domingo, 19 de abril de 2026

Moby Dick: 57 - Das baleias pintadas a óleo

Moby Dick

Herman Melville

57 - Das baleias pintadas a óleo; gravadas em dentes; medeira; metal; pedra; montanhas; estrelas   

     Em Tower-Hill, quando se desce para as docas de Londres, pode-se ver um mendigo aleijado (ou poita, como dizem os marinheiros), segurando uma tabuleta pintada, que representa a cena trágica em que perdeu sua perna. São três baleias e três botes; e um dos botes (onde se presume ainda estar a perna que falta em sua integridade original) está sendo triturado pela mandíbula da baleia em primeiro plano. A qualquer hora, nestes dez anos, segundo me disseram, esse homem está ali com esse quadro, expondo o toco de sua perna para um mundo cético. Mas é chegado o tempo de sua justificativa. Suas três baleias são tão boas quanto as que foram publicadas em Wapping, sob qualquer aspecto; e o seu toco é tão inquestionável quanto qualquer outro que se encontre em paragens ocidentais. Embora sempre montado naquela plataforma, jamais discursa o pobre baleeiro; e sim, de olhos baixos, contempla com pesar a própria amputação.
     Por todo o Pacífico, e também em Nantucket, e New Bedford, e Sag Harbor, deparam-se desenhos vívidos de baleias e cenas da pesca baleeira, talhados pelos próprios pescadores em dentes de Cachalotes, e espartilhos feitos de osso de Baleia Franca, e outros artigos de skrimshander, como os baleeiros chamam os numerosos objetos pequenos e originais que cuidadosamente esculpem naquela matéria-prima, em suas horas de lazer marítimo. Alguns deles possuem caixinhas de apetrechos que parecem de dentistas, destinados especialmente ao ofício do skrimshander. Mas, em geral, lavram apenas com os seus canivetes; e, com essa ferramenta quase onipotente, fazem qualquer coisa que se queira, segundo a fantasia dos marujos.
     O longo exílio da Cristandade e da civilização inevitavelmente devolve o homem àquela condição na qual Deus o colocou, i.e., a chamada selvageria. O verdadeiro caçador de baleias é tão selvagem quanto um Iroquês. Eu mesmo sou um selvagem, que só deve lealdade ao Rei dos Canibais; e pronto para, a qualquer momento, me rebelar contra ele.
     Ora, um dos traços característicos do selvagem, nas horas em que está em casa, é a sua fantástica e paciente engenhosidade. Uma clava guerreira, um antigo remo do Havaí, com os seus múltiplos e elaborados entalhes, são monumentos tão grandiosos da perseverança humana quanto um léxico Latino. Pois, com simples pedaços de conchas quebradas ou um dente de tubarão, essa complexidade milagrosa do rendilhado de madeira foi obtida; e isso custou longos anos de longa aplicação.
     Como o selvagem do Havaí, assim também é o selvagem marinheiro branco. Com a mesma paciência maravilhosa, e com o mesmo único dente de tubarão, com o seu único pobre canivete, ele fará uma escultura de osso, não tão bem acabada, mas cujo labirinto do desenho é tão intricado quanto o do selvagem Grego, do escudo de Aquiles; e repleta do espírito e de sugestões bárbaras como as estampas daquele bom e velho selvagem holandês, Albert Dürer.
     Baleias de madeira ou silhuetas de baleias entalhadas em pequenas tábuas escuras da madeira nobre dos navios dos Mares do Sul são encontradas com frequência nos castelos de proa dos navios baleeiros Norte-Americanos. Algumas foram feitas com muita exatidão.
     Em algumas velhas casas de campo com telhados de empena, veem-se baleias de metal suspensas pela cauda, servindo de aldrava na porta de entrada. Quando o porteiro está dormindo, a baleia cabeça de bigorna é a mais útil. Mas essas baleias de aldrava raramente são notáveis pela fidelidade do escopo. Nas agulhas das torres de antiquadas igrejas, veem-se baleias de ferro laminado a servir de cata-vento; mas ficam tão no alto, e, além disso, são rotuladas com todas as letras de “Não me toques!”, que não se pode vê-las de perto para julgar o seu mérito.
     Nas regiões descarnadas e escaveiradas da terra, onde, ao pé de altos penhascos escarpados, massas rochosas se espalham em conjuntos fantásticos sobre a planície, com frequência se descobrem imagens como que de formas petrificadas do Leviatã parcialmente imersas na vegetação, que um dia de vento faz quebrar contra elas numa arrebentação de ondas verdes.
     E ainda, nas regiões montanhosas, onde o viajante sempre está cingido por anfiteatrais alturas; aqui e ali, de algum venturoso ponto de vista, captam-se transitórios lampejos de perfis de baleias delineados ao longo dos sulcos ondulantes. Mas é preciso ser um rematado baleeiro para ver tais cenas; e não apenas isso, quando se quer voltar à mesma vista, há que ser criterioso e marcar a intersecção exata da latitude e da longitude do primeiro ponto de observação, caso contrário – tão casuais são essas observações das encostas –, recuperar o seu exato e primeiro ponto de vista requereria uma trabalhosa redescoberta; como as ilhas Salomão, que ainda são desconhecidas, embora o agitado Mendaña tenha ali pisado e o velho Figueroa as tenha descrito.
     Nem mesmo engrandecidamente elevado ao sublime pelo assunto, pode-se evitar distinguir enormes baleias nos céus estrelados, e botes a dar-lhes caça; como quando longamente tomadas por pensamentos bélicos as nações do Oriente viram exércitos a travar batalhas entre as nuvens. Assim no Norte estive no encalço do Leviatã, dando voltas ao redor do Polo, com as revoluções dos pontos luminosos que primeiramente o delinearam para mim. E, sob refulgentes céus Antárticos, abordei o Navio dos Argonautas e juntei-me à caçada da Baleia cintilante, muito além dos mais remotos domínios da Hidra e dos Peixes.
     Com âncoras de fragata a servir de freios, e feixes de arpões por esporas, quisera ser capaz de montar naquela baleia e subir ao mais alto firmamento, para ver se os céus fabulosos, com as suas inúmeras tendas, estão realmente acampados além de minha visão mortal!

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Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo /            
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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