Mostrando postagens com marcador AFugitiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador AFugitiva. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - n)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

     Certa manhã, julguei ver a forma oblonga de uma colina no nevoeiro, sentir o calor de uma taça de chocolate, enquanto me apertava no coração a lembrança da tarde em que Albertine viera me visitar e a beijara pela primeira vez: é que eu acabava de ouvir o soluço do calorífero à águas tinham acendido. E joguei fora, com raiva, um convite da Sra. Verdurin que Françoise trouxera. A impressão que eu tivera, indo jantar pela primeira vez na Raspeliere; e que a morte não fere todas as pessoas na mesma idade, como se impunha com mais força agora que Albertine estava morta, tão jovem, e que Brichot continuava a jantar na casa da Sra. Verdurin, que recebia sempre e receberia talvez durante muitos anos ainda! E logo esse nome de Brichot recordou-me o fim daquele mesmo sarau, em que ele me levara em casa; em que eu vira, de baixo, a luz lâmpada de Albertine. Já pensara nisso outras vezes, porém nunca abordara a lembrança sob o mesmo ângulo. Pois, se nossas lembranças são bem nossas, à maneira dessas propriedades que possuem pequenas portas ocultas que mesmos com frequência desconhecemos, e que alguém da vizinhança nos abre de modo que, ao menos por um lado, em que isso ainda não nos ocorrera, sucede que nos achamos de volta em casa. Então, pensando no vazio que agora haveria de encontrar voltando para casa, de onde a luz se extinguira para sempre; deixando Brichot, julgara sentir tédio; supunha fazer amor por aí afora. Compreendi o que julgara totalmente segura a posse daquela; até mesmo eu que havia negligenciado o calor obrigatoriamente inferior ao supor o que eu avaliava. Compreendi o quanto continha para mim de plenitude de vida; e do que me inebriara por um momento, na noite em que Albertine dormira sob o manto. Compreendi que essa vida que eu levara em Paris, nunca trouxera a realização daquela paz profunda. A conversa que havia tido no último sarau em casa da Sra. Verdurin. Tinha acontecido, aquela conversação que para minha inteligência e, em certas parcelas, fizera à sua inteligência e sua amabilidade – um enternecimento, não é que fossem demais o que acontecera; pois a Sra. de Cambremer não demonstrou sorriso que poderia passar os dias com Elstir, que é sua prima?! - A inteligência de Albertine ficava em mim o que eu denominava a sua experiência, fruto de uma certa sensação que só existe com o tempo; pensava na inteligência de Albertine, saboreava uma lembrança cuja realidade consistia na superioridade objetiva de uma mulher; superior às pessoas de maior inteligência. Porém que as criaturas a quem amamos sejam pra nós superior e se torne para nós ao menos objetivamente, o sabor dos nossos desejos e dos nossos sentidos; apenas um lugar imenso e vago onde conhece o nosso próprio corpo; aonde afluem prazeres, uma silhueta assim tão nítida como de um transeunte. E meu erro talvez fora não ser sempre eu mesmo. Assim como, do ponto de vista só havia considerado as posições diversas do meu rival. Ao longo dos anos ficara surpreso de ver as modificações causadas somente pela convivência; bom seria ter procurado compreender o ser e, talvez, explicando-me então por que ela se obstinava em me ocultar o segredo, teria evitado prolongar, entre nós, com aquele encarniçamento estranho conflito que provocara a morte de Albertine. E eu tinha então, como uma piedade por ela, a vergonha de lhe sobreviver. E, de fato, parecia-me, nas horas em que menos sofria, que de alguma forma me beneficiava pela sua morte, porque uma mulher é de maior utilidade em nossa vida se constitui, em vez de um elemento de felicidade, um elemento de desgosto, e não existe uma só cuja posse mostra-se preciosa como das verdades que ela nos descobre ao nos fazer sofrer nos momentos, em que aproximando a morte de minha avó à de Albertine, tinha a impressão de que minha vida estava manchada por um duplo assassinato que só a covardia da sociedade poderia me perdoar. Sonhara eu ser compreendido Albertine, não ser mal conhecido por ela, acreditando que era uma grandeza ser compreendido, não ser mal conhecido, quando tantos outros poderiam ser melhor. Desejamos ser compreendidos porque desejamos ser amados, e só podemos ser amados porque amamos. A compreensão dos outros é indiferente ao amor importuno. Minha alegria de ter possuído um pouco da inteligência. O coração de Albertine não provinha de seu valor intrínseco, mas de que essa era um grau a mais na posse total de Albertine, posse que fora o meu objetivo; minha quimera desde o primeiro dia em que a tinha visto. Quando falamos da "amabilidade" de uma mulher, talvez não façamos mais do que projetar para fora de nós o prazer que sentimos ao vê-la, como as crianças quando dizem: "minha querida caminha, meu querido travesseirinho, meus queridos espinheirinhos." - aliás, explica por que os homens nunca dizem a propósito de uma mulher que os engana: "Ela é tão amável", dizendo-o com frequência de uma mulher por quem são enganados. A Sra. de Cambremer achava, com razão, que o encanto de Elstir era maior. Mas não podemos julgar do mesmo modo o de uma pessoa que é, como todas as outras, exterior a nós, pintada no horizonte de nosso pensamento; e o de uma outra que, devido a um erro de localização consecutiva à certos defeitos, porém tenaz, alojou-se em nosso próprio corpo, a ponto de que nos perguntamos retrospectivamente se ela não olhou para uma mulher, em certo dia no passeio de um trenzinho à beira-mar, faz-nos sentir os mesmos sofrimentos que um cirurgião que procurasse uma bala em nosso peito. Um simples croissant, que comemos, faz-nos sentir mais prazer que todos os verdelhões, coelhos e perdizes que foram servidos à Luís XV, e a extremidade da grama fremindo a centímetros do nosso olho, enquanto estamos deitados na montanha, ocultar a vertiginosa agulha de um cimo, caso este fique à várias léguas de distância. Além disso, o nosso erro não está em valorizar a inteligência e a amabilidade de uma mulher a quem amamos, por ínfimas que sejam. Nosso erro é o de sermos indiferentes à amabilidade e à inteligência alheia. A mentira só pode nos causar indignação, e a bondade o reconhecimento, que ambos deveríamos precisar excitar em nós, quando vêm da mulher amada, e o desejo físico tem esse poder maravilhoso de atribuir valor à inteligência e bases sólidas à vida moral.
     Jamais voltaria eu a encontrar essa coisa divina: uma criatura com quem eu pudesse conversar sobre tudo, a quem pudesse confiar-me. Confiar-me? E outras pessoas não me haviam mostrado mais confiança que Albertine? Não tivera eu com outras pessoas conversas mais extensas? É que a confiança e a conversa, são coisas medíocres, que importa sejam mais ou menos imperfeitas, se a elas se mistura o amor, o único sentimento divino? 
     Eu revia Albertine sentando-se à pianola, rósea sob os cabelos pretos; sentia em meus lábios, que ela tentava abrir, sua língua, sua língua materna, incomestível, nutritiva e santa, cuja chama e orvalho secretos faziam com que, mesmo que Albertine a fizesse deslizar apenas pela superfície de meu pescoço, de meu ventre, essas carícias superficiais, mas de qualquer modo feitas pelo interior de sua carne, exteriorizado como um tecido que mostrasse o avesso, assumissem, mesmo nos contatos mais externos, como que a misteriosa doçura de uma penetração. Todos esses momentos tão doces, que coisa alguma me devolveria nunca mais, não posso nem sequer dizer que fosse desespero o que sentia ao perdê-los. Para que alguém esteja desesperado, é preciso ter apego ainda a esta vida, que só poderá ser desgraçada. Sentia-me desesperado em Balbec quando vira erguer-se o dia e compreendera que nem mais um só poderia ser feliz para mim. Permanecera tão egoísta desde então, porém o "eu" a que me ligava agora; o "eu" que constituía essas vivas reservas que põem em jogo o instinto de conservação, esse "eu" já não estava entre os vivos; quando pensava em minhas forças, em minha potência vital, no que tinha de melhor, pensava em certo tesouro que possuíra (e que fora o único a possuir, visto que os outros não podiam conhecer com exatidão o sentimento, oculto em mim, que ele me havia inspirado) e que já ninguém poderia me subtrair, pois que não o possuía mais. E, para falar a verdade, eu jamais o possuíra senão porque quisera convencer-me de sua posse. Não apenas cometera a imprudência, ao olhar Albertine com os lábios e ao alojá-la em meu coração, de fazê-la viver dentro de mim, nem essa outra imprudência de misturar um amor familiar com o prazer dos sentidos. Quisera também convencer-me de que nossas relações eram o amor, porque ela me devolvia tão docilmente os beijos que eu lhe dava. E, por ter adquirido o hábito de acreditá-lo, não perdera somente uma mulher que eu amava, mas a mulher que me amava, minha irmã, minha menina, minha terna amante. 
     Em suma, tivera uma felicidade e uma desgraça que Swann não havia conhecido, pois justamente, o tempo todo em que ele amara Odette e fora tão ciumento dela, mal conseguira vê-la, e só dificilmente, em certos dias em que ela se desmarcava à última hora, podia ir à sua casa. Mas depois tivera-a para si, como sua esposa, até morrer. Eu, pelo contrário, enquanto sentia tanto ciúme por Albertine, mais feliz que ainda tivera-a em casa. Na verdade, havia realizado aquilo com que Swann sonhara tantas vezes e que só realizara quando já se lhe tornara indiferente. Mas, não guardara Albertine como ele havia guardado Odette. Ela fugira e esta ocasião não se repete; pois nada, jamais se repete exatamente, e as mais análogas existências, que ao parentesco dos caracteres é à similitude das circunstâncias, podemos ter para apresenta-las como simétricas uma à outra, permanecem opostas nesses pontos. Se perdesse a vida, eu não teria perdido grande coisa; não perderia mais que uma forma oca, o quadro vazio de uma obra-prima. Indiferente ao que, dali em diante, pudesse introduzir aí, porém feliz e orgulhoso em pensar no quadro que contivera, apoiava-me na lembrança daquelas horas tão doces; o tentáculo moral me transmitia um bem-estar que até a aproximação da morte a teria desfeito.
     Como ela corria depressa, em Balbec, para me ver, quando eu mandava buscá-la, demorando-se apenas para perfumar os cabelos a fim de agradar. Estas imagens de Balbec e de Paris, que desse modo eu gostava de rever, eram páginas ainda tão recentes e tão rapidamente viradas de sua curta da vida. Tudo que para mim era apenas lembrança, fora para ela ação; ação precipitada, como de uma tragédia, para uma morte rápida. As pessoas têm um desenvolvimento em nós, mas outro fora de nós (eu bem o sentira naquelas noites em que notava em Albertine um enriquecimento de qualidades, que se devia somente à minha companhia), e os dois não deixam de produzir reações um sobre o outro. Por mais, que procurasse conhecer Albertine, para depois possuí-la inteiramente, não deixava de obedecer à necessidade de reduzir, pela experiência, aos elementos mesquinhos, parecidos com os do nosso eu, o mistério de toda criatura e não pudera sê-lo sem, por minha vez, influir na vida de Albertine.  

continua na página 39...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
Volume 6
A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - n)
Volume 7

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - m)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

     De modo que esses poucos anos não impunham somente à lembrança de Albertine, que os tornava tão dolorosos; as cores sucessivas, as modalidades diversas, a cinza de suas estações ou de suas horas; dos fins de tarde de junho às noites de inverno; dos luares sobre o mar à aurora ao voltar para casa; da neve de Paris às folhas secas de Saint-Cloud; mas, também a ideia particular que eu me fazia sucessivamente de Albertine; do aspecto físico sob o qual a imaginara em cada um desses momentos, da maior ou menor frequência com que a vira naquela estação; que assim se tornava mais dispersa ou mais compactada; das ansiedades que ela então pudera causar-me devido à espera, do desejo que eu sentia em tal momento por ela, de esperanças formuladas e depois perdidas; tudo isso modificava o caráter da minha tristeza retrospectiva, tanto quanto as impressões de luz ou de perfumes que lhes estavam associadas; completava cada um dos anos solares que eu tinha vivido; e que, só pelas suas primaveras, seus outonos, seus invernos, eram já tão tristes por causa da recordação inseparável dela, duplicando-a com uma espécie de ano sentimental em que as horas não eram definidas pela posição do sol, mas pela espera de um encontro marcado; em que o comprimento dos dias ou os progressos da temperatura eram medidos pelo voo de minhas esperanças, pelo progresso de nossa intimidade, pela transformação gradativa de seu rosto, pelas viagens que ela fizera, pela frequência e pelo estilo das cartas que me escrevera durante certa ausência, sua maior ou menor precipitação em me ver, ao voltar. E, por fim, essas mudanças de tempo, esses dias diferentes, se cada um deles me trazia uma outra Albertine, não era apenas pela evocação de momentos semelhantes. Lembrem-se que desde sempre, antes mesmo que eu a amasse, cada dia fizera de mim um homem diferente, tendo outros desejos porque possuía outras percepções; e que, por ter sonhado na véspera com rochedos e tempestades; se o dia indiscreto de primavera insinuara um odor de rosas na clausura mal fechada de seu sono entreaberto, eu despertava de partida para a Itália. E até no amor, o estado mutável de minha atmosfera moral, a pressão modificada de minhas crenças não tinham, em outro dia, diminuído a visibilidade de meu próprio amor, aumentando-a indefinidamente em outro, embelezando-a num dia até o sorriso, em outro contraindo-a até a tempestade? Somos apenas aquilo que possuímos, não possuímos senão o que nos está de fato presente, e tantas de nossas lembranças, de nossos humores, nossas ideias, partem para viagens longe de nós mesmos, onde os perdemos de vista! Então não mais podemos levá-los em consideração nesse local do ser. Mas eles têm caminhos secretos para voltar a entrar em nós. E em certo momento, tendo eu adormecido sem quase mais lamentar Albertine só podemos ter aquilo de que nos lembramos-, encontrava, ao acordar, toda uma frota de ações que tinham vindo cruzar em mim, na minha mais clara consciência, e distinguia esplendidamente bem. Então, eu lastimava aquilo que via tão bem na véspera não era coisa alguma para mim. O nome de Albertine e sua imagem, haviam mudado de sentido; suas traições tinham readquirido subitamente sua importância. 
     Como é que ela me pudera parecer morta, quando agora, para pensar eu só tinha à minha disposição as mesmas imagens que, quando ela vivia, revia alternadamente?
     Rápida e inclinada sobre as rodas mitológicas de sua capa apertada, nos dias de chuva, na túnica guerreira de borracha que lhe ressaltavam os seios, a cabeça envolta num turbante e coberta de serpentes, ela em terror nas ruas de Balbec; nas noites em que tínhamos levado champanha aos bosques de Chantepie, com a voz provocante e mudada; no rosto aquele atenuado, rubro apenas nas bochechas que, mal o distinguindo na escuridão do carro, aproximava-me da faixa enluarada para a ver melhor; que agora tentava lembrar e rever numa escuridão que jamais terminaria. Pequena está no passeio em direção à ilha, tranquilo rosto gordinho e granuloso junto à pia ela era assim, alternadamente pluviosa e rápida; provocante e diáfana; risonha, anjo da música. Cada uma delas estava assim ligada a um momento, data a que eu me sentia reposto ao tornar a vê-la. E esses momentos do tempo não são imóveis; conservam em nossa memória o movimento que os arrasta, para o futuro; um futuro que também se tornou passado-, arrastando-nos em mente a nós mesmos. Eu jamais havia acariciado Albertine encapotada dos abrigos de chuva, queria lhe pedir que tirasse aquela armadura, o que seria conhecer ela o amor dos campos, a fraternidade da viagem. Mas já não era possível, ela havia morrido. Jamais, também, por medo de depravá-la, eu mostrara compreender, noites em que parecera me oferecer prazeres que, não fosse isto, ela talvez houvesse pedido a outros e que agora excitavam em mim um desejo furioso; os teria sentido iguais junto à outra, porém aquela que amamos teria proporcionado, podia correr o mundo inteiro sem encontrá-la, pois Albertine havia morrido. Por que eu devia escolher entre dois fatos, decidir qual era o verdadeiro, tanto o da morte de Albertine que me viera de uma realidade que eu não havia conhecido sua vida em Touraine - estava em contradição com todas as minhas ideias relativas à ela, meus desejos, minhas saudades, meu enternecimento, minha fúria, ciúme. Uma tal riqueza de lembranças tomadas ao repertório de sua vida, uma profusão de sentimentos evocando, implicando sua vida, pareciam tornar inacreditável que Albertine estivesse morta. Uma tal profusão de sentimentos, pois ainda na memória, conservando-me a ternura, deixava-lhe toda a sua variedade. Não era apenas Albertine que não passava de uma sucessão de momentos, era também eu próprio. Meu amor por ela não fora simples: à curiosidade pelo desconhecido acrescentara-se um desejo sensual, e, ao sentimento de uma doçura quase familiar, ora a indiferença, ora um ciúme furioso. Eu não era somente um único homem nas ruas a desfilar, hora a hora, de um exército compósito onde havia, conforme o instante, sujeitos apaixonados, indiferentes, ciumentos - ciumentos dos quais nem um só o era da mesma mulher. E, sem dúvida, era dali que um dia viria a cura que eu não desejava. Numa multidão, os elementos podem, um a um, ser substituídos por outros sem que o percebamos, que outros mais, por seu turno, eliminam ou reforçam, de modo que por fim se consumou uma mudança, inconcebível se se tratasse de uma só pessoa. A complexidade do meu amor, de minha pessoa, multiplicava e diversificava meus sofrimentos. Entretanto, eles todos podiam se classificar sempre nos dois grupos cuja alternância formara toda a vida de meu amor por Albertine, sucessivamente entregue à confiança e à suspeição ciumenta.
     Se eu tinha dificuldade em imaginar que Albertine, tão viva em mim (revestindo como eu o duplo arnês do presente e do passado), estava morta, talvez também fosse contraditório que essa suspeita de faltas que ela, hoje despojada da carne que com elas gozara, e da alma que pudera desejá-las, não era mais capaz nem responsável, essa suspeita excitasse em mim tanto sofrimento, que teria simplesmente bendito se pudesse ver nele a garantia da realidade moral de uma pessoa materialmente inexistente, em lugar do reflexo, destinado a extinguir-se, das impressões que ela me causara outrora. Uma mulher que já não podia experimentar prazeres com outras não deveria mais excitar o meu ciúme, se ao menos a minha ternura pudesse atualizar-se. Mas isso era impossível, pois ela não poderia encontrar o seu objeto, Albertine, senão nas lembranças em que esta permanecia viva. Visto que somente por pensar nela eu a ressuscitava, suas traições jamais poderiam ser as de uma morta, tornando-se atual o momento em que as cometera, não só para Albertine, mas para aquele dos meus "eus", subitamente evocado, que as contemplava. De forma que nenhum anacronismo podia separar jamais o par indissolúvel em que, a cada nova culpada, de imediato se acasalava um ciumento lamentável e sempre contemporâneo. Nos últimos meses, eu a mantivera trancada em minha casa. Mas agora, na minha imaginação, Albertine estava livre; ela empregava mal essa liberdade, prostituía-se a umas e outras. Outrora eu pensava sem cessar num futuro incerto que se desdobrava à nossa frente, buscava decifrá-lo. E agora, o que estava diante de mim como um duplo do futuro tão preocupante como o futuro, pois também era incerto, tão difícil de decifrar, tão misterioso, mais cruel ainda, porque eu não tinha, como frente ao futuro, a possibilidade, ou a ilusão, de agir sobre ele, e também porque se desenrolava tão longe que minha vida, sem que minha companheira lá estivesse para acalmar os sofrimentos que me causava-, não era mais o futuro de Albertine, era o seu passado. Seu passado, digo mal, pois para o ciúme não existe nem passado, nem futuro, aquilo que se imagina sempre está no presente.
     As mudanças da atmosfera causam outras tantas no homem interpenetram "eus" esquecidos, contrariam o torpor do hábito, devolvem forças à lembranças e a certos sofrimentos. Quantos mais ainda para mim, se o tempo fazia lembrava-me aquele em que Albertine, em Balbec, sob a chuva ameaçada, por exemplo, fora dar sabe Deus por quê, longos passeios sob a malha e de seu impermeável!
     Se ela tivesse vivido, sem dúvida hoje, num tempo semelhante, sairia para fazer uma excursão análoga na Touraine. Desde que já não o podia, não deveria sofrer ante essa ideia; mas, como no caso das pessoas amputadas, a menor mudança de temperatura renovava minhas dores no membro que existia.
     De súbito, era uma lembrança que não me ocorria há muito tempo ficara dissolvida na fluida e invisível extensão da memória, e que se cristalizava. Assim, havia já muitos anos, como alguém falasse do seu peignoir de Albertine na ducha, enrubescera. Naquela época, não sentia ciúmes dela. Mas desde que quisera lhe perguntar se podia recordar aquela conversa e me dizer por que do enrubescido. Isto me preocupava tanto mais porque me haviam dito que as moças amigas de Léa frequentavam aquele estabelecimento balneário do hotel; dizia-se, não só para tomar duchas.
     Mas, com receio de aborrecer Albertine, esperando uma ocasião mais propícia, sempre evitara falar naquilo, e depois de pensar no assunto. E, de repente, algum tempo após a morte de Albertine, percebi essa lembrança, impregnada desse caráter a um tempo irritante e dos enigmas que ficam insolúveis para sempre devido à morte da única pessoa que poderia esclarecê-los. Não poderia eu pelo menos tentar saber se Albertine fez alguma coisa de mal ou que somente parecesse suspeito naquela casa de banho? Enviando alguém à Balbec, talvez conseguisse sabê-lo. Fosse ela viva, sem ou razão, eu não obteria nada. Porém as línguas estranhamente se soltam, revelando facilmente, uma falta quando já não têm a temer o rancor da culpada. Como a prezada imaginação, que permanece rudimentar e simplista (não tem passado passado inumeráveis transformações que melhoram os modelos primitivos das invenções humanas, mal reconhecíveis, quer se trate de um barômetro, do balão, do telefone, etc., nos seus aperfeiçoamentos ulteriores), não nos permite ver senão muito das coisas ao mesmo tempo, essa recordação do estabelecimento das duchas que ocupavam todo o espaço de minha visão interior. Às vezes eu me esbarrava, nas ruas escuras do sono, com um desespero de maus sonhos que não são muito graves por uma primeira razão: é que a tristeza que eles engendram não se prolonga mais que uma hora após o despertar, análoga a esse mal-estar provocado por uma forma artificial de dormir; e também por outra razão: é que só raramente os temos, com dois ou três anos de intervalo. Ainda assim, duvidamos já os ter experimentado, e que não tenham antes esse aspecto de coisas vistas pela primeira vez e que projeta sobre eles uma ilusão, uma subdivisão (pois "desdobramento" não seria dizer o suficiente).
     Decerto, pois eu tinha dúvidas sobre a vida e a morte de Albertine, desde há muito tempo eu deveria entregar-me à indagações. Mas a própria fadiga, a própria covardia que me fizeram submeter-me a Albertine quando ela estava em minha companhia, impediam-me de tomar qualquer iniciativa desde o momento em que não a via mais. E, todavia, da fraqueza arrastada durante anos, surge por vezes um lampejo de energia. Decidi-me a essa indagação, ao menos “inteiramente parcial”. Dir-se-ia que não houvera nada de mais em toda a vida de Albertine. Eu me perguntava sobre quem poderia enviar para tentar uma investigação in loco em Balbec. Aimé pareceu-me bem escolhido. Além de conhecer admiravelmente bem o lugar, pertencia àquela categoria de pessoas do povo; ciosas de seus interesses, fiéis a quem servem, indiferentes a qualquer tipo de moral; e das quais dizemos - porque, se os pagamos bem, em sua obediência à nossa vontade suprimem tudo o que a estorvasse, pois mostram-se tão incapazes de indiscrição, de moleza ou de improbidade, como destituídos de escrúpulos: são excelentes pessoas. Neles podemos ter confiança absoluta. Quando Aimé partiu, pensei como teria sido melhor que isso que ele ia tentar descobrir lá longe, eu pudesse perguntar agora à própria Albertine. E logo senti a impossibilidade dessa pergunta que eu teria desejado, que me parecia que já lhe fazer, tendo trazido Albertine para junto de mim, não graças a um esforço de ressurreição, mas como pelo acaso de um desses encontros que como ocorre nas fotografias sem pose, nos instantâneos deixam sempre a pessoa mais viva, ao mesmo tempo que imaginava a nossa conversação; acabava de abordar por uma faceta nova aquela ideia de que Albertine havia morrido. Albertine que me inspirava essa ternura que sentimos pelos ausentes cuja vista não vem retificar a imagem embelezada, inspirando também a tristeza de que essa ausência fosse eterna e que a pobrezinha estivesse privada para sempre da doçura de viver. E de imediato, por um deslocamento brusco, passei da tortura do ciúme para o desespero da separação.
     O que enchia agora o meu coração era, em vez de suspeitas odiosas, a lembrança emocionada das horas de ternura confiante, passadas com a irmã que sua morte me fizera realmente perder, visto que minha mágoa se relacionava, não ao que Albertine fora para mim, mas ao que meu coração, desejoso de participar das emoções mais gerais do amor, convencera-me pouco a pouco que ela era; então dava-me conta de que aquela vida que tanto me enfadara pelo menos assim o julgava – tinha ao contrário sido deliciosa; nos menores instantes que passara a conversar com ela sobre coisas até mesmo insignificantes, eu sentia agora, acrescentara, amalgamara-se uma volúpia, que então, de fato, não fora por mim, mas que já era causa de que, tais momentos, eu os havia para sempre com tanta perseverança e com exclusão de todo o resto; os menores instantes de que me lembrava, um movimento que ela fizera no carro junto a mim para se sentar à mesa à minha frente em seu quarto, propagavam em mim um remoinho de doçura e de tristeza que os poucos a conquistava totalmente.
     Aquele quarto em que jantávamos jamais me parecera bonito; era à Albertine apenas para que minha amiga ficasse contente por viver ali. As cortinas, as cadeiras e os livros tinham deixado de me ser indiferentes somente a arte que dá encanto e mistério às coisas mais insignificantes: mesmo o poder de relacioná-las intimamente conosco também é atribuído à própria ocasião, eu não prestara atenção nenhuma naquele jantar que havíamos comido juntos de volta do Bois, antes que eu fosse à casa dos Verdurin; e a beleza, na grave doçura para a qual eu agora voltava os olhos cheios de lágrimas. Uma impressão de amor está desproporcionada em relação às outras impressões da vida, mas não podemos percebê-la quando está perdida no meio delas. Não por baixo, no tumulto da rua e na balbúrdia das casas circundantes, é quando afastamos, e das encostas de um morro próximo, a uma distância em que a cidade desapareceu ou forma apenas ao nível da terra um montão confusão; podemos, no recolhimento da solidão e da noite, avaliar, a única, persistente à altura de uma catedral. Eu tentava abraçar a imagem de Albertine através das minhas lágrimas, pensando em todas as coisas sérias e judiciosas que ela me havia dito àquela noite.

continua na página 37...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
Volume 6
A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - m)

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - l)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

     Já não era bastante cerrar as cortinas; procurava tapar os olhos e os ouvidos de minha memória, para não rever a faixa alaranjada do poente, para não ouvir aqueles pássaros invisíveis que respondiam de uma árvore à outra, a cada lado de mim, enquanto eu beijava ternamente aquela que agora estava morta. Tentava evitar as sensações davam a umidade das folhas à tardinha, a subida e a descida das estradas no lombo de burro. Mas essas sensações já tinham se apoderado outra vez; levando-me para bem longe do momento presente, para que a ideia de que havia morrido adquirisse todo o recuo, todo o impulso necessário para me fazer novo. Ah, eu nunca mais entraria numa floresta, não passearia mais. Mas seriam as grandes planícies menos cruéis para mim? Quantas vezes ao ir buscar Albertine, havia eu atravessado a grande planície de Cricqueville; quantas vezes a recruzara de volta com ela, ora nos tempos brumosos, em que a inundação do nevoeiro nos dava a ilusão de estarmos rodeados por um lago imenso; noites límpidas em que o luar, desmaterializando a terra, fazendo-a parecer a dois passos de nós, como só o é, durante o dia, nas lonjuras, encerrava os bosques, com o firmamento a que os assimilara, na ágata arborizada único azul! 
     Françoise devia estar feliz com a morte de Albertine, e é preciso fazer justiça: por uma espécie de decência e de tato, ela não simulava tristeza. Mas as palavras não escritas de seu código antigo, e sua tradição de camponesa medieval que como nas canções de gesta, eram mais velhas que seu ódio por Albertine e à Eulalie. Assim, num daqueles fins de tarde, como eu não escondesse bem o sofrimento, ela percebeu minhas lágrimas, ajudada pelo instinto de antiga camponesa, que naquela época a levava a capturar e fazer sofrer os animais, apenas alegria em torcer o pescoço dos frangos e a cozinhar vivos com aspargos quando eu estava doente, a observar o meu aspecto como se fossem feridas ela houvesse causado a uma coruja e, a seguir, anunciá-lo em tom fúnebre um presságio de infelicidade. Mas o seu "costumário" de Combray não lhe permitia tomar de modo leviano as lágrimas, o desgosto, coisas que ela julgava tão forte como tirar a roupa de flanela ou comer contra a vontade.

- Oh, não! O senhor não deve chorar dessa maneira, isto vai lhe fazer mal! -

     E, querendo estancar minhas lágrimas, mostrava-se tão inquieta como se se tratasse de ondas de sangue. Infelizmente assumi um ar frio, que cortou de imediato as efusões que ela esperava e que, de resto, talvez teriam sido sinceras. Talvez Albertine lhe importasse tão pouco quanto Eulalie e, agora que minha amiga não podia tirar mais nenhum proveito de mim, Françoise deixara de odiá-la. Entretanto, fez questão de me mostrar que percebia perfeitamente que eu estava chorando e que, seguindo apenas o funesto exemplo dos meus parentes, não queria "mostrar".

- Não é preciso chorar, senhor - disse-me ela num tom desta vez calmo, e antes para me mostrar a sua clarividência do que para testemunhar piedade. E acrescentou: - Isso deveria acontecer; ela era feliz demais, a pobrezinha, e não soube reconhecer sua felicidade.

     Como o dia custa a morrer nessas tardes desmesuradas de verão! Um pálido fantasma da casa fronteira continuava indefinidamente a aquarelar sua brancura persistente no céu. Por fim se fazia noite no apartamento, eu esbarrava nos móveis do vestíbulo, mas na porta da escada, em meio ao negror que eu julgava totalmente a parte envidraçada estava translúcida e azul, de um azul de flor, de asa de inseto, de um azul que teria me parecido belo se eu não tivesse percebido que era um derradeiro reflexo, cortante como a lâmina do aço, um golpe supremo que o dia me assestava ainda em sua crueldade infatigável.
     No entanto, a escuridão completa acabava por chegar, mas então bastava uma estrela vista ao lado da árvore do pátio para me recordar nossas partidas de carro, depois do jantar, em direção aos bosques de Chantepie, alcatifados de luar. E, mesmo nas ruas, acontecia-me isolar no encosto de um banco, recolher a pureza natural de um raio de lua em meio às luzes artificiais de Paris - dessa Paris sobre a qual, fazendo regressar um momento, pela imaginação, a cidade à natureza, ele obtinha que reinasse, com o silêncio infinito dos campos evocados, a lembrança dolorosa dos passeios que eu ali fizera com Albertine. Ah, quando acabaria a noite? Mas, à primeira brisa da aurora, eu estremecia, pois ela me trouxera de novo a doçura daquele verão no qual, de Balbec a Incarville, de Incarville a Balbec, tantas vezes nos tínhamos acompanhado um ao outro até o amanhecer. Só me restava uma esperança para o futuro; esperança bem mais dilacerante que o temor-; era a de esquecer Albertine. Sabia que iria esquecê-la mais cedo ou mais tarde, pois esquecera Gilberte e a Sra. de Guermantes, esquecera de todo a minha avó. E o nosso mais justo e mais cruel castigo, diante do esquecimento completo, pacífico igual ao dos cemitérios, pelo qual somos desligados daqueles que não mais amamos, é que vislumbramos esse mesmo esquecimento como inevitável em relação àqueles a quem amamos ainda. Para falar a verdade, sabemos que é um estado indolor, um estado de indiferença. Mas, não podendo pensar ao mesmo tempo no que eu era e no que seria, pensava com desespero em todo esse tegumento de beijos e de sons amigos, do qual era preciso em breve despojar-me nunca mais. O impulso dessas lembranças tão ternas, vindo quebrar-se de encontro à ideia de que Albertine havia morrido, oprimia-me pelo entre choque fluxos tão contrários que eu não podia permanecer imóvel; erguia-me de súbito estacava, apavorado; a mesma madrugada que eu via no momento em que acabava de deixar Albertine, ainda radioso e quente de seus beijos, vinha por sobre as cortinas a sua lâmina, agora sinistra, cuja brancura fria, impelia compacta, entrava dando-me uma espécie de punhalada.
     Dali a pouco os ruídos da rua iam recomeçar, permitindo ler na qualitativa de suas sonoridades o grau de calor, aumentado sem cessar, repercutiriam. Mas, nesse calor que horas mais tarde haveria de embriagar com cheiro das cerejas, o que eu achava - como num remédio em que a substituição de uma das partes componentes por outra basta para torná-lo, de eufórico em um depressivo - não era mais o desejo das mulheres, mas a angústia da partida de Albertine.
     Aliás, a lembrança de todos os meus desejos se impregnara tanto de sofrimento, quanto a lembrança dos prazeres. Essa Veneza onde eu julgava que sua presença me seria importuna (sem dúvida porque sentia confusamente me seria necessária ali), agora que Albertine já não existia, preferia eu não ir com Albertine me parecera um obstáculo interposto entre mim e todas as coisas que para mim era ela quem as continha todas, e era dela, como de um vaso, podia recebê-las. Agora que esse vaso estava destruído, eu já não sentia como para agarrá-las; não havia mais uma só de que eu não me afastasse, abatido, proibindo não desfrutá-la. De modo que minha separação dela não me abria nenhum campo dos prazeres possíveis, que eu supusera fechado pela sua presença. Além do mais, o obstáculo que sua presença talvez houvesse de fato para mim, no que diz respeito a viajar e gozar a vida, somente disfarçara, sempre acontece, os outros obstáculos, que reapareciam intactos agora que havia desaparecido. Desse modo é que, antes, quando alguma visita amável, impedia-me de trabalhar, se no dia seguinte eu ficava sozinho, nem por isso trabalhava. Quando uma doença, um duelo, um cavalo arrebatado, nos fazem ver a morte de perto, como teríamos gozado imensamente a vida, a volúpia e os países desconhecidos de que iremos ser privados. E, uma vez que o perigo passa, o que vemos é a mesma vida morna onde nada disso existia para nós.
     É claro que essas noites tão curtas duram pouco. O inverno acabaria, e então eu não mais precisaria temer a lembrança dos passeios que fiz com ela até a aurora bem cedinho. Mas as primeiras geadas, não me dariam elas, conservado em seu gelo, o gérmen de meus primeiros desejos, quando a meia-noite eu mandava buscá-la, e tão longo me parecia o tempo até o seu toque da campainha, que agora eu poderia esperar eternamente em vão? Não me dariam o gérmen de minhas primeiras inquietações, quando por duas vezes achei que ela não viria? Naquele tempo eu só a via raramente; mas até esses intervalos existentes entre suas visitas, que a faziam aparecer ao fim de várias semanas, o anseio de uma vida ignorada que eu não tentava possuir, asseguravam-me a retirada, impedindo que se aglomerassem, e formassem um bloco em meu coração, as veleidades constantemente interrompidas de meu ciúme. Esses intervalos, tão calmantes, podiam ter sido naquele tempo, quanto, retrospectivamente, eram impregnados de sofrimento desde que o que ela pudera fazer de desconhecido, durante eles, deixara de me ser indiferente, sobretudo agora que nenhuma visita dela viria nunca mais; de modo que essas noites de janeiro em que ela vinha e que por isso me foram tão suaves, insuflaram-me agora, em sua noitada acerba, uma inquietude que à época eu não conhecia, e me devolveriam, porém tornado pernicioso, o primeiro gérmen do meu amor. E pensando que veria recomeçar aquele tempo frio que, desde Gilberte e meus jogos nos Champs-Élysées, havia-me parecido tão triste; e pensando que voltariam nas noites de nevada iguais àquela, em que eu havia esperado Albertine em vão durante muito tempo, então, como um enfermo que se coloca bem, no ponto de vista do corpo, para os seus pulmões, eu, moralmente, naqueles instantes, o que temia acima de tudo, para o meu sofrimento, para o meu coração, era a volta das grandes friagens, e dizia comigo que o mais duro de passar seria talvez o inverno. Ligada como estava a todas as estações a lembrança de Albertine, para que eu a perdesse seria preciso esquecê-las todas, arriscando-me a recomeçar a conhecê-las, como um velho hemiplégico precisa reaprender a ler; seria preciso que renunciasse a todo o universo.
     Apenas, dizia comigo, uma verdadeira morte de mim mesmo seria capaz (mas ela é impossível) de me consolar da sua. Eu não pensava que a morte de nós mesmos não fosse impossível nem extraordinária; ela se consuma à nossa revelia, se necessário contra a nossa vontade, todos os dias, e eu sofreria com a repetição de toda espécie de dias que não só a natureza, mas também circunstâncias fictícias ou uma ordem mais convencional, introduzem numa estação. Em breve, retornaria a data em que eu fora a Balbec, no outro verão, e onde o meu amor, que ainda não era inseparável do ciúme e que não se incomodava com o que Albertine fazia o dia inteiro, deveria sofrer tantas mudanças antes de se tornar aquele amor tão diverso dos últimos tempos, tão particular, que esse ano final, em que principiara a mudar e onde havia terminado o destino de Albertine, me aparecia pleno, diferente, vasto como um século. Depois, seria a lembrança dos dias mais tardios, mas nos anos anteriores; os domingos de mau tempo, onde contudo o mundo inteiro saíra, no vazio da tarde, em que o ruído do vento e da chuva teria me convidado antigamente a ficar como o "filósofo nas águas-furtadas"; com que ansiedade eu veria aproximar-se a hora em que Albertine, tão pouco esperada, viera visitar-me, beijara-me pela primeira vez, interrompendo-se por causa de Françoise que tinha vindo trazer a lâmpada, naquele tempo duplamente morto em que Albertine é que estava curiosa de mim, em que a minha ternura por ela podia legitimamente manter tantas esperanças! Mesmo numa estação mais avançada, aquelas noites gloriosas em que as copas e os pensionatos, reabertos como capelas, banhados numa poeira de ouro, deixam a rua coroar-se com essas semideusas que, conversando não longe de nós com suas iguais, passam-nos a febre de penetrar em sua existência mitológica, só me recordava a ternura de Albertine que, a meu lado, constituía um empecilho para me apagar delas.
     Aliás, à recordação das horas, mesmo puramente naturais, ajuntam, forçosamente, a paisagem moral que as transformava em algo único. Quando de tarde, eu ouvisse a corneta do cabreiro, num começo de bom tempo, quase esse mesmo dia haveria de misturar alternadamente à sua luz a ansiedade de que Albertine estava no Trocadero, talvez com Léa e as duas moças, depois a doméstica e familiar, quase comum, de uma esposa que então me parecia estorvo e que Françoise me traria de volta. Eu julgara envaidecer-me com recado telefônico de Françoise, que me transmitira a homenagem obediente de Albertine voltando com ela. Enganara-me. Se ele me havia embriagado, fora me fizera sentir que aquela que eu amava me pertencia, só vivia para mim, e à distância, sem que dela precisasse me ocupar, considerava-me o seu esposo regressando a um sinal meu. E, assim, esse recado telefônico tinha sido parcela de doçura, vinda de longe, emitida daquele quarteirão do Trocadero, acontecia haver para mim fontes de felicidade que me dirigiam calmantes, bálsamos apaziguadores que me devolviam enfim uma tão doce liberdade de espírito, que eu - entregando-me sem a restrição de um só cuidado à música de Wagner não precisava mais que esperar a chegada certa de Albertine, sem com inteira falta de impaciência, em que eu não soubera reconhecer a felicidade; essa felicidade de que ela voltaria, de que me obedecia e me pertencia, era pelo amor e não pelo orgulho. Pois agora me seria indiferente ter à minha direção cinquenta mulheres que voltassem a um sinal meu, não do Trocadero nas Índias. Porém, naquele dia, ao perceber Albertine que, enquanto eu estava só no quarto tocando música, vinha docilmente para junto de mim, respirei um nada como poeira solar, uma dessas substâncias que, assim como outras salutares ao corpo, fazem bem à alma. Depois, meia hora mais tarde, a chegada de Albertine; depois, o passeio com Albertine, chegada e passeio que julgara tediosos porque, para mim, estavam acompanhados de certeza, mas devido a essa mesma certeza, a partir do momento em que Françoise me telegrafou dizendo que a traria, tinham feito escorrer uma calma dourada sobre as seguintes, convertendo-se numa espécie de segundo dia, bem diverso do primeiro porque tinha um fundo moral bem diferente, um fundo moral que dele fazia original, que vinha acrescentar-se à variedade daqueles que eu conhecera até o dia que eu jamais poderia imaginar - como não poderíamos imaginar o pôr de um dia de verão, se tais dias não existissem na série daqueles que já vivemos de que eu não podia absolutamente dizer que me recordava, pois àquela calma ajuntava agora um sofrimento que eu não havia sentido naquela época. Bem tarde, porém, quando aos poucos atravessei, em sentido inverso, os tempos pelos quais passara antes de amar tanto Albertine, quando meu coração cicatrizado pôde se separar sem mágoa da Albertine morta, então, quando afinal pude me lembrar sem sofrer daquele dia em que Albertine fora com Françoise fazer compras, em vez de ficar no Trocadero lembrei-me com prazer daquele dia como pertencendo a uma estação moral que eu não havia conhecido até então; lembrei-me dele, por fim, exatamente como nos lembramos de certos dias de verão que achamos quentes demais quando os vivemos, e dos quais afinal de contas extraímos o valor sem mistura de ouro fino e azul indestrutível.

continua na página 31...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
Volume 6
A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - l)

domingo, 6 de outubro de 2024

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - k)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

     Mas todos esses detalhes, não era justamente isso o que eu procurara obter de cada pessoa a respeito de Albertine? Não fora eu quem, mesmo sem conhecê-los mais precisamente, pedira a Saint-Loup, chamando-o de volta pelo seu coronel, que passasse de qualquer jeito em minha casa? Então não fora o que desejara, eu, ou melhor, a minha dor ansiosa, ávida por aumentar e alimentar deles? Por fim Saint-Loup me dissera ter tido a boa surpresa de encontrar perto dali, uma única pessoa conhecida e que lhe recordara o passado, uma amiga de Rachel, uma bela atriz que passava as férias nas redondezas. E dessa atriz bastou para que eu dissesse para mim mesmo: "Talvez seja como se aquilo bastava para que eu visse, nos próprios braços de uma mulher a que conhecia, Albertine risonha e rubra de prazer. E, no fundo, por que não assim? Teria eu deixado de pensar em mulheres desde que conhecia Albertine. Na noite em que estivera pela primeira vez na casa da princesa de Guermantes antes de regressar, não pensava eu muito menos nesta última que na moça de quem Saint-Loup gostava e que frequentava os bordéis, e na camareira da Sra. Putbus? Por causa desta última é que eu tinha voltado à Balbec? Mais recentemente, tive vontade de ir à Veneza; por que não poderia Albertine ter vontade de ir à Touraine. Apenas, no fundo - percebia agora-, eu não a teria deixado, não iria à Veneza. No fundo de mim mesmo, dizendo sempre: "Em breve a deixarei", sabia que; a deixaria mais, tão bem quanto sabia que não principiaria mais a trabalhar viver uma vida higiênica, enfim, tudo aquilo que diariamente me prometia para o dia seguinte. Apenas, no fundo, fosse o que fosse aquilo em que eu acreditava, julgado mais hábil deixá-la viver sob a ameaça de uma perpétua separação.
     E dúvida, graças à minha detestável habilidade, eu a convencera demais. Em todo caso, aquilo agora não podia continuar desse jeito, eu não podia deixá-la na Touraine, com essas moças, com semelhante atriz; não podia suportar a ideia de que a vida me fugia. Esperaria a sua resposta à minha carta; se ela praticava o mal, de mim, um dia a mais ou a menos não fazia diferença (e talvez eu me dissesse porque, não mais tendo o hábito de tomar conta de cada um de seus minutos; quais um só que ela tivesse passado em liberdade me transtornava, meu ciúme não tinha a mesma divisão do tempo). Mas, logo que chegasse a sua resposta se ela não voltasse eu iria buscá-la; por bem ou por mal, iria arrancá-la de suas amigas. Além disso, não era preferível que eu mesmo fosse, agora que havia descoberto a maldade de Saint-Loup, até então insuspeitada de mim? Quem sabe se ele havia organizado todo um complô para me separar de Albertine? Seria porque tinha mudado, seria porque não pudera supor então que causas naturais me ligaram um dia a esta situação excepcional; mas como teria mentido agora se escrevesse, como lhe dizia em Paris que não desejava lhe acontecesse algum acidente! Ah, se acontecesse algum, minha vida, em vez de ser envenenada para sempre por este ciúme incessante, teria logo recuperado, se não a felicidade, menos a calma, pela supressão do sofrimento. A supressão do sofrimento? Não pude jamais acreditar nisso, acreditar que a morte não faz mais que riscar o que existe e deixar o resto intacto, que ela arrebata a dor ao coração daquele para quem a existência do outro não é mais que fonte de mágoas; que ela arrebata a dor e não põe nada em seu lugar? A supressão da dor! Percorrendo o noticiário dos jornais, eu lamentava não ter a coragem de enunciar o mesmo desejo de Swann. Se Albertine pudesse ser vítima de um acidente; viva, eu teria tido um pretexto para correr junto à ela; morta, teria recuperado, como dizia Swann, a liberdade de viver. Acreditava eu nisso? Ele o acreditara, aquele homem tão fino e que julgava conhecer-se bem. Como sabemos pouco do que nos vai pelo coração! Como, um pouco mais tarde, se ele ainda fosse vivo, eu teria podido lhe dizer que seu desejo, além de criminoso, era absurdo, que a morte daquela a quem amava não o teria livrado de coisa alguma!
     Deixei de lado todo o orgulho diante de Albertine, e mandei-lhe um telegrama desesperado, pedindo-lhe que voltasse sob quaisquer condições, que ela faria tudo o que quisesse; pedia-lhe somente que me deixasse beijá-la por um minuto, três vezes por semana, antes que se deitasse. E, mesmo que ela dissesse: "Uma vez apenas", eu teria aceitado. Ela não voltou nunca mais. Meu telegrama acabava de ser expedido quando recebi outro. Era da Sra. Bontemps. O mundo não é criado de uma vez por todas para cada um de nós. Ele vai se acrescentando, no decurso da vida, de coisas de que nem suspeitávamos. Ah! Não foi a supressão do sofrimento o que produziram em mim as duas primeiras linhas do telegrama:

MEU POBRE AMIGO, NOSSA PEQUENA ALBERTINE JÁ NÃO EXISTE, PERDOE-ME POR DIZER ESTA COISA HORRÍVEL AO SENHOR QUE A AMAVA TANTO. ELA FOI LANÇADA PELO SEU CAVALO CONTRA UMA ÁRVORE DURANTE UM PASSEIO. TODOS OS NOSSOS ESFORÇOS NÃO PUDERAM REANIMÁ-LA. ANTES TIVESSE EU MORRIDO EM SEU LUGAR! 

     Não, não a supressão do sofrimento, mas um sofrimento desconhecido, o de saber que ela não voltaria mais. Mas não me dissera eu diversas vezes que ela talvez não voltasse mais? Dissera-o de fato a mim mesmo, mas agora percebia que não o acreditara por um instante sequer. Visto necessitar de sua presença, de seus beijos, para suportar o mal que me causavam as minhas suspeitas, adquirira, desde Balbec, o hábito de estar sempre com ela. Mesmo quando ela havia saído, quando me encontrava sozinho, eu ainda a beijava. E continuara assim desde que ela fora para a Touraine. Precisava menos da sua fidelidade que do seu regresso. E, se a minha razão podia impunemente duvidar disso, a imaginação não cessava por um instante de figurá-lo. Instintivamente, passei a mão pelo pescoço e pelos lábios, que se sentiam beijados por ela desde que partira, e que nunca mais o seriam; passei a mão por eles, como mamãe me havia acariciado quando da morte de minha avó dizendo-me:

- Meu pobre pequeno, tua avó que te amava tanto não vai te beijar mais. - a esperança na vida vindoura se acabava, arrancada de meu coração. Minha vida vindoura? Então não pensara eu por vezes em acabar sem viver com Albertine? Não! Desde muito tempo então eu não lhe havia dedicado todos os minutos de minha vida até a morte? Mas é claro! Esse futuro inseparável dela, eu não soubera percebê-lo, mas agora que acabava de descerrar-se, bem sentia que ele ocupava em meu coração aberto. Françoise, que ainda não sabia entrou em meu quarto; furiosamente, gritei-lhe:

- O que é que há? -

     Então às vezes palavras que põem uma realidade diferente no mesmo lugar da qual junto a nós, e nos aturdem tanto quanto uma vertigem; ela me disse:

- O não precisa ficar zangado. Pelo contrário, vai ficar bem contente. São duas amigas da senhorita Albertine. -

     Percebi depois que deveria ter o olhar de alguém cujo ser perde o equilíbrio. Não fiquei feliz nem incrédulo. Sentia-me como alguém que enxerga o mesmo lugar de seu quarto ocupado por um canapé. Nada mais lhe parecendo real, ele cai por terra. As duas cartas de Albertine teriam sido escritas pouco tempo antes do passeio em que ela morrera. A primeira: 

Meu amigo, agradeço-lhe a prova de confiança que me dá ao me dizer sua intenção de trazer Andrée para sua casa. Estou certa de que ela aceita com alegria e creio que isto será muito feliz para ela. Bem dotada como é, saberá aproveitar a companhia de um homem como você e a admirável influência que você exercer sobre uma pessoa. Acho que teve uma ideia da qual pode nascer benefício tanto para você como para ela. Assim, se ela opuser alguma dificuldade (o que não creio), passe-me um telegrama que me encarregarei de convencê-la.  

     A segunda estava datada de um dia depois. Na verdade, Albertine as havia escrito com poucos instantes de intervalo, talvez ao mesmo tempo, e depois pré-datado a primeira. Pois o tempo todo eu imaginara absurdamente as intenções, que só consistiam em voltar para junto de mim e que alguém desavisado no assunto, um homem sem imaginação; o negociador de um tratado; de um comerciante que examina uma transação, teria julgado melhor do que eu. Havia apenas estas palavras:

Será tarde demais para que eu volte para sua casa? Se ainda não escolheu à Andrée, consentiria em me aceitar de volta? Eu me inclinarei diante de sua decisão; peço-lhe que não tarde a me comunicá-la; imagina com que impaciência espero. Se for para que eu volte, tomarei o trem imediatamente. De todo o coração sua Albertine.

     Para que a morte de Albertine pudesse suprimir meus sofrimentos, era necessário que o choque a tivesse matado não apenas na Touraine mas dentro de mim. Ela nunca aí estivera mais viva. Para entrar em nós, uma criatura foi obrigada a assumir a forma, a submeter-se ao quadro do tempo; só nos aparecendo minutos sucessivos, ela nunca pôde nos entregar, de sua pessoa, senão um aspecto de cada vez, fornecer de si mesma apenas uma única fotografia. Grande fraqueza, sem dúvida, para uma criatura, o consistir numa simples coleção de momentos; grande força também; depende da memória, e a memória de um momento não é informada acerca de tudo o que se passou desde então. Esse momento que ela registrou dura ainda, vive ainda, e com ele a criatura que aí se perfilava. E, além disso, esse esmigalhamento não faz apenas viver a pessoa morta, multiplica a dor. Para me consolar, não era uma, eram inumeráveis Albertines que eu deveria esquecer. Quando chegasse a suportar o desgosto de ter perdido esta, era o caso de ter de recomeçar com uma outra, com cem outras. 
     Então a minha vida mudou completamente. Aquilo que, e não por causa de Albertine, mas paralelamente a ela, quando eu estava sozinho, formara-lhe a doçura, era justamente, ao apelo de momentos idênticos, o perpétuo renascer de momentos antigos. Pelo ruído da chuva era-me restituído o cheiro dos lilases de Combray; pela passagem do sol sobre o balcão, os pombos dos Champs-Élysées; pelo amortecimento dos ruídos no calor da manhã, a frescura das cerejas; o desejo da Bretanha ou de Veneza pelo rumor do vento e pela volta da Páscoa. Aproximava-se o verão, os dias se encompridavam, fazia calor. Era o tempo em que, de manhã bem cedo, alunos e professores vão para os jardins públicos preparar os últimos concursos debaixo das árvores, a fim de recolher a única gota de frescura deixada cair por um céu menos flamejante que no ardor do dia, porém já também puramente estéril. Do meu quarto ensombrado, com um poder de evocação igual ao de outrora, mas que só me dava sofrimento, eu sentia que lá fora, na lentidão do ar, o sol poente punha na verticalidade das casas e das igrejas um fulvo tom de ocre. E se Françoise, ao voltar, desarrumava sem querer as pregas das grandes cortinas, eu sufocava um grito diante do rasgão que acabava de fazer dentro de mim esse raio de sol antigo que me fizera parecer bela a fachada nova de Bricqueville I'Orgueilleuse, quando Albertine me dissera:

- Ela está restaurada. - 

     Não sabendo como explicar o meu suspiro a Françoise, dizia-lhe: 

-Ah, tenho sede. -

     Ela saía, voltava, mas eu me desviava com violência, sob o influxo doloroso de uma das mil recordações invisíveis que a todo instante estalavam a meu redor na sombra: acabava de ver que ela trouxera a cidra e as cerejas, as mesmas que um empregado da granja nos levara ao carro, em Balbec, espécies sob as quais eu mais perfeitamente teria comungado, outrora, com o arco-íris das salas de jantar escuras, nos dias escaldantes. Então pensei pela primeira vez na granja dos Ecorres, e disse comigo que, em certos dias, quando Albertine me dizia, em Balbec, não estar livre, ser obrigada a sair com a tia, talvez estivesse na companhia de uma de suas amigas numa granja aonde ela sabia que eu não costumava ir e, enquanto eu casualmente me demorava em Marie Antoinette, onde me haviam dito: 

- Não a vimos hoje -, ela empregava com a amiga as mesmas palavras que usava para comigo quando saíamos juntos:

- Ele não terá ideia de nos procurar aqui e assim não seremos incomodadas. 

     Eu dizia a Françoise que cerrasse as cortinas para não ver mais aquele raio de sol. Mas ele continuava a filtrar-se igualmente corrosivo, na minha memória.

- Não gosto, foi restaurada, amanhã iremos a Saint-Martin-le-Vêtu, depois de amanhã a...

     Amanhã, depois de amanhã, era um futuro de vida em comum, talvez para sempre, pedia que meu coração se arremessava para ele, mas ele já não estava ali, Albertine havia morrido.
     Perguntei as horas a Françoise: seis horas. Enfim, graças a Deus: parecer aquele calor pesado de que antes eu me queixava à Albertine e que apreciávamos. O dia chegava ao fim. Mas o que ganhava eu com isso? Era o frescor da noite, era o pôr-do-sol; em minha memória, ao fim de uma caminhada tomávamos juntos para regressar, o trem; eu percebia, mais além da última aldeia uma espécie de estação distante, inacessível àquela noite em que nos deteria em Balbec, sempre juntos. Juntos então, era preciso agora parar de repetir desse mesmo abismo, ela havia morrido.

continua na página 31...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
Volume 6
A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - k)

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - j)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

   Mas, depois de ter mandado essa carta, veio-me de súbito a suspeita: que, quando Albertine me escrevera: Eu teria ficado muito feliz por voltar se me tivesse escrito diretamente, só o fizera porque eu não lhe escrevera diretamente e, mesmo que eu o tivesse feito, ainda assim ela não teria voltado; que ficasse contente por saber que Andrée estava em minha casa, e depois seria minha mulher.
   Contanto que ela, Albertine, ficasse livre, pois agora podia, há oito dias já, eliminando as precauções de cada dia que eu havia tomado durante mais de seis meses em Paris, entregar-se a seus vícios e fazer aquilo que, minuto após minuto, eu tinha impedido. Eu dizia comigo que provavelmente, lá longe, ela empregava mal sua liberdade, e é claro que essa ideia que eu formava me parecia triste, mas continuava geral, nada me mostrando de particular e, pelo número indefinido das amantes possíveis que ela me fazia supor, sem me deixar fixar-me em nenhuma, arrastava o meu espírito numa espécie de movimento perpétuo não isento de dor, porém de uma dor que, pela ausência da imagem concreta, tornava-se suportável. Mas deixou de sê-lo e se tornou atroz à chegada de Saint-Loup. Antes de contar por que as suas palavras me fizeram tão infeliz, devo narrar um incidente que se coloca imediatamente antes de sua visita e cuja recordação a seguir me perturbou de tal modo que enfraqueceu, se não a impressão penosa que me causou a conversa com Saint-Loup, ao menos o alcance prático dessa conversa. Tal incidente consistiu no que se segue.
   Ardendo de impaciência por ver Saint-Loup, eu o esperava na escada (o que não teria podido fazer se minha mãe estivesse presente, pois isso era o que ela mais detestava no mundo depois de "falar da janela"), quando ouvi as seguintes palavras:

- Como, não sabe despedir alguém que lhe desagrada? Não é difícil. Por exemplo, não tem mais que esconder os objetos que ele deve levar; então, no momento em que seus patrões o chamam, e estão com pressa, ele não acha nada e perde a cabeça; minha tia dirá a você, furiosa: "Mas o que é que ele está fazendo?" Quando ele chegar atrasado, todos estarão enfurecidos, e ele não trará o que é preciso. Depois de quatro ou cinco vezes, pode ficar certo de que ele será despedido, principalmente se você tiver o cuidado de sujar às escondidas o que ele deve manter limpo; e mil outros ardis desse tipo... - Eu permanecia mudo de espanto, pois essas palavras maquiavélicas e cruéis eram pronunciadas pela voz de Saint-Loup. Ora, eu sempre o considerara como um sujeito tão bom, tão piedoso para com os desgraçados, que aquilo me causava o efeito de que ele estivesse representando o papel de Satanás; mas não podia estar falando no seu próprio nome.

- Mas sempre é necessário que todos ganhem a sua vida - disse o seu interlocutor, que então avistei e que era um dos lacaios da duquesa de Guermantes.

- Que lhe importa, desde que você se saia bem? - respondeu maldosamente Saint-Loup. - Você, além disso, terá o prazer de arranjar um bode expiatório. Poderá muito bem derramar-lhe o tinteiro na libré, quando ele estiver servindo um jantar de gala, enfim, não lhe dar um minuto de trégua, de tal modo que ele acabará preferindo ir embora. De resto, vou lhe dar uma mãozinha: direi a minha tia que admiro a paciência de você em servir com um moleirão daqueles e tão mal vestido. -

   Apresentei-me, Saint-Loup veio ao meu encontro, porém minha confiança nele estava abalada do que acabara de ouvir, tão diferente daquele que eu conhecia. E me perguntei se alguém é capaz de agir tão cruelmente com um infeliz não havia representado o papel de traidor a meu respeito, em sua missão junto à Sra. Bontemps. A reflexão serviu, sobretudo, para não me fazer considerar o seu fracasso como o de que eu não podia ter êxito, se ele me deixasse. Mas, enquanto ele estava a meu lado, era todavia no Saint-Loup de outrora e principalmente ao amigo que de deixar a Sra. Bontemps, que eu pensava. Primeiro, ele me disse:  

- Acho que deveria ter te telefonado mais vezes, mas diziam sempre que não estavas.

   Mas onde meu sofrimento se tornou insuportável, foi quando ele me disse:

- Vou começar por onde o meu último despacho te deixou, depois de ter passado uma espécie de galpão, entrei na casa e, no fim de um longo corredor, fizera entrar numa sala. -

   A essas palavras de galpão, corredor e sala, e antes mesmo que acabassem de ser pronunciadas, meu coração foi atravessado com mais rápido do que se estivesse em contato com uma corrente elétrica, pois a força que às vezes dá volta à Terra em um segundo não é a eletricidade, mas a dor. Repeti, renovando com prazer o choque, essas palavras de galpão, corredor depois que Saint-Loup foi embora! Num galpão a gente pode se esconder. E, naquela sala, quem sabe o que Albertine fazia quando a tia se ausentava. Mas como? Eu então me havia representado a casa em que morava Albertine não podendo ter galpão nem sala? Não, eu absolutamente não a representara a mim, a não ser como um lugar vago. Tinha sofrido uma primeira vez quando individualizara geograficamente o lugar em que ela estava, quando soubera em vez de estar em dois ou três locais possíveis, ela se achava na Touraine; palavras da porteira de seu apartamento haviam marcado em meu coração, num mapa, o lugar onde enfim era preciso sofrer. Mas uma vez habituado à idéia que ela se encontrava numa casa da Touraine, eu não tinha visto essa casa; nunca me viera à imaginação esta horrível idéia de sala, de galpão e de corredor; agora pareciam estar à minha frente, na retina de Saint-Loup que os vira; os cômodos em que Albertine passava, andava, vivia, esses cômodos em particular não tinham uma infinidade de cômodos possíveis que se haviam destruído uns aos outros. À essas palavras de galpão, corredor e sala, pareceu-me loucura ter deixado Albertine, oito dias nesse lugar maldito cuja existência (e não a simples possibilidade)estava prestes de me ser revelada. Ai de mim! Quando Saint-Loup me disse, igualmente naquela sala, ouvira cantarem a meia voz num aposento ao lado, e que era Albertine quem cantava, compreendi desesperado que, livre de mim, afinal, ela era livre. Havia reconquistado a sua liberdade. E eu, que pensava que ela viria tomar o lugar de Andrée! Minha dor se transformou em cólera contra Saint-Loup.

- Foi tudo o que pedi que evitasses, que ela soubesse que ias!

- Se achas que era fácil! Tinha assegurado que ela não se achava lá. Oh, sei muito bem que não estás contrariado comigo, senti-o perfeitamente nos teus telegramas. Porém és injusto; fiz o que pude. - 

   Solta de novo, tendo deixado a jaula de onde, em minha casa, eu ficava dias inteiros sem chamá-la ao meu quarto, ela retomara para mim todo o seu brio; tornara-se outra vez aquela que todos seguiam, o pássaro maravilhoso dos primeiros dias.

- Enfim, resumamos. Quanto ao dinheiro, não sei o que te dizer. Falei a uma senhora que me pareceu tão delicada que receei ofendê-la. Ora, ela não exclamou "Oh!" quando falei em dinheiro. E até, um pouco depois, disse-me que estava comovida por ver que nos compreendíamos tão bem. No entanto, tudo o que ela disse a seguir era tão delicado, tão sublime, que me parecia impossível que ela tivesse dito, quanto ao dinheiro que lhe oferecia: "Nós nos compreendemos tão bem", pois no fundo eu agia como um patife. 

- Mas talvez ela não tenha te compreendido, talvez não haja escutado, deverias ter repetido, pois certamente isto é que daria certo. 

- Mas como queres que ela não tenha escutado? Falei-lhe como te falo agora, ela não era surda nem louca.

- E ela não fez nenhuma observação?

- Nenhuma.

- Deverias ter-lhe dito mais uma vez. 

- Como querias que eu lhe dissesse mais uma vez? Logo ao entrar, vendo a fisionomia dela, disse comigo que te havias enganado, que me mandavas fazer uma tremenda gafe, e era extremamente difícil oferecer-lhe dinheiro assim. Fi-lo todavia para te obedecer, convencido de que me poria porta a fora.

- Mas ela não o fez. Portanto, ou não tinha ouvido e seria necessário recomeçar, ou poderias continuar a esse respeito. 

- Dizes: "Ela não tinha ouvido" porque estás aqui, mas, repito, se tivesses assistido à nossa conversa... Não havia nenhum rumor. E eu falei brutalmente. Não é possível que ela não tenha compreendido. 

- Mas afinal, ela está bem persuadida de que sempre quis desposar a sua sobrinha?

- Não; quanto a isso, se queres a minha opinião, ela não acreditava que tivesses em absoluto a intenção de casar. Disse-me que tu mesmo havias confessado à sobrinha que desejavas abandoná-la. Não sei nem mesmo se agora ela esteja bem convencida de que desejas casar. 

   Isto me tranquilizava um pouco, mostrando que eu estava menos humilhado, logo, capaz de ser amado ainda, mais livre para tentar um passo decisivo. Contudo, sentia-me atormentado. 

- Estou aborrecido, pois vejo que não estás satisfeito.

- Sim, estou comovido, reconhecido pela tua gentileza, mas me parece que terias podido...

- Fiz o melhor que pude. Outro qualquer não poderia ter feito mais, nem mesmo o que fiz. Experimenta outra pessoa.

- Não, de jeito nenhum. Mas, se soubesse, não teria te enviado, mas o fracasso de tua providência não me impede de tentar outra.-

   Fazia-lhe censuras: ele tentara prestar-me um serviço e não lograra êxito. Ao sair, Saint-Loup tinha cruzado com algumas moças que entravam. Eu já havia suposto muitas vezes que Albertine conhecia moças naquele lugar, mas era a primeira vez que isso me torturava. É preciso crer de fato que a Natureza concede ao nosso espírito a secreção de um contraveneno natural que aniquila as suposições que fazemos a um tempo sem trégua e sem perigo; porém coisa alguma me imunizava contra aquelas moças que Saint-Loup tinha encontrado.  

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - i)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva

Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...

   Gostaria de ver Albertine imediatamente. Ao notar sua mentira, ao ciúme pelo desconhecido, acrescentava-se a dor de que tivesse deixado se presentear daquela maneira. Mais presentes lhe dava eu; mas uma mulher a quem sustentamos não nos parece uma mulher sustentada enquanto não sabemos que o é pelos outros. E, todavia, já que gastara continuamente tanto dinheiro com ela, eu a aceitara apesar dessa baixeza moral; baixeza eu mantivera nela, que aumentara talvez, ou talvez criara. Depois, como tem dom de inventar histórias para embalar a nossa dor, como chegamos, quase a morrer de fome, a nos convencer que um desconhecido vai nos deixar uma fortuna de cem milhões. Imaginei Albertine em meus braços, explicando-me uma palavra que era por causa da semelhança de fabricação que ela havia comprado o outro anel, e que fora ela mesma quem mandara gravar seu monograma nele. Mas tal explicação ainda era frágil, ainda não tivera tempo de penetrar profundamente em meu espírito suas raízes benfazejas; minha dor, assim, não podia ser acalmada tão depressa. E imaginava que tantos homens, que contam aos outros que sua amante é muito dedicada, sofrem de torturas semelhantes. É desse modo que mentem aos outros e a si mesmos. Não mentem de todo, aliás; desfrutam com essas mulheres de momentos verdadeiramente doces; mas pensemos em tudo o que essa gentileza que elas têm para com eles diante dos amigos, e que os leva a se vangloriarem, e em tudo o que essa gentileza que têm quando estão sozinhas com seus amantes desconhecidos, e que permite a estes abençoá-las, recobre de horas ignoradas em que o amante sofreu, duvidou, fez em toda parte buscas inúteis para conhecer a verdade! É a tais sofrimentos que se liga a doçura de amar, de se encantar com as frases mais insignificantes de uma mulher, frases que sabemos ser insignificantes, mas que perfumamos com o seu cheiro. Naquele momento, eu já não podia deleitar-me em respirar, pela recordação, o de Albertine. Aterrado, com os dois anéis na mão, olhava aquela águia impiedosa, cujo bico me atormentava o coração, cujas asas de plumas em relevo tinham arrebatado a confiança que eu conservava em minha amiga, e sob cujas garras o meu espírito dilacerado não podia escapar um só instante às perguntas feitas sem cessar em relação àquele desconhecido, de quem a águia sem dúvida simbolizava o nome, sem todavia torná-lo legível, desconhecido que ela certamente amara outrora e que sem dúvida havia reencontrado há pouco tempo; pois fora no dia tão suave, tão familiar, do passeio que fizemos juntos no Bois, que eu tinha visto pela primeira vez o segundo anel, aquele em que a águia parecia mergulhar o bico na toalha de sangue claro do rubi.
   De resto se, da manhã à noite, eu não cessava de sofrer pela partida de Albertine, isto não significava que só pensasse nela. Por um lado, como o seu encanto, tendo desde muito tempo atingido aos poucos até os objetos mais afastados dela, e que não eram menos eletrizados pela mesma emoção que ela me causava, se algo me fazia pensar em Incarville, ou nos Verdurin, ou em um novo papel de Léa, um fluxo de sofrimento vinha me ferir. Por outro lado, o que eu mesmo chamava pensar em Albertine era pensar nos meios de fazê-la voltar, de juntar-me a ela, de saber o que andava fazendo. De modo que, se, durante essas horas de martírio incessante, um gráfico pudesse representar as imagens que acompanhavam o meu sofrimento, nele se veriam a estação de Orsay, as cédulas oferecidas à Sra. Bontemps, Saint-Loup debruçado à escrivaninha inclinada de uma agência de telégrafo, onde preenchia um formulário de telegrama para mim, e nunca a imagem de Albertine. Da mesma forma que, no decurso de toda a nossa vida, o nosso egoísmo vê o tempo inteiro à sua frente os objetivos preciosos para o nosso eu; mas, jamais encara esse mesmo eu que não deixa de considerá-los, assim também o desejo, que dirige nossos atos, desce até eles; mas não remonta a si ou porque, excessivamente utilitário, se precipita na ação e desdenha o momento, ou porque procuramos o futuro para corrigir as decepções do presente; finalmente porque a preguiça do espírito o impele a deslizar pela vertente imaginação em vez de fazê-lo subir a rampa abrupta da introspecção. Nessas horas de crise em que jogaríamos toda a nossa vida, à medida que a de quem ela depende revela melhora imensidade do lugar que ocupa para deixando nada no mundo que não seja transtornado por ela, proporcional imagem dessa criatura diminui a ponto de se tornar imperceptível. Em todas as coisas encontramos o efeito de sua presença devido à emoção que senti; a própria causa, não a encontramos em parte alguma. Durante aqueles dias incapaz de imaginar Albertine que quase poderia crer que a não amasse, e como minha mãe, nos momentos de desespero em que nunca lhe foi imaginar minha avó (salvo uma vez, no encontro fortuito de um sonho, cuja visão desprezou de tal modo, mesmo dormindo, que se esforçou, com o que lhe desse ânimo no sono, para prolongá-lo), teria podido acusar-se, e de fato se acusa de não sentir a perda de sua mãe, cuja morte no entanto a matava, mas cujas imagens lhe fugiam da lembrança. 
   Por que teria eu de acreditar que Albertine não gostava das mulheres? Porque dissera não gostar delas, principalmente nos últimos tempos; mas repousava a nossa vida numa perpétua mentira? Ela nunca me indagara sequer: "Por que não posso sair livremente? Por que pergunta aos outros o que ando fazendo?" Mas era de fato uma vida bastante singular para que ela me perguntasse essas coisas, caso não lhes tivesse compreendido o motivo. Meu silêncio acerca dos motivos de sua clausura, não era compreensível que correspondesse de sua parte um mesmo e constante silêncio acerca de seus perpétuos desejos, suas numerosas recordações, seus inumeráveis anseios e esperanças? Françoise dava a impressão de saber que eu mentia quando me referi próximo o regresso de Albertine. E sua crença parecia basear-se sobre um mais do que aquela verdade que de costume guiava a nossa criada: que os Patrões não gostam de ser humilhados em face dos serviçais e só lhes dão a conhecer a realidade apenas o que não se afaste muito de uma ficção lisonjeira, própria de manter o respeito. Desta vez, a crença de Françoise se baseara em outra como se ela própria já houvesse despertado e mantido a desconfiança no espírito de Albertine, sobre-excitado a sua cólera, em suma, a tivesse levado ao ponto que poderia prever como inevitável a sua partida. Se isso fosse verdade, a minha versão de uma partida temporária, conhecida e aprovada por mim, só poderia contrariar a incredulidade por parte de Françoise. Mas a ideia que ela fazia do interesse de Albertine, o exagero com que, no seu ódio, aumentava o "lucro"; Albertine presumivelmente tirava de mim, podiam em certa medida falsear a certeza. Assim, quando diante dela eu aludia ao próximo regresso de Albertine como sendo uma coisa muito natural; Françoise me encarava, para ver se não estava inventando, do mesmo modo que, quando o mordomo, para aborrecê-la, trocando as palavras, lia a respeito de uma nova política em que ela custava a acreditar, como, por exemplo, o fechamento das igrejas e a deportação dos padres, lá do fundo da cozinha e sem poder ler, Françoise fixava instintiva e avidamente o jornal, como se pudesse ver se aquilo estava escrito de verdade. 
   Mas, quando ela viu que, após ter escrito uma longa carta, eu punha no envelope o endereço da Sra. Bontemps, esse terror, até então bem vago, de que Albertine regressasse, aumentou em Françoise. Expandiu-se em verdadeira consternação quando, certa manhã, teve de me entregar, no meio da correspondência, uma carta em cujo envelope havia reconhecido a caligrafia de Albertine. Indagava a si mesma se a partida de Albertine não fora uma simples comédia, suposição que duplamente a consternava, por assegurar definitivamente para o futuro a vida de Albertine em nossa casa, e por constituir para mim, isto é, para ela mesma, na medida em que eu era o patrão de Françoise, a humilhação de ter sido enganado por Albertine. Apesar da impaciência que eu tinha em ler a carta, não pude evitar contemplar por um instante o olhar de Françoise, de onde todas as esperanças haviam fugido, deduzindo desse presságio a iminência do retorno de Albertine, como um amador de esportes de inverno conclui alegremente que o tempo frio está próximo ao observar a partida das andorinhas. Por fim Françoise saiu, e, quando me assegurei de que ela havia fechado a porta, abri sem rumor, para não mostrar que estava ansioso, a carta seguinte:
   Meu amigo, obrigada por todas as boas coisas que me diz, estou às suas ordens para cancelar a encomenda do Rolls-Royce, se acha que poderei lhe ser útil nisso, como creio. Basta que você me escreva o nome de seu intermediário. Você se deixaria lograr por essa gente que só procura uma coisa: vender, e que faria você com um carro, você que nunca sai? Estou muito comovida pelo fato de você haver conservado uma boa recordação do nosso último passeio. Creia que, de minha parte, não esquecerei esse passeio duas vezes crepuscular (pois a noite caía e nós temos de nos abandonar) e que ele só se apagará do meu espírito com a noite fechada.
   Senti perfeitamente que a última frase não passava de uma frase e que Albertine não poderia conservar até a morte uma lembrança tão doce desse passeio em que certamente não sentira nenhum prazer, visto que estava impaciente por me deixar. Mas admirei também como era bem dotada a ciclista, a golfista de Balbec. Que antes de me conhecer só havia lido Esther, e como tivera eu razão em achar que ela, na minha casa, enriquecera-se de qualidades novas que a tornavam diferente e mais completa. E assim, a frase que lhe tinha dito em Balbec: "Creio que a minha amizade lhe será preciosa, que sou justamente a pessoa que poderia dar aquilo que lhe falta" – escrevera-a como dedicatória numa fotografia: Como a de ser providencial -, essa frase que dizia sem nela acreditar e unicamente por fazer achar benéfico o estar comigo e reprimir o tédio que pudesse achar em sua companhia, essa frase também poderia ser verdadeira; da mesma forma, quando eu lhe dissera que não queria vê-la, de medo de amá-la. Havia dito porque, ao contrário, sabia que no convívio constante o meu amor até a separação só faria exaltá-lo; mas, na realidade, o convívio constante nascera de uma necessidade dela, infinitamente mais forte que o amor dos primeiros tempos em Balbec.
   Mas, afinal, a carta de Albertine não adiantava em nada as coisas, me falava para escrever ao intermediário. Era preciso sair dessa situação. Tive a seguinte idéia: mandei levar imediatamente uma carta na qual lhe dizia que Albertine estava na casa da tia, que me sentia muito só; que ela me daria prazer imenso se viesse instalar-se em minha casa por algum tempo e que, como eu não queria fazer segredinhos, pedia-lhe que desse conta de Albertine. E, ao mesmo tempo, escrevi a Albertine como se ainda não tivesse recebido a sua carta:
   Minha amiga, perdoe-me o que você compreende muito bem, de tanto os segredinhos que desejei que você fosse avisada por ela e por mim. Por ter tido você tão docemente em minha casa, adquiri o mau hábito de não ficar sozinho. Já que decidimos que você não voltaria, pensei que a pessoa que melhor poderia substituir, por ser a que me mudaria menos, a que mais me lembraria você, é Andrée, e lhe pedi que viesse. Para que tudo isto não pareça muito brusco, só falei em alguns dias; mas, aqui entre nós, penso que desta vez será para sempre. Não acha que tenho razão? Você sabe que o seu pequeno grupo de moças em Balbec sempre foi a célula social que teve para mim o maior prestígio, e ao qual senti extremamente feliz de ser agregado um dia. Sem dúvida, esse prestígio ainda hoje se faz sentir. Já que a fatalidade de nossos temperamentos e a má vida não quiseram que a minha pequena Albertine fosse minha mulher, importa que ainda assim terei uma mulher menos encantadora que ela, mas a quem maiores afinidades de temperamento permitirão talvez ser mais feliz comigo - Andrée.