quinta-feira, 16 de abril de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O latifúndio multiplica as bocas, mas não os pães(21)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     31. O latifúndio multiplica as bocas, mas não os pães
          A produção agropecuária por habitante na América Latina é hoje menor do que na véspera da Segunda Guerra Mundial. Transcorreram 30 longos anos. No mundo, a produção de alimentos, nesse período, cresceu na mesma proporção em que diminuiu em nossas terras. A estrutura do atraso do campo latino-americano opera também como uma estrutura do desperdício: desperdício da força de trabalho, da terra disponível, dos capitais, do produto e, sobretudo, desperdício das esquivas oportunidades históricas de desenvolvimento. O latifúndio e seu parente pobre, o minifúndio, constituem, em quase todos os países latino americanos, o gargalo da garrafa que estrangula o crescimento agropecuário e o desenvolvimento de toda a economia. O regime da propriedade imprime sua marca no regime da produção: 1,5 por cento dos proprietários agrícolas latino-americanos possui a metade das terras cultiváveis, e a América Latina gasta anualmente mais de 500 milhões de dólares para comprar no estrangeiro alimentos que facilmente poderia produzir em suas imensas e férteis terras. Apenas 5 por cento da superfície total está cultivada: a mais baixa proporção do mundo e, portanto, o maior desperdício [1]. De resto, nas escassas terras cultivadas os rendimentos são muito baixos. E as técnicas modernas de produção, virtual monopólio das grandes empresas agrícolas, em sua maioria estrangeiras, são empregadas de tal modo que em vez de ajudar os solos os envenenam para ganhar o máximo num mínimo de tempo. [2]
     O latifúndio integra, às vezes como Rei Sol, uma constelação de poder que, na feliz expressão de Maza Zavala, multiplica os famintos, mas não os pães [3]. Em vez de absorver mão de obra, o latifúndio a expulsa: em 40 anos, os trabalhadores latino-americanos do campo foram reduzidos em mais de 20 por cento. Sobram tecnocratas dispostos a afirmar, aplicando mecanicamente receitas prontas, que este é um índice de progresso: a urbanização acelerada, a migração massiva da população campesina. Os desempregados, que o sistema vomita sem descanso, de fato migram para as cidades, aumentando seus subúrbios. Mas as fábricas, que também segregam desempregados na medida em que se modernizam, não oferecem oportunidades a essa mão de obra excedente e não especializada. Os progressos tecnológicos do campo, quando ocorrem, agravam o problema. Crescem os lucros dos terras-tenentes quando são implementados meios mais modernos de exploração de suas propriedades, mas mais braços resultam inativos e se torna maior a brecha que separa ricos e pobres. A introdução de equipamentos motorizados, por exemplo, elimina mais empregos rurais do que aqueles que cria. Os latino-americanos que produzem os alimentos, em jornadas de sol a sol, normalmente sofrem de desnutrição: seus ganhos são miseráveis, e a renda que o campo gera é gasta nas cidades ou viaja para o exterior. As melhores técnicas para aumentar os magros rendimentos do solo, e que deixam intato o regime de propriedade vigente, ainda que contribuam para o progresso geral, não representam nenhuma bênção para os camponeses. Não aumentam seus salários nem sua participação nas colheitas. O campo irradia pobreza para muitos e riqueza para bem poucos. Os aviões privados sobrevoam os desertos miseráveis, multiplica-se o luxo estéril nos grandes balneários e a Europa ferve de turistas latino-americanos transbordantes de dinheiro, que não cuidam do cultivo de suas terras mas não deixam de cuidar do cultivo de seus espíritos.
     Paul Bairoch atribui a principal debilidade da economia do Terceiro Mundo ao fato de que sua produtividade agrícola média só alcance a metade do nível alcançado, às vésperas da Revolução Industrial, pelos países hoje desenvolvidos [4]. De fato, a indústria, para expandir-se harmoniosamente, requereria um aumento muito maior da produção de alimentos e de matérias-primas agropecuárias. Alimentos, porque as cidades crescem e comem; matérias-primas, para as fábricas e para a exportação, de modo que diminuam as importações agrícolas e aumentem as vendas para o exterior, gerando as divisas que o desenvolvimento requer. De outra parte, o sistema de latifúndios e minifúndios implica o raquitismo do mercado interno de consumo e sem sua expansão a indústria nascente perde o pé. Os salários de fome no campo e o exército de reserva cada vez mais numeroso de desempregados conspiram neste sentido: os emigrantes rurais que vêm bater às portas das cidades empurram para baixo o nível geral dos ganhos dos operários.
     Desde que a Aliança para o Progresso proclamou aos quatro ventos a necessidade da reforma agrária, a oligarquia e a tecnocracia não cessaram de elaborar projetos. Dezenas de projetos gordos, magros, largos, estreitos, dormem nas estantes dos parlamentos de todos os países latino-americanos. A reforma agrária já não é um assunto maldito: os políticos aprenderam que a melhor maneira de não fazê-la consiste em não parar de falar nela. Os processos simultâneos de concentração e pulverização da propriedade continuam seu andamento, olimpicamente, na maioria dos países. No entanto, as exceções começam a pedir passagem.
     Porque o campo não é tão só uma sementeira de pobreza: é também uma sementeira de rebeliões, embora as agudas tensões sociais amiúde se ocultem, mascaradas pela aparente resignação das massas. O Nordeste do Brasil, por exemplo, impressiona à primeira vista como um bastião do fatalismo, cujos habitantes aceitam morrer de fome tão passivamente como aceitam a chegada da noite ao fim de cada dia. Mas não está tão longe no tempo a explosão mística dos nordestinos que lutaram junto com seus messias, extravagantes apóstolos, erguendo a cruz e os fuzis contra os exércitos, para trazer a esta terra o reino dos céus, nem as furiosas ondas de violência dos cangaceiros: os fanáticos e os bandoleiros, utopia e vingança, deram curso ao protesto social, cego ainda, dos camponeses desesperados [5]. As ligas camponesas recuperariam mais tarde, aprofundando-as, essas tradições de luta.
     A ditadura militar que usurpou o poder no Brasil em 1964 em seguida tratou de anunciar sua reforma agrária. O Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, como observou Paulo Schilling, é um caso único no mundo: em vez de distribuir terra aos camponeses, dedica-se a expulsá-los, para restituir aos latifundiários as extensões espontaneamente invadidas ou expropriadas por governos anteriores. Em 1966 e 1967, antes que a censura da imprensa fosse aplicada com maior rigor, os jornais costumavam dar conta dos saques, dos incêndios e das perseguições que as tropas policiais levavam a cabo por ordem do atarefado instituto. Outra reforma agrária digna de uma antologia é a que foi proclamada no Equador em 1964. O governo só distribuiu terras improdutivas, ao mesmo tempo em que facilitava a concentração de solos de melhor qualidade nas mãos de grandes proprietários. A metade das terras distribuídas pela reforma agrária da Venezuela, a partir de 1960, eram de propriedade pública; as grandes plantações comerciais não foram tocadas, e os latifundiários expropriados receberam tão altas indenizações que, com tais esplêndidos lucros, puderam comprar novas terras em outras áreas.
     O ditador argentino Juan Carlos Onganía esteve a ponto de antecipar em dois anos sua queda quando, em 1968, tentou aplicar um novo regime de impostos às propriedades rurais. O projeto pretendia tributar as improdutivas llanuras peladas mais severamente do que as terras produtivas. A oligarquia vacum bradou aos céus, mobilizou suas próprias espadas no estado maior e Onganía teve de esquecer suas heréticas intenções. A Argentina, como o Uruguai, dispõe de pradarias naturalmente férteis que, ao influxo da benignidade do clima, permitiu-lhe desfrutar de uma relativa prosperidade na América Latina. Mas a erosão vai mordendo sem piedade as imensas planuras abandonadas, que não se destinam ao cultivo nem ao pastoreio, e outro tanto ocorre com grande parte dos milhões de hectares dedicados à extensiva exploração da criação de gado. Como no caso do Uruguai, embora em menor grau, nessa exploração extensiva está a origem da crise que sacudiu a economia argentina nos anos 60. Os latifundiários argentinos não mostraram interesse bastante em introduzir inovações técnicas em seus campos. A produtividade ainda é baixa, porque convém que o seja; a lei do lucro pode mais do que todas as outras leis. A ampliação das propriedades, através da compra de novos campos, é mais lucrativa e menos arriscada do que o investimento em meios que a moderna tecnologia proporciona para a produção intensiva. [6]
     Em 1931, a Sociedade Rural opunha o cavalo ao trator: “Agricultores pecuaristas”, clamavam seus dirigentes, “trabalhar com cavalos nas tarefas agrícolas é proteger seus próprios interesses e os do país”. Vinte anos depois, insistia em suas publicações: “É mais fácil”, disse um conhecido militar, “que chegue o pasto ao estômago do cavalo do que a gasolina ao tanque de um pesado caminhão” [7]. Segundo dados da CEPAL, a Argentina tem, em proporção aos hectares da superfície arável, dezesseis vezes menos tratores do que a França, e dezenove vezes menos do que o Reino Unido. Também em proporção, o país consome 140 vezes menos fertilizantes do que a Alemanha Ocidental os [8]. Os rendimentos do trigo, do milho e do algodão da agricultura argentina são muito mais baixos do que rendimentos destas culturas nos países desenvolvidos.
     Juan Domingo Perón desafiou os interesses da oligarquia dona de terras na Argentina quando impôs o estatuto do peão e a adoção do salário mínimo rural. Em 1944, a Sociedade Rural afirmava: “Na fixação dos salários é primordial determinar o padrão de vida do peão comum. Suas necessidades materiais são às vezes tão limitadas que valores a mais podem ter destinos socialmente pouco interessantes”. A Sociedade Rural continua falando dos peões como se fossem animais, e a profunda meditação a propósito das escassas necessidades de consumo dos trabalhadores oferece, involuntariamente, uma boa chave para a compreensão das limitações do desenvolvimento industrial argentino: o mercado interno não se estende nem se aprofunda na medida suficiente. A política de desenvolvimento econômico implantada pelo próprio Perón nunca rompeu a estrutura do subdesenvolvimento agropecuário. Em junho de 1952, num discurso que proferiu no Teatro Colón, Perón desmentiu que tivesse a intenção de fazer uma reforma agrária, e a Sociedade Rural comentou, oficialmente: “Foi uma dissertação magistral”.
     Na Bolívia, graças à reforma agrária de 1952, melhorou visivelmente a alimentação em vastas zonas rurais do altiplano, tanto que até foram comprovadas mudanças na estatura dos camponeses. No entanto, o conjunto da população boliviana ainda consome somente uns 60 por cento das proteínas necessárias à dieta mínima e uma quinta parte do cálcio, e nas áreas rurais o deficit é ainda mais agudo do que estas médias. Não se pode dizer, de modo algum, que a reforma tenha fracassado, mas a divisão das terras altas não bastou para impedir que, em nossos dias, a Bolívia gaste a quinta parte de suas divisas para importar alimentos do estrangeiro.
     A reforma agrária que, desde 1969, o governo do Peru pôs em prática, está a mostrar-se como uma experiência de mudança em profundidade. E quanto à expropriação de alguns latifúndios chilenos por parte do governo de Eduardo Frei, é justo reconhecer que abriu caminho para a reforma agrária mais radical anunciada pelo novo presidente, Salvador Allende, enquanto escrevo estas páginas.

continua na página 213...
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[1] FAO. Anuario de la producción. v.19, 1965. 
[2] BALTRA CORTÉS, Alberto. Problemas del subdesarrollo económico latinoamericano. Buenos Aires, 1966.
[3} MAZA ZAVALA, D. F. Explosión demográfica y crecimiento económico. Caracas, 1970.
[4] AROICH, Paul. Diagnostic de l’évolution économique du Tiers Monde 1900 - 1966. Paris, 1967.
[5] FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro, 1965.
[6] A pastagem artificial, do ponto de vista do capitalista pecuário, representa uma migração de capital para um investimento mais pesado, mais arriscado e simultaneamente menos rentável do que o investimento tradicional em pecuária extensiva. Assim, o interesse privado do produtor entra em contradição com o interesse da sociedade em seu conjunto: a qualidade do gado e seus rendimentos só podem ser incrementados, a partir de certo ponto, através do aumento do poder nutritivo do solo. O país necessita que o gado produza mais carne e as ovelhas mais lã, mas os donos da terra ganham mais do que o suficiente, no nível dos rendimentos atuais. As conclusões do Instituto de Economia da Universidade do Uruguai (op. cit.), em certo sentido, são também aplicáveis à Argentina.
[7] CÚNEO, Dardo. Comportamiento y crisis de la classe empresaria. Buenos Aires, 1967.
[8] CEPAL. Estudio económico de América Latina. Santiago de Chile, 1964 y 1966, e El uso de fertilizantes en América Latina. Santiago de Chile, 1966.       
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
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