Terceira Parte - Mário
Livro Oitavo — O mau pobre
VIII — Um raio de luz nas trevas
A filha mais velha acercou-se do pai e disse-lhe, pondo as mãos sobre as dele:
— Ora apalpe como eu tenho frio.
— Ora! — respondeu o homem. — Mais frio tenho eu!
— Ao menos tu tens tudo mais e melhor que os outros, até o mal! — gritou
impetuosamente a mulher de Jondrette.
— Caluda! — disse o homem.
A mulher, ao ver o olhar que ele lhe deitou, calou-se.
Houve então um momento de silêncio na mansarda. A pequena mais velha sacudia a
lama das extremidades da manta que trazia, com ar indolente; a mais nova continuava a
soluçar; a mãe tinha-lhe tomado a cabeça entre as mãos e enchia-a de beijos, dizendo
lhe em voz baixa:
— Não chores, meu amor, que isso não há de ser nada; olha que fazes com que teu
pai se arrenegue.
— Qual história! — exclamou o pai. — Pelo contrário! Berra para aí com força, que te
há de fazer bem!
Depois acrescentou, dirigindo-se para a mais velha:
— Ora esta! Diabo do homem não tem pressa de chegar! É o que me falta, se eu
apaguei o lume, arrombei a cadeira, rasguei a camisa e quebrei o vidro para ficar a ver
navios!
— E fizeste com que a pequena se cortasse! — murmurou a mãe.
— Sabes que mais? — tornou Jondrette. — É que está um frio dos diabos nesta
maldita espelunca! Se o homem agora não vinha, é que era uma!... Aí está o que são os
ricaços! A estas horas está ele a dizer lá com os seus botões: «Se quiserem, que esperem
por mim, que o proveito é seu!» Oh, se eles soubessem o ódio que lhes tenho e como eu
era capaz de os estrangular, com júbilo, alegria, entusiasmo e satisfação! E haviam de ser
todos! Não havia de ficar nem um só, desses ricaços, desses fingidos homens de
caridade, que se confessam, ouvem missa e andam metidos com os padrecas, com essa
súcia de sotainas, e que, por se julgarem mais do que nós, vêm humilharmos, trazendo
nos alguma roupa, como eles chamam a uns poucos de trapos, que nem quatro soldos
valem, e dando-nos um bocado de pão! O que eu quero não é isso, corja de tratantes! O
que eu quero é dinheiro! Dinheiro nunca, porque dizem que somos uns bêbedos, uns
calaceiros, que iríamos logo empregar em vinho o dinheiro que pilhássemos à unha! E
eles que são, quero eu que me digam? Eles que são e que foram no seu tempo? Ladrões!
Que, a não ser por esse modo, não enriqueciam! O que se havia de fazer era pegar na
sociedade pelas pontas da toalha e atirar com ela por esses ares! Ficava tudo quebrado,
é verdade, mas ao menos lucrava-se o ficarem todos sem nada!... Mas que diabo teria
aquele mofino do benfeitor, que não há meio de vir? O bruto decerto esqueceu o nome
da rua ou o número da porta! Apostemos nós que o alarve do velho.
Neste instante, porém, bateram à porta ao de leve e Jondrette correu
precipitadamente a abri-la, exclamando no meio de mil profundas cortesias e sorrisos de
adoração.
— Faça favor de entrar, meu respeitável benfeitor, bem como essa encantadora
menina.
Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, assomavam ao limiar da porta um
homem idoso e uma jovem.
O que Mário, que ainda não tinha saído do seu lugar de observação, experimentou
naquele momento, não o podem exprimir palavras humanas.
Era ela.
Só quem já amou é que sabe todos os sentidos esplendorosos que encerram as
quatro letras desta palavra: «Ela»
Era ela, com efeito. Mário mal a distinguia por entre o vapor luminoso que
subitamente se formara diante dos olhos. Era essa mesma doce criatura que ele há
tanto tempo não tornara a ver, o astro que por espaço de seis meses vira luzir, aqueles
olhos, aquela fronte, aquela boca, aquele rosto, que lhe fugira, deixando após si as
trevas. Eclipsara-se a visão e reaparecia agora. Reaparecia no meio daquelas trevas,
daquela mansarda, daquele hediondo albergue, no meio daquele horror!
Mário sentia todo o corpo agitado de um tremor convulso! As palpitações do coração
perturbavam-lhe a vista. Sentia-se quase a ponto de desatar a chorar. Oh, vê-la depois
de a ter procurado tanto tempo baldadamente! Era como se vesse perdido a alma e a
tornasse a achar naquele momento!
A jovem estava no mesmo estado, apenas um tanto mais pálida; encaixilhava-lhe o
delicado rosto um chapelinho de veludo cor de violeta, ocultava-lhe a cintura um
mantelete de cem preto. Por baixo do comprido vestido, mal se lhe divisava o
pequenino pé, apertado numa botinha de seda.
O seu companheiro era ainda o senhor Leblanc.
Apenas entrou, a jovem deu alguns passos e foi pousar em cima da mesa uma trouxa
que trazia na mão.
A filha mais velha de Jondrette escondera-se atrás da porta, e daí contemplava com
sombrio olhar aquele chapelinho de veludo, aquela manta de seda e aquele formoso
rosto cheio de graça e meiguice.
continua na página 565...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - VIII — Um raio de luz nas trevas
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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