segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - i)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

   Gostaria de ver Albertine imediatamente. Ao notar sua mentira, ao ciúme pelo desconhecido, acrescentava-se a dor de que tivesse deixado se presentear daquela maneira. Mais presentes lhe dava eu; mas uma mulher a quem sustentamos não nos parece uma mulher sustentada enquanto não sabemos que o é pelos outros. E, todavia, já que gastara continuamente tanto dinheiro com ela, eu a aceitara apesar dessa baixeza moral; baixeza eu mantivera nela, que aumentara talvez, ou talvez criara. Depois, como tem dom de inventar histórias para embalar a nossa dor, como chegamos, quase a morrer de fome, a nos convencer que um desconhecido vai nos deixar uma fortuna de cem milhões. Imaginei Albertine em meus braços, explicando-me uma palavra que era por causa da semelhança de fabricação que ela havia comprado o outro anel, e que fora ela mesma quem mandara gravar seu monograma nele. Mas tal explicação ainda era frágil, ainda não tivera tempo de penetrar profundamente em meu espírito suas raízes benfazejas; minha dor, assim, não podia ser acalmada tão depressa. E imaginava que tantos homens, que contam aos outros que sua amante é muito dedicada, sofrem de torturas semelhantes. É desse modo que mentem aos outros e a si mesmos. Não mentem de todo, aliás; desfrutam com essas mulheres de momentos verdadeiramente doces; mas pensemos em tudo o que essa gentileza que elas têm para com eles diante dos amigos, e que os leva a se vangloriarem, e em tudo o que essa gentileza que têm quando estão sozinhas com seus amantes desconhecidos, e que permite a estes abençoá-las, recobre de horas ignoradas em que o amante sofreu, duvidou, fez em toda parte buscas inúteis para conhecer a verdade! É a tais sofrimentos que se liga a doçura de amar, de se encantar com as frases mais insignificantes de uma mulher, frases que sabemos ser insignificantes, mas que perfumamos com o seu cheiro. Naquele momento, eu já não podia deleitar-me em respirar, pela recordação, o de Albertine. Aterrado, com os dois anéis na mão, olhava aquela águia impiedosa, cujo bico me atormentava o coração, cujas asas de plumas em relevo tinham arrebatado a confiança que eu conservava em minha amiga, e sob cujas garras o meu espírito dilacerado não podia escapar um só instante às perguntas feitas sem cessar em relação àquele desconhecido, de quem a águia sem dúvida simbolizava o nome, sem todavia torná-lo legível, desconhecido que ela certamente amara outrora e que sem dúvida havia reencontrado há pouco tempo; pois fora no dia tão suave, tão familiar, do passeio que fizemos juntos no Bois, que eu tinha visto pela primeira vez o segundo anel, aquele em que a águia parecia mergulhar o bico na toalha de sangue claro do rubi.
   De resto se, da manhã à noite, eu não cessava de sofrer pela partida de Albertine, isto não significava que só pensasse nela. Por um lado, como o seu encanto, tendo desde muito tempo atingido aos poucos até os objetos mais afastados dela, e que não eram menos eletrizados pela mesma emoção que ela me causava, se algo me fazia pensar em Incarville, ou nos Verdurin, ou em um novo papel de Léa, um fluxo de sofrimento vinha me ferir. Por outro lado, o que eu mesmo chamava pensar em Albertine era pensar nos meios de fazê-la voltar, de juntar-me a ela, de saber o que andava fazendo. De modo que, se, durante essas horas de martírio incessante, um gráfico pudesse representar as imagens que acompanhavam o meu sofrimento, nele se veriam a estação de Orsay, as cédulas oferecidas à Sra. Bontemps, Saint-Loup debruçado à escrivaninha inclinada de uma agência de telégrafo, onde preenchia um formulário de telegrama para mim, e nunca a imagem de Albertine. Da mesma forma que, no decurso de toda a nossa vida, o nosso egoísmo vê o tempo inteiro à sua frente os objetivos preciosos para o nosso eu; mas, jamais encara esse mesmo eu que não deixa de considerá-los, assim também o desejo, que dirige nossos atos, desce até eles; mas não remonta a si ou porque, excessivamente utilitário, se precipita na ação e desdenha o momento, ou porque procuramos o futuro para corrigir as decepções do presente; finalmente porque a preguiça do espírito o impele a deslizar pela vertente imaginação em vez de fazê-lo subir a rampa abrupta da introspecção. Nessas horas de crise em que jogaríamos toda a nossa vida, à medida que a de quem ela depende revela melhora imensidade do lugar que ocupa para deixando nada no mundo que não seja transtornado por ela, proporcional imagem dessa criatura diminui a ponto de se tornar imperceptível. Em todas as coisas encontramos o efeito de sua presença devido à emoção que senti; a própria causa, não a encontramos em parte alguma. Durante aqueles dias incapaz de imaginar Albertine que quase poderia crer que a não amasse, e como minha mãe, nos momentos de desespero em que nunca lhe foi imaginar minha avó (salvo uma vez, no encontro fortuito de um sonho, cuja visão desprezou de tal modo, mesmo dormindo, que se esforçou, com o que lhe desse ânimo no sono, para prolongá-lo), teria podido acusar-se, e de fato se acusa de não sentir a perda de sua mãe, cuja morte no entanto a matava, mas cujas imagens lhe fugiam da lembrança. 
   Por que teria eu de acreditar que Albertine não gostava das mulheres? Porque dissera não gostar delas, principalmente nos últimos tempos; mas repousava a nossa vida numa perpétua mentira? Ela nunca me indagara sequer: "Por que não posso sair livremente? Por que pergunta aos outros o que ando fazendo?" Mas era de fato uma vida bastante singular para que ela me perguntasse essas coisas, caso não lhes tivesse compreendido o motivo. Meu silêncio acerca dos motivos de sua clausura, não era compreensível que correspondesse de sua parte um mesmo e constante silêncio acerca de seus perpétuos desejos, suas numerosas recordações, seus inumeráveis anseios e esperanças? Françoise dava a impressão de saber que eu mentia quando me referi próximo o regresso de Albertine. E sua crença parecia basear-se sobre um mais do que aquela verdade que de costume guiava a nossa criada: que os Patrões não gostam de ser humilhados em face dos serviçais e só lhes dão a conhecer a realidade apenas o que não se afaste muito de uma ficção lisonjeira, própria de manter o respeito. Desta vez, a crença de Françoise se baseara em outra como se ela própria já houvesse despertado e mantido a desconfiança no espírito de Albertine, sobre-excitado a sua cólera, em suma, a tivesse levado ao ponto que poderia prever como inevitável a sua partida. Se isso fosse verdade, a minha versão de uma partida temporária, conhecida e aprovada por mim, só poderia contrariar a incredulidade por parte de Françoise. Mas a ideia que ela fazia do interesse de Albertine, o exagero com que, no seu ódio, aumentava o "lucro"; Albertine presumivelmente tirava de mim, podiam em certa medida falsear a certeza. Assim, quando diante dela eu aludia ao próximo regresso de Albertine como sendo uma coisa muito natural; Françoise me encarava, para ver se não estava inventando, do mesmo modo que, quando o mordomo, para aborrecê-la, trocando as palavras, lia a respeito de uma nova política em que ela custava a acreditar, como, por exemplo, o fechamento das igrejas e a deportação dos padres, lá do fundo da cozinha e sem poder ler, Françoise fixava instintiva e avidamente o jornal, como se pudesse ver se aquilo estava escrito de verdade. 
   Mas, quando ela viu que, após ter escrito uma longa carta, eu punha no envelope o endereço da Sra. Bontemps, esse terror, até então bem vago, de que Albertine regressasse, aumentou em Françoise. Expandiu-se em verdadeira consternação quando, certa manhã, teve de me entregar, no meio da correspondência, uma carta em cujo envelope havia reconhecido a caligrafia de Albertine. Indagava a si mesma se a partida de Albertine não fora uma simples comédia, suposição que duplamente a consternava, por assegurar definitivamente para o futuro a vida de Albertine em nossa casa, e por constituir para mim, isto é, para ela mesma, na medida em que eu era o patrão de Françoise, a humilhação de ter sido enganado por Albertine. Apesar da impaciência que eu tinha em ler a carta, não pude evitar contemplar por um instante o olhar de Françoise, de onde todas as esperanças haviam fugido, deduzindo desse presságio a iminência do retorno de Albertine, como um amador de esportes de inverno conclui alegremente que o tempo frio está próximo ao observar a partida das andorinhas. Por fim Françoise saiu, e, quando me assegurei de que ela havia fechado a porta, abri sem rumor, para não mostrar que estava ansioso, a carta seguinte:
   Meu amigo, obrigada por todas as boas coisas que me diz, estou às suas ordens para cancelar a encomenda do Rolls-Royce, se acha que poderei lhe ser útil nisso, como creio. Basta que você me escreva o nome de seu intermediário. Você se deixaria lograr por essa gente que só procura uma coisa: vender, e que faria você com um carro, você que nunca sai? Estou muito comovida pelo fato de você haver conservado uma boa recordação do nosso último passeio. Creia que, de minha parte, não esquecerei esse passeio duas vezes crepuscular (pois a noite caía e nós temos de nos abandonar) e que ele só se apagará do meu espírito com a noite fechada.
   Senti perfeitamente que a última frase não passava de uma frase e que Albertine não poderia conservar até a morte uma lembrança tão doce desse passeio em que certamente não sentira nenhum prazer, visto que estava impaciente por me deixar. Mas admirei também como era bem dotada a ciclista, a golfista de Balbec. Que antes de me conhecer só havia lido Esther, e como tivera eu razão em achar que ela, na minha casa, enriquecera-se de qualidades novas que a tornavam diferente e mais completa. E assim, a frase que lhe tinha dito em Balbec: "Creio que a minha amizade lhe será preciosa, que sou justamente a pessoa que poderia dar aquilo que lhe falta" – escrevera-a como dedicatória numa fotografia: Como a de ser providencial -, essa frase que dizia sem nela acreditar e unicamente por fazer achar benéfico o estar comigo e reprimir o tédio que pudesse achar em sua companhia, essa frase também poderia ser verdadeira; da mesma forma, quando eu lhe dissera que não queria vê-la, de medo de amá-la. Havia dito porque, ao contrário, sabia que no convívio constante o meu amor até a separação só faria exaltá-lo; mas, na realidade, o convívio constante nascera de uma necessidade dela, infinitamente mais forte que o amor dos primeiros tempos em Balbec.
   Mas, afinal, a carta de Albertine não adiantava em nada as coisas, me falava para escrever ao intermediário. Era preciso sair dessa situação. Tive a seguinte idéia: mandei levar imediatamente uma carta na qual lhe dizia que Albertine estava na casa da tia, que me sentia muito só; que ela me daria prazer imenso se viesse instalar-se em minha casa por algum tempo e que, como eu não queria fazer segredinhos, pedia-lhe que desse conta de Albertine. E, ao mesmo tempo, escrevi a Albertine como se ainda não tivesse recebido a sua carta:
   Minha amiga, perdoe-me o que você compreende muito bem, de tanto os segredinhos que desejei que você fosse avisada por ela e por mim. Por ter tido você tão docemente em minha casa, adquiri o mau hábito de não ficar sozinho. Já que decidimos que você não voltaria, pensei que a pessoa que melhor poderia substituir, por ser a que me mudaria menos, a que mais me lembraria você, é Andrée, e lhe pedi que viesse. Para que tudo isto não pareça muito brusco, só falei em alguns dias; mas, aqui entre nós, penso que desta vez será para sempre. Não acha que tenho razão? Você sabe que o seu pequeno grupo de moças em Balbec sempre foi a célula social que teve para mim o maior prestígio, e ao qual senti extremamente feliz de ser agregado um dia. Sem dúvida, esse prestígio ainda hoje se faz sentir. Já que a fatalidade de nossos temperamentos e a má vida não quiseram que a minha pequena Albertine fosse minha mulher, importa que ainda assim terei uma mulher menos encantadora que ela, mas a quem maiores afinidades de temperamento permitirão talvez ser mais feliz comigo - Andrée.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Marcel Proust - A Prisioneira (Colocarei à parte)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

   Colocarei à parte, dentre esses dias em que me atrasava na casa da Sra. de Guermantes, um que para mim foi marcado por um pequeno incidente cujo cruel significado me escapou inteiramente e só o compreendi muito tempo depois. Naquele fim de tarde, a Sra. de Guermantes me dera, pois sabia que as apreciava, umas seringas vindas do Sul. [Siringa: Gênero de plantas arbustivas da família das oleáceas, muito comuns na Europa e na Ásia. (N. do T)] Quando, tendo deixado a duquesa, subi de volta para casa, Albertine já tinha regressado, e cruzei na escada com Andrée, a quem o aroma excessivamente forte das flores pareceu incomodar.

- Como, vocês já voltaram? -disse eu.

- Faz apenas um instante; mas Albertine tinha que escrever e me mandou embora. 

- Acha que ela tem em mente algum projeto censurável?

- De modo nenhum. Ela está escrevendo à tia, creio. Mas ela, que não gosta de cheiros fortes, não ficará nada contente com as suas siringas. 

- Então eu tive uma péssima ideia! Vou dizer a Françoise que as ponha no patamar da escada de serviço. 

- Se pensa que Albertine não sentirá o cheiro da siringa em você! Este cheiro e o da angélica são talvez os mais persistentes. Além disso, acho que Françoise foi fazer compras.

- Mas então, eu, que hoje estou sem minha chave, como é que poderei entrar?

- Ora, basta tocar a campainha, que Albertine lhe abrirá a porta. E depois, talvez Françoise tenha voltado nesse meio tempo.

   Despedi-me de Andrée. Logo no primeiro toque, Albertine veio me abrir a porta, o que foi bastante complicado, pois, como Françoise havia saído, Albertine não sabia onde acender a luz. Por fim, conseguiu fazer-me entrar, mas as flores de siringa a puseram em fuga. Coloquei-as na cozinha, de modo que, interrompendo a sua carta (não entendi por quê), minha amiga teve de ir ao meu quarto, de onde me chamou, e de estender-se em minha cama. Mais uma vez, no momento, não achei em tudo aquilo nada que não fosse muito natural, no máximo um tanto confuso, em todo caso insignificante. Ela escapara de ser surpreendida com Andrée e ganhara tempo apagando tudo, indo para o meu quarto para não deixar ver a sua cama em desordem e fingira estar escrevendo. Mas veremos tudo isso mais tarde, tudo isso que eu jamais soube se era verdadeiro.
   Salvo este único incidente, tudo se passava normalmente quando eu voltava da casa da duquesa. Ignorando Albertine se eu desejaria ou não sair com ela antes do jantar, encontrava eu de costume, na antecâmara, o seu chapéu, seu casaco, sua sombrinha, que ela deixara para qualquer eventualidade. Logo que os avistava, ao entrar, a atmosfera da casa tornava-se respirável. Eu sentia que, em vez de um ar rarefeito, a ventura é que a enchia. Estava salvo da minha tristeza, a vista desses nadas me fazia possuir Albertine, corria para ela. 
   Nos dias em que eu não descia à casa da Sra. de Guermantes, a fim de que o tempo me parecesse menos longo, durante aquela hora que precedia o regresso da minha amiga, eu folheava um álbum de Elstir ou um livro de Bergotte. 
   Então-como as próprias obras que parecem dirigir-se apenas à vista e ao ouvido exigem que, para desfrutá-las, nossa inteligência desperta colabore estreitamente com esses dois sentidos-eu fazia, sem perceber, que saíssem de mim os sonhos que Albertine suscitara outrora, quando não a conhecia ainda, e que a vida cotidiana havia extinto. Eu os lançava na frase do músico ou na imagem do pintor como um crisol, e deles alimentava a obra que estava lendo. E esta, sem dúvida, me parecia mais viva. Porém Albertine não ganhava menos em ser desse modo transportada de um dos dois mundos a que temos acesso e onde podemos situar alternativamente um mesmo objeto, em escapar assim à esmagadora pressão da matéria para nos recrearmos nos fluidos espaços do pensamento. De súbito acontecia-me, e por um instante, poder sentir pela tediosa moça ardentes afetos. Nesse momento, ela parecia uma obra de Elstir ou de Bergotte, eu experimentava uma exaltação momentânea por ela, vendo-a no recuo da imaginação e da arte. 
   Em breve, preveniam-me que ela acabava de regressar; ainda tinham ordem de não lhe pronunciar o nome se eu não estivesse sozinho, se, por exemplo, estivesse comigo Bloch, a quem eu obrigava a ficar mais um instante, de modo a que não se arriscasse a encontrar a minha amiga. Pois eu escondia que ela morava comigo, e até que a recebia em casa, tamanho era o medo de que um de meus amigos se enamorasse dela, fosse esperá-la fora, ou que, no instante de um encontro na antecâmara ou no corredor, ela pudesse fazer um sinal e marcar um encontro. Depois eu ouvia o ruído da saia de Albertine, que se dirigia para o quarto, pois por discrição e também, sem dúvida, por aquelas tentações com que, no tempo dos nossos jantares na Raspeliere, esforçava-se para que eu não ficasse enciumado, ela não vinha para o meu quarto, sabendo que não estava sozinho. Mas não era só por isto, eu a compreendia logo. Lembrava-me, havia conhecido uma primeira Albertine; depois, bruscamente, ela se mudara numa outra, a atual. E pela mudança não podia eu responsabilizar a ninguém, só a mim mesmo. Tudo o que ela teria logo me confessado facilmente, de bom grado, quando éramos bons camaradas, deixara de expandir-se desde que julgara que eu a amava, ou talvez sem pronunciar o nome do Amor, adivinhara um sentimento inquisitorial que pretende saber, entretanto sofre ao saber, e procura saber ainda mais. Desde aquele dia ela me ocultara tudo. Desviava-se do meu quarto se pensava que eu estava, nem mesmo, muitas vezes, com uma amiga e sim com um amigo, ela cujos olhos se interessavam outrora tão vivamente quando lhe falava de uma moça:

- Convém tratar de convidá-la, gostaria de conhecê-la. 

- Mas ela tem aquilo que você chama de maus modos. 

- Justamente, seria bem mais divertido. - 

   Naquele momento, eu poderia talvez saber tudo. E mesmo quando, no pequeno cassino, ela afastara os seios dos de Andrée, não creio que o fizesse devido à minha presença mas à de Cottard, o qual lhe teria dado fama, segundo pensava sem dúvida, de má reputação. Entretanto, já então ela começara a congelar-se, as palavras confiantes já não saíam de seus lábios, seus gestos eram reservados. Depois afastara de si mesma tudo o que teria podido emocionar-me. Às partes de sua vida que eu não conhecia, dava um caráter ao qual se fazia cúmplice a minha ignorância, para sublinhar o que possuía de inofensivo. E agora, completada a transformação, ela ia diretamente a seu quarto, se eu não estivesse sozinho, não só para não me incomodar, mas para me mostrar que era despreocupada em relação aos outros. Havia só uma coisa que ela nunca mais faria para mim, que ela só teria feito no tempo em que isso me fora indiferente, que teria feito facilmente por isso mesmo, era justamente confessar. Eu estaria, para sempre, como um juiz, reduzido a tirar conclusões incertas de imprudências de linguagem que não eram talvez inexplicáveis sem recorrer à culpabilidade. E ela sempre me sentiria ciumento e juiz.
   Nosso noivado assumia uma condição de processo e dava-lhe a timidez de uma pessoa culpada. Agora ela mudava de assunto quando se tratava de pessoas, homens ou mulheres, que não fossem velhos. Quando ela ainda não desconfiava que lhe tinha ciúmes é que eu deveria ter indagado o que desejava saber. É preciso aproveitar aquele tempo.
   É então que nossa amiga nos fala dos seus prazeres e até dos meios que emprega para dissimulá-los aos outros. Agora, já não teria me confessado como fizera em Balbec, um tanto porque era verdade, um tanto para se escusar de não mostrar mais sua ternura por mim, pois eu já então a deixava cansada, e ela havia percebido, pela minha amabilidade com ela, que não havia necessidade de me agradar tanto quanto aos outros para obter de mim mais do que deles-ela já não teria me confessado como então: 

"Acho estúpido deixar ver que se ama; comigo, é o contrário: quando uma pessoa me agrada, finjo não prestar atenção nela. Assim, ninguém fica sabendo de coisa alguma." 

   Como! Era a mesma Albertine de hoje, com suas pretensões à franqueza e a ser indiferente a todos, que me dissera aquilo! Não teria me enunciado essa regra agora! 
   Ao conversar comigo, contentava-se em aplicá-la dizendo acerca de tal ou qual pessoa que podia inquietar-se:

- Ah! Não sei, não olhei para ela, é insignificante demais.

   E, de vez em quando, para antecipar-se às coisas que eu poderia acabar sabendo, fazia dessas confissões cuja entonação, antes que se conheça a realidade que elas são encarregadas de deturpar, de inocentar, já denuncia como sendo mentiras. 
   Escutando os passos de Albertine com o confortável prazer de imaginar que ela não voltaria a sair aquela noite, admirava-me de que, para essa moça, com quem outrora acreditara jamais poder travar relações, voltar todos os dias para casa significava exatamente entrar em minha casa. O prazer feito de mistério e de sensualidade, que eu experimentara, fugitivo e fragmentário em Balbec, na noite em que ela tinha vindo dormir no hotel, estava completo, estabilizado, enchia a minha casa, outrora vazia, de uma permanente provisão de brandura doméstica, quase familiar, dispersa até pelos corredores, e na qual todos os meus sentidos, ora de fato, ora nos momentos em que eu estava sozinho, em imaginação e pela expectativa do regresso, se nutriam sossegadamente. Ao ouvir fechar-se a porta do quarto de Albertine, caso eu estivesse na companhia de um amigo, apressava-me a fazê-lo sair, só o deixando quando estava certo de que ele já se achava na escada, de que eu descia alguns degraus se fosse necessário. 
   No corredor, Albertine vinha ao meu encontro.

- Olhe, enquanto mudo a roupa, mando-lhe Andrée, ela subiu um momentinho para lhe dar boa-noite. -

   E, estando ainda envolvida no seu grande véu cinzento, que descia da touca de chinchila e que eu lhe havia dado em Balbec, retirou-se e voltou para seu quarto, como se tivesse adivinhado que Andrée, encarregada por mim de vigiá-la, ia, ao me contar numerosos detalhes, ao fazer menção ao encontro delas com uma pessoa conhecida, trazer alguma precisão às regiões vagas em que se desenrolara o passeio que haviam feito o dia inteiro e que eu não pudera imaginar.
   Os defeitos de Andrée tinham se denunciado; ela não era mais tão agradável como quando a conhecera. Havia nela, agora, à flor da pele, uma espécie de inquietação acre, prestes a recrudescer como no mar uma rajada de vento, se por acaso eu lhe falasse de alguma coisa que fosse agradável para Albertine e para mim. Isto não impedia que Andrée fosse melhor para mim, gostasse mais de mim e muitas vezes tive a prova disso -do que de pessoas mais amáveis. Mas o menor ar de felicidade que se tivesse, se não fosse causado por ela, produzia-lhe uma impressão nervosa, desagradável como o barulho de uma porta fechada com muita força. Ela admitia os sofrimentos em que não tomasse parte, não os prazeres; se me via doente, afligia-se, lastimava-se, teria cuidado de mim. Mas, se eu tivesse uma satisfação, tão insignificante como espreguiçar-me com ar de beatitude, ao fechar um livro, e dizer:

- Ah, acabo de passar duas horas encantadoras a ler tal livro agradável -, estas palavras, que teriam dado prazer a minha mãe, a Albertine, a Saint-Loup, excitavam em Andrée uma espécie de reprovação, talvez simplesmente mal-estar nervoso. Minhas satisfações causavam-lhe uma irritação que ela não podia ocultar. Esses defeitos eram completados por outros mais graves; um dia em que eu falava daquele rapaz tão entendido em assuntos de corridas, jogos e golfe, e tão inculto quanto ao resto, que eu encontrara com o pequeno grupo em Balbec, Andrée começou a fazer troça: 

- Sabe? O pai dele cometeu um roubo, quase foi processado. Tornaram-se ainda mais petulantes, mas eu me divirto contando o caso a todos. Gostaria que me processassem por denúncia caluniosa. Que belo depoimento eu faria! -

   Seus olhos faiscavam. Ora, eu soube que o pai não cometera nenhum ato desabonador, que Andrée o sabia tão bem como qualquer um. No entanto, julgara-se desprezada pelo filho, havia procurado algo que o pudesse prejudicar, cobri-lo de vergonha, inventara todo um romance de depoimentos que imaginara e ela seria chamada a fazer e, à força de repetir os detalhes dessa invenção, talvez ela própria ignorasse que tudo aquilo não era verdade.
   Tal como se havia tornado (e até sem seus ódios curtos e doidos), não teria desejado vê-la, nem que apenas fosse por causa daquela suscetibilidade malévola que rodeava de um cinturão acre e glacial a sua verdadeira índole, mais calorosa e melhor. Porém as informações que só ela podia me dar sobre a minha amiga interessavam-me demais para que eu desprezasse uma tão rara ocasião para sabê-las.
   Andrée entrava, fechava a porta atrás de si; elas haviam encontrado uma amiga, e Albertine jamais me falara dela.

- Que foi que conversaram?

- Não sei, pois aproveitei que Albertine não estava sozinha para ir comprar lã.

- Comprar lã? 

- Sim, foi Albertine quem me pediu.

- Mais uma razão para não ir, era talvez de propósito para afastá-la. 

- Mas ela me havia pedido antes de encontrar a amiga. 

- Ah! - respondia eu, recobrando o fôlego. E logo a suspeita me assaltava de novo: - Mas quem sabe se ela não tinha marcado um encontro de antemão com essa amiga e não combinara um pretexto para estar segura de ficar sozinha quando quisesse?-Além disso, não estaria eu certo de que a velha hipótese (a de que Andrée só me dizia a verdade) fosse a boa? Andrée talvez estivesse mancomunada com Albertine. Amor, dizia eu comigo em Balbec, a gente tem por uma pessoa cujos atos principalmente nos despertam o ciúme; sentimos que, se ela no-los contasse todos, talvez nos curássemos facilmente de amar. O ciúme, por mais habilmente dissimulado que seja por aquele que o sente, é bem depressa descoberto por aquela que o inspira, e que por sua vez usa de habilidade. Ela procura nos iludir acerca de que nos possa tornar infelizes, e o consegue, pois, àquele que não está prevenido, por que razão uma frase insignificante revelaria as mentiras que ela esconde? Não a distinguimos das outras; dita com temor, é ouvida sem atenção. Mais tarde, quando estivermos a sós, voltaremos àquela frase, e ela não nos parecerá perfeitamente adequada à realidade. Mas essa frase, lembramo-nos bem dela? Parece nascer em nós, espontaneamente, a seu respeito e quanto à exatidão de nossa lembrança, uma dúvida do tipo daquelas que fazem com que, no decurso de certos estados nervosos, a gente nunca possa lembrar se correu ou não o ferrolho, e isto tanto na qüinquagésima como na primeira vez; dir-se-ia que se pode recomeçar indefinidamente o ato sem que ele jamais seja acompanhado de uma lembrança exata e libertadora. Pelo menos podemos fechar a porta uma qüinquagésima primeira vez. Ao passo que a frase inquietante está no passado, numa audição incerta, cuja renovação não depende de nós. Então, exercemos nossa atenção sobre outras pessoas, que não escondem nada, e o único remédio, que absolutamente não queremos, seria ignorar tudo para não ter o desejo de saber melhor. Logo que o ciúme é descoberto, é considerado por aquela de quem é o objeto como uma desconfiança que autoriza a traição. Além disso, para tentar saber alguma coisa, nós é que tomamos a iniciativa de mentir, de enganar. Andrée e Aimé bem que nos prometem não dizer nada, mas o farão? Bloch não pôde prometer nada, visto que nada sabia, e, por pouco que converse com cada um dos três, Albertine, com a ajuda do que Saint-Loup teria denominado "cotejo", saberá que lhe mentimos quando pretendíamos ser indiferentes a seus atos e moralmente incapazes de mandá-la vigiar. Assim ocorrendo-relativamente ao que fazia Albertine-, à minha infinita dúvida habitual, indeterminada demais para não ser indolor, e que era para o ciúme o que são para o desgosto esses começos de esquecimento em que o sossego nasce do vago-o pequeno fragmento de resposta que me trazia Andrée colocava de imediato novas perguntas; eu não conseguira, ao explorar uma parcela da grande zona que se estendia ao meu redor, mais que afundar para dentro dela aquele incognoscível que é para nós, quando procuramos efetivamente nos representá-la, a vida real de uma outra pessoa. Continuava a interrogar Andrée, enquanto Albertine, por discrição e para me deixar (tê-lo-ia adivinhado?) todo o lazer de questionar sua amiga, prolongava o ato de despir-se no quarto.

- Creio que o tio e a tia de Albertine gostam muito de mim - disse eu estouvadamente a Andrée, sem pensar no seu temperamento. E logo vi o seu rosto viscoso alterar-se como um xarope azedo, parecendo turvar-se para sempre. Sua boca se fez amarga. Nada mais restava em Andrée daquela alegria juvenil que, como todo o pequeno grupo e apesar de sua natureza enfermiça, ela ostentava no ano de minha primeira temporada em Balbec, e que agora (é verdade que Andrée estava um pouco mais velha) se eclipsava tão depressa nela. Mas eu ia fazê-la involuntariamente renascer antes que me deixasse para ir jantar em casa.- Alguém me fez hoje um imenso elogio de sua pessoa - disse-lhe. E logo um raio de alegria iluminou seu olhar, ela parecia amar-me de fato. Evitava olhar-me, mas ria no vago com dois olhos subitamente bem redondos.

- Quem foi? - perguntou com um interesse ingênuo e glutão. Disse-lhe um nome e, fosse quem fosse, ela estava feliz.

   Depois, chegava a hora de ir embora, ela me deixava. Albertine voltava para junto de mim; tirara o vestido e agora trazia um dos peignoirs de crepe da China, ou dos chambres japoneses, cuja descrição havia pedido à Sra. de Guermantes e para vários dos quais eu recebera certos detalhes suplementares da Sra. Swann, por meio de uma carta que principiava por estas palavras: "depois de seu longo eclipse, julguei, ao ler a sua carta relativa aos meus teagown, receber notícias de uma alma do outro mundo." 

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap I - Enquanto eu conversava)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra



Capítulo Primeiro
Segunda Parte


continuando...

   Enquanto eu conversava com a Sra. de Guermantes, antes mesmo que ela tivesse deixado o vestíbulo, ouvi uma voz que, no futuro, devia discernir sem erro possível. Era, no caso particular, a do Sr. de Vaugoubert conversando com o Sr. de Charlus. Um clínico não precisa que o doente em observação erga a camisa, nem de ouvir a sua respiração, a voz é suficiente. Quantas vezes mais tarde fiquei impressionado, num salão, pela entonação ou o riso de determinado homem, que no entanto copiava exatamente a linguagem de sua profissão ou as maneiras do seu ambiente, afetando uma distinção severa ou uma familiaridade vulgar, mas cuja voz falsa bastava para assinalar:

"é um Charlus" ao meu ouvido treinado como o diapasão de um afinador! Naquele momento, passou todo o pessoal embaixada, saudando o Sr. de Charlus. Se bem que minha descoberta do gênero de doença em questão datasse apenas daquele mês (quando avistara o Sr. de Charlus e Jupien), eu não teria tido necessidade de fazer perguntas nem de auscultar para emitir um diagnóstico.

   Sr. de Vaugoubert, conversando com o Sr. de Charlus, pareceu incerto: tudo, deveria saber do que se tratava, após as dúvidas da adolescência invertido julga-se o único de seu tipo no universo; só mais tarde outro exagero que a única exceção é o homem normal. Porém, ansioso e timorato, o Sr. de Vaugoubert não se entregava há muito tempo que para ele teria sido o prazer. A carreira diplomática tivera sobre ele efeito de uma ordenação religiosa. Combinada com a assiduidade à E. de Ciências Políticas, ela o votara desde os seus vinte anos à castidade cristã. Assim como cada sentido perde força e vivacidade, atrofiando quando não é posto para funcionar, o Sr. de Vaugoubert, da mesma forma que o homem civilizado já não seria capaz dos exercícios de força em acuidade do ouvido do homem das cavernas, tinha perdido a perspicácia especial que raramente se encontrava em falta no Sr. de Charlus; e, mesas oficiais, seja em Paris, seja no estrangeiro, o ministro pleni-potentário não chegava sequer a reconhecer aqueles que, sob o disfarce do uniforme, eram no fundo seus iguais. Alguns nomes pronunciados pelo Sr. de Charlus, indignado se os citassem por seus gostos, mas sempre se divertindo em fazer conhecer os dos outros, causaram no Sr. de Vaugoubert um espanto delicioso. Não que depois de tantos anos ele sonhasse em desfrutar de alguma oportunidade feliz. Porém, essas revelações rápidas, semelhantes àquelas que nas tragédias de Racine mostram a Atália e a Abrler que Jonas pertence à raça de Davi, que Ester, sentada na púrpura, tem pais judeus, mudando o aspecto da alegação de X... ou de determinado serviço do Ministério das Relações Exteriores, tornavam retrospectivamente esses palácios tão misteriosos como o templo de Jerusalém ou a sala do trono de Susa. Diante daquela embaixada, cujo pessoal jovem foi inteiro apertar a mão do Sr. de Charlus, o Sr. de Vaugoubert assumiu o ar maravilhado de Elisa ao exclamar, em Esther: 

- Céus! Que numeroso enxame de inocentes beldades se oferta a meus olhos em multidão e sai de todos os lados! Que amável pudor em seus rostos se espelha!

   Depois, desejoso de ser mais "bem informado", lançou risonho ao Sr. de Charlus um olhar tolamente interrogativo e concupiscente: 

- Mas é claro! - disse o Sr. de Charlus, com o ar douto de um erudito falando a um ignaro. E logo o Sr. de Vaugoubert (o que muito irritou o Sr. de Charlus) não tirou mais os olhos daqueles jovens secretários, que o embaixador de X na França, velho reincidente, não escolhera ao acaso. O Sr. de Vaugoubert calava-se; eu via apenas os seus olhares. Mas, habituado desde a infância a atribuir, mesmo ao que é mudo, a linguagem dos clássicos, eu fazia com que os olhos do Sr. de Vaugoubert dissessem os versos com que Ester explica a Elisa que Mardoqueu, zeloso por sua religião, se empenhou em colocar a serviço da rainha somente moças que professassem o mesmo credo. Entretanto o seu amor pela nossa nação povoou este palácio de filhas de Sião, Jovens e tenras flores pela sorte agitadas, sob um céu estrangeiro, como eu, transplantadas. Em local isolado de testemunhas profanas, Ele (o excelente embaixador) empenha seu estudo e seus cuidados em formá-las. Por fim o Sr. de Vaugoubert falou sem ser pelo olhar. 

- Quem sabe - disse com melancolia se, no país em que vivo, não existe a mesma coisa? 

- É provável - respondeu o Sr. de Charlus -, a começar pelo rei Teodósio, conquanto eu não saiba nada de positivo a seu respeito. - Oh! Isso não! - Então não devia ser permitido que parecesse tanto. E é todo cheio de maneiras. É o gênero "mimoso", o tipo que eu mais detesto. Eu não teria coragem de me mostrar em sua companhia na rua. Além disso, o senhor deve muito bem conhecê-lo pelo que é; é conhecido como o lobo branco. - O senhor se engana completamente a seu respeito. Aliás, ele é encantador. No dia em que foi assinado o acordo com a França, o rei me beijou. Nunca fiquei tão emocionado. - Era a ocasião para o senhor lhe dizer o que desejava. - Oh, meu Deus, que horror! Se ele suspeitasse! Mas quanto a isso não tenho receio. - Palavras que ouvi, pois estava pouco afastado, e que fizeram com que recitasse mentalmente:

“Até hoje o rei ignora quem sou, E este segredo mantém presa a minha língua.”

   Esse diálogo meio mudo, meio falado só durara poucos instantes e eu apenas dera alguns passos no salão com a duquesa de Guermantes quando uma pequena senhora morena, extremamente bonita, a deteve:  

- Desejava tanto vê-la! D'Annunzio a avistou de um camarote; escreveu à princesa de T*** uma carta em que disse que jamais vira algo tão belo. Ele daria toda a sua vida por dez minutos de conversação com a senhora. Em todo caso, mesmo que não possa ou não queira, a carta está em meu poder. Seria preciso marcar-me um encontro. Há certas coisas que não posso dizer aqui. Vejo que o senhor não me reconhece - acrescentou dirigindo-se a mim -; conheci-o na casa da princesa de Parma a qual eu nunca tinha ido. O imperador da Rússia gostaria que seu pai fosse enviado à Petersburgo. Se pudesse comparecer na terça-feira, justamente Isvolski estará lá, falaria com o senhor. Tenho um presente para lhe dar querida - acrescentou, voltando-se para a duquesa - e que não daria a nenhuma outra pessoa. Os manuscritos de três peças de Ibsen, que ele mandou pelo seu velho enfermeiro. Guardarei um e lhe darei os outros.

   O duque de Guermantes não estava encantado com tais ofertas. Como não tinha certeza se Ibsen ou d'Annunzio eram vivos ou mortos; via os escritores e os dramaturgos indo visitar sua mulher e pondo-a em suas obras. As pessoas da sociedade facilmente imaginam os livros como sendo uma espécie de cubo, do qual uma das faces é retirada, de modo que o autor se apressa em "fazer entrar" lá dentro as pessoas que encontra. É claro que se trata de um procedimento desleal, e não passam de gente de pouca importância. Certo, não seria aborrecido vê-los "de passagem", graças a eles, se lemos um livro ou um artigo, conhecemos "o reverso cartas", podemos "levantar as máscaras". Apesar de tudo, o mais prudente é limitarmo-nos aos autores mortos. O Sr. de Guermantes apenas achava "perfeitamente conveniente" o senhor que fazia os necrológicos no Le Gaur; este, pelo menos, contentava-se em citar o nome do Sr. de Guermantes no alto das pessoas relacionadas, "notadamente" nos enterros em que assinara o livro de presença. Quando preferia que seu nome não figurasse, em vez de assinar o duque enviava uma carta de pêsames à família do falecido, testemunhando-lhe os seus sentimentos. Que essa família pudesse publicar no jornal:

"Entre as cartas recebidas, citemos a do duque de Guermantes, etc.", aquilo não era culpa do noticiarista, e sim do filho, irmão ou pai da morta, que o duque qualificava de arrivistas, e com quem daí em diante, estava decidido a não ter mais relações (o que denominavas, não conhecendo bem o sentido das locuções, "ter contas a ajustar"). Por certo que os nomes de Ibsen e d'Annunzio, e sua sobrevivência; fizeram franzir as sobrancelhas do duque, que ainda não estava muito longe de nós para não ter ouvido as amabilidades diversas da Sra. Timoléon d'Amoncourt. Era uma mulher encantadora, de um espírito, como sua beleza, tão deslumbrante, que só um dos dois teria conseguido agradar. Mas, nascida fora do meio em que agora vivia, só tendo aspirado a princípio a um salão literário, amiga sucessivamente de modo algum amante, pois era de costumes muito puros e exclusivamente de cada grande escritor que lhe dava todos os seus manuscritos e escrevia livros para ela; e, tendo-a o acaso introduzido no faubourg SaintGermain, esses privilégios literários lhe valeram naquele meio. E agora desfrutava de uma posição que a eximia de outras graças além da sua presença espalhava. Mas, habituada outrora à esperteza, às manobras, aos serviços, perseverava neles, embora não fossem mais necessários. Tinha sempre um segredo de Estado para revelar, um potentado a nos dar a conhecer, a aquarela de um mestre a nos oferecer. Em todas essas atrações inúteis havia um pouco de mentira, mas eles faziam de sua vida uma comédia de uma complicação cintilante e era exato que ela conseguia nomear prefeitos e generais. Sempre caminhando a meu lado, a duquesa de Guermantes deixava a luminosidade azulada dos olhos flutuar à sua frente, porém no vago, a fim de evitar as pessoas com quem não queria entrar em contato e das quais por vezes adivinhava, de longe, o obstáculo ameaçador. Avançávamos entre uma dupla sebe de convidados, que, sabendo que jamais conheceriam "Oriane", desejavam ao menos, como curiosidade, mostrá-la à própria esposa:

- Ursule, depressa, depressa, vem ver a senhora de Guermantes, que está conversando com esse rapaz. -

   E sentia-se que não faltava muito para que trepassem nas cadeiras para ver melhor, como na parada de 14 de julho ou no Grand Prix. Não é que a duquesa de Guermantes tivesse um salão mais aristocrático do que sua prima. O da primeira era frequentado por pessoas que a segunda jamais quis convidar, principalmente por causa de seu marido. Jamais teria recebido a Sra. Alphonse de Rothschild, que, amiga íntima da Sra. de La Trémoïlle e da Sra. de Sagan, como a própria Oriane, freqüentava muito a casa desta última. O mesmo ocorria também com o barão Hirsch, que o príncipe de Gales levara a sua casa, mas não à casa da princesa, a quem teria desgostado com isso, e igualmente com algumas grandes notoriedades bonapartistas ou até republicanas, que interessavam à duquesa, mas que o príncipe, realista convicto, não teria desejado receber. Visto que seu anti-semitismo era também de princípios, não se dobrava diante de nenhuma elegância, por mais acreditada que fosse, e se recebia Swann, de quem era o amigo de sempre, sendo aliás o único dos Guermantes que o chamava de Swann e não de Charles, é que, sabendo que a avó de Swann, protestante casada com um judeu, tinha sido amante do duque de Berri, tentava de vez em quando acreditar na lenda que fazia o pai de Swann um filho natural do príncipe. Nessa hipótese, que todavia falsa, Swann, filho de um católico, o qual por sua vez era filho de Bourbon e de uma católica, nada tinha que não fosse cristão.

- Como, você não conhece estes esplendores? - perguntou a duquesa, ao falar-me do lugar em que nos achávamos. Mas, depois de celebrado o "palácio" da prima, apressou-se a acrescentar que preferia mil vezes "seu humilde casebre". - Aqui, é admirável para uma visita. Mas morreria de desgosto se me fosse necessário ficar dormindo em quartos onde aconteceram tantos fatos históricos. Isso me causaria o efeito de ter ficado após o fechamento, de ter sido esquecida, no castelo de Bloiag Fontainebleau ou até no Louvre, e de ter, como único recurso contra a Alteza, murmurar para mim mesma que estou no quarto em que Monalde foi assassinado. Como camomila, é insuficiente. Veja, ali está a Sra. Saint-Euverte. Jantamos há pouco em sua casa. Como ela dá amanhã a grande recepção anual, pensava que ela teria ido dormir. Mas ela não parece perder uma festa. Se esta tivesse lugar no campo, ela viria numa carroça, mas não deixaria de comparecer.

   Na realidade, a Sra. de Saint-Euverte viera naquela noite, menos pelo prazer de não faltar a uma festa em casa dos outros do que para assegurar o sucesso da sua, recrutar os últimos aderentes e, de qualquer maneira, passar in extremis a revista das tropas que, no dia seguinte, deixariam evoluir brilhantemente no seu garden-party. Pois já não era de poucos anos que os convidados das festas Saint-Euverte não eram mais os mesmos de antigamente. As notabilidades femininas do meio Guermantes, tão disseminadas então, cumuladas de gentileza pela dona da casa, tinham poucos levado suas amigas. Ao mesmo tempo, por um trabalho paralelamente progressivo, mas em sentido inverso, a Sra. de Saint-Euverte reduzira, ano após ano, o número das pessoas desconhecidas do mundo elegante. Deixava-se de ver uma, depois outra. Durante algum tempo funcionou o sistema de "fornadas", que permitia, graças às festas sobre as quais se fazia social, convidar os renegados para que se divertissem entre eles, o que pensava de convidá-los com as pessoas do primeiro nível. De que podiam queixar-se? Não tinham (panem et circenses) bolinhos e um belo programa musical? Assim, de alguma forma em simetria com as duas duquesas exiladas, que outrora, quando estreara o salão Saint-Euverte, tinham sustentado, como duas cariátides, a abóbada oscilante, nos últimos anos mescladas à alta sociedade, não se distinguiram mais que duas pessoas heterogêneas: a velha Sra. de Cambremer e a mulher de um arquiteto linda voz, à qual era-se freqüentemente obrigado a pedir que cantasse. Não conhecendo mais ninguém na casa da Sra. de Saint-Euverte, chorando suas companheiras perdidas, sentindo que incomodavam, pareciam estar quase morrendo de frio como duas andorinhas que não emigraram a tempo. Assim, no ano seguinte não foram convidadas; a Sra. de Franquetot procurou batalhar em favor da prima que tanto apreciava a música. Mas, como não pôde obter para ela uma resposta mais explícita que estas palavras:  

"Mas sempre se pode entrar para ouvir a música que lhe agrade, não há nenhum crime nisto!", a Sra. de Cambremer não julgou o convite muito insistente, e desistiu.

   Diante dessa transmutação, operada pela Sra. de Saint-Euverte, de um salão de leprosos em um salão de grandes damas (a última forma, de aparência ultra-chique, que ele havia assumido), podia causar espanto que a pessoa que daria no dia seguinte a festa mais brilhante da temporada precisasse, na véspera, dirigir um supremo apelo às suas tropas. Mas é que a preeminência do salão Saint-Euverte só existia para aqueles cuja vida mundana consiste apenas em ler a notícia das matinês e dos saraus, no Le Gaulois ou no Fígaro, sem jamais terem ido a nenhum deles. A esses mundanos, que só veem a sociedade no jornal, a enumeração das embaixatrizes da Inglaterra, da Áustria, etc., das duquesas d'Uzes, de La Trémoille, etc., etc. bastava para que imaginassem de bom grado o salão Saint-Euverte como o primeiro de Paris, quando de fato era dos últimos. Não que as notícias fossem mentirosas. A maioria das personalidades citadas tinham estado presentes. Mas cada uma comparecera à custa de súplicas, finezas, serviços prestados, e tendo o sentimento de honrar infinitamente a Sra. de Saint-Euverte. Tais salões, mais evitados que procurados, e aonde só se vai de encomenda, por assim dizer, só iludem as leitoras da seção de "Mundanismo". Passam por alto uma festa verdadeiramente elegante, em que uma dona de casa, podendo ter todas as duquesas, que ardem por estar "entre os eleitos", só convida a duas ou três, e não manda pôr o nome de seus convidados no jornal. Assim essas mulheres, desconhecendo ou desdenhando o poder que assumiu a publicidade atualmente, são elegantes para a rainha da Espanha, mas desconhecidas da multidão, porque a primeira sabe, e a segunda ignora quem elas são.
   A Sra. de Saint-Euverte não era dessas mulheres e, como boa apanhadora, vinha colher para o dia seguinte tudo quanto era convidado. O Sr. de Charlus não o era, havia se recusado sempre a ir à casa dela. Porém estava rompido com tanta gente que a Sra. de Saint-Euverte podia atribuir aquilo ao temperamento do barão.

continua na página 32...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap I - Enquanto eu conversava) 
Volume 6
Volume 7

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Memórias - 06: rusgas e rezingas, rastros do aprendizado

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

06 – rusgas e rezingas, rastros do aprendizado

amiga, meus ensinamentos foram outros, aprendia com minha irmã que poderia amar e lutar em qualquer lugar com a mesma vontade enquanto fosse possível que a paixão me tomasse em seus braços... enquanto fosse possível

¡Mamá!, onde está o saco das meias?

¿Dónde estás? No lo encuentro, no quiero ir, déjame quedarme... Dios mío...

don Juan ressurgia na sua frente, em meio aquela avalanche de rusgas e rezingas, espuma branca na boca, no queixo e nos pelos espetados do peito, a escova firme em movimentos de vai e vem, os olhos brilhando

não tinha jeito, a bondade natural desse homem, em alguns poucos momentos, é bem verdade, embaralhada com algum desleixo, lhe trazia desconforto, era quando olhava para o marido como um acessório inevitável, o seu quebra-galho, apenas isso, um colo para se esconder para sempre que for possível

sentia pena de si mesma, Qué facil es quedarse en un tarro de conservas, repetia para escutar o eco da própria voz, ¿Y a quién si podría confesar lo que me gusta y lo que no, lo que quiero y lo no quiero sobre tantas obligaciones impersonales y imposibles? Todo lo que este amor por la familia me impide y me prohíbe hacer.

rastros de um longo estágio para meninas que embarcam – ou são embarcadas – numa jornada para se tornarem mães e esposas cuidadoras, sozinhas ou com amigas de infância e sonhos, até darem o próximo passo em suas vidas – o último para muitas –, formarem suas próprias famílias

não é um caminho fácil, logo descobrem que está cheio de experiências significativas e renúncias, não existe um manual de instruções, precisam aprender escutar a sabedoria, os silêncios, e perceber a paciência das mães adquiridas ao longo dos tempos

cada desafio enfrentado, cada lágrima derramada e cada sorriso compartilhado contribuem para a formação dos seus rastros do aprendizado

as meninas educadas com muitos cuidados – os meninos na liberdade da soltura –, ser mãe vai além de dar à luz uma criança, é sobre amor incondicional, dedicação e orientação

as mães se maravilham com a capacidade de suas filhas para aprenderem tanto quanto elas as ensinam, as noites sem dormir serão recompensadas com abraços calorosos e risos contagiantes que preencherão suas casas com alegria e novidades

os conselhos são inúmeros para a jovem candidata, ser esposa cuidadora também exige delicadeza e compreensão, parceiras verdadeiras de seus maridos, apoiando nos momentos difíceis e comemorando juntos nas alegrias da vida, Hija, tienes que aprender encontrar el equilibrio entre tus propias necesidades y las de tu familia, construyendo un hogar donde todos se sientan queridos y valorados. Tendrás que aprender a perdonar muchas veces, mirar hacia outro lado y no ver lo que estás viendo.

ao longo do tempo, quem sabe, as cicatrizes de suas jornadas de aprendizado se transformem  em rastros de sabedoria e gratidão repassados às meninas recém-chegadas, mas é certo que cada obstáculo superado, cada lição aprendida, moldavam – e moldam –essas meninas em mulheres fortes, alegres, compassivas ou tristes, nem sempre resignadas, mas todas iludidas pelo medo que estariam prontas para qualquer desafio que a vida lhes trouxesse, los melones se interponen en el camino

jovens assustadas trilhando o caminho do casamento e da maternidade com coragem e determinação, confiando que apesar do aprendizado longo e cheio de desafios doloridos, tudo vai valer a pena, Al fin y al cabo, lo que importa, hija mía, son las huellas que dejamos y el legado de amor que compartimos con el mundo.

¡Cierra la puerta!

Amorzinho, lembra que dia é hoje, don Juan pergunta e a espuma branca escorre pelos cantos da boca aberta

Debería ser domingo... ¿Por qué?

Não, amorzinho... pensa... o dia, amorzinho... vamos, pensa...

Muy bien, el lunes...

don Juan tira a escova da boca, fala e gesticula como um maestro e sua batuta à frente do seu bando

Isso! E o que as pessoinhas desta família fazem nas segundas... pela manhã?

Molestan... molestan...

ele parou como se fosse apontar para os violinos algum desfecho solene e único, a escova aguardando acima da cabeça, Elas trabalham e vão à escola! Certo, crianças?

¡Papá!... estamos atrasadas!

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Leia também:

Livro Um:
Memórias - 01: a lua cheia

Memórias - 35: não lembro das despedidas
Livro Dois:
Memórias - 01: Don Juan Pietro Gonçalves Lara
Memórias - 02: fatos e mentiras
Memórias - 03: siempre ha sido así
Memórias - 04: ¡Hijo-de-puta!
Memórias - 05: El hombre es así
Memórias - 06: rusgas e rezingas, rastros do aprendizado

É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento...

Me deixas louca


Elis Regina

Quando caminho pela rua lado a lado com você
Me deixas louca
E quando escuto o som alegre do teu riso
Que me dá tanta alegria
Me deixas louca

Me deixas louca quando vejo mais um dia
Pouco a pouco entardecer
E chega a hora de ir pro quarto escutar
As coisas lindas que começas a dizer
Me deixas louca

Quando me pedes por favor que nossa lâmpada se apague
Me deixas louca
Quando transmites o calor de tuas mãos
Pro meu corpo que te espera
Me deixas louca

E quando sinto que teus braços se cruzaram em minhas costas
Desaparecem as palavras
Outros sons enchem o espaço
Você me abraça, a noite passa
E me deixas louca

Composição: Armando Manzanero / Paulo Coelho







AFANADOR. NUEVA PROMO. 
Ballet Nacional de España




dea y dirección artística: Marcos Morau
Coreografía: Marcos Morau & La Veronal
Lorena Nogal
Shay Partush
Jon López
Miguel Ángel Corbacho
Dramaturgia: Roberto Fratini
Diseño de escenografía: Max Glaenzel
Realización escenografía: Mambo Decorados y May Servicios para Espectáculos
Diseño de vestuario: Silvia Delagneau
Realización de vestuario: Iñaki Cobos
Composición musical: Juan Cristóbal Saavedra
Colaboración especial: Maria Arnal
Música de Minera y Seguiriya: Enrique Bermúdez y Jonathan Bermudez
Letras Temporera, Trilla, Liviana, Bambera y Seguiriya: Gabriel de la Tomasa
Diseño de iluminación: Bernat Jansà
Diseño y realizado dispositivos electrónicos: José Luis Salmerón de la CUBE PEAK
Diseño de audiovisual: Marc Salicrú
Fotografía: Ruven Afanador
Posticería: Carmela Cristóbal
Tocados: JuanjoDex
Asesoramiento peluquería: Manolo Cortes
Asesoramiento maquillaje: Roció Santana
Calzado: Gallardo


BOLERO -1982
Béjart
Jorge Donn





Retratos Da Vida (Bolero) 
( Les Uns et les autres) trailer




Enquanto o mundo batalhava entre si durante a Segunda Guerra Mundial, quatro família de distintos países - Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia - se cruzam em circunstâncias históricas e se unem através da dança e do drama. 
Este clássico decalca o Bolero de Ravel, com uma coreografia marcante de Jorge Donn em pleno Trocadero parisiense. 
A música tornou-se uma verdadeira febre na época lançada sendo quase impossível ouvir a música e não associá-la ao filme. 
Composto de um elenco de extraordinários atores - James Caan, Robert Houssein, Geraldine Chaplin, Nicole Garcia, Fanny Ardant - sob a direção do renomado diretor Claude Lelouch, destacado pela criação de diversas obras primas do cinema de arte, 
Retratos da Vida é, sem dúvida, um dos filmes mais marcantes de sua época e continua encantando plateias do mundo inteiro.


Filme "Retratos da Vida" (Les Uns et Les Autres) 
(Cena Inicial) - 1981





Se Eu Pudesse 
| Poema de Fernando Pessoa 
narração de Mundo Dos Poemas





E Então Que Quereis 
| Poema de Vladimir Maiakovski 
narração de Mundo Dos Poemas






Posso Escrever Os Versos Mais Tristes Esta Noite
| Pablo Neruda 

narração Mundo Dos Poemas




Poema 20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: a noite está estrelada,
E cintilam azuis, os astros, desde longe.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.
Nas noites como esta a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não haver amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como ao pasto o orvalho.
Que importa que meu amor não possa guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Muito longe alguém canta. Muito longe.
Minha alma não se contenta em havê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a busca.
Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é certo, mas quanto a quis.
Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. 
Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. 
Seus olhos infinitos.
Já não a desejo, é verdade, mas talvez a deseje.

É tão curto o amor, e é tão longo 
o esquecimento...

Porque, em noites como esta, a tive entre meus braços,
minha alma não se contenta em havê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo.