Hannah Arendt
Parte III
TOTALITARISMO
Os homens normais não sabem que tudo é possível.
David Rousset
3.1 - O chamado Estado Totalitário
continuando... Um exemplo clássico dessa informidade planejada ocorreu na organização do antissemitismo científico.
Em 1933, foi fundado em Munique um instituto para o estudo da questão judaica (Institut zur Erforschung
der Juden-frage). Partindo da premissa de que a questão judaica houvesse determinado a evolução de toda
a história da Alemanha, esse órgão foi logo ampliado para tornar-se um instituto de pesquisa da história
alemã moderna. Chefiado pelo conhecido historiador Walter Frank, transformou as universidades
tradicionais em sedes do aparente saber pseudocientífico. Em 1940, outro instituto para o estudo da
questão judaica foi criado em Frankfurt, sob a chefia de Alfred Rosenberg, cuja posição como membro
do partido era muito superior. Consequentemente, o instituto de Munique foi relegado a uma existência
fantasma; o instituto de Frankfurt, não o de Munique, é que deveria receber os tesouros das coleções
judaicas roubadas na Europa e transformar-se em biblioteca central sobre o judaísmo. No entanto,
quando, alguns anos mais tarde, essas coleções chegaram à Alemanha, o que havia de mais precioso não
foi para Frankfurt, mas para Berlim, para as mãos do departamento especial da Gestapo encarregado da
liquidação (e não apenas do estudo) da questão judaica, cujo chefe era Eichmann. Nenhuma das
instituições anteriores foi abolida, de sorte que em 1944 a situação era esta: atrás da fachada dos
departamentos de história das universidades, erguia-se o poder "mais legítimo" do instituto de Munique,
por trás do qual estava o instituto de Frankfurt de Rosenberg e, somente por trás dessas três fachadas,
escondido e protegido por elas, estava o verdadeiro centro da autoridade, o Reichssicherheitshauptamt,
uma divisão especial da Gestapo.
A despeito da sua constituição escrita, a fachada do governo soviético é ainda mais inconsistente.
Destina-se ainda mais a impressionar os estrangeiros do que a administração estatal que os nazistas
herdaram da República de Weimar e conservaram em funcionamento. Não tendo, como os nazistas,
processado a duplicação de cargos na fase de coordenação, o regime soviético confia ainda mais na
criação de novos órgãos para relegar à sombra os antigos centros do poder. O gigantesco aumento do
aparelho burocrático que esse método acarreta é controlado pela repetida liquidação através de expurgos.
Não obstante, podemos distinguir, também na Rússia, pelo menos três organizações absolutamente distintas: o aparelho
soviético ou estatal, o aparelho do partido e o aparelho da NKVD, cada qual dispondo de seus próprios
departamentos independentes de economia e de política, um ministério de educação e cultura, uni
departamento militar etc.[41]
Na Rússia, o poder ostensivo da burocracia do partido, em contraposição com o verdadeiro poder da
polícia secreta, corresponde à duplicação original de partido e Estado que ocorreu na Alemanha nazista, e
a multiplicação só é evidente na própria polícia secreta, que possui uma rede extremamente complicada e
vastamente ramificada de agentes, na qual um departamento está sempre ocupado em supervisionar e
espionar o outro. Cada empreendimento na União Soviética tem o seu departamento especial de polícia
secreta, que espiona tanto os membros do partido como o pessoal comum. Coexiste com esse
departamento outra divisão de polícia do próprio partido, que por sua vez vigia todo mundo, inclusive os
agentes da NKVD, e cujos membros são desconhecidos pela entidade rival. A essas duas organizações de
espionagem, devem acrescentar-se os sindicatos das fábricas, cuja função é fazer com que os
trabalhadores cumpram as metas que lhes foram atribuídas. Muito mais importante que esses aparelhos,
porém, é o "departamento especial" da NKVD, que representa "uma NKVD dentro da NKVD", ou seja,
uma polícia secreta dentro da polícia secreta.[42] Todos os relatórios dessas agências policiais rivais vão
terminar no Comitê Central de Moscou e no Politburo. É aí que se decide qual dos relatórios será levado
em conta, e qual das divisões terá o direito de tomar as respectivas medidas policiais. Nem o habitante
comum do país nem qualquer dos departamentos de polícia sabem, naturalmente, que decisão será
tomada. Entre todos esses departamentos, não há nenhuma hierarquia de poder ou de autoridade com base
na lei; a única certeza é que eventualmente um deles será escolhido para encarnar "o desejo da liderança".
A única regra segura num Estado totalitário é que enquanto mais visível é uma agência governamental,
menos poder detém; e, quanto menos se sabe da existência de uma instituição, mais poderosa ela é. De
acordo com esta regra, os soviétes, reconhecidos por uma constituição escrita como a mais alta autoridade
do Estado, têm menos poder que o partido bolchevista; o partido bolchevista, que recruta abertamente os
seus membros e é reconhecido como classe governante, tem menos poder que a polícia secreta. O
verdadeiro poder começa onde o segredo começa. Neste particular, os Estados nazista e bolchevista foram
muito parecidos; a diferença era principalmente o monopólio e a centralização dos serviços de polícia secreta nas mãos de Himmler, no primeiro caso, e o labirinto de
atividades policiais russas, aparentemente sem qualquer relação ou ligação umas com as outras,
no segundo caso.
Se considerarmos o Estado totalitário unicamente como instrumento de poder, e deixarmos de
lado as questões de eficiência administrativa, capacidade industrial e produtividade econômica,
então o seu "amorfismox' passa a ser instrumento ideal para a realização do chamado princípio
de liderança. A contínua rivalidade entre os órgãos, cujas funções não apenas se sobrepõem,
mas que são encarregados das mesmas tarefas,[43] quase não permite que a oposição ou a
sabotagem venham a ser eficazes; a rápida mudança de ênfase, que relega um órgão ao
esquecimento para promover outro ao nível da autoridade, pode resolver todos os problemas
sem que ninguém perceba a mudança ou mesmo o fato de ter existido oposição; a vantagem
adicional é que o órgão opositor provavelmente nunca virá a descobrir que foi derrotado, uma
vez que nunca é abolido (como no caso do regime nazista) ou é liquidado muito mais tarde, sem
qualquer relação aparente com a questão específica. Isso pode ser levado a cabo com extrema
facilidade, pois ninguém, exceto poucos iniciados, conhece a relação exata entre as autoridades.
Só de vez em quando o mundo não-totalitário tem um vislumbre dessa situação, como no caso
de um alto funcionário no exterior confessar que um obscuro empregado da embaixada era o seu
superior imediato. Em retrospecto, é possível muitas vezes determinar por que ocorreu tão
súbita perda de autoridade ou, antes, determinar se ela realmente ocorreu. Por exemplo, não é
difícil compreender hoje o motivo pelo qual, ao eclodir a guerra, homens como Alfred
Rosenberg ou Hans Frank foram removidos dos seus cargos partidários e, dessa forma,
eliminados do verdadeiro centro do poder, ou seja, do círculo interno do Führer.[44] O que
importa é que eles não somente ignoravam as razões dessas manobras, como provavelmente
nem suspeitavam que os novos cargos, aparentemente tão altos, como os de governador-geral da
Polônia ou Reichsminister para todos os territórios do Leste, significavam não o clímax, mas o
fim de suas carreiras nacional-socialistas.
O princípio do Líder não estabelece nenhuma hierarquia no Estado totalitário, como não o faz
no movimento totalitário; a autoridade não se filtra de cima para baixo através de todas as
camadas intermediárias até a base da política, como no caso dos regimes autoritários.
A razão concreta é que não há hierarquia da Autoridade: e, a despeito dos muitos erros de
interpretação cometidos em relação à "personalidade autoritária", o princípio da autoridade é, para todos os
efeitos, diametralmente oposto ao princípio do domínio totalitário. O seu caráter primígeno já
aparece na história romana: a autoridade, sob qualquer forma, visa a restringir ou limitar a
liberdade, mas nunca a aboli-la. O domínio totalitário, porém, visa à abolição da liberdade e até
mesmo à eliminação de toda espontaneidade humana e não a simples restrição, por mais tirânica
que seja, da liberdade. Essa ausência da autoridade hierárquica no sistema totalitário é
demonstrada pelo fato de que, entre o supremo poder (o Führer) e os governos, não existem
níveis intermediários definidos, cada uma com o seu devido quinhão de autoridade e de
obediência. O desejo do Führer pode encarnar-se em qualquer parte e a qualquer momento, sem
que o próprio Führer esteja ligado a qualquer hierarquia, nem mesmo àquela que ele mesmo
possa ter criado. Portanto, não é exato dizer que o movimento, após a tomada do poder, cria
uma multidão de principados onde cada pequeno líder é livre para fazer o que quiser e imitar o
grande líder lá de cima.[45] A afirmação nazista de que "o partido é uma concatenação dos
líderes"[46] não passava de balela. Do mesmo modo como a multiplicação infinita de órgãos
e a confusão da autoridade leva ao estado de coisas no qual cada cidadão se sente diretamente
confrontado com o desejo do Líder, que escolhe arbitrariamente o órgão executante das suas
decisões, também o milhão e meio de "führers" disseminados por todo o Terceiro Reich[47] sabia
muito bem que a sua autoridade emanava diretamente de Hitler, sem os níveis intermediários de
uma hierarquia operante.[48] A dependência direta era real e a hierarquia intermediária apenas
imitava de maneira^ ostensiva, mas espúria, um Estado autoritário.
O absoluto monopólio do poder e da autoridade por parte do Líder é mais evidente no seu
relacionamento com o chefe de polícia que, num país totalitário, ocupa o cargo público mais
poderoso. Contudo, a despeito do enorme poderio material e organizacional colocado à sua
disposição como dirigente de um verdadeiro exército policial e de formações de elite, o chefe de
polícia aparentemente nunca está em posição de tomar o poder e tornar-se o governante do país.
Assim, antes da queda de Hitler, Himmler nunca sonhou com a liderança[49] e nunca foi proposto por ninguém como seu eventual sucessor. Neste particular, ainda mais
interessante foi a malfadada tentativa de Béria de tomar o poder após a morte de Stálin. Embora
Stálin nunca houvesse permitido que qualquer um dos seus chefes de polícia gozasse de posição
semelhante à que Himmler desfrutava durante os últimos anos de governo nazista, Béria
também dispunha de tropas suficientes para desafiar o domínio do partido depois da morte de
Stálin. Ninguém, exceto o Exército Vermelho, poderia ter frustrado a sua pretensão de poder, o
que poderia ter levado a uma sangrenta guerra civil, cujo desfecho seria completamente incerto.
O fato é que Béria abandonou voluntariamente todos os seus cargos poucos dias depois da
morte de Stálin, embora devesse saber que pagaria com a vida — como pagou — a ousadia de
antepor por alguns dias o poder da polícia ao poder do partido.[50]
Essa falta de poder absoluto não impede ao chefe de polícia organizar a máquina sob seu
comando segundo os princípios do poder autoritário. Assim, é sintomático ver como Himmler,
depois de nomeado, passou a reorganizar a polícia alemã, introduzindo a multiplicação de
órgãos na estrutura do serviço secreto, até então centralizada; aparentemente, fez aquilo que os
mestres do jogo do poder anteriores aos regimes totalitários teriam chamado de descentralização
tendente à diminuição do poder. Himmler. acrescentou à Gestapo primeiro o Serviço de
Segurança, originalmente uma divisão da SS criada como corpo policial interpartidário. Embora
as sedes da Gestapo e do Serviço de Segurança viessem a ser centralizadas em Berlim, as suas
ramificações regionais conservaram identidades separadas e cada uma reportava-se diretamente
ao gabinete do próprio Himmler em Berlim.[51] No decorrer da guerra, Himmler acrescentou mais
dois serviços de espionagem: um consistia nos chamados inspetores sob a jurisdição da SS, que
deviam controlar e coordenar com a polícia o Serviço de Segurança; o outro era uma agência de
espionagem especificamente militar, que agia independentemente das forças militares do Reich
e veio a absorver a própria espionagem militar do Exército.[52]
A completa ausência de revoluções palacianas, bem-sucedidas ou não, é uma das mais
peculiares características das ditaduras totalitárias. Com uma exceção apenas, nenhum nazista
participou da conspiração militar contra Hitler em julho de 1944. Superficialmente, o princípio
do Líder parece um convite a mudanças sangrentas de poder pessoal sem alteração do regime.
Esse é apenas um dos numerosos indícios de que a forma totalitária de governo muito pouco
tem a ver com o desejo de poder ou mesmo com o desejo de uma máquina geradora de poder, com o jogo do "poder pelo amor ao poder" que caracterizou os últimos
estágios do domínio imperialista. É, contudo, uma das indicações mais importantes de que o
governo totalitário, não obstante todas as aparências, não é o governo de uma clique ou de uma
gangue.[53] As ditaduras de Hitler e de Stálin mostram claramente o fato de que o isolamento
de indivíduos atomizados não apenas constitui a base para o domínio totalitário, mas é levado a
efeito de modo a atingir o próprio topo da estrutura. Stálin fuzilou quase todos, os que podiam
dizer que pertenciam à clique governante, e trocou e retrocou os membros do Politburo sempre
que uma clique estava a ponto de consolidar-se. Hitler destruiu esses círculos na Alemanha
nazista com métodos menos drásticos — o único expurgo sangrento foi dirigido contra o círculo
de Rõhm, que era firmemente unido pela homossexualidade dos seus principais membros:
evitou a formação de eliqveí. através de constantes transferências de poder e de autoridade,
além de frequentes mudanças dos elementos íntimos que privavam do seu círculo imediato, de
modo que toda a antiga solidariedade entre os que haviam chegado com ele ao poder
desapareceu rapidamente. Além disso, parece óbvio que a monstruosa deslealdade, descrita em
termos quase idênticos como o principal traço do caráter de Hitler e de Stálin, não lhes
permitiria chefiar um grupo tão duradouro e coeso como uma clique. Seja como for, o fato é que
não existe qualquer inter-relação entre os que exercem as funções de comando. Nem a igualdade de status, nem o relacionamento entre chefes e subordinados, nem mesmo a duvidosa lealdade
dos gângsteres conseguem integrá-los numa hierarquia política. Na União Soviética, todos
sabem que tanto um gerente geral de uma grande empresa estatal quanto o ministro das
Relações Exteriores podem ser rebaixados a qualquer dia para a mais humilde condição social e
política, e um completo desconhecido pode tomar-lhes o lugar. Por outro lado, a cumplicidade
dos gângsteres que de fato foi importante nos estágios iniciais da ditadura nazista, perde toda a
força de coesão, pois o totalitarismo usa o poder exatamente para disseminar essa cumplicidade
entre toda a população, até que o povo sob o seu domínio esteja totalmente unido por uma só
culpa.[54]
A falta de um grupo governante torna a sucessão do ditador totalitário especialmente
desconcertante e incômoda. É verdade que todos os usurpadores tiveram esse problema, e é bem
típico dos ditadores totalitários que nenhum jamais tenha experimentado o antigo método de
fundar uma dinastia e transmitir o poder aos filhos. Ao lado do método de Hitler, de fazer tantas nomeações que nenhuma era
válida, há o método de Stálin, que fez da sucessão uma das honrarias mais perigosas da União
Soviética. Num regime totalitário, conhecer o labirinto de correias transmissoras que põem o
sistema a funcionar equivale a ter o poder supremo, e todo sucessor nomeado que realmente
descobre o que está acontecendo é automaticamente removido dentro de certo tempo. Uma
nomeação válida e relativamente permanente implicaria a existência de um círculo cujos
membros compartilhariam o monopólio do Líder no tocante ao saber do que acontece, coisa que
o Líder tem de evitar por todos os meios. Hitler certa vez explicou isso aos comandantes
supremos da Wehrmacht que, em meio ao tumulto da guerra, remoíam exatamente esse
problema: "Como fator máximo, devo, com toda a modéstia, declarar-me insubstituível. (...) O
destino do Reich depende exclusivamente de mim".[55] Não há ironia na palavra "modéstia"; o
líder totalitário, em agudo contraste com todos os antigos usurpadores, déspotas e tiranos,
parece acreditar que a questão da sua sucessão não é tão importante assim, que a tarefa não
exige dons ou treinamentos especiais, que o país eventualmente obedecerá a quem quer que seja
nomeado por ocasião da sua morte, e que nenhum rival sedento de poder contestará a
legitimidade do substituto.[56]
Como técnicas de governo, os expedientes do totalitarismo parecem simples e engenhosamente
eficazes. Asseguram não apenas um absoluto monopólio do poder, mas a certeza incomparável
de que todas as. ordens serão sempre obedecidas; a multiplicidade das correias que acionam o
sistema e a confusão da hierarquia asseguram a completa independência do ditador em relação a
todos os subordinados e possibilitam as súbitas e surpreendentes mudanças _de política pelas
quais o totalitarismo é famoso. A estrutura política do país mantém-se à prova de choques
exatamente por ser amorfa.
As razões pelas quais tão extraordinária eficiência nunca havia sido experimentada antes são tão
simples como o próprio expediente. A multiplicação de cargos destrói todo o senso de
responsabilidade e de competência; não apenas representa um aumento tremendamente oneroso e improdutivo de administração, mas é
realmente um estorvo à produtividade, pois o trabalho genuíno é constantemente retardado por
ordens contraditórias até que o comando do Líder venha a decidir a questão. O fanatismo dos
altos escalões da elite, absolutamente essencial para o funcionamento do movimento, liquida
sistematicamente todo real interesse em tarefas específicas e produz uma mentalidade que vê em
toda e qualquer ação um meio de atingir algo completamente diferente.[57] E essa mentalidade não
se limita à elite, mas gradualmente toma conta de toda a população, cuja vida ou morte depende,
em seus menores detalhes, de decisões políticas — isto é, de motivos e causas ulteriores que
nada têm a ver com o seu desempenho. As constantes remoções, demoções e promoções
impossibilitam o desenvolvimento do trabalho de equipe e impedem o acúmulo da experiência.
Um exemplo: do ponto de vista econômico, a escravidão é um luxo ao qual a Rússia não se
poderia dar; numa época de grave escassez de técnicos, os campos de concentração estavam
abarrotados de "engenheiros altamente qualificados [que] competem pelo direito de trabalhar
como encanadores, consertadores de relógios, de rede elétrica e de telefones".[58] Por outro lado,
do ponto de vista genuinamente utilitário, a Rússia não deveria ter empreendido os expurgos na
década de 30: eles interromperam uma recuperação econômica longamente esperada e, por
causa da destruição física do estado-maior do Exército Vermelho, quase levaram o país à
derrota na guerra sino soviética.
Na Alemanha, as condições diferiam em intensidade. No começo, os nazistas demonstraram
certa tendência de conservar a mão-de-obra técnica e administrativa, permitir a lucratividade
nos negócios e exercer domínio econômico sem excesso de interferência. Quando a guerra
eclodiu, a Alemanha ainda não estava completamente totalitarizada e, se aceitarmos o preparo
bélico como motivo racional, temos de reconhecer que, até por volta de 1942, a sua economia
pôde funcionar mais ou menos racionalmente. Em sL_.a preparo bélico não é antiutilitário, a
despeito do seu custo proibitivo,[59] pois realmente pode ser muito "mais barato apoderar-se da
riqueza e dos recursos de outras nações através da conquista do que comprá-los de países
estrangeiros ou produzi-los em casa".[60] As custas econômicas do investimento e da produção, da
rentabilidade, do lucro e da depreciação perdem sua validade quando se pretende reabastecer a economia nacional através da pilhagem de outros países; a verdade é que o famoso slogan
nazista de "canhões ou manteiga" realmente significava "manteiga por meio de canhões", e o
povo alemão, simpatizante do nazismo, sabia disso muito bem.[61] Somente em 1942 é que as
normas do domínio totalitário passaram a prevalecer sobre tudo, mesmo sobre a economia.
O processo de radicalização totalitária começou imediatamente após a deflagração da guerra;
pode-se até conjeturar que Hitler provocou a guerra, entre outras razões, por que ela lhe permitia
acelerar esse processo de uma forma que teria sido inconcebível em tempos de paz.[62] O mais
curioso, porém, é que essa radicalização não foi absolutamente prejudicada por uma derrota tão
fragorosa como a de Stalingrado, e que o risco de perder inteiramente a guerra foi apenas mais
um motivo para pôr de lado quaisquer considerações utilitárias e procurar atingir, por meio da
impiedosa organização total, os objetivos da ideologia racial totalitária, nem que fosse por
pouco tempo.[63] Depois de Stalingrado, as formações de elite, antes tão rigidamente separadas do
povo, foram amplamente expandidas; a proibição de militares pertencerem ao partido foi
suspensa e o comando militar foi subordinado aos comandantes tia SS. O monopólio do crime,
zelosamente guardado pela SS, foi abandonado e agora qualquer soldado podia ser incumbido
de assassínios em massa.[64] Nem considerações econômicas, nem militares «em políticas podiam mais interferir com o oneroso e incômodo
programa de extermínio e deportação em massa.
Quem estuda esses últimos anos de governo nazista e a sua versão de um "plano quinquenal",
que não foi realizado por falta de tempo, mas que visava ao extermínio do povo polonês e
ucraniano, de 170 milhões de russos (como um dos planos menciona), da intelligentsia da
Europa ocidental (como a da Holanda) e do povo da Alsácia e Lorena, bem como de todos os
alemães que não se enquadrassem na projetada lei de saúde pública do Reich ou numa futura lei
de "estrangeiros em comunidade", não pode deixar de perceber a semelhança com o plano
quinquenal bolchevista de 1929, que foi o primeiro ano de clara ditadura totalitária na Rússia.
No primeiro caso, os vulgares slogans da eugenia e, no segundo, os altissonantes lemas
econômicos foram o prelúdio de "um exemplo de prodigiosa loucura, que virava de cabeça para
baixo todas as regras da lógica e os princípios da economia".[65]
É claro que os ditadores totalitários não enveredam conscientemente jjelo caminho da loucura.
O caso é que nosso espanto em face da natureza anti-utilitária da estrutura estatal do
totalitarismo se deve à falsa noção de que, afinal, estamos lidando com um Estado normal —
uma burocracia, uma tirania, uma ditadura —, e ao fato de não levarmos em conta a enfática
afirmação dos governos totalitários de que considerando país nó qual galgaram o poder apenas
como sede temporária do movimento internacional a caminho da conquista do mundo; de que,
para eles, as vitórias e as derrotas são computadas em termos de séculos ou milênios; e de que
os interesses globais sempre terão prioridade sobre os interesses locais do seu próprio
território.[66] A famosa frase, "o direito é aquilo que é bom para o povo alemão", destinava-se
apenas à propaganda de massa; o que se dizia aos nazistas era que "o direito é aquilo que é bom
para o movimento",[67] e os dois interesses absolutamente não coincidiam. Os nazistas não
achavam que os alemães fossem uma raça superior, à qual pertenciam, mas sim que deviam ser
comandados, como todas as outras nações, por uma raça superior que somente agora estava nascendo.[68] A aurora dessa nova raça não eram
os alemães, mas a SS.[69] O "império mundial germânico", como disse Himmler, ou o império
mundial "ariano", como teria preferido Hitler, só viria dali a séculos.[70] Para o "movimento", era
mais importante demonstrar que era possível fabricar uma raça pela aniquilação de outras
"raças" do que vencer uma guerra de objetivos limitados. O filme ao observador de fora parece
"um exemplo de prodigiosa loucura" é apenas a consequência do primado absoluto do
movimento, não apenas em relação ao Estado, mas também no que tange à nação, ao povo e à
posição de poder dos próprios lideres. O motivo pelo qual os engenhosos expedientes do
governo totalitário, com a sua absoluta e inaudita concentração do poder nas mãos de um só
homem, nunca haviam sido experimentados antes é que nenhum tirano comum foi jamais
suficientemente louco para desprezar todos os interesses limitados e locais — econômicos,
nacionais, humanos, militares — em favor da realidade puramente fictícia de um futuro distante
e indefinido.
Uma vez que o totalitarismo no poder permanece fiel aos dogmas originais do movimento, as
notáveis semelhanças entre os expedientes organizacionais do movimento e o chamado Estado
totalitário não devem causar surpresa. A divisão entre membros do partido e simpatizantes
agrupados em organizações de vanguarda, longe de desaparecer, leva à "coordenação" de toda
população, organizada agora como simpatizantes. Controla-se o grande aumento de
simpatizantes limitando-se a força partidária a uma "classe" privilegiada de alguns milhões, e
criando-se um superpartido de várias .centenas de milhares, que são as formações de elite. A
multiplicação de cargos, a duplicação de funções e a adaptação do relacionamento do
simpatizante a essas novas condições significam simplesmente a conservação da estrutura
peculiar do movimento, no qual cada camada é a vanguarda da próxima formação mais
militante. A máquina estatal vira uma organização de vanguarda de burocratas simpatizantes, cuja função nos
negócios nacionais é propagar confiança entre as massas de cidadãos meramente coordenados, e
cujas relações exteriores consistem em burlar o mundo exterior não-totalitário. O Líder, na
dupla capacidade de chefe do Estado e líder do movimento, continua a concentrar em si mesmo
um máximo de falta de escrúpulos militante e uma aparência de normalidade capaz de inspirar
confiança.
Uma das importantes diferenças entre movimento e Estado totalitários é que o ditador totalitário
pode e necessita praticar a arte totalitária de mentir com maior consistência e em maior escala
que o líder do movimento. Isso é, em parte, consequência automática da ampliação dos escalões
de simpatizantes e, em parte, resultado do fato de que uma declaração desagradável, vinda de
um estadista, não é tão fácil de revogar quanto a de um demagógico líder partidário. Para esse
fim, Hitler preferiu apelar, sem maiores rodeios, para o velho nacionalismo que ele mesmo
denunciara tantas vezes antes da subida ao poder; assumindo a pose de nacionalista violento,
afirmando que o nacional-socialismo não era "produto de exportação", aplacava ao mesmo
tempo alemães e não-alemães, e insinuava que as ambições nazistas estariam satisfeitas quando
fossem cumpridas as tradicionais exigências da política externa alemã nacionalista
— a volta dos territórios cedidos no tratado de Versalhes, o Anschluss da Áustria, e a anexação
das regiões da Boêmia de língua alemã. Stálin também levou em conta a opinião pública russa e
o mundo não-russo quando inventou a sua teoria de "socialismo num só país" e culpou Trótski
pela ideia da revolução mundial.[71]
Mentir ao mundo inteiro de modo sistemático e seguro só é possível sob um regime totalitário,
no qual a qualidade fictícia da realidade de cada dia quase dispensa a propaganda. Na fase que
antecede o poder, os movimentos não se podem dar ao luxo de esconder a esse ponto os seus
verdadeiros objetivos
— afinal, ao que eles visam é inspirar organizações de massa. Mas, dada a possibilidade de
exterminar os judeus como se fossem insetos, isto é, com gás venenoso, já não há necessidade
de propagar que os judeus sejam insetos;[72] dado o poder de ensinar à nação inteira a história da
Revolução Russa sem mencionar o nome de Trótski, já não há mais necessidade de fazer
propaganda contra Trótski. Contudo, o emprego dos métodos de realizar os objetivos
ideológicos só pode ser "esperado" daqueles que são "absolutamente firmes quanto à ideologia"
— tenham eles adquirido essa firmeza nas escolas do Comintern ou nos centros especiais de doutrinação nazista —, mesmo que esses objetivos continuem a ser
disseminados pela propaganda. É então que se verifica, invariavelmente, que os meros
simpatizantes nunca sabem o que está acontecendo.[73] Isso nos leva ao paradoxo de que a
"sociedade secreta à luz do dia" nunca é tão conspirativa em sua natureza e em seus métodos
como depois de ter sido aceita como membro da comunidade das nações em pleno gozo dos
seus direitos. É apenas lógico que Hitler, antes da tomada do poder, resistisse a todas as
tentativas de organizar o partido, e até mesmo as organizações de elite, numa base conspirativa;
contudo, após 1933, vemo-lo bastante desejoso de ajudar a transformar a SS numa espécie de
sociedade secreta.[74] Do mesmo modo, os partidos comunistas dirigidos por Moscou preferem o
clima da conspiração, mesmo onde se lhes permite existir em completa legalidade.[75] Quanto
mais visível o poder do totalitarismo, mais secretos são os seus verdadeiros objetivos. Para que
se conhecessem os objetivos finais do governo de Hitler, era muito mais sensato confiar nos
seus discursos de propaganda e no Mein Kampf do que na oratória do chanceler do Terceiro
Reich; da mesma forma como teria sido mais sensato desconfiar das palavras de Stálin acerca do "socialismo num só país", inventadas com a finalidade passageira de tomar o poder após a
morte de Lenin, e levar mais a sério a sua constante hostilidade contra os países democráticos.
Os ditadores totalitários mostraram conhecer muito bem o perigo que acarretava a sua afetação
de normalidade, isto é, o perigo de uma política verdadeiramente nacionalista ou da verdadeira
instalação do socialismo num só país. Procuraram evitar esse risco através de uma discrepância
permanente e constante entre as palavras tranquilizadoras e a realidade do domínio,
desenvolvendo conscientemente um método de fazerem sempre o oposto do que dizem.[76] Stálin levou essa arte do equilíbrio, que exige mais habilidade do que a rotina comum da
diplomacia, ao ponto em que toda moderação na política externa ou na linha política do
Comintern era quase invariavelmente seguida de expurgos radicais no partido russo. Por certo
não foi mera coincidência o fato de que a política da Frente Popular no Ocidente e a redação da
Constituição soviética, comparativamente liberal, precederam os julgamentos de Moscou.
As literaturas nazista e bolchevista provam repetidamente que os governos totalitários visam a
conquistar o globo e trazer todos os países para debaixo do seu jugo. Contudo, não chegam a
ser decisivos esses programas ideológicos, herdados dos movimentos pré-totalitários (dos
partidos antissemitas supranacionais e dos sonhos pangermânicos de império, no caso dos
nazistas, e do conceito internacional do socialismo revolucionário, no caso dos bolchevistas).
Decisivo é que os regimes totalitários realmente conduzem a sua política estrangeira na
constante pressuposição de que eventualmente conseguirão atingir o seu objetivo final, e nunca
o perdem de vista, por mais remoto que ele pareça ou por mais que se choque com as
necessidades do momento. Assim, não consideram país algum como permanentemente
estrangeiro, mas, ao contrário, todo país é potencialmente uma parte do seu território. A subida
ao poder, o fato de que o mundo fictício do movimento se tornou realidade tangível num
determinado país, cria com os outros países um relacionamento semelhante à situação do partido
totalitário sob um governo não-totalitário: a realidade tangível da ficção, com o apoio de um
poder estatal internacionalmente reconhecido, pode ser exportada da mesma forma como o
desprezo pelo parlamento pôde ser importado por um parlamento não-totalitário. Neste
particular, a "solução" da questão judaica de antes da guerra era o principal produto de
exportação da Alemanha nazista: a expulsão dos judeus carreou para outros países uma
importante parcela do nazismo; forçando os judeus a deixarem o Reich sem passaportes e sem
dinheiro, os nazistas tornaram real a lenda do Judeu Errante e, forçando os judeus à hostilidade
contra os países entre os quais eles realizaram a imagem do judeu estrangeiro, criaram o
pretexto para que se interessassem apaixonadamente pela política nacional de todos os países.[77]
A seriedade com que os nazistas encaravam a ficção conspiratória, segundo a qual seriam os
futuros senhores do mundo, veio à luz em 1940, quando — a despeito da necessidade, e apesar
da possibilidade demasiado real de converterem à sua causa os povos ocupados da Europa —
começaram a sua política de despovoamento dos territórios do Leste, sem atentar para a perda
de mão-de-obra e as sérias consequências militares, e introduziram leis que, com força
retroativa, exportaram parte do código penal do Terceiro Reich para os países ocidentais ocupados.[78] Não havia maneira mais eficaz de propagar a pretensão de domínio
mundial dos nazistas do que punir como alta traição qualquer pronunciamento ou ato contra o
Terceiro Reich, não importa quando, onde ou por quem fosse feito. A lei nazista tratava o
mundo inteiro como se estivesse potencialmente sob a sua jurisdição, de sorte que o exército de
ocupação já não era um instrumento de conquista que levasse consigo a nova lei do
conquistador, mas um órgão executivo que fazia cumprir uma lei que tacitamente já existia para
todos.
O pressuposto de que a lei nazista estava em vigor além das fronteiras da Alemanha e a punição
de cidadão de outros países eram mais do que simples expedientes de opressão. Os regimes
totalitários não receiam as implicações lógicas da conquista mundial, mesmo que estas lhes
sejam contrárias e em detrimento dos interesses do seu próprio povo. Logicamente, é
indiscutível que um plano de conquista mundial acarreta a abolição das diferenças entre a nação
conquistadora e os territórios ocupados, bem como da diferença entre a política externa e
interna, nas quais se baseiam todas as instituições não-totalitárias existentes e todo o
intercâmbio internacional. Se o conquistador totalitário age em toda parte como se estivesse em
casa, deve pelo mesmo motivo tratar a sua própria população como conquistador estrangeiro.[79] E a pura verdade é que o movimento totalitário toma o poder no mesmo sentido em que um
conquistador estrangeiro ocupa um país que passa a governar em benefício de terceiros. Os
nazistas agiram como conquistadores estrangeiros na Alemanha quando, contra todos os
interesses nacionais, tentaram e quase conseguiram transformar a sua derrota numa catástrofe
final para todo o povo alemão; e também quando, em caso de vitória, pretendiam estender a sua
política de extermínio aos escalões de alemães "racialmente inadequados".[80]
Atitude semelhante parece ter inspirado a política externa soviética após a guerra. O custo da
sua agressividade foi proibitivo para o próprio povo soviético, e foi rejeitado até o elevado empréstimo dos Estados Unidos que teria permitido à Rússia
reconstruir as áreas devastadas e industrializar o país de modo racional e produtivo. A instalação
de governos do Comintern em quase todos os países balcânicos e a ocupação de extensos
territórios do Leste não trouxeram qualquer benefício tangível, mas, ao contrário, abalaram
ainda mais os recursos da Rússia. Mas essa política certamente serviu aos interesses do
movimento bolchevista, que se espalhou por quase metade do mundo habitado. Como um
conquistador estrangeiro, o ditador totalitário vê as riquezas naturais e industriais de cada país,
inclusive o seu, como fonte de pilhagem e como meio de preparar o próximo passo da expansão.
Uma vez que a economia de sistemática espoliação é levada a cabo para o bem do movimento e
não do país, nenhum povo e nenhum território, como beneficiário em potencial, pode constituir
ponto de saturação para o processo. O ditador totalitário é como um conquistador estrangeiro
que não vem de parte alguma; a sua pilhagem provavelmente não beneficiará a ninguém. A
distribuição dos despojos não se destina a fortalecer a economia do seu país, mas é apenas uma
manobra tática temporária. Para fins econômicos, os regimes totalitários sentem-se tão à
vontade em seus países como os gafanhotos. O fato de que o ditador totalitário governa o seu
país como um conquistador estrangeiro torna as coisas ainda piores, pois acrescenta à crueldade
uma eficácia que as tiranias certamente não alcançam nos territórios ocupados. A guerra de
Stálin contra a Ucrânia, no início da década de 30, foi duas vezes mais eficaz que a invasão e a
ocupação alemã, terrivelmente sangrentas.[81] Esse é o motivo pelo qual o totalitarismo prefere o
governo de quislings ao governo direto, a despeito dos riscos óbvios de tais regimes.
O problema com os regimes totalitários não é que eles joguem a política do poder de um modo
especialmente cruel, mas que atrás de suas políticas esconde-se um conceito de poder
inteiramente novo e sem precedentes, assim como atrás de sua Realpolitik jaz um conceito de
realidade inteiramente novo e sem precedentes. Supremo desprezo pelas consequências
imediatas e não a falta de escrúpulos; desarraigamento e desprezo pelos interesses nacionais e
não o nacionalismo; desdém em relação aos motivos utilitários e não a promoção egoísta do seu
próprio interesse; "idealismo", ou seja, a fé inabalável num mundo ideológico fictício e não o
desejo de poder — tudo isso introduziu na política internacional um fator novo e mais perturbador do que teria resultado da mera agressão.
O poder, como concebido pelo totalitarismo, reside exclusivamente na força produzida pela
organização. Do mesmo modo como Stálin via cada instituição, qualquer que fosse a sua função
verdadeira, apenas como "a correia de transmissão que liga o partido ao povo",[82] e acreditava
honestamente que os tesouros mais preciosos da União Soviética não eram as riquezas do solo
nem a capacidade produtiva da sua enorme população, mas os "quadros" do partido[83] (ou seja, a
polícia), também Hitler, já em 1929, via a "grandeza" do movimento no fato de que 60 mil
homens "pareciam quase uma só unidade, que realmente esses membros são uniformes não
apenas nas ideias, mas até a expressão facial é quase a mesma. Vejam esses olhos sorridentes,
esse entusiasmo fanático, e ficarão sabendo (...) como 100 mil homens num movimento podem
tornar-se um só".[84] Para o homem ocidental, o poder tem certa conexão com as posses, a
riqueza, os tesouros e os bens terrenos; para o homem totalitário, essa conexão desaparece numa
espécie de mecanismo desmaterializado cujo movimento gera poder como a fricção gera
eletricidade. A divisão totalitária entre as nações-que-têm e as-que-não-têm é mais do que um
artifício demagógico; os que a fazem estão realmente convencidos de que a força das posses
materiais é desprezível e apenas estorva o caminho da evolução do poder organizacional. Para
Stálin, o constante crescimento e desenvolvimento dos escalões policiais era
incomparavelmente mais importante que o petróleo de Baku, o carvão e os minérios dos Urais,
os celeiros da Ucrânia ou os tesouros potenciais da Sibéria — enfim, o desenvolvimento de todo
o arsenal de poder da Rússia. A mesma mentalidade fez com que Hitler sacrificasse toda a
Alemanha aos quadros da SS; para ele, a guerra não estava perdida quando cidades alemãs
tombaram em ruínas e a capacidade industrial havia sido destruída, mas somente quando soube
que já não podia confiar nas tropas da SS.[85] Para um homem que acreditava na onipotência da
organização contra todos os fatores meramente materiais, militares ou econômicos, e que, além
disso, calculava o futuro triunfo de sua obra em termos de séculos, a derrota não era a catástrofe
militar nem a ameaça de fome para a população, mas apenas a destruição das organizações de
elite, que deveriam levar a conspiração de domínio mundial ao seu fim último.
A ausência de estrutura no Estado totalitário, o seu desprezo pelos interesses materiais, a sua
independência da motivação do lucro e as suas atitudes não-utilitárias em geral contribuíram,
mais que qualquer outro elemento, para tornar quase imprevisível a política contemporânea. O
mundo não-totalitário é incapaz de compreender uma mentalidade que funciona
independentemente de toda ação calculável em termos de homens e de bens materiais, e que é
completamente indiferente ao interesse nacional e ao bem-estar do povo e isso o coloca num
curioso dilema de julgamento. Aqueles que compreendem corretamente a terrível eficiência da
organização e da polícia totalitárias tendem a subestimar a força material dos países totalitários,
enquanto aqueles que compreendem a esbanjadora incompetência da economia totalitária
tendem a subestimar o potencial de poder que pode ser criado à revelia de todos os fatores
materiais.
continua página 467...
________________
Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.1b - O chamado Estado Totalitário)
____________________
[41] F. BeckeW. Godin, Russian purge and the extraction of confessions, 1951, p. 153.
[42] Ibid., p. 159 ss. Segundo outras
fontes, existem vários exemplos dessa desconcertante multiplicação do aparelho de polícia soviético, principalmente as associações
locais e regionais da NKVD, que funcionam independentemente uma da outra e têm suas correspondentes nas redes locais e
regionais dos agentes do partido. Ê natural que saibamos muito menos a respeito das condições na Rússia do que a respeito do que
ocorria na Alemanha, especialmente no tocante a detalhes da organização..
[43] Segundo o testemunho de um dos seus ex-funcionários (Nazi conspiracy, VI, 461), "Himmler confiava a mesma
tarefa a duas pessoas diferentes".
[44] No discurso mencionado acima (ver nota 29), Hans Frank deixou claro que, em alguma data futura, queria
estabilizar o movimento; as suas numerosas queixas como governador-geral da Polônia demonstram a total falta de
compreensão das tendências absolutamente antiutilitárias da policia nazista. Ele não podia compreender por que os
povos dominados não eram explorados, mas exterminados. Rosenberg, aos olhos de Hitler, era racialmente indigno
de fé, uma vez que pretendia estabelecer Estados satélites nos territórios conquistados do Leste e não compreendia
que a política de despopulação de Hitler visava a esvaziar esses territórios.
[45] A noção da divisão em "pequenos principados" constituindo "uma pirâmide de poder fora da lei com o Füehrer
no topo" é de Robert H. Jackson. Ver o cap. xii de Nazi conspiracy, II, 1 ss. Para evitar a criação desse tipo de Estado
autoritário, Hitler, já em 1934, baixou o seguinte decreto: "O tratamento de 'Mein Führer' fica reservado apenas para
o Führer. Todos os sublíderes do NSDAP ficam doravante proibidos a se deixarem tratar por 'Mein Reichsleiter' etc,
tanto por escrito como oralmente. Em vez disso, o tratamento deve ser Pg. [abreviatura de Parteigenosse —
Camarada do Partido] (...) ou Gauleiter etc." Ver Verfügungen, Anordnungen, Bekanntgaben, op. cit., decreto de 20
de agosto de 1934.
[46] Ver o Organisationsbuch der NSDAP.
[47] Ver o quadro n? 14 do vol. VIII de Nazi conspiracy.
[48] Todos os juramentos, no partido e nas formações de elite, eram feitos com a invocação pessoal de Adolf Hitler.
[49] O primeiro passo de Himmler nessa direção foi dado no outono de 1944, quando mandou, por iniciativa própria,
desmontar as câmaras de gás em alguns dos campos de extermínio e parar a matança em massa. Foi a sua maneira de
dar início às negociações de paz com as potências tem a ver com o desejo de poder ou mesmo com o desejo de uma máquina
do Ocidente. É interessante que Hitler nunca chegasse a ser informado desses preparativos; aparentemente, ninguém
ousou dizer-lhe que um dos seus mais importantes objetivos de guerra — o extermínio dos judeus — tinha sido
parcialmente abandonado. Ver Léon Poliakov, Bréviaire de la haine, 1951, p. 232.
[50] Quanto aos acontecimentos que se seguiram à morte de Stálin, ver Harrison E. Salis-bury, American in Rússia,
Nova York, 1955.
[51] Ver a excelente análise da estrutura da policia nazista em Nazi conspiracy, II, 250 ss, esp. p. 256.
[52] Ibid., p. 252.
[53] Franz Neumann, op. cit., pp. 521 ss, duvida se se "pode chamar a Alemanha de Estado. Parece mais uma gangue
em que os lideres são perpetuamente compelidos a concordar [com seus chefes, mesmo] depois dos desacordos". As
obras de Konrad Heiden sobre a Alemanha nazista exemplificam a teoria de que o país era governado por uma clique.
No tocante à formação de cliques em torno do Hitler, The Bormann letters, publicadas por Trevor-Roper, são muito
elucidativas. No julgamento dos médicos (The United States vs. Karl Brandt et ai., audiência de 13 de maio de 1947),
Victor Brack testemunhou que, já em 1933, Bormann, certamente por ordem de Hitler, havia começado a organizar
um grupo de pessoas que estariam acima do Estado e do partido.
[54] Compare-se a contribuição da autora à discussão do problema da culpabilidade alemã: "Organized guilt",
em Jewish Frontier, janeiro de 1945.
[55] Num discurso de 23 de novembro de 1939, citado em Trial of major war criminais, vol. 26, p. 332. Este
pronunciamento representava mais que uma aberração histérica provocada pelo acaso, como se depreende do discurso
de Himmler (cuja transcrição estenográfica se encontra nos arquivos da Biblioteca Hoover, arquivo Himmler, pasta
332) na conferência dos prefeitos em Posen, em março de 1944. Diz Himmler: "Que valores podemos colocar na
balança da história? O valor do nosso próprio povo. (...) O segundo valor, e eu quase diria ainda maior, é a singular
pessoa do nosso Führer Adolf Hitler, (...) que, pela primeira vez em 2 mil anos, (...) foi enviado à raça germânica
como um guia supremo".
[56] Ver as declarações de Hitler sobre essa questão em Hitlers Tischgespfáche, pp. 253 e 222: O novo Führer teria
de ser eleito por um "senado"; o princípio orientador das eleições do Führer seria a cessação de qualquer discussão
entre as personalidades que participassem da eleição. Dentro de três horas, a Wehrmacht, o partido e todos os
servidores públicos teriam de prestar novo juramento. "Ele não tinha ilusões quanto ao fato de que, nessa eleição do
supremo chefe do Estado, nem sempre poderia surgir uma personalidade marcante de líder para comandar o Reich".
Mas isso não acarretava perigos, "contanto que a maquinaria geral funcionasse devidamente".
[57] Um dos princípios mestres da SS, formulado pelo próprio Himmler, diz: "Nenhuma tarefa é executada em
benefício de si mesma". Ver Gunter d'Alquen, Die SS Geschichte, Aufgabe und Organisation der Schutzstaffeln der
NSDAP [A SS. História, função e organização dos Esquadrões de Proteção do NSDAP], 1939, Schriften der
Hochschule für Politik.
[58] Ver David J. Dallin e Boris I. Nicolaevsky, Forced labor in Rússia, 1947. Durante a guerra, quando a
mobilização havia criado agudo problema de mão-de-obra, a taxa de mortalidade nos campos de trabalho atingiu
cerca de 40%. De modo geral, calcula-se que a produção de um trabalhador nos campos é menor em 50% da de um
trabalhador livre.
[59] Thomas Reveille, The spoil ofEurope, 1941, calcula que somente durante o primeiro ano da guerra a Alemanha
pôde cobrir todas as suas despesas com a preparação do conflito entre 1933 e1939.
[60] William Ebenstein, The Nazistate, p. 257.
[61] Ibid., p. 270.
[62] Em apoio a essa conjetura, há o fato de que o decreto para assassinar todos os doentes incuráveis foi emitido no
dia em que a guerra foi declarada. As declarações de Hitler durante a guerra, citadas por Goebbels (The Goebbels
diaries, editados por Louis P. Lochner, 1948), são claras nesse sentido: "A guerra possibilitou resolvermos uma
porção de problemas que nunca teriam sido resolvidos em tempos normais", e, "qualquer que seja o resultado do
conflito, os judeus certamente levarão a pior" (p. 314).
[63] A Wehrmacht tentou muitas vezes explicar aos vários órgãos do partido os perigos de conduzir uma guerra na
qual as ordens eram dadas com o mais completo descaso às necessidades militares, civis e econômicas (ver Poliakov,
op. cit., p. 321). Mas até mesmo muitos dos altos funcionários nazistas tinham dificuldade em compreender esse
desprezo por todos os fatores objetivos econômicos e militares da situação. Dizia-se-lhes repetidamente que
"basicamente devem esquecer as considerações econômicas na solução do problema [judaico]" (Nazi conspiracy, VI,
402), mas ainda assim eles se queixavam de que importantes planos de construção não teriam sido interrompidos na
Polônia "se os judeus que nele trabalhavam não houvessem sido deportados. Agora, ordena-se que os judeus sejam
removidos dos projetos de armamentos. Espero que essa (...) ordem seja logo cancelada, porque senão a situação será
pior". Esta esperança de Hans Frank, governador-geral da Polônia, foi tão frustrada quanto as suas expectativas
posteriores de uma política militarmente mais sensata em relação aos poloneses e ucranianos. Suas queixas são
interessantes (ver o seu diário em Nazi conspiracy, IV, 902 ss), porque o que o assustava era exclusivamente o
aspecto antiutilitário da política nazista durante a guerra. "Uma vez que a guerra tenha sido ganha, pouco se me dá se
se fizer picadinho dos poloneses e ucranianos e de todos os mais aqui."
[64] Originalmente, somente as unidades especiais da SS — as formações da Caveira — eram empregadas nos
campos de concentração. Mais tarde, vieram reforços das divisões da Waffen-SS. A partir de 1944, empregaram-se
também unidades de Forças Armadas regulares. A maneira como a presença ativa da Wehrmacht se fazia sentir nos
campos de concentração foi descrita no diário do campo de concentração de Odd Nansen, Day after day, Londres,
1949. Infelizmente, esse diário mostra que as tropas do Exército regular eram pelo menos tão brutais quanto a SS.
[65] Deutscher, op. cit., p. 326. Trata-se de uma citação de peso, pois é da autoria do mais benévolo dos biógrafos
não-comunistas de Stálin.
[66] Os nazistas gostavam especialmente de pensar em termos de milênios. Os pronunciamentos de Himmler de que
os homens da SS interessavam-se unicamente por "questões ideológicas que seriam importantes em termos de
décadas e de séculos" e que "serviam a uma causa que só ocorria uma vez a cada 2 mil anos" são repetidas, com
ligeiras variações, em todo o material de doutrinação emitido pelo SS-Hauptamt-Schulungsamt (Wesen und Aufgabe
der SS und der Polizei, p. 160). Quanto à versão bolchevista, a melhor referência é o programa da Internacional
Comunista formulado por Stálin, já em 1928, no Sexto Congresso, em Moscou. Particularmente interessante é a
avaliação da União Soviética como "a base do movimento mundial, o centro da revolução internacional, o mais
importante fator da história do mundo. Na URSS, o proletariado mundial adquire um país pela primeira vez (...)"
(citado por W. H. Chamberlain, Blue-print for world conquest, 1946, que reproduz verbatim os programas da
Terceira Internacional).
[67] Essa mudança do lema oficial pode ser encontrada no Organisationsbuch der NSDAP, p.7.
[68] Ver Heiden, op. cit., p. 722. Hitler declarou, num discurso de 23 de novembro de 1937 perante os futuros lideres
políticos na Ordensburg Sonthofen: Não "tribos ridicularmente pequenas, pequeninos países, Estados ou dinastias (...)
mas somente raças [podem] funcionar como conquistadores do mundo. Mas uma raça — pelo menos no sentido
consciente — é algo que ainda temos de nos tornar" (ver Hitlers Tischgespràche, p. 445). Em completa harmonia
com este fraseado, que de modo algum era acidental, está p decreto de 9 de agosto de 1941 no qual Hitler proíbe o
uso da expressão "raça alemã", porque ela tenderia a "sacrificar a ideia racial em si a favor de um simples princípio de
nacionalidade, e a destruir importantes pré-condições conceituais de toda a nossa política racial e popular"
(Verfügungen, Anordnungen, Bekanntgaben). É óbvio que o conceito de uma raça alemã teria constituído um
obstáculo à progressiva "seleção" e exterminação de grupos indesejáveis da população alemã que, naqueles mesmos
anos, estava sendo planejada para o futuro.
[69] Ao fundar uma SS Germânica em vários países, Himmler declarou: "Não esperamos que vocês se tornem
alemães por oportunismo. Mas esperamos que subordinem o seu ideal nacional ao ideal maior, racial e histórico, do
Reich Alemão" (Heiden, op. cit.). A futura tarefa dessa SS seria formar, através "da mais copiosa reprodução", um
"superestrato racial" que, em vinte ou trinta anos, apresentaria "a toda a Europa a sua nova classe dirigente" (discurso
de Himmler na reunião dos generais da SS em Posen, em 1943, em Nazi conspiracy, IV, 558 ss).
[70] Himmler, ibid., p. 572.
[71] Deutscher, op. cit., descreve a notável "sensibilidade [de Stálin] para todas aquelas correntes psicológicas ocultas
(...) das quais se arrogava em porta-voz" (p. 292). "O próprio nome da teoria de Trótski, 'revolução permanente',
parecia ominosa advertência a uma geração cansada. (...) Stálin apelou diretamente ao horror ao risco e à incerteza
que dominava muitos bolchevistas" (p. 291).
[72] Assim, Hitler pôde dar-se ao luxo de usar o chavão "judeu decente", quando havia começado a exterminá-los, ou
seja, em dezembro de 1941 (Hitlers Tischgespràche, p. 346).
[73] Ao falar, em novembro de 1937, a vários membros do Estado-Maior Geral (Blomberg, Fritsch, Raeder) e altos
funcionários civis (Neurath, Gõring), Hitler permitiu-se declarar abertamente que necessitava de espaços vazios e
rejeitava a ideia de conquistar povos estrangeiros. Evidentemente nenhum dos seus ouvintes compreendeu que isso
resultaria automaticamente numa política de extermínio desses povos.
[74] Isso começou com uma ordem, em julho de 1934, pela qual a SS era promovida à posição de organização
independente dentro do partido nazista, e foi completado com um decreto altamente confidencial de agosto de 1938,
que declarava que as formações especiais da SS, as Unidades da Caveira e as Tropas de Choque (Verfügungstruppen)
não faziam parte nem do Exército nem da polícia; os Esquadrões tinham de "executar tarefas de natureza policial" e
as Tropas de Choque eram "uma unidade armada de prontidão, exclusivamente à minha disposição" (Nazi conspiracy, III, 459). Dois decretos subsequentes, de outubro de 1939 e abril de 1940, criavam uma jurisdição especial em
assuntos gerais para todos os membros da SS (ibid., II, 184). Daí em diante, todos os panfletos publicados pelo órgão
de doutrinação da SS trazem advertências como "exclusivamente para uso da polícia", "publicação proibida",
"exclusivamente para os lideres e encarregados de educação ideológica". Valeria a pena compilar uma bibliografia da
volumosa literatura secreta da era nazista, que inclui muitas medidas legislativas. O interessante é que não há um
único folheto da SA entre esse tipo de literatura, o que constitui a melhor prova de que a SA deixara de ser uma
formação de elite a partir de 1934.
[75] Compare-se Franz Borkenau, "Die neue Komintern", em Der Monat, Berlim, 1949, vol. 4.
[76] Os exemplos são demasiado óbvios e numerosos para serem citados. Essa tática, porém, não deve ser
confundida com a enorme deslealdade e inveracidade que todos os biógrafos de Hitler e de Stálin apontam como o
principal traço do caráter de cada um deles.
[77] Vera Circular do Ministério das Relações Exteriores para todas as autoridades alemãs no exterior, em janeiro de
1939, em Nazi conspiracy, VI, 87 ss.
[78] Em 1940, o governo nazista decretou que todos os crimes, desde alta traição contra o Reich até
"pronunciamentos maliciosos e agitadores contra pessoas de importância do Estado ou do Partido Nazista", seriam
punidos com força retroativa em todos os territórios ocupados, independentemente de haverem sido cometidos por
alemães ou por nativos desses países. Ver Giles, op. cit., Quanto às desastrosas consequências da Siedlungspolitik
[política de transferência populacional] nazista na Polônia e na Ucrânia, ver Trial, op. cit., vols. XXVI e XIX.
[79] A ideia é de Kravchencko, op. cit., p. 303, que, ao descrever as condições que prevaleciam na Rússia apôs o
superexpurgo de 1936-8, observa: "Se um conquistador estrangeiro houvesse se apossado da máquina da vida
soviética (...) a mudança não poderia ter sido mais completa nem mais cruel".
[80] Hitler planejou, durante a guerra, a criação de uma Lei de Saúde Nacional: "Depois de um exame de raios X de
toda a nação, o Führer receberia uma lista de pessoas doentes, particularmente de portadores de moléstias do pulmão
e do coração. Segundo essa nova lei de saúde do Reich (...) essas famílias já não podiam permanecer misturadas ao
públicos nem gerar crianças. O que será feito delas é objeto de futuras ordens do Führer". Não é preciso ter muita
imaginação para adivinhar o que teriam sido essas ordens futuras. O número de pessoas que já não poderiam
"permanecer misturadas ao público" teria constituído uma considerável proporção do povo alemão (Naziconspiracy,
VI, 175).
[81] O total de russos mortos durante os quatro anos de guerra é calculado entre 12 e 21 milhões. Num só ano, Stálin
exterminou cerca de 8 milhões de pessoas somente na Ucrânia. Ver Communism in action, U. S. Government,
Washington, 1946, House Document n? 754, pp. 140-1. Em contraste com o regime nazista, que mantinha uma conta
bastante precisa do número de suas vítimas, não existe um cálculo digno de confiança dos milhões de pessoas que
foram mortas no sistema soviético. Não obstante, a seguinte estimativa, citada por Souvarine, op. cit., p. 69, tem certo
valor uma vez que provém de Walter Krivitsky, que tinha acesso à informação dos arquivos da GPU. Segundo ele, o
censo de 1937 na União Soviética, que estatísticos russos haviam esperado que atingisse 171 milhões de pessoas,
mostrou que existiam somente 145 milhões. Isso indicaria uma perda populacional de 26 milhões, algarismo que não
inclui as perdas citadas acima.
[82] Deutscher, op. cit., p. 256.
[83] B. Souvarine, op. cit., p. 605, cita as seguintes palavras de Stálin, proferidas no auge do terror em 1937: "Ê
preciso compreender que, de todos os recursos existentes no mundo, os melhores e mais preciosos são os quadros [do
partido]". Todos os relatórios demonstram que, na União Soviética, a policia secreta é considerada como a verdadeira
formação de elite do partido. Típico dessa natureza da polícia é o fato de que, desde o começo da década de 20, os
agentes da NKVD "não eram recrutados como voluntários", mas eram tirados dos escalões do partido. Além disso, "a
NKVD não podia ser escolhida como carreira" (ver Beck e Godin, op. cit., p. 160).
[84] Citado por Heiden, op. cit., p. 311.
[85] Segundo relatos da última reunião, Hitler decidiu cometer suicídio depois de saber que já não podia confiar nas
tropas da SS. Ver H. R. Trevor-Roper TheJast days of Hitler, 1947, pp. 116 ss.
Nenhum comentário:
Postar um comentário