segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / VIII — Um raio de luz nas trevas

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     VIII — Um raio de luz nas trevas

             A filha mais velha acercou-se do pai e disse-lhe, pondo as mãos sobre as dele:

— Ora apalpe como eu tenho frio. 
— Ora! — respondeu o homem. — Mais frio tenho eu!
— Ao menos tu tens tudo mais e melhor que os outros, até o mal! — gritou impetuosamente a mulher de Jondrette.
— Caluda! — disse o homem.

     A mulher, ao ver o olhar que ele lhe deitou, calou-se.
     Houve então um momento de silêncio na mansarda. A pequena mais velha sacudia a lama das extremidades da manta que trazia, com ar indolente; a mais nova continuava a soluçar; a mãe tinha-lhe tomado a cabeça entre as mãos e enchia-a de beijos, dizendo lhe em voz baixa:

— Não chores, meu amor, que isso não há de ser nada; olha que fazes com que teu pai se arrenegue. 
— Qual história! — exclamou o pai. — Pelo contrário! Berra para aí com força, que te há de fazer bem!

     Depois acrescentou, dirigindo-se para a mais velha:

— Ora esta! Diabo do homem não tem pressa de chegar! É o que me falta, se eu apaguei o lume, arrombei a cadeira, rasguei a camisa e quebrei o vidro para ficar a ver navios! 
— E fizeste com que a pequena se cortasse! — murmurou a mãe. 
— Sabes que mais? — tornou Jondrette. — É que está um frio dos diabos nesta maldita espelunca! Se o homem agora não vinha, é que era uma!... Aí está o que são os ricaços! A estas horas está ele a dizer lá com os seus botões: «Se quiserem, que esperem por mim, que o proveito é seu!» Oh, se eles soubessem o ódio que lhes tenho e como eu era capaz de os estrangular, com júbilo, alegria, entusiasmo e satisfação! E haviam de ser todos! Não havia de ficar nem um só, desses ricaços, desses fingidos homens de caridade, que se confessam, ouvem missa e andam metidos com os padrecas, com essa súcia de sotainas, e que, por se julgarem mais do que nós, vêm humilharmos, trazendo nos alguma roupa, como eles chamam a uns poucos de trapos, que nem quatro soldos valem, e dando-nos um bocado de pão! O que eu quero não é isso, corja de tratantes! O que eu quero é dinheiro! Dinheiro nunca, porque dizem que somos uns bêbedos, uns calaceiros, que iríamos logo empregar em vinho o dinheiro que pilhássemos à unha! E eles que são, quero eu que me digam? Eles que são e que foram no seu tempo? Ladrões! Que, a não ser por esse modo, não enriqueciam! O que se havia de fazer era pegar na sociedade pelas pontas da toalha e atirar com ela por esses ares! Ficava tudo quebrado, é verdade, mas ao menos lucrava-se o ficarem todos sem nada!... Mas que diabo teria aquele mofino do benfeitor, que não há meio de vir? O bruto decerto esqueceu o nome da rua ou o número da porta! Apostemos nós que o alarve do velho.

     Neste instante, porém, bateram à porta ao de leve e Jondrette correu precipitadamente a abri-la, exclamando no meio de mil profundas cortesias e sorrisos de adoração.

— Faça favor de entrar, meu respeitável benfeitor, bem como essa encantadora menina.

     Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, assomavam ao limiar da porta um homem idoso e uma jovem.
     O que Mário, que ainda não tinha saído do seu lugar de observação, experimentou naquele momento, não o podem exprimir palavras humanas.
     Era ela.
     Só quem já amou é que sabe todos os sentidos esplendorosos que encerram as quatro letras desta palavra: «Ela»
     Era ela, com efeito. Mário mal a distinguia por entre o vapor luminoso que subitamente se formara diante dos olhos. Era essa mesma doce criatura que ele há tanto tempo não tornara a ver, o astro que por espaço de seis meses vira luzir, aqueles olhos, aquela fronte, aquela boca, aquele rosto, que lhe fugira, deixando após si as trevas. Eclipsara-se a visão e reaparecia agora. Reaparecia no meio daquelas trevas, daquela mansarda, daquele hediondo albergue, no meio daquele horror!
     Mário sentia todo o corpo agitado de um tremor convulso! As palpitações do coração perturbavam-lhe a vista. Sentia-se quase a ponto de desatar a chorar. Oh, vê-la depois de a ter procurado tanto tempo baldadamente! Era como se vesse perdido a alma e a tornasse a achar naquele momento!
     A jovem estava no mesmo estado, apenas um tanto mais pálida; encaixilhava-lhe o delicado rosto um chapelinho de veludo cor de violeta, ocultava-lhe a cintura um mantelete de cem preto. Por baixo do comprido vestido, mal se lhe divisava o pequenino pé, apertado numa botinha de seda.
     O seu companheiro era ainda o senhor Leblanc.
     Apenas entrou, a jovem deu alguns passos e foi pousar em cima da mesa uma trouxa que trazia na mão.
     A filha mais velha de Jondrette escondera-se atrás da porta, e daí contemplava com sombrio olhar aquele chapelinho de veludo, aquela manta de seda e aquele formoso rosto cheio de graça e meiguice.

continua na página 565...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - VIII — Um raio de luz nas trevas
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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