitiva. As instituições nacional-estatais resistiram à brutalidade e à megalomania das
aspirações imperialistas dos burgueses, e as tentativas burguesas de usar o Estado e os seus instrumentos
de violência para seus próprios fins econômicos tiveram apenas sucesso parcial. Isso mudou quando a
burguesia alemã apostou tudo no movimento hitlerista para governar com o auxílio da escória, mas já era
tarde demais para a total conquista do poder: a burguesia conseguiu destruir o Estado-nação que lhe
perturbava o exercício da hegemonia, mas foi uma vitória de Pirro; a ralé mostrou-se perfeitamente capaz
de cuidar da política por si mesma e liquidou a burguesia juntamente com todas as outras classes e
instituições.
continua página 139...
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Parte II Imperialismo (1. A Emancipação Política da Burguesia)
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[1] J. A. Hobson, Imperialism, Londres, 1905, 1938, p. 19: "Embora, por conveniência, o ano de 1870 tenha sido
tomado como indicativo do início de uma política consciente de Imperialismo, é evidente que esse movimento não
atingiu o seu pleno ímpeto até meados da década de 80, [mais precisamente] a partir de cerca de 1884".
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